Alguns pontos sobre o acadêmico brasileiro de filosofia

De modo geral, o acadêmico brasileiro de filosofia é uma figura intrigante. Dois anos de mestrado são dedicados a uma dissertação “em fulano” (“em Kant”, “em Hegel”, “em Russell”, “em Platão”). Depois, mais quatro anos são dedicados a uma tese – novamente “em fulano” – mas talvez com mais notas de rodapé, mais exegese, mais descrição linha-por-linha da obra do fulano. Ao fim de ambas formações, o aluno completa a admirável façanha de ter se dedicado anos escrevendo uma obra doxográfica que no máximo sete pessoas leram.

É claro que o padrão descrito acima não se aplica a todo acadêmico brasileiro de filosofia. Mas tenho certeza que cada um de nós (estudantes de filosofia) vai reconhecer que o padrão se aplica com determinada generalidade, a ponto de ser isso o que se espera do acadêmico em filosofia. Tente figurar dois alunos da pós-graduação em filosofia se encontrando para conversar. Um pergunta para o outro: “Qual é o teu autor?”. Isto é corriqueiro em nosso meio. Será que tais acadêmicos ainda conseguem pensar criticamente? Têm eles suas próprias questões filosóficas além de considerações como “Gostaria de saber o que o Nietzsche pensa sobre isso”? Têm eles os seus próprios objetivos – os problemas que querem realmente resolver – ou seus objetivos são simplesmente escrever tais dissertações e teses enfadonhas? Conseguiriam eles fazer uma pergunta espontânea, elencar hipóteses, descrever o método de investigação e justificá-lo apontando ambos, suas vantagens teóricas e seus pontos fracos? Estou em dúvida.

Além disso, é comum que os especialistas “em fulano” só consigam se comunicar com outros especialistas no mesmo fulano. A falta de comunicação assola a academia brasileira de filosofia. O aluno aprende um idioleto, domina-o, e não consegue realizar traduções do idioleto para uma linguagem natural comum entre ele e outros falantes. O aluno se vicia no idioleto, se aninha neste ambiente intelectual protegido e cria uma muralha: nada sai, nada entra. Ele vai apresentar sua pesquisa numa semana acadêmica, pega o certificado e volta para sua poltrona. Ele não liga para um colega contando sobre a excitante contradição que descobriu na hipótese que formulara no início da pesquisa, nem recebe do colega a observação de que a contradição pode ser evitada se uma premissa do seu raciocínio for substituída por outra, igualmente útil. Ele não se arrisca a avançar teses ousadas e construir seu próprio argumento, pois pensar fora do que disse o seu autor lhe dói a cabeça, lhe tira o conforto.

Para isso ele recebe mensalmente em torno de dois mil reais da CAPES ou do CNPq. Por vezes, ele ainda acha que recebe pouco. Raramente ele pensa sobre o que está fazendo com o dinheiro que o governo lhe deposita. É claro, o pós-graduando provavelmente vai pensar neste momento que o governo é cheio de ladrões e que aqui nada funciona direito – porque ele deveria pensar no que deve retornar a este governo de meia-tigela? Independente do que o aluno pensa sobre o governo, é este que possibilita a sua maravilhosa jornada de seis anos cujo resultado são dois grossos volumes socados num banco de teses e dissertações sem utilidade. Por que não dedicar todo este tempo e energia para pelo menos tratar de assuntos relevantes à contemporaneidade, para contribuir em outros campos de pesquisa, para se comunicar com outros pesquisadores ao redor do globo na busca de respostas que os possam interessar?

O contato com academias internacionais também gera resultados curiosos. É costume na academia brasileira que haja uma certa romantização sobre ir estudar no exterior. A impressão é de que só lá que as coisas acontecem, só lá se fazem bons filósofos, só lá você vai receber um banho de luz dourada que vai criar uma aura de superioridade. Como resultado, alguns pesquisadores que vão para o exterior voltam com toda a arrogância e falta de humildade, considerando aqueles que apenas ficaram no Brasil como não sabedores do que realmente é bom em filosofia. Eles se sentem muito mais superiores pelo pouco que fizeram do que aqueles que realmente fizeram contribuições significativas para a filosofia, e viciam-se contra aqueles que não puderam ou não quiseram ir para uma instituição no exterior. Com todo este grau de arrogância e esta criação de uma imagem de superioridade, naturalmente, o estudante (ou professor) vai criar uma intolerância à quem lhe contrapor, a quem lhe mostrar que seu argumento está errado – todo seu castelo vai desmoronar se um colega que não esteve onde ele esteve lhe apresentar um ponto crítico.

 (postado duplamente em Investigação Filosófica)

19 comentários

  1. Leonardo Ruivo · · Responder

    Gostei do tom de provocação do texto, embora creia que a conclusão é muito forte: porque não se segue do texto e porque parece mostrar uma generalização bastante apressada. Penso que o melhor lugar para se determinar o estudante médio de Filosofia seja através de uma pesquisa empírica sobre os PPG’s do país. Destarte isso, penso também que pesquisas ’em um autor’ ainda assim possam trazer resultados significativos para a comunidade. Na nossa última semana acadêmica na PUC, p.ex., colegas da UNICAMP que estudam Aristóteles apresentavam como pontos da ontologia aristotélica poderiam servir para resolver vários problemas em ontologia contemporânea em geral. Nesse sentido, ando pensando se é real a divisão da filosofia entre história e temas, pois parece que, no fundo, todos trabalhamos com problemas filosóficos.

  2. Luis Rosa · · Responder

    Leonardo, no texto eu escrevo que “o padrão descrito acima não se aplica a todo acadêmico brasileiro de filosofia”. Está certo que existe uma vagueza na conclusão, onde o termo “idiota” é usado. A intenção do autor neste caso é exatamente a provocação, provavelmente porque ele não está paciente o suficiente para ser argumentativo (nem todo discurso é argumentativo). De todo modo, creio que a pesquisa empírica sobre a qual tu falas não é muito difícil de realizar quando há bancos de dados sobre teses e dissertações, como este da pucrs: http://verum.pucrs.br/ppgfilo
    Estou bastante convicto de que o pesquisador de pós-graduação em filosofia obedece aos padrões descritos acima, no entanto (o mesmo se aplica a países como Itália e China pelo que andei pesquisando). É óbvio que a hipótese é derrotável, uma vez que recebe suporte indutivo. Por fim, concordo com você que pesquisas “em fulano” podem ser frutiferas.

    1. César Meurer · · Responder

      A frase conclusiva me fez lembrar da expressão alemã ‘Fachidiot’. Se ‘idiota’ tiver sido usado nesse sentido, então não é generalização apressada.
      Baita texto!
      César.

  3. Não é óbvio que a hipótese em questão é derrotável porque recebe suporte indutivo apenas! Tem um lema atuando aí, a saber, de que suporte indutivo =/= suporte dedutivo!

    Brincadeira. Ótimo texto, boa discussão. Temas que me são caros. Belo tapa de luva do Leonardo ao acusar a “argumentação” de falaciosa, apesar de, creio eu, ser uma constatação.

  4. Não creio que o problema seja uma generalização apressada (alertada na primeiras frases dos dois primeiros parágrafos – e cuja necessidade de repetição num blog com conteúdo filosófico, sim, pode evidenciar um problema), muito menos a conclusão. Se há algum problema, pode ser ‘esquecer” que em parte a Universidade é feita de contribuições compartimentadas mesmo, apequenadas, singelas, que somadas…Mas o autor provavelmente sabe disso. E isso não serve de desculpa pra falta de diálogo. O idiota acadêmico também tem outra faceta, acredito. Algumas regras de civismo (é, isso existe) e responsabilidade com dinheiro público não se aplicam para pessoas diferenciadas que buscam nada menos que: a salvação da humanidade ou a revelação de verdades últimas (pensam alguns). Como cobrar atitudes prosaicas e humildade de gente que tem uma missão tão nobre e, infelizmente, uma visão também enobrecida de si mesmo?

  5. hahahahah, promoveram o suporte indutivo: todas as conclusões tem probabilidade 1. O que seria da vida sem uma boa trollada não é Giovanni?

    Infelizmente nem sempre o autor de um texto enuncia que tipo de texto é este. Eu definitivamente não quis oferecer argumento, mas entendo o ponto do Leonardo uma vez que algumas afirmações do texto contêm quantificação.

  6. Rafael Bittencourt · · Responder

    Fazer comentário a textos clássicos não é algo simples nem menos complexo que tratar de temas e textos “quentes”. Acredito que há um equívoco quanto a natureza do trabalho dos historiadores da filosofia. Também não me agrada a ideia de que um estudo sobre um texto ou autor clássico não traga resultados dignos de um investimento público nem de apreciação geral. Além do interesse em esclarecer o que foi dito e compreender o desenvolvimento das ideias, pode-se encontrar na história da filosofia muitas das discussões de “vanguarda”, que às vezes se tornam um requentado filosófico.

    Por fim, todos – absolutamente todos – os vícios apontados com relação aos que fazem teses sobre autores podem ser encontrados nos que fazem teses “temáticas”.

    1. Rafael, tanto comentários a textos clássicos quanto argumentações novas podem ser complexas. E também podem ser simples. O que eu gostaria de trazer para a discussão não é o nível de complexidade cognitiva na doxografia e na argumentação original. A questão que me parece relevante é a de que já tem muita gente escrevendo sobre o parágrafo 40 de Ser e Tempo, o prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura e assim por diante, e que talvez este tipo de prática disseminado pela nossa academia pode ser modificado – enfatizar outros modos de fazer pesquisa além da exegese.
      Não estou fazendo uma campanha para acabar com História da Filosofia ou com a exegese – são estes tipos de trabalho que marcam a importância de obras escritas por outros filósofos. Meu ponto é apenas o de que se acumulam muitas teses deste tipo. Você não gostaria de ter uma outra cultura filosófica no nosso país, além da predominante interpretação de textos clássicos? Eu gostaria muito que houvesse este movimento, com mais equilíbrio entre abordagens argumentativas de temas atuais e história da filosofia.

      1. Rafael Bittencourt · ·

        Nesses termos, devo concordar contigo. Porém, entre o que foi dito e o que quis dizer, há uma boa diferença. Acho que houve um excesso de ataques contra o mal-feitio de história da filosofia (ataques que podem muito bem se aplicar a abordagens de temas atuais) do que contra excesso de história da filosofia.

  7. Leonardo Ruivo · · Responder

    Minha intenção foi apresentar duas preocupações. Uma, o risco de que a indução não tenha bom suporte (não vi tcc’s, teses ou dissertações sendo citadas) e que, dado o tom ensaístico, o texto pareça concluir um preconceito. Realmente, não sei quem é o estudante médio de Filosofia. Conheço estudantes de todo o país, de graduação e pós, mas não acho isso suficiente para concluir sobre o comportamento do estudante médio. A outra preocupação é: ainda que concorde com o fato de que pesquisas em história da filosofia apontem para um idioleto, me pergunto se não é um erro interpretá-las como tratando de um problema, e não de um autor. Porque, penso, assim fosse, teríamos um denominador comum entre as pesquisas, o que expulsaria o suposto idioleto. Por último, coloco outra preocupação que não foi apontada no texto mas que é central na discussão: se os problemas são as pesquisas em Filosofia, talvez seja temerário criar uma categoria de acusação sobre os estudantes. Nesse sentido há várias discussões que, infelizmente, a comunidade filosófica tem se furtado. Uma delas diz respeito aos padrões exigidos pelas agências financiadoras e o impacto real disso nas pesquisas. Também poderia citar o problema da ausência de interesse de boa parte dos deptos de filosofia pelas licenciaturas, lugar aonde se mostra, efetivamente, a identidade da disciplina para as pessoas (pois será na educação básica que boa parte dos brasileiros terão contato com a Filosofia).

    1. Leonardo, seria realmente necessário citar teses e dissertações? Cada um de nós sabe o que mais vê na academia brasileira. Você pode ter um conjunto de amigos que não faz exegese, mas a maioria na pós em filosofia o faz. Eu lhe passei o link das dissertações da PUCRS, e não vai ser muito diferente nas outras instituições. (Uma média não exige uma distribuição de valores tal que, por exemplo, 90% dos indivíduos esteja em uma determinada classe). Eu descrevi um padrão e contei com o fato de que o leitor que frequenta este blog iria identificar este padrão no conjunto de informações que lhe é acessível sobre o estudante de pós da academia brasileira. Você parece estar exigindo do autor uma pesquisa acadêmica sobre o assunto, e não é isso o que o autor quis oferecer. O texto se chama “Alguns pontos sobre o acadêmico…”, e não pretende oferecer um levantamento de dados. Talvez, se lhe interessar, possamos fazer uma pesquisa estatística nas bases de dados da CAPES, mas dificilmente ficariamos surpresos com os resultados, penso eu.

      Reitero o que disse ao Rafael: é desejável mais equilíbrio entre abordagens argumentativas de temas atuais e pesquisas em história da filosofia. Peço desculpas aos colegas se possivelmente se sentiram ofendidos – eu realmente exagerei no final.

  8. Gostei do texto. Acredito que algumas generalizações foram cometidas, mas não vejo isso como um problema. Acho interessante a pesquisa histórica em filosofia, mas concordo também que muitos pesquisadores se escondem em suas exegeses, sendo que, se a cultura de pós-graduação fosse outra, talvez teríamos mais debates interessantes e mais elementos a acrescentar nos debates filosóficos.
    Abraço, Luis.

    Diogo

  9. O texto levanta questões importantes, mas me parece focar erradamente no predomínio de estudos históricos e exegéticos na pós-graduação. Todas as observações tem a mesma “validade” ,e independem de tratarmos de estudos exegéticos/históricos ou tratarmos teses/dissertações “temáticas”. Vale lembrar que, mesmo no campo estritamente histórico ou exegético, são raras( para dizer o mínimo) a produção de grandes obras acadêmicas que fazem uma contribuição para a discussão filosófica em nível internacional.
    ).

  10. […] pela discussão gerada em detrimento do post anterior – bem como por um considerável número de emails que me foram enviados (não muito amigáveis) […]

  11. […] últimos dias, recebi muitos compartilhamentos do seguinte texto do blog Distropia: https://distropia.wordpress.com/2013/07/29/alguns-pontos-sobre-o-academico-brasileiro-de-filosofia/ O autor certamente acerta em muitos pontos, no entanto é vítima de uma confusão importante: é […]

  12. Há anos diversas pessoas acusam a academia brasileira de possuir dificiências metodológicas graves. Em geral, o que ocorre é a admissão por parte de professores e estudantes do modelo analítico de pesquisa, onde a tese e os argumentos são claramente formulados, para em seguida criticar estes malditos relativistas. No entanto, me parece que isto não é suficiente.

    A culpa pode ser direcionada tanto a formação obtida pela generalidade dos alunos, onde o estudo histórico de pensadores específicos é destacado; como se pode defender que órgão reguladores da disciplina, possuem autoridades as quais promovem este modelo de pesquisa.

    Penso que a primeira alternativa responde a questão: uma boa parte dos professores obteve essa formação e ensina neste modelo.

  13. Anderson Bogéa · · Responder

    Atos perlocutórios, senhores, atos perlocutórios….rs

    Luís Rosa, acho que você não exagerou no final, no fim, somos todos idiotas.

    O que dizer do não diálogo entre analíticos e hermeneutas e pós-estruturalistas e fenomenólogos?

    O que dizer da casta que depois do período probatório faz o que bem entende, trata alunos como bem quer, e não apresenta a menor disposição para uma orientação ou diálogo?

    Abraços, e belo blog.

  14. Os estudantes de filosofia precisam se policiar para não serem eternos ensimesmados.

  15. Adorei, é isso mesmo! Parabéns, avante!

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