Conhecimento, verdade e relativismo

Eu tenho uma preocupação com os relativistas. Não com o desafio que advém de suas teorias  – mas uma preocupação com o próprio relativista, com sua racionalidade e sua visão de mundo. Na última aula de epistemologia, meus alunos e eu discutíamos sobre a relação entre conhecimento, justificação e verdade. A um dado momento, todos puderam conceder que parece existir uma conexão conceitual necessária entre conhecimento e verdade: se eu sei que 2+2=4, se eu tenho conhecimento desta proposição, então 2+2 é igual a 4. Note que não faz sentido dizer:

# Marcos sabe que o Playstation 3 é produzido pela Sony, mas o Playstation 3 não é produzido pela Sony.

A rigor, qualquer afirmação do tipo ‘S sabe que p, mas p não é o caso’ implica numa inconsistência. Eu não posso saber que a serotonina é um neurotransmissor quando é falso que a serotonina é um transmissor. Aí então você pode observar: ‘mas, mesmo que seja falso que a serotonina seja um neurotransmissor, e que isso seja descoberto no futuro, eu diria que atualmente os neurocientistas têm conhecimento do fato de que a serotonina é um neurotransmissor’. Observe a contradição terrível presente nesta observação: algo é falso, mas é um fato (‘é o caso’, ‘ocorre’, ‘é verdade’, whatever you chose).

Mas nem tudo está perdido: podemos expressar o que realmente queremos quando fazemos a observação de que existe um status epistêmico positivo em uma determinada crença, mas esta crença é falsa – basta atentarmos para a diferença entre justificação e conhecimento. Em um caso discutido na aula, alguns alunos observaram: para os gregos antigos, era verdade que a Terra é plana e, portanto, eles tinha conhecimento deste fato. O problema é que esta asserção não tem condições de ser verdadeira caso a Terra não seja plana, nem na época dos gregos nem agora. Ou a Terra é plana, ou ela não é plana. Hoje, temos boas evidências para crer que a Terra não é plana. Mas o que importa é o seguinte condicional: se a Terra não é plana, então a proposição expressa por ‘A Terra é plana’ não pode ser objeto de conhecimento. O que faz sentido dizer é que os gregos antigos tinham justificação para crer que a Terra é plana: de acordo com as evidências que lhes era disponível, era racional para os gregos crer que a Terra é plana.

No entanto, nem todo caso de crença justificada é um caso de conhecimento. Na contemporaneidade, não somos mais infalibilistas, e é perfeitamente razoável a idéia de crenças justificadas em proposições que são falsas. Sim, eu posso ser racional ao crer em uma falsidade (não identificada como tal por mim), qual o problema? Ou você quer ser um infalibilista? Assim, com uma maior sofisticação conceitual e investigação filosófica, podemos redizer aquilo que queríamos dizer antes: ‘Os gregos tinham justificação para crer que a Terra é plana, mas a Terra não é plana’. Não há qualquer contradição nesta nova asserção e ela mantém as motivações da asserção anterior (a asserção inconsistente de que os gregos tinham conhecimento de que a Terra é plana, mas a Terra não é plana). Não queremos dizer que os gregos eram burros ou irracionais, pois do ponto de vista epistêmico esta era uma hipótese completamente razoável a eles. Agora, o fato de que eles massivamente acreditavam que a Terra era plana não faz com que a Terra seja plana.

Muitas pessoas têm ojeriza ao conceito de verdade, por que aprenderam que não é razoável/teoricamente frutífero crer que existe uma verdade ‘absoluta’. Sinceramente, não vejo qualquer sentido nesta ojeriza. O adendo ‘absoluta’ só vem a piorar um preconceito filosófico difundido pelos chamados ‘pós-modernos’ e por relativistas variados. O suposto problema em crer que a verdade é ‘absoluta’ é completamente acomodado quando passamos a ter a noção de que diferentes proposições podem ser verdadeiras em momentos diferentes e em espaços diferentes. Em t1 está chovendo, em t2 não está mais, etc., mas você não quer dizer que na Grécia antiga a Terra era plana, certo? (Não acrescenta nada ao que foi dito asserir: “a Terra era plana para os gregos“). Proposições contingentes e verdadeiras são completas quando acompanhadas pelos chamados ‘indexicais’: uma indicação de localização espaço-temporal. Done.

Por outro lado, vejo muito sentido em ter cautela nas nossas conclusões, em respeitar a evidência e a dinâmica das teorias científicas, em nunca ter uma certeza absoluta e inabalável sobre qualquer coisa, em sempre estar aberto a contra-evidências. Nada disso, porém, está em choque com o conceito de verdade. A mera existência da verdade não implica que aquilo que temos razões para crer ser verdadeiro seja de fato verdadeiro.

O ceticismo mora ao lado, e ele sempre vem a nos lembrar que talvez nossas razões para crermos no que cremos não sejam boas razões. O fato de nossas evidências não serem imunes a anulabilidade, porém, não tem qualquer implicação sobre a existência ou não de fatos. Os fatos podem existir sem que uma espécie inteira tenha acesso a eles. Uma coisa é viver este perigo, outra é cair no erro de tentar eliminar este perigo por meio de relativizações.

(obs: o único relativismo em questão aqui é aquele sobre a verdade; nada do que foi expresso aqui ataca, por exemplo, relativismo sobre valores, gostos, etc.)

8 comentários

  1. Oi, Luis.
    Duas observações:
    ” O suposto problema em crer que a verdade é ‘absoluta’ é completamente acomodado quando passamos a ter a noção de que diferentes proposições podem ser verdadeiras em momentos diferentes e em espaços diferentes. ”

    Pois bem, eu creio que tu sabes que Relativismo não vai por só uma coisa. Assim como tantos outros campos, os relativistas pagam pela molecagem de parte da scholarship, que apresenta argumentos toscos e chama eles de “relativistas”. Eu insisto nisso: relativismo, mesmo epistemico, is not a anything goes sort of ordeal. É só admitir que, por exemplo, expressoes similares em contextos diferentes podem ter significados completamente diferentes. Ou seja, admitir isso que tu colocou aí em cima.

    Eu entendo que a briga é com o CARTOON relativism. Mas eu me questiono até que ponto essa briga é realmente produtiva, na medida que é uma briga meio quixotesca. Exacerbar no relativismo ou no ceticismo até pode ser um bom exercício argumentativo, mas acho que para por aí – e eu me questiono em que medida até os que acreditam nisso vão ir nesse caminho.

    Creio que a pergunta é: a questão da verdade importa para o relativista? Se sim, então é possível dialogar com esse relativista, se não, ele está mentindo (a questão da verdade importa para ele, mas ele não quer ser sério).

    Dae, meu segundo ponto:

    “(obs: o único relativismo em questão aqui é aquele sobre a verdade; nada do que foi expresso aqui ataca, por exemplo, relativismo sobre valores, gostos, etc.)”

    Bem, por que relativismo sobre valores, gostos, etc, não é um relativismo que trata com questões de verdade? Para o cara que trata de moral a questão da verdade não importa? Eu acho que importa, e muito. Ao menos importa para mim. Por exemplo, eu acho que é verdade que torturar é errado, e eu acho que é verdade que certas práticas são tortura (na medida que causam sofrimento psíquico e físico irreverssivel). Acho que essas práticas tem um ELEMENTO de contexto, mas também tem aspectos universalizaveis (terror, medo, dor, panico).

    A questão me parece mais uma discussão entre realismo objetivo, idealismo objetivo, internalismo, externalismo e variações sobre esses temas (inclusive perspectivismo fenomenológico, ou fenomenologia transcendental – onde eu me coloco).

    em tempo: ” gregos antigos tinham justificação para crer que a Terra é plana: de acordo com as evidências que lhes era disponível, era racional para os gregos crer que a Terra é plana.”

    Não, não tinham. Porque teriam? I call bullshit. Gregos tinham todos os elementos para argumentar com razão a circularidade da terra (tanto que alguns argumentaram, e varios contemporaneos no Egito e no oriente próximo foram ainda mais longe). Aristóteles que era um tosco com a física dele.

    (excelente post)

  2. fabrício, na minha opinião a briga é produtiva sim. isso porque, em se tratando de relativismo sobre verdade é evidente que existe um erro com esta posição (por que um defensor do relativismo defenderia o relativismo se segundo sua própria teoria esta teoria não pode ser verdadeira?), e a minha preocupação é com os jovens, entusiasmados com a idéia da relativização. trata-se de uma preocupação pedagógica – daí o valor da discussão.

    “Eu insisto nisso: relativismo, mesmo epistemico, is not a anything goes sort of ordeal. É só admitir que, por exemplo, expressoes similares em contextos diferentes podem ter significados completamente diferentes” – nope. esse relativismo que você fala aí é semântico: uma teoria do significado. é diferente eu dizer que significados variam de acordo com o contexto e eu dizer que a verdade varia de acordo com o contexto. não existe qualquer conexão necessária entre estas duas teses.

    tbm concordo que o cara que trata de moral tem de se importar com a questão da verdade. só q neste post estou falando sobre um tipo de relativismo – sobre a verdade – e não sobre valores, gostos, etc. isso não implica que uma questão não seja importante para a outra (pode ser). tua posição sobre fatos morais é, digamos, corajosa. tendo a concordar contigo, mas não tenho bons argumentos.

    não entendi bulhufas sobre o que esta discussão teria a ver com internalismo, externalismo e ‘variações sobre estes temas’… será que voce entendeu direito estas vertentes teóricas?

    legal tu ter falado este lance dos gregos – txs pela info =] ignoro a história da astronomia, e usei este exemplo porque me parecia elucidativo. basta substituir o exemplo por qualquer crença científica justificada que acabou por se revelar falsa.

  3. Mas Luis, o que eu estou questionando é se tu não estas compreendendo de forma um pouco cartunesca o relativismo. Vê bem, existem relativistas que colocam a própria existencia da realidade externa em questão e blah? Sim, até existem. Existe um relativismo nihilismo tosco e tacanho? claro que existe. E acho que tu tem razão em ter uma preocupação até pedagógica contra esse tipo de postura. Até porque os resultados nefastos desse tipo de postura estão aí para serem colhidos em trabalhos sem pé-nem-cabeça.

    O que eu quero dizer é que tu pode ter diversas abordagens com relação ao problema da verdade, ou com relação ao modo como nos aproximamos de objetos. Um internalista, um externalista, um objetivista e por ai vai, vao ter perspectivas diferentes sobre isto – fundamentalmente, vão ter uma explicação diferente de como alguma coisa é compreendida enquanto alguma coisa, ou como é possível falar que a gente tem certeza sobre um determinado estado.

    Mas eu acho que esse relativista de quem tu fala, para quem a questao da verdade não importa ou está suspensa, é um relativista que importa menos – embora já tenha concedido que acho importante a tua preocupação pedagógica. Existem posturas relativistas que não incompatíveis com dizer que “x é verdadeiro” – mas apenas se preocupam em contextualizar alguns dos elementos para “x”, ou das formas como “x” pode ser percebido enquanto verdadeiro.

  4. marcosfanton · · Responder

    Luis,

    acho que esta forma de relativismo pode ser compreendida como relativismo radical – e é autocontraditório.
    Agora, nós temos, como o Fabs já colocou, outras formas de relativismo. Até o Puntel, por exemplo, afirma-se um relativista moderado, num sentido bem simples: não é possível compreender uma sentença, uma questão ou um conceito isoladamente; tudo isso pressupõe uma teoria ou algo do tipo.
    Acho que essa forma de tu colocar a questão é parecida com o Boghossian, que parte da ideia de que há verdades absolutas e sai mostrando inconsistências de todo mundo que rejeita essa concepção.
    Acho que mesmo um relativista moderado não daria o braço a torcer sobre isso e insistiria em dizer que aquilo que ele está falando é verdadeiro dentro de determinada teoria ou algo do tipo e ele tem boas razões para isso. No seguinte sentido: quando mudamos nossas teorias e nossa linguagem, mudamos, também, as coisas que estamos falando (e não entramos em desacordo sobre as mesmas coisas ou sobre os mesmos velhos temas).
    Talvez, o exemplo da frase “A terra é plana” poderia ser entendida em um contexto teórico mais amplo, pois ela não é solta, ela tenta explicar toda uma concepção de mundo e a relação entre indivíduos e o universo.

  5. bródis, é justamente do relativismo tosco q estou falando – aquele sobre a verdade. pode ser q tenha boas teorias relativistas sobre o significado, sobre a moral, sobre a estética e até mesmo sobre a justificação. incentivo o conhecimento e estudo de obras como a de rorty, puntel e outros. mas não estou conversando com os filósofos relativistas armados até os dentes neste post, saca? meu ataque é justamente no relativismo barato da “minha verdade” ou da “verdade para um grupo” que parece uma idéia encantadora aos jovens, mas é um erva daninha. a verdade (se há tal coisa) não é de alguém – aliás, note que toda a argumentação acima não precisa da pressuposição de que temos conhecimento de verdades. há um enorme diferença entre um condicional e a afirmação de seu consequente ou antecedente – daquelas propriedades formais que passam ao largo de muitas interpretações rápidas.
    thank you for the comments, guys ;)

  6. Relativismo deve ser coisa do capeta. Afinal, como já dizia o Mestre, “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” — na verdade, era o ex-reitor da Ulbra (aquele que foi pego com a mão na botija) quem sempre falava isso, tanto que basta olhar pro moto da instituição: “veritas vos liberabit”. Parece, todavia, que essa concepção metafísica de verdade, assim como a religiosa, transcende o sentido epistêmico e lógico-semântico visado pelo Luis em seu interessantíssimo post. O relativismo barato é esse mesmo dos pós-modernos ou das pessoas indiferentes ou até levianas. Totally agree!

  7. Gostei do post, prof.. Bem esclarecedor, ainda mais com os comentários.

  8. Obrigada profi Luis pelo Post e aos comentaristas também. Muito bom! Adoro esta era da informática onde a socialização do conhecimento chega a nós prontamente. Eu vivi em outra época onde o acesso ao conhecimento era mais difícil e também onde os professores nem sempre disponibilizavam aos alunos seus conhecimentos e discussões teóricas com seus parceiros.Abços
    debora

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