Hey Zumbi Brasileiro! Você ainda tem consciência!

Como todos podem perceber, está havendo uma enorme desconfiança agora sobre a legitimidade, funcionalidade e motivação dos recentes protestos Brasil afora. Alguns estão preocupados com a possibilidade de que o povo na rua esteja sendo massa de manobra de algum plano sinistro, outros  atentam para a distinção entre revolução, rebelião e golpe, e outros agora postam no Facebook: “Anonymous não me representa”. Compartilho com alguns a sensação de que tem algo muito errado no cenário brasileiro – mas a minha preocupação não é exatamente a de que homens de terno sentados em sua poltrona e tomando skotch estejam rindo e festejando ao olhar as noticias, ou a de que uma ‘legião’ esteja agora assumindo um caráter nacionalista demais, quase fascista. É claro, esta também é uma preocupação, mas tenho mais evidência para crer na predominância de outro problema: a irracionalidade das decisões e formações de crença do público em geral. Vou explicar.

A cada nova idéia divulgada em redes sociais, notamos que se segue uma enorme repetição da ideia original. Assim que alguém falou “O gigante acordou”, o troço virou rashtag e passou a ser dito por um enorme número de pessoas. Assim que alguém falou que tinha pessoas infiltradas nas multidões de protesto para causar baderna, grande número de pessoas passou a pensar que causadores de confusão foram contratados para fazer isso. Assim que alguém notou que alguma organização sobre a qual não se esperava apoio a protestos passou a apoiar protestos, muitos começaram a ‘ligar os pontos’, e suas hipóteses começaram a se espalhar como quase-certezas aqui e ali. O meu foco aqui não é com a solidez de tais idéias (como disse-me um amigo meu, ‘Só quem esta lá para saber’. Vou aceitar a ressalva e assumir que não tenho boas razões para crer nem nas hipóteses, nem na negação das hipóteses: suspensão de juízo!). O meu foco é em como tais ideias são facilmente aceitas e, pior, causam algo que podemos chamar ‘Efeito Zumbi’: (1) alguém torna publica uma consideração de interesse publico; (2) Várias pessoas copiam e colam a sentença que expressa a consideração; (3) O que é expresso pela sentença entra no sistema de crenças de tais pessoas sem que elas ponderem sobre se a sentença é verdadeira, sem que elas avaliem a evidência disponível; (4) Tais pessoas passam a agir com base nas crenças recem-adquiridas, espalhando acriticamente a consideração original; (5) O processo recomeça em (1), desta fez com outras pessoas.

A internet pode ser uma boa ferramenta para finalidades democráticas, mas neste caso esta sendo o medium por meio do qual as pessoas entram no Efeito Zumbi. Agora alguém publica um vídeo com um U.F.O no céu durante a manifestação em São Paulo (que pode ser um drone, ou então o vídeo foi filmado com um daqueles apps pro iphone que ‘colocam’ um U.F.O no céu, etc), e as pessoas passam a crer que os ETs estão assistindo as manifestações e compartilham o vídeo usando frases-padrao como ‘Não estamos sozinhos’, dando um efeito mais forte para o Efeito Zumbi acontecer. Agora, eu não estou dizendo que as pessoas devem negar tudo o que ouvem na internet (ou qualquer meio de comunicação). Isso seria equivalente a passar para o outro lado da irracionalidade, gerando talvez um Efeito Zumbi Reverse. Estou dizendo simplesmente que precisamos ponderar sobre algo que foi publicado antes de assumir que seja verdade e sair compartilhando acriticamente, disseminando a mesma atitude. De onde veio a informação? Qual é a probabilidade de que ela seja verdadeira, dada a evidência que lhe é disponível? Eu também gostaria que algumas coisas fossem verdadeiras, e também acho esteticamente agradáveis alguns cenários cinematográficos que passam em minha mente, e também gosto de ficção cientifica. Mas não vou crer em algo somente porque gosto da idéia, nem porque a idéia me suscita imagens românticas, ou porque ‘é o que todo mundo ta falando’.

Eu mesmo considerei algumas de tais hipóteses plausíveis.  Há a possibilidade de que o povo esteja virando nacional-socialista? Sim, há. Mas quais as evidências de que isso esteja acontecendo? O uso de bandeiras do Brasil, grandes massas em Porto Alegre cantando o hino do Rio Grande do Sul? Muitas pessoas podem estar no protesto porque querem se sentir vivas, fazendo algo. Se elas não tem outra bandeira para defender, é natural que usem a bandeira de seu país. E é de se esperar que em um protesto as pessoas cantem algo juntas (o que cria a unidade entre os manifestantes), e se todas elas sabem um mesmo hino é bem mais provável que elas cantem este hino juntas do que leiam O Capital em voz alta juntas. As pessoas em um protesto estão emocionadas, adrenalizadas – o que elas puderem gritar juntas as levará a gritar juntas. Mais uma vez, não estou dizendo que este tipo de reflexão deve levar a conclusão de que não haja qualquer coisa nacional-socialista acontecendo. Estou apenas dizendo que precisamos levar em conta tais ponderações ao invés de deixar a idéia entrar no nosso sistema de crenças sem passar pelo crivo da reflexão.

Bem, esta é a contribuição que humildemente penso poder dar neste momento tenso.

5 comentários

  1. Legal, Luis. É patente que efeitos de movimentos de massa tendem logo a ser interpretados a partir de teorias da conspiração ou de ideologias específicas. E tb acho bem mais plausível procurar entendê-los a partir de um “social space of reasons”, de crenças compartilhadas e que provocam um alto teor emotivo e de identificação, como no caso de cantar o hino nacional (ontem, no protesto no Recife, 80% do que ouvi foi o hino ou “eu sou brasileiro, com mt orgulho, com mt amor”, e tenho certeza que quase ninguém ali cantava aquilo apoiado em ideologias). Mas isso não deixa de ser igualmente preocupante, só que não por serem pretensamente mobilizados por conspiradores ou fascistas que querem dar um golpe e coisas do tipo, mas pelo próprio efeito de determinados conjunto de crenças e emoções compartilhadas.

    1. Luis Rosa · · Responder

      Pois é, eu notei bastante similaridade (pelo que pude ver nos videos) entre o comportamento de alguns manifestantes e o comportamento de torcidas de futebol. Talvez esteja contribuindo fortemente para a unidade na massa de manifestantes a necessidade de extravasar sentimentos. Deve haver algo neste sentido pelo menos no modo como a pratica da manifestação se espalhou. Sempre houve manifestações no Brasil – porque agora as manifestações ganharam tal dimensão? O que aconteceu desta vez que não aconteceu nas outras situações de manifestação? Uma coisa sobre o social space of reasons esta no comportamento do consumidor: tem estudos mostrando que algumas pessoas passam a consumir determinado produto depois de passar a saber que alguem que elas gostam (ou admiram) consome o produto.
      Uma hipotese a ser levada em conta no sentido do social space of reasons é o fato de que logo nas primeiras manifestações houve videos denunciando violencia policial. Poderia a compaixao com as pessoas agredidas pela policia no primeiro momento motivar fortemente as manifestações ulteriores?

  2. Leonardo Ruivo · · Responder

    Massa o post, Luis. O fato é que encontrar alguma evidência boa está bastante difícil em Porto Alegre. O movimento está extremamente grande e difuso, o que faz com que diferentes pessoas tirem conclusões completamente diferentes de um mesmo evento. (p.ex., foi violento, não foi violento, quem atacou primeiro, etc). Além disso há, de fato, tentativas de cooptação (e não de explicação) do fenômeno por parte dos “agenciadores políticos” – o que dificulta ainda mais qualquer afirmação conclusiva. Sinceramente, tenho me perguntado muito o que representa a polícia nesse momento. O que ocorreria se não houvesse contingente policial, (ou até mesmo, se não houvessem policiais) barrando os espaços dos manifestantes? Quebradeira geral? Gritos de ordem sem atitudes violentas? Não sei. O fato é que, a cada bomba de gás lançada, torna-se mais um motivo para a quebradeira. Certamente, sobre o comportamento do “consumidor” brasileiro: ele está extravasando do modo mais patente sua insatisfação. Com o quê exatamente? Talvez ninguém atualmente tenha consciência disso.

    1. Luis Rosa · · Responder

      Sim, parece que a evidência está difusa de fato. Nessas horas que é preciso bom jornalismo – aquelas pessoas que não notificam somente o que aparece, mas procuram fundo pela origem causal do acontecimento (talvez seja correto chamar tal jornalista de ‘jornalista-historiador’). Há algum meio jornalistico no qual vocês tem algum grau significativo de confiança? Ou um meio onde jornalistas de fato investigam os casos e tornam publico o que desvelaram?

  3. Leonardo Ruivo · · Responder

    Nao. O melhor lugar para se apelar e a evidencia empirica ou relato de pessoas confiaveis (no caso de porto alegre). No caso do brasil, eu curto alguns artigos da carta capital e o matheus pichonelli no facebook. Na radio, o programa do juremir tem tido como pauta chamar pessoas ligadas de alguma forma ao movimento, o que da margem para compreender algumas pautas do ‘movimento’. A folha de sao paulo esta marcada por fazer um explicito jornalismo viciado, assim como a zero hora (diga-se, a globo, ontem, deixounde passar algumas novelas e mandou os artistas para as passeatas). Espero que, quando tu voltar, as coisas nao estejam piores. Alem disso, em alguns minutos, a dilma fara o pronunciamento mais esperado do brasil.

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