Ofensa, indignação e bandeiras em fogo

Hoje é vinte de setembro, e é feriado no Rio Grande do Sul. Eu fico imaginando qual seria a reação do público diante de um filme chamado “A coxilha dos Viadeiros” celebrando uma linda história de amor ambientada no tempo da revolução entre dois vaqueiros, um ximango, o outro maragato,  na região do Alto Rio Uruguai.

Vamos imaginar esse filme sendo produzido, financiado e estrelado por paulistas com um terrível sotaque gaudério. Vamos imaginar, também, que o filme em questão conta inclusive com uma ponta de um Garibaldi e um Bento Gonçalvez ficcionais, ambos terrivelmente afeminados.

Qual seria a reação geral?

A gente sabe qual é a reação dos CTGs, claro. Os CTG entrariam em surto psicótico, tentariam implorar pela censura do filme, falariam horrores sobre a situação. Mas, a questão é, a embaixada do Rio Grande do Sul em Brasília por o acaso organizaria um protesto em frente do Palácio da Alvorada?

Empresas paulistas sofreriam ataques?

O que torna a indignação (hipotética) dos gaúchos mais alterados diferente da indignação (real) de alguns Muçulmanos diantes de um filme que ofende o profeta?

Evidentemente, o tradicionalismo gaúcho tem menos simpatizantes que o extremismo islâmico. E menos armas.

Ele também está incluido em um contexto no qual os elementos de uma guerra civil (que existem, é claro) não incluem mísseis, homens bomba e estados totalitários.

A indignação que a gente está vendo hoje, passando por todos os países onde a “primavera árabe”, celebrada por tantos filósofos arroz-de-festa, é um evento calculado, planejado e orquestrado. Ele já estava engatilhado, esperando uma oportunidade para acontecer. Acreditar na espontaneidade de protestos envolvendo milhares de pessoas, algumas delas armadas até os dentes, é acreditar na existência de coelho da páscoa, papai noel, Jesus, Moisés ou Maomé.

Claro, o que ouvimos dos relações públicas externas dos movimentos islâmicos, em inglês, são movimentos pacíficos de “protesto”. O que acontece no mundo real, no entanto, não parece reproduzir esse pedido de paz. Até porque, mesmo no pedido de paz o discurso é inflamatório. Afinal, a acusação é de ofensa ao profeta maior, de desrespeito às tradições máximas da cultura islâmica. Basicamente: pode xingar de filho da puta (até porque, quem se importa com mulheres?), mas não xinga Maomé.

Ontem o Salman Rushdie deu uma entrevista interessante para o Jon Stewart. Um dos pontos mais centrais do breve bate-papo, me parece, é ressaltar o que ja mencionei de passagem ali em cima: estes países têm controle institucional de toda a informação que rola na internet. O que o público em geral assiste é o que as cabeças do regime liberam para o público. Para esse pessoal, a ideia de que alguém pode colocar vídeos na internet sem aprovação de um governo é inconcebível. A rede “livre” é uma piada.

Então, o vídeo de um imbecil qualquer que organiza um bando de babaca para fazer um vídeo chamado “A Inocência dos Muçulmanos”, na mesma linha do meu “A coxilha dos viadeiros” ali de cima, é interpretado como um imbecil financiado pelo governo norte-americano, e o filme é interpretado como uma posição oficial do regime norte-americano com relação ao Islã.

Seria, certamente, pedir demais aos Árabes qualquer tipo de ato de bondade ou caridade com relação aos Estados Unidos. Eu também acho que teria certos preconceitos contra os Estados Unidos ao observar que quem tava colocando armas na mão dos cretinos que estavam matando meus pais, tios e primos agora me pede para ter tolerância.

No entanto, a equivalência moral aqui toma contornos masoquistas e suicidas.

A questão histórica aqui está sendo colocada como um meio de equiparação moral e também de justificação para abusos morais correntes contra a própria população (especialmente mulheres, claro) no Oriente Médio. Mais que isso, agora os governos precisam pedir desculpas pelo exercício de liberdades individuais no Estados Unidos, na França, na Dinamarca e em tantos outros lugares, por medo que uma horda de indignados resolva fazer chover coquetel molotov em uma embaixada.

Por exemplo, eu não teria qualquer medo de começar o fogo do meu churrasco semanal usando as páginas da Bíblia ou da Torá. Isso que eu tenho vizinhos cristãos e judeus. Mas eu teria um medo fenomenal de fazer o mesmo com o Corão. O principal motivo para isso, primeiro, é o medo de linchamento moral. O segundo, é de linchamento físico mesmo.

A verdade é que nossos governos estão traindo os princípios básicos que nos tornam melhores que os regimes totalitários do Oriente Médio. Liberdade de expressão não é apenas uma concessão, um detalhe na nossa teia institucional, ela é, isso sim, o principal princípio de exercício democrático. Se negociamos isso, se pedimos desculpa por isso, devemos também pedir desculpa pela democracia constitucional.

Mas o medo é um motor forte: os Estados Unidos e a França têm medo de perder mais diplomatas, de terem as populações islâmicas locais se manifestando de forma violenta.  Eles têm medo de levar o terror que já faz parte da rotina no Oriente Médio para a porta da casa do John Smith em Chicago, Illinois.

É um pouco deprimente ver o quanto a gente está disposto a sacrificar em nome de um perigo hipotético. O medo de um novo ataque terrorista nos Estados Unidos foi justificativa para a perda do direito de Habeas Corpus, revisão de provisões sobre tortura, tratamento de prisioneiros, e introdução de uma série de violações civis bastante discutíveis para uma democracia constitucional.

De tudo que vi até agora, parece que a declaração da Hillary é a chave:

Clinton says the U.S. would never stop Americans from expressing their views, no matter how distasteful. And she says the film is no justification for violence or attacks on U.S. diplomatic facilities and personnel.

Creio que é essa a questão que precisamos insistir, até para demonstrar a vantagem de um regime democrático. Em regimes democráticos as pessoas podem falar besteira, podem ser estúpidas, podem ter opiniões racistas e estapafúrdias. E podem também fazer vídeos sobre isso e colocá-los na internet.

No entanto, acho que ainda cabe uma pergunta importante. Quantas armas americanas estão sendo usadas para matar americanos no Oriente Médio? Não faz muito tempo, os Estados Unidos estavam ajudando a armar a insurgência Síria. A diplomacia americana parece que não aprende. Ou, talvez, esse seja uma parte do jogo lucrativa demais para ser deixada de lado. A questão é se certificar que as guerras continuem pequenas.

28 comentários

  1. Tatiana Vargas Maia · · Responder

    “embaixada do Rio Grande do Sul em Brasília”

    RISOS.

    RISOS HISTÉRICOS.

  2. José Francisco Botelho · · Responder

    Só um comentário: chimangos e maragatos eram os opositores nas revoluções da década de 1920; na de 1893, maragatos e pica-paus; na de 1835, farrapos e caramurus. De resto, concordo com tudo no texto (eu já tinha pensado antes em uma versão gaudéria de Brokeback Mountain: “A coxilha da paleta quebrada”).

    1. Eu sei, roubei de ti a versão gaudéria. Mas substituí por viadeiros. A tua idéia era melhor, Chico.

  3. Cool! A embaixada do RGS em BSB teria pelego no divã? Mas, li o Amartya Sen e sua idéia de Liberdade recentemente e algo sobre democracias orientais, tá ligado sobre algo no sentido?

  4. Fabulous Fabs! Tua análise é muito precisa e perspicaz. Qto ao último parágrafo, opto pela alternativa 2: “talvez, esse seja uma parte do jogo lucrativa demais para ser deixada de lado”. O guru do poderoso complexo militar americano, Paul Wolfowitz, esteve no GPS (programa do Fareed Zakaria, na minha opinião, um dos melhores do planeta) do domingo passado e deu um banho de realismo político hobbesiano no Bernard-Henri Lévy, no mesmo programa da CNN, aliás, em que entrevistou o Rushdie: http://globalpublicsquare.blogs.cnn.com/
    O mundo, como sempre, continua nas mãos dos ricos e poderosos –os filósofos e intelectuais de plantão só assistem e especulam de longe sobre a paz e a justiça, sem tangenciar o “mundo real” dos falcões, war lords e bilionários…

  5. parfait, man. (gostei do meme “Bob Marley falando francês”). uns pitacos: esses países não somente “assistem só o que o regime quer”, eles são indoutrinados desde que nascem (e aí a mesquita tem um papel fundamental; é só olhar o padrão de ataques e assassinatos que ocorrem depois da oração de sexta-feira…). e o que rola direto nesses países (e, alas, nas mesquitas espalhadas ao redor do globo, e pelas vocalizações dos Chaudri da vida…)? a mais pura retórica genocida, de eliminação dos JUDEUS (e não só de Israel), de pan-domínio global (pelo terror – a espada – e quaisquer outros meios). enfín Serafín; é um pan-movimento, de caráter totalitário (como o Islam SEMPRE foi), que se assenta em 1,5 bilhão de pessoas (e adora dizer isso). e por isso o terror já está na casa do John Smith em Chicago, em Malmo, em London, em Madrid – como possibilidade. eles são “todos Osama”: como foi concretizado à perfeição em muitos países árabes (e em Israel), qualquer um pode ser ao mesmo tempo vítima e carrasco (a preparação totalitária fundamental – Arendt). qualquer um que se pareça com um palestino coitadinho (vítima), incluindo crianças, pode se explodir assassinando dezenas (carrasco). viver nesse estado, nessa mentalidade, é o objetivo maior. quanto à tua última questão, acho que não entendeste. o sistema funciona à base de guerras, e desde seu início. a “diplomacia americana” sempre funcionou assim. esse inimigo, da mesma maneira que o nazismo, é simplesmente a sombra aterradora de nosso próprio sistema; é seu telos totalizante mostrando sua cara realmente totalitária, é a falência ética do Ocidente (que os armou e os fez prosperar) revelando um aspecto demoníaco. esse é o inimigo. que a academia, D’us nos proteja, protege, acolhe e elogia (Butler eulogizing Hamas e Hizbullah como “global left”, junto com a demonização de Israel – e Israel, não sejamos idiotas, sempre representa JUDEUS nesse contexto global, mesmo que ela seja idiota e cega o suficiente pra não perceber).

    enfim, o que te escrevi há uns dois anos está ficando cada vez mais claro, não? :) c’est la vie, man, and pass me that joint.

  6. Bom post, Fabs, apesar de eu discordar de alguns pontos. Primeiro, eu tendo a seguir o argumento já meio batido de que liberdade para se expressar não quer dizer liberdade para ofender. Tanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, quanto a própria Hillary, seguiram mais ou menos por aí. Esse filme tosco teve um claro propósito de ofender e provocar ódio. Acho que a liberdade de expressão não te permite xingar muçulmanos, cristãos, negros ou gays. E entendo que isso está na base da democracia liberal: conjugar liberdade de expressão com a liberdade de cada um seguir o seu modo de vida, de crenças, opções sexuais, etc.. do modo que preferir (e não pode ser a liberdade do outro de me xingar que coíba ou me ofenda no modo de vida que eu quiser escolher). Bem, eu tb acho que, pegando o teu exemplo, haveria sim gaúchos que iriam ficar mt putos e xingariam os paulistas em geral, mesmo sendo claro que o filme tinha sido produzido por um grupo específico, e não pelo estado de São Paulo, etc…. Nessas horas, paixões são muito mais fortes do que racionalidade e não adianta querer esperar muito de argumentos bem encaixadinhos. Enfim, como disso o próprio Rushdie, a forma mais efetiva e real de se vencer o radicalismo islâmico não vem de fora, a partir de posturas ofensivas desse tipo (as consequências parecem ser claras), mas sim de dentro, a partir de uma postura mais ativa de islâmicos moderados. E ninguém melhor do que ele (que, depois de uma fatwa proferida pelo queridinho do Foucault, o Kohmeini, tem a cabeça procurada por um monte de islâmicos radicais) sabe o quanto esse processo é lento e complicado.

    1. Filipe, acho que dá pra te responder em uma frase: esse processo não é “lento e complicado” – ele não existe.

    2. “Acho que a liberdade de expressão não te permite xingar muçulmanos, cristãos, negros ou gays”
      Eu acho que permite.

      E por isso acho que esse papo de politicamente correto é uma abominação moralista. Por sinal, acho ótimo, que daí os babacas falam o que pensam e eu posso simplesmente evitar os imbecis.

      Ao contrário do Marlon, no entanto, eu acho que existe uma parte da população, particularmente em países como o Irã, Egito e Turquia (que, claro, não são exatamente Árabes), que participa de um esforço de secularização ou mesmo de moderação. Mas, é foda, já que cada vez que alguma força moderada parece tomar mais relevancia, os Estados Unidos aparecem com um esquadrao de bombas e detonam tudo.

      O Marlon trouxe o argumento da indoutrinação. Eu entendo. Mas eu quero focar na questão do ambiente explosivo. Os Tea-Parties tambem sao agressivos, bem armados e mortais. Eles também são indocrinados dentro da igreja, por pastores que acreditam na superioridade moral do Cristianismo e da necessidade, do imperativo, da conversão. A diferença é que a casa deles nunca foi (e provavelmente nunca será) atingida por um míssel de um avião Saudita.

      Outro fator interessante aí é que ainda que diplomatas e soldados ocidentais (americanos, principalmente) sejam mortos nessas operações, o extremismo mata, principalmente, muçulmanos.

      Claro, existem ataques eventuais (ainda) na Europa e nos Estados Unidos, mas comparados com o dia-a-dia de ataques no oriente médio, os números são patéticos.

      O Filipe tá com um tema insistente de discussão comigo que é a questão dos “argumentos bem encaixadinhos”. Ok, ok. Eu concedo isso. Mas e daí? Quero dizer, desistimos? Eu acho que temos a obrigação de ter a coragem das nossas convicções. O problema de deixar as nossas convicções de lado é que o outro lado nunca tem medo de ocupar o espaço que a gente deveria estar ocupando. Isso é uma receita para o que a gente está vendo na vida real: a coisa vira uma briga de faca entre extremismos diferentes. Enquanto boa parte da população, que não tem tempo nem paciencia para esse tipo de coisa fica olhando de longe – e morrendo no processo.

      O Nita e o Marlon falaram, de formas diferentes, da questão militar. É verdade que guerra é um motor econômico sensacional – perguntem para a Taurus. Também é verdade que o grande trabalho dos serviços de inteligencia é manter as guerras, em um certo sentido, “pequenas”. Isso geralmente quer dizer “longe do quintal do John Smith”. Daí o esforço de contenção que tanto China, Estados Unidos e Russia fazem. É um esforço de armar populações o suficiente para que elas se matem mutuamente, mas não consigam desenvolver armamentos para tornarem-se uma ameaça real para a soberania das grandes potencias.

      Nos países que importam, diplomacia é só isso.

      “ah, mas já está no jardim do John Smith, do Asterix e do Chucrute”. Bom, eventualmente. Mas não na mesma medida. E ainda é no modelo de assimetria.

      Acho que a chave do Marlon é interessante. “Somos todos Osama”. Bem, a gente certamente vem equipado de fábrica com os elementos para sermos Osamas. Não é privilégio de um grupo social ou religioso a tendencia ao extremismo ou a sair por aí matando gente. A Al-Qaeda queria muito matar tantos americanos quanto as gangs de Chicago e Newark matam todo o ano, por exemplo. Somos todos Stinger-Bell e Omar is gonna get ya (quem entendeu, entendeu).

      Bom, seguimos a conversa :)

      1. Fabs, um dos problemas que eu tentava apontar é que se hj tu xinga um negro facilmente tu é processado, ou, para pegar outros exemplos mais complicados, países onde negar o holocausto é proibido por lei. Mas eu tb sou completamente contra esse discurso hipócrita de um moralismo barato, como o que estamos vendo no Brasil, a ponto de quererem proibir Monteiro Lobato por racismo. O grande perigo disso tudo é que as pessoas podem continuar pensando do mesmo jeito, com a diferença que não são mais livres pra expressar o que pensam – e vejo que há exemplos aqui na Alemanha onde isso se transforma num rancor reprimido travestido de tolerância (ou menosprezo, o que é difícil de perceber a diferença). Enfim, pra dizer que concordo ctg que um discurso hipócrita e moralista é o pior possível. Outra coisa: em relação aos “argumentos encaixadinhos” não me referia a esse tipo de reflexão que vc propõe e que estamos discutindo, mas, antes, ao limite da racionalidade nos envolvidos por uma ofensa e que reagem com um pathos completamente irracional. Pelo contrário, acho que esse debate é fundamental e é importante que ocorra inclusive entre os islâmicos, como disse o Rushdie ou o escritor Malise Ruthven aqui: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/09/120920_analise_crise_filme_anti_isla.shtml

  7. muito bom, agora fiquei curiosa por uma versão gaudéria de Brokeback Mountain, rsrsrs

    1. Já tenho até idéia para o ator do papel principal :P

  8. José Francisco Botelho · · Responder

    Eu só acho, também, que se tu queimasse uma TORÁ também serias pego por alguma patrulha. Iam te chamar de antissemita e dizer que tu quer exterminar todos os judeus do universo com requintes de crueldade. Além de “destruir Israel”, claro.

  9. cara, eu só desejaria que os próprios muçulmanos pudessem rir das piadas sobre maomé, rir de si mesmos, de sua própria cultura – e isso se aplicaria a qualquer cultura. é importante que cada indivíduo se encontre com costumes e crenças que podem ser consideradas patéticos de um certo ponto de vista.

  10. sim, sim, o brokeback mountain gaudério seria blockbuster, desde que fosse pela casa de cinema e não pela nova empresa do gerbase, mas, tirando de lado as idéias sobre a sétima arte, minha pergunta continuou sem resposta, em qualquer dos posts, a democracia liberal que tu entende melhor para qualquer lugar do planeta, não tem rival? ou o esquadrão bombástico yankee é um exemplo da democracia liberal a ser implantada no oriente? essas pequenas insurgências moderadas do oriente são sempre sufocadas pelo poderio beliconomico do grande irmão. mill não fica feliz onde quer que esteja com esse liberalismo imposto pelo US ARMY, muito menos qualquer outro pensador, seja ele amartya ou não… agora, inevitável é ter de concordar totalmente com o Luis Rosa. lendo o lfveríssimo na zero de ontem, hoje pela manhã, ele se dizia surpreso com o fato de sua filha ter parado de ler um trecho do sítio do pica pau amarelo, onde o majestoso lobato falava da anastácia. a filha do lfv parou de ler a historinha para filha por considerar que o trecho era racista… e aqui na província se discute que em algum lugar desse país houve censura a obra do lobato por esse viés racista. onde estamos? bueno, há muito que discutir sobre a inflexão muçulmana, sobre a opressão dita liberal dos eua, e sobre versões gaudérias do brokeback mountain, mas meu amigo adão iturrusgarai não cansa de dizer que os cowboys gays dele tinham a ideia original muito antes deles…

  11. Fabs, eu também acho que “existe uma parte da população que participa de esforço” etc. O que quis dizer: não há nenhuma postura mais ativa dessa parte, e nem vai haver; o processo é de radicalização e eliminação desses “moderados”, ou de qualquer voz dissonante. (Por exemplo, li uma chamada em que um businessman paki foi acusado de blasfêmia pq não quis se unir a protestos violentos “contra o filme”. [aliás, isso me irrita profundamente. contra o filme porra nenhuma, o filme não tem a menor importância, da mesma forma que os cartoons não tinham]. Blasfêmia pode levar à pena capital.). Não há qualquer “processo lento” blah blah blah. O mundo islâmico responde quase em uníssono da seguinte forma: se fazendo de vítima e culpando o ocidente; com violência; atacando judeus com terror; e buscando impor shariah em qq de suas formas ao ocidente (proibir qq manifestação contra o Islam = lei contra “islamofobia” = blasfêmia.).

    É óbvio que a diferença fundamental em rel. ao Tea Party não é essa. Joder. O Tea Party não dominou metade do globo conhecido pouco depois de ser criado; não tem um profeta que era um warlord e é visto como modelo de perfeição; nem tem um objetivo de conquista global pelo terror e a guerra desde que nasceu. O Tea Party é uma idiotice americana; o pan-islamismo é simplesmente o movimento totalitário com mais adeptos, recursos, e radicalização, mais espalhado por todos os cantos do globo, e mais apocalíptico e destrutivo jamais visto na história.

    Com relação ao “todos somos Osama”, tu entendeu errado (ou como quis). I meant: a preparação fundamental é criar uma situação na qual qualquer um pode ser Osama. Como ser ético, humano, e racional num contexto em que crianças (quaisquer crianças, quaisquer pessoas!) podem se explodir e matar a ti e tuas crianças (e o mundo vai defender quem prepara os explosivos)? Digo e repito: qualquer outro país ou povo já teria aniquilado 15 vezes um inimigo assim. Que o mundo defenda a besta, no matter what, diz claramente onde vamos parar.

    Fabs: acho que já te escrevi isso, mas – lembra daquele material mal-escrito que te enviei há uns anos; lembra dele daqui a 4 anos. A situação agora (islamismo radical tomando conta em vários países) simplesmente tá ficando mais clara; vai ficar ainda mais.

  12. José Francisco Botelho · · Responder

    Essa questão da liberdade de expressão é muito relativa. Se tu negas o holocausto ou faz uma piada sobre negros, podes ser preso em alguns lugares. Eu abomino quem nega o holocausto e quem nutre qualquer tipo de racismo. Mas eu sou meio radical nesse assunto. Sou, efetivamente, a favor da liberdade de expressão total, mesmo quando a opinião expressa me horrorize. Mas acho que tem de ser uma coisa homogênea. Não vale dizer que só os muçulmanos são contra a liberdade de expressão, se ha várias outras restrições por aí. Eu quero ter o direito de queimar o Alcorão, a Torá, a Bíblia, e de fazer piadas hediondas sobre a macumba (a única religião que eu realmente seguiria). Eu quero ter o direito de ser um porco. O que não significa que eu seja, nem que eu goste de quem é.
    Dito isso, vamos ao resto. A condescendência com esse tipo de comportamento ridículo de uma parte (considerável) dos muçulmanos do mundo inteiro realmente é uma grave ameaça à liberdade de expressão. Não é admissível que governos (como o atual do Egito) apoiem ataques a embaixadas por causa de míseros 13 minutos de um filme AMADOR. Eu digo isso sendo alguém que sempre foi contra a invasão do Iraque e a ocupação da Palestina. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
    Também confesso que estou bêbado, então, se escrevi alguma bobagem, me questionem amanhã quando eu estiver sóbrio. Beijos do Chico.

    1. um dos melhores artigos sobre o tema que li nos últimos tempos. explica Butler e postmodernity.

      http://www.theaugeanstables.com/2012/09/23/unpublished-essays-suicidal-even-handedness-april-2002/#more-4168

  13. José Francisco Botelho · · Responder

    Lembrei do Galiano, que foi processado e perdeu o emprego por ter ofendido os judeus. O que ele disse foi realmente horrível. Mas ele teve liberdade de expressão? Não. Deveria ter tido? Aí depende. Eu sou, como disse, radical, e acho que tudo deveria poder ser dito. Mas se vamos proibir, aí tem que ser um peso e uma medida.
    Quanto à questão de que “qualquer outro país teria destruído esse inimigo 15 vezes”, isso me deixa confuso. Todos os muçulmanos do mundo deveriam ser mortos? Havia mais pessoas na Líbia protestando contra os ataques à embaixada do que havia nos ataques em si. Todos têm que morrer? Isso não faz o menor sentido.

    1. No caso que mencionei, “esse inimigo” = palestinos. e esse teu “deveriam” é que não faz o menor sentido – estou comparando o que as nações e povos (que demonizam Israel) fizeram e fazem, não o que alguém “deveria” ou não fazer.

  14. José Francisco Botelho · · Responder

    Mas Israel já destruiu os palestinos. Definitivamente.
    Beijos.

    1. but of course. único país na história documentada que é atacado logo após nascer, por um inimigo muitíssimo mais poderoso, em uma guerra de aniquilação; vence; segue sendo atacado por décadas; vence – e relinquishes territory systematically. os palestinos coitadinhos são o “povo” que mais recebe ajuda internacional per capita no globo (se não me engano, 1,8 bilhões de doletas em 6 anos); 100mil seguem sendo refugiados no West Bank, que é totalmente controlado pela PA; milhares mais seguem sendo refugiados no Libano, JOrdania, Siria etc.; e Abas e alguns chefes do Hamas têm milhões de dólares em seus bolsos – mas, claro, tudo isso, somehow, é culpa de Israel, que definitivamente já destruiu os palestinos.

  15. José Francisco Botelho · · Responder

    (isso, quanto ao teu argumento real. quanto ao que eu tinha entendido antes, foi engano meu; desculpa).

  16. José Francisco Botelho · · Responder

    Bah, amigo, discutir Israel/Palestina não rola. Ultimamente, ando calmo demais para essas coisas. Abs.

  17. José Francisco Botelho · · Responder

    Voltando ao assunto do texto. Vocês já devem saber, a essas alturas, que aqui no Brasil um juiz proibiu que passe o vídeo anti-maomé no youtube. Supostamente, uma medida contra a “islamofobia”. Este é o melhor texto que li agora sobre o assunto:
    http://laregledujeu.org/2012/09/18/10685/une-minorite-haineuse-ne-fait-pas-le-monde-musulman/

    O que mais interessa:
    le terme «islamophobie» fut inventé par des mollahs iraniens pour déligitimer ceux qui s’opposaient au régime islamiste mis en place par Khomeiny. Il est, depuis, utilisé par les partisans d’un islam fondamentaliste pour stigmatiser ceux qui les combattent, qui seraient ainsi des racistes et des ennemis de l’islam.Nous n’employons donc jamais ce terme appartenant au bagage idéologique des islamistes.

    O termo islamofobia foi inventado pelos golpistas iranianos para calar qualquer crítica ao regime dos aiatolás. Com o tempo, qualquer crítica a qualquer tipo de extremismo passou a ser taxado de islamofobia. Minha conclusão é que quem mais perdeu com isso foram os muçulmanos não-fanáticos. Pois sigam meu raciocínio: se criticar fundamentalismos é islamofobia, logo o Islã é só fundamentalismos. Além de ignorar a existência de muçulmanos que não são fundamentalistas nem violentos, esse raciocínio condescendente permite que o fanatismo dite o que o resto do mundo pode ou não pode fazer.

    1. Exato. (Vide meu comment em algum post aqui, “islamofobia é Newspeak”).
      No entanto, há controvérsias em relação a quem inventou o termo. Antes tinha como certo que tinha sido o Muslim Brotherhood, nos EUA (mas essa versão parece que tem furos), e agora essa de que foi o Iran. De qualquer forma, o conceito foi inventado para servir como o “novo anti-semitismo” – assim como os palestinos foram inventados para servir como os “novos judeus” (e assim realizar e significar a inversão perversa de judeus como “novos nazis”). Assim como o anti-semitismo real é quase sempre disfarçado de “anti-sionismo”; assim como o anti-semitismo real (que envolve declarações claras de genocídio, propaganda massiva, atentados terroristas etc.) é esvaziado pelo ódio a Israel, que sempre tem de ser visto como o demo (nazi) atacando os oprimidos (palestinos “novos judeus”).

      Só mais uma coisa. “permite que o fanatismo dite o que o resto do mundo pode ou não pode fazer”. O correto não é “fanatismo” – é shariah. A imposição é da lei islâmica, que é total – e sempre foi. (“Moderado” e “fanático” aí são relativos. Em todo o Dar-al-Islam hoje, e em boa parte dos países em que muçulmanos são parcela considerável da população, o “moderado” é considerado não-muçulmano – portanto apóstata, portanto passível de pena de morte de acordo com a shariah.)

  18. José Francisco Botelho · · Responder

    Isso, a propósito, já aconteceu com o termo “antissemitismo”, que por muito tempo foi aplicado a qualquer um que ousasse criticar alguma política ou ação de Israel (incluindo judeus e até descendentes de vítimas do Holocausto!)
    Qual o significado de tudo isso? Bem, o significado é algo que todos já sabíamos de antemão, mas que precisa ser relembrado constantemente: patrulha ideológica é uma porcaria e emburrece o universo.

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