O que pesa mais: 1kg de feijão ou 1kg de Ruffles?

Não há outra forma de falar sobre alimentação e nutrição, atualmente, que não por meio do paradigma da transição nutricional. Transição Nutricional foi um conceito introduzido na década de 90 pelo economista americano Barry Popkin, um dos maiores teóricos das mudanças alimentares ocorridas em todo o mundo. O termo refere-se às mudanças alimentares e nutricionais que os países, primeiramente os desenvolvidos e mais recentemente os de média e pequena economia, enfrentaram nas últimas décadas. O problema da fome, representado pela desnutrição, vem sendo gradativamente substituído pelos altos níveis de excesso de peso e obesidade, gerados pela superalimentação e pela baixa qualidade nutricional dos alimentos industrializados.

No quadro teórico proposto por Popkin, o principal gatilho para a transição nutricional é o crescimento econômico que leva, quase sempre, ao avanço tecnológico. A tecnologia, por sua vez, muda os sistemas de produção de alimentos, desde a agricultura até o beneficiamento. Isso é prejudicial para a qualidade nutricional dos alimentos por duas razões: 1) os sistemas de produção tradicional são dizimados. Assim, perde-se grande parte da alimentação tradicional; 2) os alimentos beneficiados produzidos são de baixíssima qualidade nutricional. Juntando isso ao aumento do comportamento sedentário dos indivíduos, também decorrente dos avanços tecnológicos, teríamos a explicação macroeconômica para o ganho excessivo de peso da população mundial.

Esse ganho excessivo de peso e suas consequências deletérias à saúde não é novidade para ninguém. Estima-se que até 2030, sejamos mais de 2,1 bilhões de pessoas com excesso de peso (IMC≥ 25kg/m2) e mais de 1,1 bilhões de obesos (IMC≥ 30 Kg/m2) no mundo. Contudo, estudos recentes mostram que populações tradicionais pertencentes a países em desenvolvimento, como chineses, chilenos e indianos, sentem os efeitos negativos do ganho de peso mesmo antes de atingir a marca do sobrepeso (IMC≥ 25kg/m2). Um exemplo disso é a China, que já possui taxas de diabetes e hipertensão semelhantes às americanas.

Mas, o que efetivamente vem mudado na nossa alimentação? De um modo geral, as diferentes populações no mundo estão abandonando suas alimentações tradicionais que, independentemente do país, eram baseadas em refeições completas ricas em grãos pouco refinados (milho, arroz, aveia, centeio), leguminosas (feijões, ervilhas, grão de bico) e vegetais e aderindo a um maior consumo de uma dieta denominada “Western”. Esse padrão alimentar ocidentalizado é composto, principalmente, por alimentos de origem animal (carnes processadas, laticínios, ovos) alimentos fritos, ultraprocessados e enriquecidos em açúcar (comidas e bebidas).

Para exemplicificar como essas mudanças alimentares agem na pandemia da obesidade, podemos tomar como exemplo o alto consumo de bebidas doces e de “snacks”. O consumo de bebidas doces, como refrigerantes, sucos, cerveja, sucos de soja, aumentaram em até 17% o consumo energético total diário. Outro hábito alimentar insalubre, característico da alimentação moderna, é a substituição de refeições pelos chamados “snacks”. O grupo dos “snacks” é formado por salgados, salgadinhos, pizzas, bebidas industrializadas, biscoitos, doces em geral, etc. O problema de substituir refeições por snacks é que eles possuem uma densidade calórica muito maior, são ricos em sódio, gorduras e açucares e pobres em fibras e vitaminas. Além disso, alteram a regulação hormonal fome/saciedade, fazendo com que os indivíduos percam a noção de saciedade.

Por outro lado, sociedades que têm mantido sua alimentação tradicional apresentam menores taxas de crescimento da obesidade, um exemplo clássico é a França (Paradoxo Francês) que tem as menores taxas da Europa. No Brasil, pode-se ver o mesmo quadro. Estudos mostram que indivíduos que mantêm uma dieta típica brasileira, baseada no feijão, arroz, tubérculos, frango e manteiga, estão protegidos da obesidade e dos distúrbios metabólicos.

A partir desses dados, parece que o caminho para uma alimentação “saudável” passaria pela manutenção da cultura alimentar. Eu não tenho a menor duvida disso. Assim, o grande desafio lançado é como manter a cultura alimentar em meio à vida moderna. Muitos países europeus já têm feito esforços nesse sentido. Entretanto, nos países de pequena e média economia, o progresso econômico sempre está acompanhado pela reprodução do sistema alimentar norte-americano e, com isso,  o aumento da obesidade em todo mundo.

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