À guisa dos comentários: uma proposta de classificação

Motivado pela discussão gerada em detrimento do post anterior – bem como por um considerável número de emails que me foram enviados (não muito amigáveis) – decidi tentar organizar um conjunto de distinções meta-teóricas sobre estudos acadêmicos na área da filosofia. A tentativa é a de organizar a discussão e conseguir conceituar apropriadamente os tipos de pesquisas que são desenvolvidas na academia. As vantagens de tal tentativa não se limitam à organização conversacional: precisaríamos de tal classificação também para realizar pesquisas sobre os tipos de atividades teóricas que são desenvolvidas em tal âmbito (como foi proposto por um dos comentadores no post mencionado). Além disso, com tal estrutura poderemos abordar com mais precisão algumas das críticas e reclamações que foram feitas – mais precisamente, considerações sobre o valor de estudos exegéticos e da História da Filosofia.

Antes de propor tal estrutura de classificação, no entanto, gostaria de enfatizar alguns pontos sobre a minha intenção no post anterior. Não foi meu intento expressar a opinião de que estudos históricos são inúteis ou indignos de investimento em pesquisa. A história é uma ciência de suma importância para qualquer desenvolvimento científico e/ou filosófico. É por meio de dados e interpretações históricas que passamos a ter conhecimento sobre erros e acertos cometidos no passado, e é também por meio de tais desenvolvimentos que justificamos hipóteses sobre o papel causal de fatores econômicos, culturais e biológicos na constituição do conhecimento humano. Eu nem mesmo penso que a história deixe de ter importância para matérias abstratas como a matemática. Por que o sistema numérico padrão em nossa cultura conta com dez dígitos (números representados pela base dez)? Algo a ver com o fato de que temos dez dedos nas mãos? O que ocasionou o *salto* no conhecimento matemático entre os desenvolvimentos dos egípcios e babilônios e os gregos do século IV a.c.? Etc.: é tolo pensar que a história da matemática nada tenha a dizer sobre a matemática ela mesma. O mesmo deve ser o caso sobre a filosofia.

Meu intento foi, antes, o de expressar uma insatisfação com a predominância de um determinado tipo de pesquisa que, a bem da verdade, não é apropriadamente classificado como história da filosofia (história é uma ciência séria e exigente). Um dos pontos do post anterior – mea culpa por isto não ter ficado claro, e talvez por ter sido obscurecido pelo rampante ofensivo no tom do texto – era o de que tal tipo de estudo já é abundante na academia brasileira. Precisaríamos enfatizar outras maneiras de desenvolver pesquisa acadêmica em filosofia além das pesquisas comuns “em autor”. Dado este breve esclarecimento, gostaria de compartilhar a proposta de classificação de estudos acadêmicos na área da filosofia.

***

Primeiro, façamos uma distinção entre doxografia exegese:

  • Doxografia consiste na interpretação e explicação de textos filosóficos. Tanto a interpretação como a explicação tem suas dificuldades próprias. Uma interpretação consiste numa proposta de esclarecimento sobre o que o autor quis dizer. Para isso, é preciso construir algo como um esquema de pareamento e tradução entre termos utilizados pelo autor e termos utilizados por ambos, o intérprete e a comunidade a qual ele se direciona. Presumivelmente, o intérprete interpreta o texto de um filósofo para alguém (para um determinado grupo, caracterizado tanto pelo seu background teórico como por elementos mais facilmente identificáveis – como a língua natural utilizada pelos seus elementos). A interpretação apresenta um desafio linguístico considerável: a dificuldade aqui é proporcional tanto à distãncia temporal entre o momento histórico do intérprete e o momento histórico do autor como à rede de traduções entre línguas realizadas a partir da obra original (filologia e linguística não são complementos aqui – são ferramentas necessárias). Isso não implica, mas probabiliza, que seja mais fácil interpretar Karl Popper do que Heráclito, por exemplo. Uma explicação, por outro lado, consiste num oferecimento de razões para uma determinada interpretação. Por exemplo, o padrão: “O autor aqui quer dizer que P porque a sua teoria deixa claro que tal e tal tem que ser o caso”, consiste em um padrão de explicação: o fato de que uma determinada interpretação é correta é explicado pelo fato de que o autor tem este e aquele pontos de vista determinados. É aqui que considerações sobre caridade interpretativa (assumir, inicialmente, que as idéias do autor são coerentes entre si, que ele não contradiz a si mesmo, etc) se fazem presente – até o momento em que seja inegável haver um problema no texto do autor. Isso nos leva para a exegese.
  • Exegese pode ser resumidamente caracterizada como doxografia crítica. Na doxografia, o pesquisador pode tomar três atitudes básicas em relação às idéias do autor interpretado: (i) assumir a posição do autor – mas não acriticamente, pois aqui o exegeta precisa ele mesmo oferecer argumentos em favor de tal posição, ou mesmo reconstruir argumentos originalmente oferecidos que não estavam completos e/ou não estavam explicitamente formulados; (ii) contradizer ou negar a posição do autor, mais uma vez oferecendo ou argumentos próprios para a conclusão ou reconstruindo argumentos de críticos anteriores que não estavam completos e/ou não estavam explicitamente formulados; (iii) assumir uma posição neutra, de suspensão de juízo sobre a posição do autor – caso em que convém mostrar que nem os argumentos a favor nem os argumentos contra o argumento do autor são decisivos, o que pode ser mais difícil do que assumir uma das posições anteriores. Fica claro que a doxografia de qualidade é uma condição necessária para a exegese de qualidade. Podemos explicar tal afirmação do seguinte modo: uma vez que a exegese realiza uma avaliação crítica dos argumentos e posições no texto original, esta atividade estaria equivocada se a interpretação do original não é minimamente adequada. Um ponto estimulante surge aqui: mesmo que a interpretação não seja adequada, ainda assim o que se tomou como sendo a posição original do autor é sustentada e/ou refutada por tais e tais argumentos, e esta posição que de um modo pode ser chamada de “má interpretação do original” pode também ser a origem de uma nova teoria, etc.

Até aqui distinguimos doxografiaexegese – agora precisamos distinguir tais tipos de pesquisa de três outros: história da filosofiadiálogo atualcontrução de novos argumentos e teorias.

  • História da filosofia consiste em uma pesquisa por meio da qual se procura determinar: (1) Quais são os padrões e elementos comuns em teorias de uma mesma época; (2) Quais eram as características políticas e culturais do contexto nos quais tais padrões foram forjados; (3) Que elementos socialmente identificáveis foram responsáveis por mudanças bruscas, reformas e revoluções em correntes de pensamento filosófico. Dificilmente se faz história da filosofia “na poltrona” – é preciso que o historiador esteja diretamente em contato com a comunidade de outros historiadores e em busca de evidências para a formulação de suas hipóteses (não me é claro que, também aqui, economia é apenas um complemento ao estudo histórico).
  • Diálogo atual compartilha com a exegese a caracterização das três posições que se pode assumir diante das teses de outro autor – mas agora estamos falando de um autor que “está diante” do seu crítico ou interlocutor. Quando vemos num journal, por exemplo, o Jerry Fodor respondendo a um artigo do Paul Churchland, temos este tipo de atividade intelectual. A atividade interpretativa aqui é minimizada ou apagada pelo fato de que os interlocutores estão no mesmo contexto, usando a mesma linguagem e compreendendo suas asserções aparentemente de modo unívoco (é possível testar a univocidade ao se pedir para os interlocutores definirem um dos conceitos compartilhados).  É claro, o diálogo atual também envolve interpretações, mas a taxa de erro se torna mais improvável porque os interlocutores comunicam-se um com o outro. O Jerry Fodor não tem o Aristóteles diante dele para responder uma de suas perguntas ou críticas (nem o endereço de email do Aristóteles).  O mesmo não se diz sobre o Paul Churchland. Alguém poderia apontar aqui que este tipo de atividade está presente apenas na vida intelectual de filósofos renomados. Mas isto claramente não é o caso: eu não sou um filósofo renomado e posso responder criticamente ao trabalho filosófico de meus colegas da pós, etc.
  • Construção de novos argumentos e teorias consiste na atividade de avançar ou novas teses ou teses já conhecidas mas com argumentos diferentes. Assim como pode-se tentar resolver problemas novos, pode-se também tentar resolver problemas clássicos por meio de novos raciocínios e novos métodos. É duvidoso que a atividade do diálogo atual seja condição necessária para este tipo de atividade, mas certamente temos razões para crer que na maioria dos casos novas teorias e argumentos surgem também como consequência de tal atividade dialógica. Pontos similares se aplicam à utilidade que a doxografia, a exegese e a história da filosofia têm para este tipo de abordagem teórica.

Grosso modo esta é a classificação dos tipos de estudos que pensei ser pertinente. Espero que a proposta possa vir a facilitar o nosso diálogo.

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