Algoritmos e a filosofia

Você já deve ter ouvido falar de algoritmos. Em linhas gerais, um algoritmo é um tipo de processo com um conjunto preciso e finito de instruções para calcular um resultado, resolver um problema ou decidir se determinado tipo de dado tem um determinado tipo de propriedade. Ou seja, um algoritmo devolve um determinado output dado um determinado input, de acordo com determinados objetivos.

Por exemplo, suponha que queiramos saber se um determinado número é primo ou não. Assim, teremos como input um determinado número n, e tal input pode vir tanto de um agente humano como de um processo automático prévio. Assim, dado que um determinado número n é inserido como input, um algoritmo pode decidir se tal número é primo ou não. O algoritmo determinaria então se n é divisível por algum outro número além de 1 e o próprio n; se sim, então o algoritmo determinará que n não é primo; se não, o algoritmo determinará que n é primo.

Ainda, podemos elaborar algoritmos para determinar qual é o(a) autor(a) mais lido(a) do Distropia, para dizer se determinada série de símbolos é sintaticamente correta segundo as regras da língua inglesa, se um argumento é válido, etc. A maquinaria simbólica que participa de um algoritmo pode parecer chata e complicada. Alguns algoritmos são simples, outros nem tanto – e alguns nos parecem mais relevantes do que outros. Mas o que quero fazer notar é o seguinte: que qualquer processo cognitivo que envolve juízos, ou crenças, exemplifica um determinado algoritmo. Quando você crê, por exemplo, que está diante do computador, você exemplifica um algoritmo que tem como input os dados sensoriais que lhe causaram tal crença e possivelmente outras informações de fundo que você tem. Em outro exemplo, quando você acha que isso que estou escrevendo é duvidoso, você está exemplificando um algoritmo que tem também como input os dados presentes neste texto, unido a outras crenças que você tem, e como output uma dúvida sua sobre se a idéia defendida acima é verdadeira ou não. Até mesmo juízos de gosto exemplificam algoritmos: eu achar que cappuccino é bom tem como input os dados gustativos que são inseridos no meu sistema quando tomo tal tipo de café; se a experiência me é agradável, julgo que o cappuccino é bom, se a experiência me é desagradável, julgo que o cappuccino é ruim.

Porém, pelo menos três observações são importantes aqui. A primeira, que talvez seja relevante aos filósofos, é a de que nem todos algoritmos dos tipos referidos acima são corretos, ou optimais, em relação a um determinado fim que julguemos importante (worth pursuing). A segunda é a de que mesmo que não consigamos determinar com exatidão qual é o algoritmo que é exemplificado em um determinado processo cognitivo não se segue que não há um algoritmo sendo exemplificado pelo processo em questão. A terceira é a de que exemplificar um algoritmo não implica estar consciente de que se exemplifica tal algoritmo.

Bem, queria então observar que, a despeito de tais dificuldades, pensar em uma ‘filosofia algorítmica’  que concebe argumentos como resultados de processos algorítmicos é uma idéia frutífera. A filosofia é construção de argumentos – o argumento é a mais importante ‘ferramenta’ disponível ao filósofo. Conhecer o tipo de algoritmo que gera a conclusão de um argumento filosófico não seria relevante para tratar das questões filosóficas? Estou desenvolvendo a idéia, e tenho dialogado com outr@s filósof@s sobre tal proposta no problema do método em filosofia, o qual tem gerado tanta discussão e desacordo na contemporaneidade.

4 comentários

  1. Excellent post, Louis! Deixa eu te lançar uma pergunta suscitada por Rawls: o imperativo categórico pode, afinal, ser tomado como um algoritmo? o que diferencia um algoritmo de um dispositivo procedimental de processos decisórios de ação racional ?

    1. nythamar, preciso ver como é o imperativo categórico, sua natureza e forma. mas a princípio, qualquer tipo de norma pode ser operada de maneira algoritmica.

      1. desculpe, mas tenho que discordar, veementemente… impossível, em que pese o amor ao kelsen

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: