Sobre escolhas, sobre bifes com queijo

O Peter Singer tem um artigo que virou um clássico no qual ele leva o dilema do trem fora de controle ao limite.

O dilema do trem fora de controle funciona assim: temos um trem fora de controle se aproximando de um cruzamento de pistas e um indivíduo sentado na frente da alavanca que escolhe a pista. Na pista da esquerda temos cinco crianças presas nos trilhos, na pista da direita, temos um lindo Bentley (no artigo, ele usa um Bugatti) de propriedade do indivíduo sentado na alavanca. Vamos ilustrar um pouco o exemplo e dizer que o indivíduo não tem seguro para perda total.

Qual é a escolha moral racional do proprietário do Bentley?

Se o proprietário escolhe a integralidade física do Bentley e não a integralidade física das crianças, por exemplo, estaremos intuitivamente inclinados a dizer que o proprietário do Bentley é um monstro moral. Afinal, intuitivamente, é claro que devemos preferir a vida de crianças ao bem-estar de um Bentley.

O Singer, no entanto, acha que a situaçao não é tão simples.

Por quê? Porque a questão envolve egoísmo moral e como mitigamos as consequências de nossas escolhas morais. Pois bem, como podemos organizar a escolha moral do dono do Bentley?

1) Meu Bentley

2) A vida de 5 crianças

Ou seja, em todas as situações nas quais é dada para o dono do Bentley a escolha entre 1 e 2, ele escolhe 1 SEMPRE. Vamos admitir que o Bentley, nesse caso, é algo que o cara gosta muito. Gosta tanto, que gosta mais dele do que de crianças. Nesse sentido, tudo que está em jogo é uma manifestação de interesses. Eu tenho mais interesse em 1 do que em 2.

Singer diz o seguinte: a gente faz opções desse tipo o tempo todo. Toda vez que, por exemplo, optamos por jantar com uma mulher, ou homem, que queremos levar para a cama estamos optando pelo nosso bem-estar material – quando poderíamos, por exemplo, usar esse dinheiro para ajudar alguém passando fome na cidade onde moramos. Colocamos o nosso conforto, nosso bem-estar, e nossa excitação, na frente do bem-estar de outros para quem os $120 que acabamos de gastar em duas jantas podem ser a diferença entre vida e morte.

O argumento pelo vegetarianismo, atualmente, passa por opções desse tipo. Deixou de ser, apenas, uma discussão sobre animais e sobre o bem-estar de animais, mas sobre, por exemplo, como nossas escolhas diárias sobre o que comemos implicam em sofrimento para animais (humanos e não humanos).

Então, é verdade que animais (a partir de agora, por praticidade, vou usar animais como sinônimo para animais não-humanos) sofrem? Sim. Os animais que a gente usa, diariamente, para fazer roupas, para trabalhar, para produzir alimentos e para ser alimento, são, via de regra, capazes de sofrer, de entender a dor que sofrem e de evitar dor. Ou seja, são individuos conscientes, em grande medida, do que é feito com eles e de como coisas são feitas com eles.

Também é verdade que humanos sofrem na produção de comida. Agricultura é um negócio brutal, cansativo e, via de regra, injusto. As condições de trabalho de agricultores são horríveis – o êxodo rural não é apenas resultado do depreciamento do ambiente rural, é também uma consequência da brutalidade do sistema de produção agrícola. Pessoas detestam trabalhar no campo. Isso sem falar em trabalho nos frigoríficos ou na produção de couro – duas das funções mais brutais que qualquer pessoa pode ter.

A alternativa desenvolvida para reduzir o impacto entre consumidor final e produtor, então, foi a elaboração de modelos “éticos” de produção. Desde a produção de alimentos orgânicos, até modelos de negócio como fair trade e direct trade, existem diversos modos de “mitigar” as consequências éticas das tuas escolhas diárias.

O problema desses modelos, com algumas louváveis excessões como mercados públicos e feiras abertas, é que o custo para o consumidor final pode ser proibitivo. Fair trade, orgânico e direct trade viraram termos para vender produto para um determinado nicho – um nicho que gosta de pagar caro.

Uma das transformações fundamentais que permitiu a mudança na qualidade de vida e disponibilidade de bens no século XX (e essa foi uma transformação, com duas ou três excessões, percebida no mundo inteiro) foi o surgimento de meios para distribuição rápida e barata de bens de consumo. Pensem, por exemplo, no que acontece com o Brasil depois de 1989 e a abertura do mercado em 1992. Ainda que o país esteja longe do desenvolvimento da Europa ocidental, o brasileiro médio tem acesso a diversos bens de consumo que melhoram significativamente a sua vida : desde computadores até atum, passando por frango assado (FHC, 1996).

E agora que indivíduos podem escolher mais, o filósofo chega e diz: mas essa escolha, ela está matando pessoas!

Vamos deixar a hipérbole moral de lado por um segundo. Certamente é verdade, eu estou insistindo nisto para ser caridoso com os utilitaristas mais radicais, que existe uma perversidade na cadeia de escolha – de qualquer escolha. Mas a questão aqui é o peso de certos termos: por exemplo, quando dizemos que se é possível escolher entre um produto orgânico e um produto não orgânico, é preferível escolher o orgânico , estamos expressando uma preferência, e uma obrigação (se é que existe), fraca. É uma obrigação dada em um certo contexto, com certas condições.

Pois bem, mas o que o utilitarista diz é que é impossível ser ético e consumir produtos de origem animal. Esta entrevista com o Carlos (de quem  gosto muito), ilustra bem um problema sério na postura de alguns utilitaristas. Tudo bem usar hipérbole para vender o próprio peixe , mas creio que a coisa chega no limite quando acusamos quem discorda de estar afundado em uma postura inaceitável do ponto de vista ético.

E a coisa aqui fica ainda mais bizarra diante da relativização do argumento. Por exemplo, já ouvi argumentos dizendo horrores sobre qualquer consumo que não entre no modelo “fair trade”, mas mantendo uma saída pela esquerda na qual “ah, mas se o cara é pobre, então é aceitável”.

Existe um elitismo moral absurdo neste tipo de colocação. Afinal, se uma conduta é inaceitável, horrível e causa nojo, ela deve ser inaceitável, horrível e causar nojo sem maiores problemas de contexto. Quando pensamos em assassinato, não colocamos o porém “mas está tudo tranquilo se o camarada for pobre”. Quando pensamos em escravidão não falamos “mas a escravidão é aceitável em situações de dificuldade financeira”.

Não que os utilitaristas que se mantém em uma posição tacanha em defesa do fair trade estejam em uma situação melhor. É fácil pedir uma diminuição no padrão de consumo quando nascemos em uma posição na qual conseguimos consumir durante anos até ter uma iluminação e decidir que “puxa, quem sabe eu consumo de forma ética e orientada conforme o filósofo me ensinou?”.

Evidentemente, nem todos os utilitaristas caminham para essa postura. E nem todo o defensor desse tipo de postura tacanha é utilitarista. Os utilitaristas apenas são mais fáceis de compreender. Poderia-se, por exemplo, fazer um argumento do tipo deleuziano, demonstrando que tal sabotamento da própria possibilidade de escolha ética é um traço característico do capitalismo. Claro, isso seria manifestamente errado. O capitalismo contribui para a construção de um modelo de escolha muito mais justo e ético que os modelos que a gente tinha anteriormente. Deleuze, Scheler e outros nostálgicos de tempos que jamais existiram podem lamentar a perda do sentido comunitário que permitia aos alemães pobres comer batata e morrer aos 52 anos de idade por velhice – enquanto, é claro, aproveitam finos vinhos orgânicos.

Não existe nada de errado em querer impactar menos a comunidade na qual a gente vive. Não existe nada de errado em escolher parar de comer carne por sentir-se compelido diante da existência de consciência em animais. Não existem problemas morais em escolher coisas que fazem você se sentir melhor por ajudar (ou conceber estar ajudando, ainda que por engano) outros. Tudo isso é perfeitamente aceitável e até, em alguns casos, louvável.

Claro, temos motivos para desconfiar de pessoas que exageram no ascetismo. Até por que isso constuma ser sinal de alguém querendo esconder algum tipo de perversidade moral atrás da máscara da santidade.

Mas acusar de imoralidade o cara que escolhe comer um pedaço de bife é perder a dimensão, primeiro, da disponibilidade de escolhas, e do contexto no qual certas escolhas são possíveis. Segundo, é implicar que bilhões de pessoas fazem opções éticas inaceitáveis por não terem dividido uma iluminação contigo. É possível escolher ir para o restaurante vegetariano ao lado do restaurante de prato feito? Sim. Mas se o problema é coisificar animais, como fica a roupa que estou usando? Onde a gente para? Se a questão é apenas a redução do impacto, então o problema não está na coisificação, ou exploração, de animais em si, mas na forma como podemos reduzir e quando podemos reduzir tal impacto.

Ademais, ação individual vai fazer pouca diferença nesse contexto. Ao doar $120 para um mendigo faminto, você não tornou o mundo um lugar melhor. Você possivelmente tornou a vida daquele mendigo melhor, aliviou a própria consciência moral e agora pode ir para casa tranquilo. Mas esse tipo de situação, tal qual a situação do abuso de animais a e a situação desesperadora de muitos agricultores, exige ações coordenadas – e uma perspectiva tacanha, aqui, vai apenas afastar o filósofo do público em geral (como quase sempre é o caso, diga-se de passagem), restrigindo o alcance do discurso para uma platéia mais disposta a seguir sistemas rigorosos e elitistas. O pior é que com isso perdemos uma oportunidade importante de discutir aspectos realmente perversos da produção de alimentos, aspectos que, justiça seja feita,  Peter Singer trouxe para o debate de forma decisiva e importante.

17 comentários

  1. Bruno Coelho · · Responder

    O problema da comparação interteórica em ética pode ser estendido para este exemplo Bentley. Só em casos onde você admite a comparação entre o mal moral e um custo econômico é que se pode avaliar se a decisão dele foi correta. Filósofos defendem a não comparação. Contudo, pessoas e governos tomam decisões considerando implicitamente estes duas medidas, diariamente.

    Defender o utilitarismo se tornou sinônimo de vegetarianismo. Todavia, se listarmos problemas mais sérios que caso solucionados irão permitir o nascimento de trilhões de pessoas futuras, o tratamento dos animais continua sendo importante, entretanto menor. Penso aqui nos riscos existenciais.

  2. Desculpa, Bruno, mas não te entendi. Tu poderias me explicar o que é “comparação interteórica em ética”?

  3. O problema, como eu sempre digo, é filósofo querendo falar sobre coisas que nem na ciência há consenso:

    “A restrição a fontes vegetais de B12 por veganos relevam ser insuficientes para atender as necessidades diárias. Os estudos incluem pesquisas sobre as bactérias intestinais humanas, spirulina, capim seco, cevada, nori e outras algas. Vários estudos de matérias-primas alimentares vegetarianos têm mostrado que alimentos crus não oferece nenhuma proteção especial. É difícil distinguir a verdadeira B12 de análogos que podem atrapalhar o metabolismo de vitamina B12. Infere-se que a B12 análoga presente nos vegetais prejudica a absorção da verdadeira B12, tornando as fontes vegetais insatisfatórias. A Vegan Society recomenda aos veganos consumirem alimentos enriquecidos ou suplementos vitamínicos.”

    Citação da Wikipedia porque estou com preguiça e o assunto é demente demais. Mas é só procurar na internet para achar trocentos estudos a respeito.

  4. Bom, Walter, mas de novo: uma coisa é o cara querer ser vegano. Em ultima medida é problema (e escolha) dele.
    também é escolha do cara fazer um tratado sobre os benefícios de saúde de uma dieta vegana e crua.

    enfim.
    o que eu acho irritante é a cagação de regra e a defesa de modelos éticos que são super rigorosos, até que o cara se dá conta do ridículo e abre EXCESSOES (apenas para mostrar como é magnanimo)

    1. Ah, sim. Cada um come a alface que bem entender. O problema é que nunca fica só nisso. Exemplos aleatórios:

      http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI1606375-EI8141,00-Bebe+morre+desnutrido+e+casal+vegetariano+e+preso.html

      http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/04/trinta-meses-de-prisao-para-pais-vegetarianos-de-bebe-morto.html

      A resposta dos veganos, com se esperava, é a de que alimentaram mal. Então tá. Com religioso não se discute.

  5. marcosfanton · · Responder

    Olha, eu acho o seguinte: o Walter traz um exemplo interessante, mas acho que não atinge o alvo do que o Fabrício estava querendo dizer. Na notícia, nós poderíamos dizer que os pais alimentaram mal a criança – e uma pessoa que não é vegetariana também pode dar uma alimentação inadequada a ela (crianças com obesidade mórbida, alimentos sem nutrientes, etc, etc.).
    Acho que o Fabrício quis mostrar que vegetarianos (e nisso o exemplo do Singer) acertam ao questionar o modo como produzimos alimentos e como comemos, mas eles encerram o debate no mesmo momento que o começam, ao exigir um perfeccionismo moral de todos, quando, na verdade, isso é uma escolha particular e, ainda por cima, nem eles mesmos conseguem isso.
    Acho que esse estado paradoxal se encontra também no relativista absoluto que, ao apontar para as diversas concepções teóricas (de filosofia, ciência, explicações sobre o mundo, etc.) e práticas (sobre o bem, moral, etc.), acabam entrando em auto-contradição, pois sua própria concepção não pode ser relativizada.

  6. marcosfanton · · Responder

    Ah, no fundo, isso tudo para dizer que esse tipo de posição (ser vegetariano ou não, poder exigir relações ética entre animais ou não) deveria sempre passar por uma possibilidade de discussão e deliberação, pois de declaração científica sobre o que é uma alimentação adequada não se seguiria que deveríamos comer desse modo (enfim, mais sobre o mesmo, falácia naturalista, blábláblá). :P

    1. Do ponto de vista prático, não é questão de declaração científica sobre o que é alimentação adequada, e sim de ter muita gente séria com estudos sérios mostrando que não é possível alimentar bebês – e, portanto, eles crescerem de forma saudável – sem alimentos de origem animal, ou seja, com “reificação (transformação do animal em coisa) ou instrumentalização (utilização do animal como meio)”.

      Indo ao limite, é absolutamente sem sentido essa história de instrumentalização. O bebê instrumentaliza o peito da mãe (ou a mãe inteira, já que não dá para separar uma coisa da outra) por exemplo, quando está amamentando. Vamos voltar mais? Não existe sexo – e, portanto, reprodução – sem utilizar alguém como meio.

      O problema da coisa toda, portanto, é a histeria que transforma tudo em religião (nesse sentido, como o Marcos falou, esse tipo de teoria é mais uma entre muitas “escolhas particulares”). Mas, ao contrário do Marcos, não acho que se trata de deliberação ou discussão neste caso. Eu, por exemplo, jamais pensaria se estou instrumentalizando ou reificando animal ao alimentar uma criança. Tem gente que pensa, então boa sorte. Eu prefiro ficar com opinião médica dizendo que há problemas (e não porque medicina e/ou ciência são ótimos, perfeitos e maravilhosos, mas porque é o que temos – e, nem preciso dizer, é melhor do que filosofo de escritório dizendo como deve ser o mundo). Mas esse debate todo não tem nada a ver com ética – justamente porque estupra evidências científicas.

      Só estou usando o exemplo extremo do bebê porque, se tivesse sentido, o argumento teria que valer em todas as ocasiões (argumentar que bebês não contam, como já vi gente fazendo, é cretinice).

  7. marcosfanton · · Responder

    Eu concordo contigo nesse ponto do bebê e acho que, no segundo comentário, eu dei um passo maior do que poderia dar. Talvez (ainda estou pensando), ela poderia ser reduzida a pessoas que, sei lá, são capazes de deliberar ou algo do tipo. Vamos pegar o caso recente da anoréxica que a juíza praticamente “despachou para o bom JC e pediu para os familiares rezarem e aproveitarem os últimos momentos juntos” ou daquele cara com síndrome do encarceiramento que “se matou” ao parar de comer. Como tu argumentaria nesse caso? Tu acha que o Estado deveria intervir? Ou isso deveria ser responsabilidade dos familiares e, caso estes deixassem tais pessoas morrer, eles deveriam ser responsabilizados? Ou, ainda, isso é de inteira responsabilidade da própria pessoa? Afinal, já temos evidência científica do que eles precisam comer, etc.

    1. Por princípio, acho que o Estado tem que enfiar o bedelho o mínimo possível na vida das pessoas. Claro que tenho uma argumentação bonitinha para isso, mas, para resumir, a questão é que o Estado é incompetente (antes que alguém surte: a iniciativa privada também é).

      Nesses dois exemplos, o da Síndrome do Encarceramento e o da anoréxica, o Estado não tem que se meter. Trata-se de pessoas adultas que tomaram suas decisões sabendo o que estão fazendo, e sem causar danos diretos a ninguém. Sim, haverá sofrimento psíquico de parentes etc., mas isso não é dano direto.

      O Estado se meteu no primeiro caso e o resultado foi o cara morrer sofrendo de pneumonia por causa de desnutrição. Demência profunda.

      É diferente, por exemplo, dois dois exemplos dos bebês que eu citei. Bebês não têm autonomia para escolher sua própria religião alimentar. Por isso que os pais dos dois casos foram presos e acho que, nesses casos, sim, a porcaria do Estado tem que intervir. O segundo caso (http://goo.gl/bK0sN) é esclarecedor:

      “A necrópsia revelou uma carência de vitaminas A e B12 que, segundo especialistas, aumenta a vulnerabilidade a infecções e teria sido registrada “devido a um desequilíbrio alimentar”.”

      Portanto, não é só a ciência ela sozinha, coitada, que está dizendo. Tem um bebê morto por falta de alimento de origem animal para provar.

      Para encerrar, data venia, meritíssimo, acompanho a procuradoria:

      “A representante da Procuradoria ressaltou “a cegueira, a certeza de estar com a verdade” do casal, não colocando em questão o amor que sentiam por Louise, mas lamentou que “apenas uma coisa tenha prevalecido nesse amor: suas convicções”.”

      1. marcosfanton · ·

        – Sim, seguramente, por Zeus! Ó, Laques, acho que estamos de acordo nesse quesito. :P

  8. marcosfanton · · Responder

    No fundo, se eu tivesse lido melhor teu comentário: “Cada um come a alface que bem entender. O problema é que NUNCA fica SÓ nisso. “, não teríamos todos esses comentários. Filosofia = a arte de ler errado.

  9. marcosfanton · · Responder

    Walter, eu ainda não estou totalmente convencido. :P
    O meu problema é com a afirmação: “Mas esse debate todo não tem nada a ver com ética – justamente porque estupra evidências científicas.”.
    Oras, a questão é: por que consideramos criminoso ou patético alguém que deixa seu bebê morrer por uma alimentação inadequada (ou convicções sobre determinada alimentação)? Não seria perfeitamente possível pensar em uma sociedade cujos bebês que, até determinada idade, caso não se alimentem adequadamente, são descartados? (nós temos evidência científica sobre a perda cognitiva, etc. que bebês com desnutrição possuem). Enfim, me parece que toda vez que tu falas em “evidência científica”, isto também pressupõe algo como “é errado não cuidar adequadamente de bebês, de acordo com as evidências científicas que temos atualmente”.
    Ou, tu está tentando mostrar a própria impossibilidade de uma tal sociedade surgir, pois todos bebês com alimentação exclusivamente vegetariana morreriam (o que, acho, não seria o caso).

  10. Ok, abro mão do termo “evidência científica” e fico só com os bebês mortos. Hshs.

    Bom, como eu disse, acho que filósofo entra em terreno muito perigoso quando começa a opinar sobre coisas a respeito das quais não tem formação para entender, como aquecimento global (já discutido aqui no blog) ou nutrição. Aliás, esse é um dos motivos de existir tanta besteira escrita por filósofos na chamada bioética. Aliás, cadê a Raquel para opinar?

    O máximo que eu posso dizer é que está longe de ser simples provar que um bebê pode se alimentar minimamente bem sem “coisificar” ou “instrumentalizar” animais:

    “Mas o médico faz uma ressalva: a dieta vegetariana pode levar a carência de vitamina B-12, essencial para o organismo e presente em ovos e leite. “Principalmente para quem não usa nenhum derivado animal, a vitamina B-12 é uma suplementação que deve ser feita para as crianças vegetarianas”, acrescenta o médico Eric Slywitch. O presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo, Clóvis Francisco Constantino, aponta outro problema. “Os micronutrientes, como o ferro e o zinco, são muito mais aproveitados se forem de origem animal. É claro que é muito melhor nós ingerirmos nutrientes dos alimentos saudáveis do que vindo dos laboratórios da indústria farmacêutica”, observa. Embora considere fundamental o consumo de carne nos primeiros anos de vida, o médico não vê problema na alimentação vegetariana na fase adulta.” (http://goo.gl/OERTX)

    Que eu saiba, do que vi por afirmações de gente da área e pelos exemplos de bebês mortos porque não tomaram suplementos, SIM, é possível afirmar que “é errado não cuidar adequadamente de bebês, de acordo com as evidências científicas que temos atualmente”.

    As evidências científicas também mostram que “dieta super size me” não faz bem. Está cheio de exemplos de casos de briga por guarda de crianças alimentadas assim (http://goo.gl/GFHCg). É errado.

    Pessoas adultas querem ser veganas? Ok, tudo bem. Escolha delas, mesmo porque elas são plenamente responsáveis pelos trocentos cuidados necessários para não ficarem doentes com esse tipo de alimentação (o que já mostra um elitismo total, já que pessoas com baixa escolaridade não têm condições de ficar lendo e pesquisando sobre dietas mais adequadas).

    Mas se o argumento tem que ter o peso “moral” que muitos querem dar, é preciso explicar, entre MUITAS outras coisas, isto:

    1) caso o universo todo concordasse que é um absurdo “objetificar” ou “instrumentalizar” animais, como seria feito para alimentar a população humana.

    2) quais indústrias farmacêuticas seriam responsáveis pela fabricação e venda dos suplementos? [Aí já se começa a entrar em papo de maluco, principalmente para aqueles que defendem o “naturebismo”.]

    3) como se daria o cálculo entre porção nutricional de carne versos área plantada para atingir a mesma porção?

    4) se há um escândalo moral na “coisificação”, isso precisa virar crime. As sociedades atuais concordam que matar um inocente humano é um problema moral. Se passássemos a concordar que matar um animal inocente (existe isso?) também é um problema moral, teremos que mudar o sistema penal e criar penas – de preferência, de prisão, para não se correr o risco de a pessoa sair por aí matando primeiro frango que encontrar.

    Para concluir, aí sim do ponto de vista filosófico, tem um problema gigante nesse “naturebismo” meio à la Rousseau. Na filosofia política, por exemplo, tem surgido muito lixo sobre quase que uma “volta do bom selvagem”, os índios como modelo de vida contra a tal da opressão do mundo ocidental etc. Bom, não há evidência alguma de que uma tribo de índio seja composta de menos ou mais canalhas do que o plenário de um supremo tribunal, os padres de uma paróquia ou um departamento de Filosofia. O que é “uma vida natural” aí? Quem se encaixa melhor no papel de bom selvagem?

    Coisa muito parecida ocorre com esse papo de ser possível abrir mão completamente de alimentação de origem animal, já que esse tipo de alimentação seria algo dispensável e não é “o natural”. Como já disse, tem bebê morrendo sem suplemento alimentar. Mas, pensando em outra hipótese, também se poderia dizer que “não é natural que mulheres sejam mais fracas do que homens” (por isso, para quem não se deu conta, tropas de choque não são compostas por mulheres, senão apanhariam). Vai fazer o quê? Instituir uma lei que dá bomba e obriga as mulheres a fazer musculação a partir de certa idade para que elas fiquem tão fortes quanto os homens? Se é possível reverter algo para voltarmos ao verdadeiro “natural” com boleta, então tudo ok?

    Nenhum desses argumentos se sustenta contra o mínimo questionamento vindo de fora da bolha filosófica.

  11. Bom, percebam que eu nem entrei muito no terreno do veganismo.
    E é importante estabelecer uma linha aqui, que existem graus de “prática” ou de ativismo com relação ao vegetarianismo ou ao _____ (coloque aqui qualquer tentativa de salvar o mundo).

    Por exemplo, não é verdade que crianças (ou bebês) não podem ter uma dieta vegetariana. Podem. Mas é complicado se tu diz “meu filho é vegetariano”. Eu acho parecido com a idéia de colocar uma criança dentro de uma igreja. Uma criança não é vegetariana, ela é filha de pais vegetarianos. E isso pode ser complicado, se traz consequencias negativas para aquela criança. Mas não acho que essas escolhas sejam, no geral, irreverssiveis. Uma criança vegetariana pode se tornar um adolescente que come muita carne (e a carne, sabe-se, é fraca).

    De novo: meu ponto não é tanto com o vegetarianismo ou veganismo, mas com o perfeccionismo moral. Especialmente pq é uma postura impossível. Quer diminuir o próprio impacto no meio ambiente? Ótimo. Perfeito. Vai lá e te ilude sobre como tu tá mudando o mundo. A questão é a hipérbole moral que vai anexada ao problema. Cacete, acho sensacional isso. O cara fala de fair trade, mas nao percebe que ta defendendo um modelo que náo é apenas insustentável, mas que em alta rotatividade criaria mais problemas do que soluções – além de tornar acesso a certos produtos mais dificil.

    Acho lindo que agora temos que ser ensinados por uma elite intelectual e financeira de como devemos consumir menos – justamente no momento que individuos finalmente podem consumir! Acho também lindo uma certa cagação de regra sobre práticas quotidianas. Daí o escandalo da comparação do Singer entre produção animal e escravidão. Escravidão nunca foi algo comum entre uma parte significativa da populacao. Pelo contrario. Quem tinha escravos era mais ou menos o pessoal que hoje compra direct trade.

  12. Oi, Fabricio, muito legal o texto. Ele me fez refletir sobre o porquê de eu achar o tipo de dilema que vc aborda muito curioso do ponto de vista teórico, ao mesmo tempo em que sou completamente indiferente a ele do ponto de vista pessoal. Ocorre que, para mim, a questão é simples: eu salvaria as crianças (ou até mesmo um cãozinho simpático), em vez de salvar meu lindo Fiat 500, porque eu sentiria piedade, e por nada mais. Propriamente falando, eu só acredito em dois DEVERES morais: 1) não iniciar violência, 2) não cometer fraude. O resto, como a caridade, por exemplo, para mim, pertence ao domínio dos sentimentos, e não deveria ter caráter normativo algum do ponto de vista racional. Além disso, eu não reconheço estatuto moral a um ser qualquer pelo simples fato dele ser dotado de consciência. Então, se e quando evito crueldade contra os animais, é por pura piedade, ou seja, por um sentimento que, eventualmente, ocorre em mim, como poderia não ter ocorrido. Em suma, eu como carne sem um pingo de remorso (acabei de comer) e os dramas do Singer não me afetam. Um abraço

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