Judith Butler e o judaísmo crítico a Israel

Considerada uma das intelectuais judias mais destacadas da atualidade, Judith Butler envolveu-se recentemente numa polêmica amplamente repercutida na mídia por ter recebido aqui em Frankfurt o prestigiado Adorno-Preis (concedido anteriormente p. ex. a Norbert Elias, Habermas, Derrida e Godard). O principal motivo das críticas é que Judith Butler – além de ser ativista do movimento “Boycott, Divestment and Sanctions” (BDS), que apoia críticas ao Estado de Israel – teria reconhecido o Hamas e o Hezbollah como expressões da esquerda global. A polêmica envolveu tanto críticas contra Butler – como por parte do comitê central dos judeus na Alemanha e de diversas outras entidades, acusando-a inclusive de antissemitismo – como também suscitou respostas de vários intelectuais, sendo lançada p. ex. uma petição online apoiando a sua nomeação.

Em sua resposta às críticas, Butler esclareceu que a sua pretensa defesa do Hamas e Hezbollah se tratava de uma declaração sua numa conferência, onde ela, na verdade, diferenciava uma posição meramente descritiva e uma crítica: se considerado o seu caráter anti-imperialista, esses movimentos poderiam ser descritos como expressões da esquerda global. Mesmo que essa declaração também seja controversa (já que esse tipo de descrição não é necessariamente neutra, mas pode envolver implicitamente algum juízo de valor), Butler ressaltou que não queria dizer, com isso, que endossasse tais grupos, mas, pelo contrário, criticava e critica veementemente qualquer tipo de prática violenta, mas não só de movimentos palestinos, como também os de iniciativa do próprio Estado de Israel. No entanto, ela mesmo reconhece que a sua posição pode ser considerada até mesmo ingênua (“Eu não endosso práticas de resistência violenta, nem endosso a violência do estado, não posso nem nunca o fiz. Esta visão faz de mim talvez mais ingênua que perigosa, mas é o meu ponto de vista.”)

Com essa repercussão, defronte da Igreja onde lhe foi entregue o prêmio dividam-se os que manifestavam contra Judith Butler, muitos enrolados na bandeira de Israel, e os apoiadores da filósofa judia.  O que se destacava ali era que os manifestantes de ambos os lados eram em sua maioria judeus: uma divisão sintomática, que mostrava uma ruptura não entre judeus e palestinos, mas interna, entre os judeus que defendem e os que criticam o Estado de Israel.

Por trás de críticas repletas de argumentos ad hominem, Butler se viu numa dura cruzada não só por sua posição crítica a Israel, mas, principalmente, por estar nessa posição enquanto judia. No entanto, o argumento falacioso de enquadrar toda crítica a Israel como antissemita é tão enganoso quanto, inversamente, a postura de alguém que, como judeu, legitima qualquer tipo de política israelense. A conjugação aqui entre judaísmo e legitimação de Israel é colocada fortemente em questão por Butler: “Nos Estados Unidos”, escreve em sua resposta, “fui alarmada pelo número de judeus que, perturbados pela política Israelita­­, incluindo a ocupação, as práticas de detenção indefinidas, o bombardeamento de populações civis em Gaza, procuram renegar o seu Judaísmo. Eles cometem o erro de pensar que o Estado de Israel representa o Judaísmo dos nossos tempos e que se alguém se identifica enquanto judeu, esse alguém apoia Israel e os seus atos. E, no entanto, sempre existiram tradições judaicas que se opõem a violência do estado, que afirmam a coabitação do multiculturalismo e que defendem princípios de igualdade, e esta tradição ética vital é esquecida ou marginalizada enquanto qualquer um de nós aceitar que Israel é a base dos valores e da identificação Judaica.”  E conclui: “Eu reinvidico um judaísmo não associado à violência do Estado”. Desse modo, Butler, em seu último livro “Parting Ways”, que leva o sugestivo subtítulo “Jewishness and the Critique of Zionism”, propõe-se a encontrar uma crítica interna ao pensamento judaico que se posicione contra medidas políticas que recorram à violência. A sua insistência é a de mostrar que, também como judeu ou judia, não só é possível, como é legítimo, criticar as práticas de violência de Israel.

Em outros escritos, como os do livro “Frames of War”, Butler, que nasceu em Ohio e é professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, também se posiciona, dentro dessa mesma lógica autocrítica, contra políticas de guerra norte-americanas. Também essa mais recente onda de violência islâmicos x EUA pode ser vista como mais um exemplo de um jogo de enrijecimento de identidades, e consequentemente, da ênfase da diferença do “outro”, onde a capacidade de autocrítica mantém-se limitada, restringindo-se sempre à cristalização da crítica à diferença. Isso não revela nada mais que uma insistente acentuação das diferenças e uma postura que claramente só se mantém na mesma lógica infindável de ação e reação. Mesmo que caracterizados por uma violência absolutamente injustificável, novos protestos nos países árabes não são apenas uma causa, mas também uma resposta a outros tipos de violência. Esta mesma lógica – que se encontra tanto nos conflitos Israel x Palestina, que Butler critica, como numa permanente onda de protestos entre países islâmicos e Estados Unidos – é reflexo da insistência em culpar somente o “outro”.

É preciso não só esperar as reações de quem está de “fora” – o estrangeiro, o imigrante ou da outra religião – mas ousar reconhecer criticamente as próprias posturas. Como diz Richard Rorty referindo-se ao conceito de “we intentionality” do Sellars, o processo pragmático de aprendizagem moral da humanidade consiste não só em reconhecer ou tolerar o outro, mas num gradual processo de alargamento do que referimos como “nós”, no qual o outro é apreendido não mais como outro, mas como parte do nós. É uma ampliação de perspectiva onde as diferenças passam a ser menos relevantes do que os sentimentos compartilhados, o que Judith Butler no seu livro “Precarious Life” sugere como um sentimento de inclusão a partir de uma perspectiva compartilhada da “vulnerabilidade” comum à vida humana, ou ainda dos sentimentos que Rorty, contra uma perspectiva essencialista, descreve como sofrimento ou humilhação: “The view I am offering”, escreve Rorty em Contingency, Irony and Solidarity, “says that there is such a thing as moral progress, and that this progress is indeed in the direction of greater human solidarity. But that solidarity is not thought of as recognition of a core self, the human essence, in all human beings. Rather, it is thought of as the ability to see more and more traditional differences (of tribe, religion, race, customs, and the like) as unimportant when compared with similarities with respect to pain and humiliation – the ability to think of people wildly different from ourselves as included in the range of us” (p. 92).

No entanto, a autocrítica tem seu preço. É o que se viu também em iniciativas de islâmicos moderados que tentam instigar esse processo. É o caso paradigmático do escritor Salman Rushdie, que defende que a forma mais efetiva e real de se vencer o radicalismo islâmico não vem de fora, a partir de posturas ofensivas desse tipo (as consequências parecem ser claras), mas sim de dentro, a partir de uma postura mais ativa de islâmicos moderados. No seu próprio caso, o preço foi ter sido condenado à morte através de uma fatwa proferida pelo aiatolá Kohmeini. Assim como Rushdie, a escritora muçulmana Seyran Ates, autora do livro “O Islã precisa de uma revolução sexual”, foi ameaçada de morte e precisou durante anos viver no anonimato.

Também a crítica de Judith Butler a Israel a partir do próprio pensamento judaico mostram o significado de espaços abertos a críticas não só ”externas”, mas provenientes de um pluralismo interno de opiniões.  É a possibilidade de autocrítica e de um processo inclusivo que tornam esse tipo de posturas religiosas plausível numa sociedade pluralista pós-secular.

Orientada por esse turvo horizonte da autocrítica, a postura de Judith Butler mostra como é possível não só culpar o “outro”, mas também rever criticamente a própria tradição, os problemas de uma comunidade de valores compartilhados, provocando uma constante revisão dos próprios parâmetros de julgamento moral. É evidente que se trata aqui de um turbulento processo. A autocrítica, no entanto, parece ser uma etapa indispensável.

9 comentários

  1. Bom, se o Hamas e o Hezbollah sao atores legitimos da esquerda internacional, por favor, vamos desistir de tudo né.

    Não sei se a Butler (que acho, no geral, uma filósofa lamentável) realmente apoia o Hamas e o Herzbollah enquanto órgãos legítimos, mas acho que SE ela apoia é mais ou menos equivalente a achar que as FARC são algum tipo de instrumento legítimo de resistência (o que eu, francamente, colocaria no nível da desonestidade intelectual).

    Independente disso, eu acho que tem uma simplificação grosseria por parte da crítica literária (da qual a Butler faz parte) com realação ao Estado de Israel. Penso que existem questões geográficas e políticas que são deixadas de lado – inclusive o fato de Israel estar cercada de países que não apenas não admitem as suas fronteiras: mas países que não admitem a existência do estado de Israel em QUAISQUER termos. Pensar a militarização de Israel e esquecer desse pequeno detalhe me parece demasiado fácil.

    Nada disso justifica o tratamento recebido pela Palestina, é claro. Os Palestinos tem tanto direito à um território nacional quanto qualquer outro povo – os Judeus, claro, inclusos. Mas acho que ajuda a explicar. E se a Butler é da turma que acredita que Herzbollah e Hamas são instrumentos de RESISTENCIA, então eu acho que todo o protesto contra o reconhecimento desse tipo de postura cretina é válido.

    Claro, tem muita histeria no meio disso tudo.

    A propósito, não entendi a equiparaçao moral que tu pareceu fazer, Filipe, entre o filme produzido por um americano (que feriu um total de aproximadamente zero pessoas) e protestos de pessoas chateadas pq alguém falou mal da entidade mágica na qual elas acreditam (que mataram, diga-se de passagem, dezenas de pessoas). Por sinal, acreditar que o filme foi algo mais que uma desculpa esfarrapada para protestos que estavam sendo planejados faz muito tempo me parece um tipo de auto-sabotagem mental e complexo de culpa altamente nocivo. Se alguém agiu de forma monstruosa NÃO foi o babaca que fez o filme sobre o Islã.

  2. então, Fabrício. Mais especificamente sobre a posição de Butler: como eu destaquei, ela não apóia de maneira alguma o Hamas ou Herzbollah. Mas, de fato, é controverso o que se pode chamar aqui de “legítimo” (legitimados por quem? com quais critérios, etc…). Mas eu tb não sei quem legitima p. ex. a guerra do Iraque. Em todo caso, acho que não é o caso de dizer que Butler os “legitima”, pois isso já parece envolver um certo sentido normativo, enquanto ela tentou mostrar uma sentido puramente descritivo (por sinal, eu acho que é uma insistência normativa que acaba por obscurecer certos fatos que, apesar de repreensíveis normativamente, precisariam ser melhor descritos). Acho que vale a pena dar uma lida lá na resposta dela que eu linkei pra se chegar a uma conclusão.

    O que eu tentei sugerir foi uma reorientação de óticas mais rígidas, destacando o papel da autocrítica. Nesse sentido, sobre a relação entre o filme e os protestos, eu não quis propor uma equiparação moral, mas, antes, enfatizar uma lógica de ação e reação (mas concordo que o filme pode ter sido um estopim, e é sintomático que foi num 11 de setembro). Em todo o caso, agora msm continuam inúmeros protestos que extrapolam um ataque pontual planejado). Eu acho que em ambos os casos há sim formas de violência, mesmo que completamente distintas: ainda que moralmente seja evidentemente desejável, acho bastante problemático – além de ineficaz e contrafactual – continuar somente exigindo um tipo de reação não violenta por parte do islamismo, de que eles deveriam saber respeitar nossa liberdade de expressão, que eles deveriam parar de acreditar numa entidade mágica, e etc.. Enquanto não se chega aí nesse modelo ideal bem encaixadinho, acho mt mais viável e factível tentar rever autocriticamente nossa própria posição e o que é possível fazer em vista de uma perspectiva inclusiva na comunidade moral.

  3. Na realidade, eu quero questionar a idéia de um perspectiva inclusiva na comunidade moral, Filipe. Por que temos que ser inclusivos com quem tem posições completamente inaceitáveis? Se o cara reage contra um filme sobre o profeta x, y ou z com protestos armados, então eu não quero ter qualquer tipo de perspectiva inclusiva com esse cara. Não vejo o que tem para ^incluir^, até porque a via não é de mão dupla; não existe uma proporcionalidade no diálogo, digamos assim.

    Você entra com a auto-critica, o outro lado entra com o AR-15. Acho meio suicida esse modelo.

    Não quero com isso indicar que é apenas o Islã – o mesmo complexo acontece com, por exemplo, os democratas querendo dialogar com a versão norte-americana do Talibã – ou com os problemas internos no estado de israel, que, sabe-mos, está passando por um momento político complicado.

    É verdade que criticar ou questionar o estado Israelense virou dogma em algumas comunidades – aqui nos Estados Unidos, por exemplo, abrir uma via de crítica é pedir para ser taxado de anti-semita. Curiosamente, me parece que Israel, internamente, tende a ser mais reflexiva do que os debates externos a Israel – e talvez seja o que a Butler quer dizer quando insiste na possibilidade de um Judaismo que não se joga em um sionismo tosco e entricheirado.

    MAS, a questão é a seguinte: SE Israel está entricheirada (e está) e isso está causando a perda de grande parte do que sempre tornou o estado de Israel mais interessante que os vizinhos de Israel (um debate democrático, abertura política, tolerância sexual, equilitarianismo de genero sempre foram AO MENOS possibilidades dentro do estado Israelense), uma GRANDE parte desse entricheiramento é decorrente que desde Camp David simplesmente não houveram progressos na postura dos vizinhos de Israel com relação a Israel – e aí, Israel deve ter uma perspectiva inclusiva e arriscar tomar no meio?

    É um cenário complicado. admito, insisto nisso, os abusos de Israel com relação a Palestina e a militarização de Gaza, a invasão de territórios e a estratégia de territorialização utilizada pelo Bibi. Mas acho estranho insistir nesses elementos e esquecer que Israel está cercada – e por mais que esteja armada até os dentes, a população TOTAL de Judeus no MUNDO não chega perto de um terço do que o esforço militar ao redor de Israel é capaz de mobilizar. Nesse cenário, não estar armado até os dentes é suicídio.

  4. Excelente post, Filipe! Estou plenamente de acordo com as tuas colocações, esp. “O argumento falacioso de enquadrar toda crítica a Israel como antissemita é tão enganosa quanto, inversamente, a postura de alguém que, como judeu, legitima qualquer tipo de política israelense.” Acompanhei os debates entre Butler, Seyla Benhabib e Nancy Fraser (the powerpuff girls!) no final dos anos 80, início dos 90, quando era estudante de PPG em Philly e NYC. A ideia de judaísmo crítico é apropriada e faz jus ao pluralismo e autocrítica nas suas respectivas formulações do problema da identidade judaica. A meu ver, o judaísmo e o cristianismo em suas versões heterodoxas e particularmente liberais, são os mais significantes exemplos de espiritualidade e identidade ético-cultural (no sentido denso de ethos social) em nossas sociedades pluralistas e pós-seculares, onde grupos religiosos e crentes das mais diversas correntes devem coexistir com ateus, agnósticos e pessoas com crenças radicalmente diferentes. O mesmo não ocorre, infelizmente, com a maior parte dos países ou grupos sociais islâmicos, onde os heterodoxos são perseguidos ou têm suas cabeças colocadas a prêmio (Salman Rushdie é o mais conhecido exemplo de nossos dias). Este episódio recente só confirma isso: o pastor fundamentalista maluco, da Florida, que ameaçou queimar o Alcorão e agora provocou a ira dos fundamentalistas islâmicos e hooligans desses países com o filminho, não é representativo da maior parte dos cidadãos americanos, crentes e descrentes, mesmo descontando o que existe de islamofobia –que na verdade, é um fenômeno crescente no mundo inteiro (afinal, não vemos judeus, cristãos, budistas ou hindus fazendo ataques terroristas mundo afora). Como já diziam os mais críticos, os fundamentalistas evangélicos e os fundamentalistas islâmicos se merecem, já que não toleram ninguém e tendem a não respeitar a humanidade em suas diferenças…

  5. Obrigado pelo comentário, Nythamar. De fato, a impossibilidade de convivência com o pluralismo bloqueia o diálogo com qualquer tipo de fundamentalismo (por sinal, esse é o conceito de fanatismo que Hegel propõe: um tipo de liberdade que se desenvolve somente como aniquilamento de tudo o que a ela se opõe, inclusive a qualquer forma institucional pluralista). Como vc bem coloca, exemplos do judaísmo e do cristianismo heterodoxo – como o que vejo na crítica de Judith Butler a Israel a partir do próprio pensamento judaico – mostram o significado de espaços abertos a críticas não só vindas de fora, mas a partir de um pluralismo interno de opiniões. Acho que é a possibilidade de autocrítica e de um processo inclusivo que tornam esse tipo de posturas religiosas plausível numa sociedade pluralista pós-secular.

    Um outro ponto – e aqui tb tento responder ao importante comentário do Fabrício – é que imagino que, diante um comentário ofensivo, qualquer pessoa (cristão ou muçulmano, ou imigrante, negro,…) se sentiria impelida a alguma forma de reação. A diferença é que, claro, não é todo mundo que sai condenando o outro à morte e soltando bomba como resposta. O que entendo como esse processo de inclusão na comunidade moral é a difícil conjugação entre um possível universalismo moral (como direitos humanos) com um pluralismo de valores. Mas eu entendo todas essas reservas que o Fabrício coloca de não ter interesse em querer incluir na minha comunidade moral alguém que não está aberto ao diálogo com a mesma postura com que eu me proponho (“a via não é de mão dupla”). Mas a questão, como falamos, é de Realpolitik msm: se vc sabe que se vc chamar Maomé de pedófilo e pervertido vai fazer o cara explodir uma bomba, é melhor não tentar dizer para ele: “caro xiita, isso não é moralmente justificável pq ofende a minha liberdade de expressão, além de ser contra o imperativo categórico”. É justamente por não podermos exigir esse procedimento e, com isso, se manter somente nesse tipo de crítica que acho mais plausível tentar entender qual postura propositiva eu ou o “nós” ainda restrito a minha comunidade moral pode tomar para se vislumbrar qualquer tipo de mudança. Se ao invés de uma tal postura inclusiva de reconhecimento – que não é o que vemos nesses recentes exemplos entre fundamentalistas cristãos e radicais islâmicos ou no caso Israel x Palestina – vai se perpetuar apenas uma postura hostil fechada ao diálogo e com tentativas de ambas as partes de impor unilateralmente seus valores e posições. Aí sim, de fato, é melhor cada um ter a sua AR-15 à mão.

  6. Há muitos pontos nesse artigo e nos comentários que merecem crítica; tantos que não sei por onde começar. Primeiro: as críticas principais a Butler NÃO eram relativas a ela ser antisemita, mas sim de servir de useful idiot pra mais retrógrada, genocida, e totalitária forma de antisemitismo (e anti-West, anti-gay, anti-women, etc.). Segundo, é desonestidade intelectual dela dizer que estava “somente descrevendo” como Hamas e Hizbullah descrevem a si mesmos (o que já é de uma mentira ou cegueira absurda, pois os charters e milhares de videos desses grupos estão na web, afirmando cristalinamente seu objetivo genocida e de pan-domínio islâmico). Utilizar “normativo”, e outros termos queridos da pós-modernidade, só serve pra cobrir uma realidade nua e crua (é só ver o video da Butler dizendo): a “global left”, a academia tomada pelos pós-modernos, e a mídia de forma geral (incluindo Reuters, France Presse, AP, BBC, Guardian, etc.) defendem e ocasionally lionize o mais perverso e desumano fascismo, ao mesmo tempo em que demonizam e criam uma hiperrealidade de Israel como fascista, nazi, etc.

    A inversão é óbvia. E a base emocional da aceitação acrítica dessa inversão pelas massas é um desejo niilista e apocalíptico, de redenção pela destruição, que se manifesta sim num antisemitismo que às vezes aparece bem claramente, e numa replicação de um discurso ou claramente fascista (“we are all Hamas”, e.g. aquele testa di cazzo do Vatimo) ou que encobre ideologicamente o fascismo, impedindo a crítica do “Outro” coitadinho (quando o outro coitadinho tá explodindo seus cidadãos ao redor do globo, mas principalmente pra matar judeus, enquanto fica sentado confortavelmente em Dubai tomando um uísque) – o discurso pós-moderno que tem origem em Saïd e que absurdos como Butler, Haraway, etc. perpetuam.

    Infelizmente não escrevo bem como vocês, ainda mais quando o faço de forma apressada como agora. Mas: “islamofobia” é Newspeak. A imagem de “tentativas de ambas as partes de impor unilateralmente seus valores e posições” apaga a realidade (global!) de um pan-islamismo que diz claramente a que vem: destruição e domínio não só do West, mas do globo (como sempre foi, desde 680). Se Israel quisesse “impor unilateralmente” etc., teria atacado nuclearmente seus inimigos que a juraram de aniquilamento desde que nasceu. E QUALQUER outro país do globo teria feito exatamente isso.

    Mas bueno. Links:

    On Butler’s writing:
    http://spme.net/articles/8826/2/7/Bad-Writing-Universities-and-Zionism.html

    On her rhetorical ideology:
    http://www.worldaffairsjournal.org/blog/michael-j-totten/anti-imperialism-fools

  7. Obrigado pelas críticas, Marlon. Então, eu não acho que há nada de pós-moderno em falar em normatividade. Pelo contrário, acho que houve um grande déficit em tendências recentes justamente por subestimar análises descritivas menos normativamente “ideais”. É essa tendência de se rejeitar uma descrição de dinâmicas internas, sabendo-a diferenciar de uma posição normativa, que acaba por negligenciar os riscos de determinadas políticas e bloquear resoluções estáveis. Tentar descrever com mais “realismo” movimentos como o Hamas e o Herzbollah – com todo o seu potencial danoso – pode ser muito mais eficiente para se chegar a soluções eficazes. No entanto, acho bastante claro pelo que vimos até agora que o modo como isso é feito é bastante limitado e só mantém uma lógica de novas reações violentas.

    Quanto a Butler, eu não sei se é desonestidade intelectual dela ou ingenuidade mesmo (como ela mesmo confessa:“Eu não endosso práticas de resistência violenta, nem endosso a violência do estado, não posso nem nunca o fiz. Esta visão faz de mim talvez mais ingénua que perigosa, mas é o meu ponto de vista.”). Enfim, eu também tenho críticas a Butler e inclusive acho seus textos muitas vezes filosoficamente fracos. No entanto, o que eu tentei mostrar é que acho válido esse tipo de pluralidade “interna” – às vezes também bastante conflituosa – de opiniões e autocríticas. E, no caso dela, eu acho que a defesa de práticas de não-violência é o que a faz ser contra o Hamas e o Hezbollah, mas tb contra determinadas medidas por parte de Israel. Mas, de fato, vc pode dizer, como ela mesmo o fez, que é somente ingenuidade.

  8. É muito triste para os homens e mulheres do bem , da ponderação e da conciência crítica ver que o radicalismo e a intolerância geralmente tem se tornado o modus vivendi de boa parte da humanidade. O Hammas , o Hisbolah e outros movimentos que dizem lutar pela criação de um estado para o seu povo ( Estado Palestino ), não devem fazê – lo sob o sangue de crianças e civis que vivem em Israel e os Judeus que governam Israel deveriam jamais se esquecer do horror que seus antepassados sofreram durante o holocausto , época em que vagavam pelo mundo como um povo sem Pátria , situação que vivem os Palestinos hoje , mas a ignorância tem vencido….. !

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