A fila do Chick-fil-A e a liberdade de ser um imbecil

titulo alternativo: Vulnerabilidade e a tolerância ao intolerante

Hora do almoço. Pego minha sacola com comida congelada, suplementos e barras de cereal. Me junto com a Tatiana, e vamos para o Student Center da SIU comer nosso almoço. É verão, o campus está relativamente vazio. Fila na entrada da lancheria. A lancheria da SIU tem várias empresas oferecendo almoço, uma delas é especializada em sanduíche de galinha à milanesa – a Chick-fil-A (fala-se Chiken Fillet).

Estranho.

Tati me chama a atenção: “hoje é Chick-fil-A appreciation day“. Eu reajo “mas que bando de filho da puta”. Passamos pela fila, falando todo o tipo de absurdo para as pessoas ali presentes (em Português, é claro).

Mas por que tanta revolta?

Já tem algum tempo que o Chick-fil-A é acusado de ser um pouco menos que tolerante. Durante a campanha para a legalização do casamento homossexual na Califórnia a empresa foi uma das maiores contribuidoras para que a proposta de restringir o casamento apenas para união heterossexual  fosse votada como válida no plebiscito.

Ali, a coisa já começou a ficar complicada. Mas faz pouco mais de duas semanas que o dono da empresa foi para a imprensa falar que era a favor da “definição bíblica de família como a união de um homem e uma mulher”, e seguiu falando aquele discurso que a gente já conhece, que envolve indignidade, modéstia, e tornar homossexualidade algo parecido com uma doença horrível que precisa ser curada (de preferência com muita oração). A declaração do cidadão foi a seguinte:

“We are very much supportive of the family — the biblical definition of the family unit. We are a family-owned business, a family-led business, and we are married to our first wives. We give God thanks for that…we know that it might not be popular with everyone, but thank the Lord, we live in a country where we can share our values and operate on biblical principles.”

[Realmente damos muito suporte para a família – a definição bíblica da unidade familiar. Somos um negócio familiar, um negócio liderado pela família, e somos todos casados com nossas primeiras esposas. Damos graças ao Senhor por isso… nós sabemos que isso pode não ser muito popular com todos, mas graças ao Senhor, vivemos em um país onde nós podemos dividir nossos valores e operar em princípios bíblicos]

O Dan Cathy tem razão.

Calma, calma.

Eu quero dizer que ele tem razão quando diz que vive em um país onde ele pode dividir os valores que bem entender, da forma que bem entender. Isso se convencionou chamar de democracia. Quanto mais aberta uma democracia, mais diferentes pessoas tem a liberdade de falar as mais diferentes bobagens. Não tem nada de errado com pessoas tendo a liberdade de falar coisas intolerantes.

Ou tem?

Essa é uma discussão complicada. E parte dela presume que a gente aceita uma discussão satélite, sobre vulnerabilidade. Homossexuais são vulneráveis? Mulheres são vulneráveis? Políticas voltadas a proteger estes grupos de discriminação são políticas de proteção ou de vitimização?

Eu creio que qualquer pessoa com uma resposta rápida a esse problema está se iludindo. Será que o Chick-Fil-A tem a liberdade de não contratar empregados homossexuais? De discriminar um potencial comprador de uma franquia, que por o acaso é homossexual?

Claro, parte da pergunta é por que um homossexual gostaria de fazer negócio com uma empresa evidentemente comprometida com valores que consideram ser homossexual um problema moral, psíquico e uma afronta. Mas, vamos considerar que um homossexual quer.

E aí?

Tu tem a liberdade de não permitir que um homossexual entre na tua casa, certo? Será que tu pode ter a liberdade de não deixar ele entrar na tua empresa?

A gente quer acreditar que vivemos em uma sociedade onde o Estado não precisa mitigar todos os aspectos das nossas relações sociais. Do ponto de vista ideal, é claro que podemos conceber uma situação na qual empregadores não contratam pessoas que não gostam, e, por outro lado, quem se sente atingido não vai dar suporte para aquele negócio, tornando impossível a postura odiosa do empresário.

Acontece que não vivemos em um cenário de igualdade material. Pessoas fazem opções com os próprios bolsos mais frequentemente do que com a própria consciência. Talvez isso seja sinal de uma característica antropológica horrível da nossa espécie, talvez seja um sinal que de que a gente chama de consciência moral é um luxo que  jogamos no lixo quando precisamos comprar comida mais barata.

E é aí que entra o Estado, certo? Para mitigar essas situações de vulnerabilidade.

Só que daí temos algumas opções, todas  um tanto desagradáveis.

Por exemplo, o prefeito de Chicago e o prefeito de Boston proibiram a abertura de lojas do Chick-fil-A nas cidades, dizendo que a postura da empresa era detestável, e que a cidade se reservava o direito de não aceitar negócios desse tipo. Assim como não aceitaria, imagino, negócios que dessem suporte para políticas de segregação racial.

Outra ideia seria introduzir legislação de cotas, dizendo que empregadores tem que dar “oportunidade igual” para empregados potenciais, independentemente de orientação sexual, gênero, raça etc.

Nos dois casos, o problema é: as pessoas vão mentir.

A legislação, nestes casos, vai cumprir um papel meramente formal. No primeiro, donos de empresa vão parar de falar em público as coisas odiosas que eles tem para dizer sobre os próprios valores (seguindo falando, é claro, na privacidade da própria igreja, da própria casa, da própria reunião de negócios), e vão dar um jeito de dar grana para outros filhos da puta que apoiam o mesmo tipo de causa que eles identificam como “válida” – sempre se dá um jeito de fazer grana circular, claro.

No segundo caso, os empregadores vão alegar que estão selecionando os melhores. Pouco importa que os “melhores” sejam membros do mesmo grupo social dos empregadores – ou seja, não se encaixam no perfil que o Estado gostaria de ver contemplado na empresa. Eles dão oportunidade igual aos potenciais empregados, não é culpa deles que os selecionados não se encaixam no perfil “vulnerável”.

A minha solução, então, é fazer nada?

Claro que não. Como eu disse, eu me sinto capaz de tomar minha decisão de não comer mais no chick-fil-a, e também decidi que se qualquer conhecido tivesse naquela fila hoje, eu teria imediatamente decidido parar de falar com aquele imbecil. Gostaria que a SIUC tomasse essa decisão por mim, expulsando o local do Campus? Não. Não gostaria. Tenho minhas reservas ao modelo que a SIUC escolheu para administrar os restaurantes no campus? Sim. Mas isso é, fundamentalmente, um problema meu. E eu lido com ele trazendo a minha própria comida e me recusando a escolher entre  McDonalds, Blimpie, Chick-fil-A ou alguma outra alternativa oferecida dentro da universidade (todas igualmente horríveis).

Mas isso pressupõe a minha capacidade de tomar essas decisões, inclusive a minha situação econômica, que me permite comprar comida congelada e trazer para o campus (acho que comer no chick seria mais barato, embora não muito). Os que não têm essa prerrogativa deveriam ser protegidos da própria falta de escolha através de políticas administrativas que vão diminuir a tua possibilidade de apoiar – por falta de alternativa – uma empresa horrível?

Tem um certo perfeccionismo moral que me incomoda na segunda alternativa. Pois bem, no caso do Chick-fil-A isso está claro: o dono da empresa é um imbecil. Mas e todas as outras empresas, que certamente têm donos imbecis, mas espertos o suficientes para não falar em público, essas empresas se beneficiam por mentirem, enquanto ficamos satisfeitos diante da punição da empresa que ao menos foi honesta sobre a própria postura odiosa?

A coisa que eu vejo de boa neste Chick-fil-A appreciation day é que o intolerante se torna visível. Ele tá bem claro, ali na tua frente. Sabemos que as pessoas na fila, hoje, apoiando aquele negócio justamente por ser intolerante, essas pessoas também são intolerantes. A pior coisa que podemos fazer sobre essas questões é varrer a presença delas para debaixo do tapete, com políticas administrativas – que, via de regra, não funcionam.

Estes mesmos sujeitos seriam os babacas que pouco tempo atrás teriam gritado junto com o Wallace em favor da segregação racial – muitos deles ainda não se conformam com a “mudança” nos valores fundamentais do Sul, tão incompreendido.

Essa visibilidade é o que me faz ser a favor, por exemplo, que a gente permita que idiotas marchem fantasiados enquanto entoam hinos do terceiro Reich. Assim como acho totalmente válido organizar uma galera para ir tocar tomate nos idiotas enquanto eles marcham. Mas claro, nada disso ajuda na posição de vulnerabilidade de pessoas que são atingidas pela naturalização deste tipo de atitude – e daí entra uma coisa que a Hannah Arendt sempre insistia, sobre a forma como o discurso e a prática política no dia-a-dia “colonizam” a sociedade como um todo, e daí o perigo de achar muito normal esta postura intolerante: ela acaba sendo naturalizada, normalizada, e com isso cria efeitos, no longo prazo, nocivos para setores da sociedade que se beneficiaram da abertura política em democracias liberais – as mesmas democracias liberais que querem permitir a liberdade de expressão.

É um dos grandes paradoxos da democracia liberal: o aumento de liberdade leva, no longo prazo, para a naturalização de todo tipo de discurso – inclusive totalitário, e daí para a potencial perda do espaço democrático.

7 comentários

  1. só para começar, pois não tenho tempo agora: existem ações afirmativas e controle social (governamental) sobre posturas intolerantes de quaisquer grupos, inclusive empresas. É possível fazer este controle, pois para o direito, pouco importa o que se fala e muito o que se faz. Não há justificativa racional para um empresa contratar somente brancos, ou somente católicos. Se rastrear, identificar e fizer uma investigação, vai achar – e punir – os maiores. Assim, com exemplos positivos de punição à intolerância, se começa a mudar. E, por fim mesmo agora, nos EUA e Europa são muito comuns grupos da sociedade civil que se organizam justamente para protestar e ajudar na modificação desta cultura. Então, penso que pode-se agir sim, seja como vocês fizeram, seja através de ações coordenadas.

  2. olha, para mim segue a mesma questao de antes: vão mentir descaradamente para esconder que estão fazendo merda. se não usarem controle racial ou de comportamento, direto, vão usar uns termos mais sutis – tipo, preço, que é outra forma excelente de “selecionar” teu público.

    agora, ação social (de todo tipo) sempre me parece funcionar quando não se leva a sério (por exemplo, jogar purpurina no pessoal na fila do Chick-fil-A hoje), mas isso também presume um certo nível de liberdade individual.

    Mas, por outro lado, concordo que o Estado tem que agir mesmo para tentar punir empresas que agem de forma discriminatória – pagar menos para mulheres na mesma função que homens, por exemplo. O problema é provar isso. a questão da mesma função é clássica. tu pode simplesmente colocar uma mulher num cargo “diferente” do homem (embora com a mesma função) e justificar assim a remuneração menor.

    tu pode dizer que a ^natureza^ do trabalho não admite homossexuais no local (tipo escola primária, por exemplo). ou qualquer outra forma de ^mitigar^ buracos na lei. ou tu pode simplesmente mentir. não tem negro na tua empresa por coincidência. não tem negro na tua empresa em cargos de direção, por coincidência, e por aí vai. nem sempre a ação é abertamente racista, sexista ou etc.

    como eu coloquei: vão mentir sempre, e isso acaba tornando a legislação um conforto formal. isso significa que eu sou contra a legislação? Não exatamente. mas não sou otimista sobre este tipo de medida.

  3. Concordo com o Fabrício.

    Parece que o problema inevitavelmente desemboca numa direção oposta: a do campo moral. Tentamos solucionar um problema, a princípio, com medidas de caráter político, no caso, com medidas jurídicas. Porém, ao assumi-las, nos deparamos com problemas que não são do escopo jurídico. E é aí que a situação se complica. Iremos proibir as pessoas de mentirem?

    Diagnosticamos o problema como um problema político e receitamos doses normativas para solucioná-lo. Porém, as doses se tornam homeopáticas, ou melhor, quase que ineficazes, pois as pessoas podem driblar a norma, neste caso, simplesmente mentindo. E como bem sabemos, o Estado não averigua intenções, mas meramente a ação efetuada.

    Aí se faz a pergunta, até que ponto faz sentido apoiarmos tais medidas?

  4. Oi Gustavo,
    eu acho que faz sentido na medida que a gente espera que as “regras” expressam, ao menos um pouco, um grau de rejeição Estatal contra certo tipo de ações, assim como protege pessoas em situações vulneraveis.

    Como escrevi, eu tenho problemas com o conceito de vulnerabilidade, desde uma perspectiva, digamos assim, “justa”. Em uma sociedade justa e equalitária, eu acho complicado trabalhar com o conceitos como “vulnerável” ou “em risco”. Acontece que não vivemos em sociedades ideiais, dae a gente acaba dependendo de medidas de “força” para garantir um campo mais “leveled”, como diriam os americanos.

    Eu concordo, no entanto, com o nível de ceticismo sobre a efetividade destas normas. Mas eu acho que elas adquirem uma importância simbólica, primeiro para os setores da sociedade que são mais vulneráveis, depois para servir como uma espécie de posicionamento oficial. Por exemplo, será que não queremos que o Estado se posicione como favorável a igualdade material entre situações análogas? por exemplo, por que união homosexual e união heterosexual devem ter tratamentos diferentes por parte do Estado? o que justifica isto?

    E daí entra no que a gente tava falando sobre a “colonização”. Quanto mais abertura a gente dá para liberdade de expressão contra o que consideramos posturas decentes, mais estes discursos “indecentes” tomam conta do pedaço, e “poluem” conquistas importantes (tipo, liberdade sexual).

    Então, meu problema em questionar o sentido de apoiar a medida é que a gente fica em cima do muro em questões de direitos – ainda que sejam meramente formais. E eu acho que esse em-cima-do-murismo, no longo prazo, acaba sendo depreciando coisas que no fundo a gente valoriza para caralho – e o importante de lembrar é que o intolerante JAMAIS vai ficar em cima do muro.

    (ps: o título do blog – não sei se é teu, mas é o link que tu colocou – é das coisas mais fantásticas que já vi)

  5. […] modernas, e os Estados Unidos não são excessão – como o Fabrício explicou em um outro post, democracias liberais permitem a emergência de grupos radicais. O problema, e os eventos recentes […]

  6. …Famila = Homem + Mulher geram Filhos e Filhas ou Mulher + Homem geram Filhas e Filhos…

    * Homem com Homem não geram, adotam!!!
    * Mulher + Mulher não geram, adotam ou inseminam artificialmente com sêmem de homem

    Pode até haver Amor entre H+H ou M+M, porém é o que acredito ser a estrutura básica familiar e funcional… mas tolero a homossexualidade pois apenas DEUS pode julgar…

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