Nossos conceitos morais e políticos são históricos? A proposta de Bernard Williams

Em sua última coletânea de artigos, publicada postumamente (Philosophy as a humanistic discipline), Bernard Williams tem um artigo com uma proposta sobre como deveríamos entender uma parte específica da filosofia. O objetivo do artigo, dito de maneira mais específica, é refletir sobre a seguinte questão: “que modelos ou ideais ou analogias nós deveríamos olhar ao pensarmos sobre os modos nos quais a filosofia deveria ser feita?” Para ele, a filosofia [1] deve evitar a adesão ao cientificismo; e, pelo menos na filosofia moral e política, [2] deve dar privilégio a estudos históricos à análise conceitual. Esta é, de maneira bastante simples, a imagem de uma parte da filosofia que, como disciplina humanística, procura investigar a o modo como nós nos compreendemos e damos sentido a nossa vida e a nossas atividades.

Bom, para ir falando de uma vez, “cientificismo”, para o Williams, é um tipo de “má-compreensão das relações entre a filosofia e as ciências naturais, que tende a assimilar a filosofia às metas, ou, ao menos, aos modos, das ciências”. Ainda que alguns trabalhos exijam a convergência dessa relação, tendo em vista a natureza do próprio tema (como matemática, computação, lógica, etc.), na grande parte das vezes, a filosofia torna-se, ao se aliar à ciência, apenas “discurso de botequim” (falando sem piedade) ou considerações programáticas descuidadas (“slap-dash programmatic remarks”), feito do mesmo modo que o cientista em palestras mais soltas e sem compromisso. Porém,  o discurso filosófico parece ser bem menos interessante, porque ele passa a ser identificado com tais considerações, ao passo que o cientista toma a liberdade de falar desse modo ao sair do rigor dos procedimentos experimentais de seu laboratório (ou seja, o cientista sai de férias de seu discurso científico ao passo que o filósofo está de férias permanentemente). Por outro lado, diz Williams, o modo como muitos filósofos analíticos passaram a postular ou a procurar uma precisão conceitual contínua não passa, também, de uma imitação (mimicry) dos procedimentos científicos. Assim, tais filósofos se auto-enganariam em pensar que tal rigidez  é equivalente a um “protocolo bioquímico”, talvez, na tentativa de “elevar” o estatuto do seu discurso ao nível da autoridade intelectual da ciência – o que é particularmente desastroso no campo ético, moral e político.

Contudo, o Williams tem outra explicação mais interessante sobre essa “tentação” do cientificismo. Segundo ele, a ciência tem a possibilidade de realizar uma explicação vindicativa de sua história, isto é, de poder dizer, entre diversos cientistas, que a transição de uma teoria y avançou em relação a uma teoria x. Já a filosofia e, notadamente, a filosofia ética e política, não parece ter essa mesma opção. O argumento do Williams é mais ou menos o seguinte: quando nós nos perguntamos sobre determinados conceitos que utilizamos hoje em dia, como direitos humanos, igualdade, liberdade, etc., nós podemos nos situar em uma dimensão argumentativa, tentando elaborar justificativas para aderir a tais conceitos e para rejeitar conceitos contrários, como hierarquia, autoritarismo, escravidão, etc. Na mesma medida, se nos reportarmos, agora, para a história, ou melhor, para a “estória da história de tais conceitos” (por que aderimos a tais conceitos e argumentos?), nós percebemos que as formas de argumento também são uma parte central da perspectiva adotada – por exemplo, da visão liberal, monárquica, etc. Portanto, a investigação conceitual é aliada à investigação histórica (“[P]hilosophers cannot altogether ignore history if they are going to understand our ethical concepts at all”). Mas, e aqui entra o ponto de Williams, se tentarmos ver como a visão liberal prevaleceu em relação ao regime monárquico em determinada sociedade, por exemplo, nós não vamos encontrar uma situação na qual os representantes do último compartilharam das ideias liberais e, com isso, perceberam que estavam errados. Ou seja, não há explicação vindicativa na filosofia; no máximo, o que temos aqui são crises de convicção ou de legitimidade.

Isso se deve, para voltar ao problema do cientificismo, porque os conceitos utilizados pelas ciências naturais  são “minimamente dependentes” do nosso próprio modo de apreender o mundo (e das perspectivas particulares de cada cientista); já os conceitos utilizados para dar sentido a nossas vidas e atividades (e as disposições e motivações para os utilizar) são contingentes e enraizados cultural e historicamente. E se este é o caso, nós podemos nos livrar de outro tipo de “ilusão cientificista”: a busca por um sistema de ideias ético e político desde um ponto de vista absoluto (i.é, que não leve em conta nossas disposições e motivações contingentes):

A filosofia tem que aprender a lição de que descrição conceitual (ou, mais especificamente, análise) não é auto-suficiente; e que tais projetos, enquanto derivados de nossos conceitos a priori a partir de condições universais da vida vida, ainda que tenham, de fato, um lugar (um lugar maior em algumas áreas da filosofia do que outras) são propensos a deixar inexplicados muitos fenômenos que provocam a investigação filosófica.

Com isso, Williams descreve, digamos assim, três atividades importantes dessa parte da filosofia:

primeiro, a atividade de primeira-ordem, que é agir e argumentar dentro do quadro de nossas ideias; segundo, a atividade filosófica de refletir sobre tais ideais em um nível mais geral e tentar dar sentido a elas; terceiro, a atividade histórica de compreender de onde elas vieram.

Como consequência desse tipo de abordagem, Williams acredita que é impossível darmos um sentido completo (e inteiramente coerente) de nossas perspectivas, que poderiam ser modificadas, não obstante, com o confronto e debate com perspectivas rivais e diferentes ou com a investigação histórica de nosso passado. E, pior ainda, Williams afirma que nós não podemos ultrapassar nossas perspectivas em direção ao futuro e nos identificarmos com tal imagem. O marxismo, por exemplo, tentou fazer isso e acabou em uma utopia estática; muitos liberais vão na mesma direção, tentando encontrar uma concepção teórica atemporal. Isso bem poderia ser algo interessante do ponto de vista empírico, mas, conclui o autor, não o é para o ponto de vista ético – ou seja, isso se tornaria, novamente, “discurso de botequim”. 

Sem querer entrar em problemas mais complicados ainda, gostaria de finalizar dizendo que esse tipo de investigação histórico-filosófica, (para se dizer de maneira composta e, como o Fabrício diz, “pomposa”), parece fugir tanto de um cientificismo quanto de um intuicionismo moral e político. O que parece deixar Williams cético com relação a tais tipos de pesquisas é, particularmente, o uso desse “nós” ou “nossa perspectiva” – se eu o compreendi bem. Afinal, o que isso quer dizer? Um grupo de filósofos? Qualquer criatura que consiga agir e argumentar moral e politicamente? Qualquer ser humano? Certamente, sem as muletas teóricas das outras áreas, o filósofo teria que se contentar com um discurso bem menos abrangente (um “nós local”), que conseguisse articular o sentido de determinada perspectiva e mostrasse qual sua relação com outras.

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