Schwartsman e o Agnosticismo

Em seu texto “Deuses Alheios” (publicado na Folha de S. Paulo), Hélio Schwartsman endossa a posição de João Pereira Coutinho no que diz respeito à questão da existência de Deus. Grosso modo, a posição de ambos é a de que o agnosticismo é a única posição correta, dada a nossa situação científica/evidencial. Estimulado por considerações feitas pelo meu colega e filósofo Rogel de Oliveira e outros colegas do grupo de estudos em Filosofia da Religião aqui na PUCRS (correio privado), gostaria de manifestar minha concordância com a posição de Hélio Schwartsman (isto é, manifestar concordância com a correção da posição agnóstica) — mas temo que a sua arguição necessite retificação.
Antes de fazer meu ponto, porém, gostaria antes de qualificar as seguintes posições, para evitar bagunça conceitual:

Teístas são sujeitos que julgam que Deus existe;
Ateus são sujeitos que julgam que Deus não existe;
Agnósticos são sujeitos que suspendem o juízo/estão em dúvida sobre se Deus Existe.

Dadas tais definições, a minha consideração é a de que o agnóstico não está necessariamente comprometido com a seguinte idéia: a de que, dado que não há “elementos suficientes para demonstrar com certeza nem que Deus existe nem que não existe”*, a suspensão de juízo sobre a existência de Deus é requerida. Mesmo havendo ausência de demonstração conclusiva sobre a existência de Deus, o agnóstico deve reconhecer que algo menos do que isso poderia bastar para tornar a crença na existência de Deus racional. Boa evidência não é a mesma coisa que evidência conclusiva, mas continua sendo boa evidência. Não queremos voltar aos critérios infalibilistas para justificação.
 
Um agnóstico terá o trabalho de mostrar, antes, que a evidência disponível não torna provável a existência de Deus a um grau suficiente para tornar a crença teísta racional. E é muito mais difícil mostrar que a nossa evidência não dá suporte para a existência de Deus do que mostrar que ela não nos dá certeza absoluta da existência de Deus. Não ter certeza ou prova conclusiva é algo recorrente, quase trivial (por exemplo, não tenho certeza, apenas boa evidência, de que nasci em 1984). Portanto, agnósticos têm um grande trabalho argumentativo a percorrer — tarefa não menos fácil do que aquela requerida ao teísta e ao ateu. Esta foi uma lição do filósofo C. S. Peirce (1839-1914): assim como é preciso ter boas razões para crer, assim também é preciso ter boas razões para duvidar.
 
Assumindo a correção de tais observações, como procederá o agnóstico na sua argumentação? Grosso modo, concebo tal tarefa do seguinte modo. Há argumentos que jogam a balança probabilística a favor da posição do ateu. Por exemplo: dado que Deus por definição teria estados mentais como estados de amor e de vontade, e dado também que ele seria imaterial, temos ampla evidência tornando improvável a existência de Deus: os seres aos quais atribuímos estados mentais são seres que têm uma substância material, física.** E, presumivelmente, há também argumentos que jogam a balança probabilística a favor da posição teísta. O trabalho final do agnóstico será, então, o de mostrar que todas as evidências reunidas não dão suporte para a afirmação de que Deus existe, e nem para a afirmação de que Deus não existe
 
De fato tal estratégia se opõe a de um dos mais influentes teístas do cenário contemporâneo: Richard Swinburne. Swinburne quer mostrar que a evidência empírica total dá suporte para a existência de Deus (compartilho com Swinburne a idéia de que os argumentos pro/contra a existência de Deus são probabilísticos, não dedutivos, mas discordo das suas conclusões). Mas requer-se mais do que a observação de que ele não prova a existência de Deus para mostrar que o agnosticismo é racional. Penso que a estratégia descrita aqui possa funcionar, e tentarei mostrar isso em trabalho futuro.
 
* Citação do texto de Schwartsman
** Alguém poderia pensar que espíritos têm estados mentais, mas nesse caso um novo argumento do mesmo tipo é aduzido contra a existência de espíritos.

3 comentários

  1. Excelente texto! Ao manifestar sua concordância com a posição agnóstica de Hélio Schwartsman, creio que vc logrou mostrar em que sentido um agnosticismo metodológico seria uma das posições mais razoáveis para quem trabalha nessa área de filosofia da religião. Quando insisto em revisitar uma teoria de crenças como a que tem sido elaborada por Pascal Engel, creio que devemos atentar para o problema de falarmos de crenças não apenas num sentido restrito epistemológico, mas em vários sentidos do senso comum, da opinião, dos valores morais, da crença religiosa, das práticas sociais e identidades culturais. Basta ler qualquer texto filosófico para se dar conta do desacordo sobre crenças e suas taxonomias. No seu próprio texto, quando vc disse que, por exemplo, não tinha “certeza, apenas boa evidência,” de ter nascido em 1984 –muitas pessoas (eu inclusive!) poderiam dizer exatamente o contrário, a saber, “creio que posso ter certeza de ter nascido em tal ano à luz das evidências de que disponho” (Declaração de Nascido Vivo expedida pela maternidade ou hospital que realizou o parto, utilizada pelos pais para obter a certidão de nascimento original, testemunhos familiares etc) Decerto, a formação de crenças é algo muito circunstancial. Isso fica claro quando filósofos, esp. epistemólogos, já definem de entrada o que significa cada termo –isso pode ajudar a desenvolver argumentos mais claros, coerentes e precisos, mas dificilmente corresponde ao modo como pessoas de carne e osso mantêm suas crenças. Essa conferência mundial sobre lógica e religão (no próximo ano) vai ser muito interessante porque, ao contrário do que muitos esperam, imagino que não vai modificar quase nada com relação a crenças (algumas mais ou menos absurdas) que as pessoas mantêm como crentes, agnósticos ou ateus! Nada mais interessante do que ver dois lógicos eminentes justificar publicamente crenças opostas com relação a “provas” ou “demonstrações” da existência de Deus ou temas afins –eu vi isso entre o Pat Grim e o Gary Mar em Stony Brook (esses textos podem ser encontrados na internet ou nos “companions”):
    Gary Mar, “Why ‘Cantorian’ Arguments Against the Existence of God Do Not Work,” International Philosophical Quarterly. XXXIII (Dec. 1993), 429-442.
    Pat Grim, “Truth, Omniscience, and Cantorian Arguments: an Exchange,” (with Alvin Plantinga), Philosophical Studies 71 (1993), 267-306.
    Enfim, acho que vc ajudou a esclarecer por que podemos compartilhar com Swinburne “a ideia de que os argumentos pro/contra a existência de Deus são probabilísticos, não dedutivos” mas discordar das suas conclusões.
    Isso me lembrou um texto que eu havia apresentado aqui na PUCRS sobre o agnóstico Habermas que acreditava que o “seu ateísmo metodológico não poderia, todavia, ser confundido com uma profissão de descrença ou crença anti-religiosa: …a posição de um filósofo agnóstico, enquanto investigador da autocompreensão das ciências sociais, deve manter em aberto as diferentes perspectivas de observadores e participantes num fenômeno que é atravessado, do princípio ao fim, pela questão da alteridade do outro.”

    http://www.oocities.org/nythamar/naturalism.html

    1. Nythamar, obrigado pelos comentários e pelas referências.

      Tens razão quanto a vaguidade dos termos que fazem referência a atitudes proposicionais. O termo ‘certeza’ usado por mim no texto é um típico exemplo: por vezes faz referência à qualidade máxima de justificação para uma crença ou juízo, por vezes faz referência ao grau máximo de crença ou convicção (sem necessariamente ter qualquer implicação sobre status epistêmico). No caso, usei no primeiro sentido.

      Concordo com a observação de que corremos um perigo de inadequação empírica no que diz respeito às nossas definições sobre estados doxásticos. É por este motivo que acho não somente salutar, mas também requerido, que estejamos atentos à explosiva área da psicologia comumente chamada ‘psychology of judgment’. No meu trabalho procuro trazer as considerações da psicologia cognitiva para as teorias epistemológicas.

      Quanto a sua previsão de que nada vai mudar, aqui vai uma anedota pessoal que possa lhe dar esperança: eu era ateu, e mudei de posição. Agora sou um suspendedor de juízo. Conheço outros casos de filósofos que mudaram de idéia também. Portanto, não acho que façamos nossas discussões filosóficas somente para re-enfatizar nosso juizo prévio (sou otimista aqui =]).

  2. OK Luís, muito obrigado pelos comentários tão elucidativos! Concordo qto ao fato de que mudamos frequentemente de posições e crenças –talvez eu quis dizer que dificilmente alguém passaria a acreditar em Deus ou em alguma das religiões presentes unicamente por causa de argumentos lógico-semânticos –a meu ver, a socialização, contextos culturais e experiências existenciais pessoais acabam sendo bem mais decisivos para a formação de crenças religiosas –ao menos, essa tem sido minha constatação nessa área de “Religious Studies”, que é tão complexa quanto vasta e difusa.

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