Amélia vai ao sex shop

O discurso e o desejo masculino influiram, histórica e culturalmente, na formação de uma ideologia bastante restritiva, que modelou o que vou chamar de “imagem feminina”. A “imagem feminina” inclui o que se entende comumente por “mulher” e ao mesmo tempo se refere a uma série de conceitos aproximados, que compõem a trajetória da figura feminina na sociedade. Muitos mitos envolvem o papel social da “imagem feminina”, papel este que limitou sua ocupação à busca por beleza física e delicadeza, como principais atributos definidores da feminilidade. Tais atributos foram associados ao contexto do casamento e da maternidade e assim se formou a imagem da Amélia, que na década de 40 representou o símbolo da mulher brasileira. É claro que existem outros fatores envolvendo esse movimento de formação ideológica, mas de forma resumida, e contando com a compreensão do leitor, pode-se dizer que a “Mulher Amélia” é aquela figura retratada positivamente como boa companheira, dona de casa competente, capaz de satisfazer um homem, rainha do lar, mãe exemplar, etc…

A literatura refletiu a continuidade desta “imagem feminina” conforme podemos observar no seguinte texto que Clarice Lispector publicou no jornal Correio da Manhã:

Dirigir um lar

 24 de fevereiro de 1960

Somente uma mulher, e dona de casa, sabe e reconhece a grande tarefa que é bem dirigir uma casa. A dona de casa tem de ser, antes de tudo, uma economista, uma “equilibrista” das finanças, principalmente com as dificuldades da vida atual. O lar é o lugar onde devemos encontrar a nossa paz de espírito num ambiente limpo, sadio e agradável e cabe à mulher providenciar isso. (…) A boa dona de casa é a que faz de sua casa o lugar de descanso, da felicidade do marido e dos filhos, onde eles se sentem realmente bem, à vontade, e são bem tratados. O melhor lugar do mundo.

Ao longo das últimas décadas aconteceram mudanças significativas que ampliaram o universo da atuação feminina na sociedade. Todavia, uma série de ideais conservadores se mantém presentes como aspectos culturais.

O escopo de possibilidades da mulher foi ampliado, o que gerou um movimento onde a “imagem feminina” possui maior complexidade. Hoje, parece que a mulher tem que alcançar as características de Amélia usando calças e construindo uma carreira profissional. Nesse sentido, entre as principais conquistas da luta feminista está a realização profissional e a autonomia financeira.

A manifestação de adesão à ideologia apresentada até então pode ser observada no cotidiano de muitas comunidades. Além disso, muitos de nós foram educados por “Amélias”. Para ilustrar basta que imaginemos o estereótipo da mãe indo ao mercado e na volta para casa passando na locadora para locar um filme pornô. Essa cena pode causar estranhamento para alguns e parecer “normal” para outros, mas como se comportam as mulheres em relação a esse tipo de produto? O fato é que esse mercado vislumbra o consumo feminino e para tal adesão está reformulando a concepção de sensualidade e eroticidade.

A ideia é criar filmes que retratem a sexualidade feminina de maneira menos agressiva e que causem excitação sem dispensar a sensibilidade, valorizando o ato sexual em contexto sentimental. As mulheres viraram grandes consumidoras de conteúdo erótico, mas porque não eram antes? A causa da mudança seria uma adequação da indústria aos interesses femininos ou a indústria percebeu o potencial deste público ao identificar o interesse crescente de mulheres por esse modo de entretenimento? Se desenrolam debates acerca do atrativo erótico, especialmete quando se trata do imaginário feminino. Surgem questões acerca do que desperta prazer em uma mulher, assinalando uma mudança significativa nos valores que permeiam a liberdade dessas pessoas.

Interessante passagem do post de Bryan Lowder, no Slate:

I trafficked implicitly in the idea that there may be a certain category of porn that “women like.” Still, in the end, I’m on Oswak’s side [Molly Oswaks é uma crítica sobre o assunto]: women can and should “explore and enjoy all types of porn,” and not feel curtailed in their sexual adventures by the snappiness of a headline like “Porn for Ladies.” I’m sure the studios will have no problem taking their money.

Aparentemente o gênero femino está se desvinculando de uma imagem fortemente religiosa, na qual o prazer é sinônimo de pecado. A internet é apontada como o meio mais utilizado pelas mulheres para acessar conteúdos eróticos devido à garantia de privacidade, o que reforça um certo pudor quanto a liberdade sexual, pudor que ao meu ver está longe de uma supressão total. A “imagem feminina”, ao menos na medida em que pude observar, procura se manter em uma distância significativa de comportamentos que possam causar julgamentos morais, especialmente na esfera pública. Esses fatores tornam esse tema delicado e controverso, visto que é parte de um movimento atual que circula entre a luta por direitos de igualdade e abarca a sutil reorganização de papéis sociais.

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