Digno de Nota (VI)

(Para quem não vem acompanhando o distropia: a cada fim de semana destacamos algumas notícias da semana. Desta vez coube a mim fazer o “digno de nota”)

A última semana foi marcada por repercutidas notícias como Londres 2012, novas renegociações com os docentes das federais, preparação para o julgamento do mensalão, impasse na Síria, o previsível fiasco das ações do Facebook, a troika na Grécia e a problemática possibilidade da sua saída do Euro. Mas eu quero destacar aqui concisamente quatro outras matérias, que exemplificam bem problemas atuais que me parecem menos explícitos.

A primeira matéria discute a difícil tarefa de conjugar atualmente trabalho e maternidade, exemplificada na polêmica gerada em torno da gravidez da nova CEO do Yahoo!, que foi  alvo de duras críticas entre executivos pelo fato de estar grávida. Isso, na minha opinião, mostra um sério, mas bastante recorrente problema atual de priorização do trabalho a custo da abdicação de relações do âmbito pessoal e familiar (Aqui, para quem tem acesso, o link original da matéria no Financial Times).

Uma segunda questão é exemplificada por essas matérias que mostram duas facetas antagônicas em torno do casamento gay nos EUA. Enquanto a primeira comemora alguns exemplos desde a legalização do casamento gay em Nova York, a segunda (dica do Fabricio) apresenta um exemplo da primeira astronauta norte-americana, cuja companheira de 27 anos não tem direito, pela lei federal norte-americana, a qualquer pagamento de benefício social. No entanto, é preciso destacar que estamos falando aqui de um contexto específico. Para efeitos de comparação é só lembrar disso aqui, ocorrido logo depois do caso do afegão que executou em público a mulher que supostamente lhe havia traído, cujo chocante vídeo rodou pela internet. Isso mostra o quanto mudanças são lentas, mas que me parece haver uma tendência de enfocar esse tipo de debate somente em alguns contextos, enquanto outros, onde problemas desse tipo são extremamente mais graves, são menos tratados.

O terceiro caso que destaco é o do atirador do Colorado.  Além de termos vistos, como reação mais “óbvia” (e tola),  um aumento vertiginoso, no dia seguinte ao atentado, do número de compra de armas, é não menos impressionante o reducionismo e a estigmatização feita em torno do ex-doutorando em neurociência, James Holmes. Assim como no caso do  norueguês Anders Breivik, acho que há uma tendência na mídia não só a uma ingênua abstração de contextos,  mas também a de por questões em termos como “quais seriam ‘as reais motivações’ (!) do atirador” e coisas do tipo, como se estivéssemos lidando com um sujeito com motivações racionais, livres e tudo o mais que americano adora querer tomar como pressuposto  (um outro enfoque bem mais interessante é p. ex. o do filme ‘We need to talk about Kevin’). Bem, uma reação mais lúcida foi a de provocar uma rediscussão mais séria sobre posse de armas, o que, no entanto, é só uma das questões – restringindo-se a posse de armas evita-se uma condição na maioria dos casos necessária, mas não suficiente (não é todo mundo que tem uma arma que vai sair atirando, mas se você tem uma arma é mais fácil matar alguém).

Concluo com um momento tablóide ou nelson rubens-clodovildês: a separação do casal Crepúsculo. É claro que a reação típica da mídia não poderia passar de um moralismo maniqueísta, impedindo qualquer tipo de reflexão. Mas, sinceramente, eu acho que há, em casos desse tipo (esse é somente mais um e que envolve famosos), um interessante teor filosófico em torno de teoria da ação e teoria moral, mas que é negligenciado em tais fatos, tão frequentes quanto estigmatizados irrefletidamente. É claro que estou me referindo não à mídia, mas pego este mote para instigar uma reflexão sobre questões sobre amor e traição, como p. ex. sobre o conceito de akrasia (vontade fraca, ou quando se faz algo apesar de querer fazer outra coisa) ou sobre contextualização e distinções de ações e motivações, etc.. . Mas isso daria um outro post. Por enquanto, deixo, sobre isso, apenas uma indicação de filosofia de boteco de um texto do Xico Sá, provavelmente mais convidativo para um dia de domingo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: