The Drone Wars

Não é incomum ver veículos aéreos controlados por computador, sem tripulação,  aqui no sul de Illinois. Já tem quase dez anos que o governo americano usa os “drones” para fazer reconhecimento de terreno, controle de desastre, vigilância e medições em áreas rurais. A paranoia local também sugere que os mesmo veículos  são usados para espionagem e para “escolta” de material delicado, transportado por terra.

Na cabeça dos conspiracionistas, funciona assim: o exército quer transportar materiais de natureza “delicada”, digamos, de Fort Campbell (onde são treinadas as tropas de elite do exército norte-americano, aquelas que tocaram o terror no Osama), para a SCOTT Air Force Base (onde, entre outras coisas, eram produzidos e encaixotados os mísseis SCUDS, que transformaram o Iraque em um queijo suíço na gestão Bush I). Saem, então, alguns caminhões movendo este material. Para evitar “problemas”, estes caminhões são escoltados, via aérea, por drones, que se certificam que nada de “estranho” vai acontecer com os caminhões no caminho (FNORD).

De qualquer forma, a verdade é que o uso civil dos drones não é novidade. O que ficou claro, nos últimos cinco anos, é que todo este uso “civil” dos drones foi uma espécie de ensaio. A questão era a viabilidade financeira e estratégica do uso dos drones em um contexto militar, e os motivos não podem ser mais óbvios.

Muita guerra para pouco soldado

Os Estados Unidos têm um aparato militar comprometido com forças em um número de países ridículos. Além dos três países onde os Americanos insistem em manter forças de combate (Iraque, Afeganistão, Paquistão), ainda existem diversos soldados dispersos em locais considerados de alto risco (Coréia do Sul, Leste Europeu) e gente mobilizada para dar conta das logísticas de transporte de tropas no Oriente Médio inteiro, sul da Ásia, norte da África e, (cof-cof-cof), América Latina.

Detalhe para o mapinha de 2001-2:

e o mapa de 2008:

Com toda essa gente dispersa, os Estados Unidos simplesmente não conseguem mais treinar e mandar soldados para o campo em tempo hábil para dar conta dos interesses estratégicos em países como Síria, Líbia, Paquistão, Afeganistão etc. Então, o desenvolvimento de uma tecnologia de ataque e espionagem que te permite não enviar pessoal para arriscar o pescoço em situações de combate, e também economizando recursos e pessoal para treinamento e envio de tropas acaba sendo uma necessidade.

Mas, claro, não é só isso.

Uma estratégia dominante, uma vitória sem perdas

Nos termos da teoria da Escolha Racional, a estratégia dominante mais óbvia em caso de conflito é a que te permite ganhar controle de uma situação mitigando os teus riscos. Digamos, se tu tens a opção de vencer um jogo sem comprometer nenhum dos teus recursos mais valiosos, qual motivo tu terias para não adotar essa estratégia? A opção pelos drones é uma obviedade utilitária do ponto de vista militar e estratégico: ela te permite destruir um alvo, não comprometer os teus cidadãos no caminho, e fazer operações de guerra sem, de fato, estar em guerra.

Como assim?

É relativamente simples. Um monte de avião sem tripulação largando bomba em território estrangeiro não devolve caixões com a bandeira dos Estados Unidos em cima. Eles não têm que justificar o envio de tropas, não têm sequer que consultar o Congresso para autorizar o uso de força letal do tipo militar em território estrangeiro. Por quê?  O motivo é simples, os drones existem em um vácuo legal, eles não são, exatamente tecnologia militar (afinal, a origem é de um mecanismo civil, esqueceram?), e eles também não entram dentro da competência do congresso. Eles são administrados por controle de espionagem, como são as missões da CIA e da Interpol, e por isso não precisam do congresso.

Mas, Fabrício, a gente vai ignorar os problemas de natureza moral e ética que esse tipo de raciocínio traz para a pauta?

Um gesto vazio, um precedente arriscado

Nenhuma tecnologia militar é perfeita. Muito menos drones. A ideia do jogo ideal, aquele que é o melhor resultado possível para ti e o pior resultado possível para o teu inimigo, esse jogo só existe no quadro de cenários possíveis considerados no desenvolvimento de uma estratégia. E, claro, na manifestação oficial do governo para a imprensa. No mundo real, esse cretino que insiste em não obedecer concepções rigorosas de qualquer coisa, as coisas são mais delicadas.

Primeiro lugar, os drones tem um reflexo complicado: eles não são confiáveis. Existem precedentes de ataques com drones acertando civis norte-americanos em território sírio, além de histórias envolvendo o sequestro digital de aviões norte-americanos em território iraniano. O caso do Irã é particularmente preocupante, porque tudo indica que a produção dos drones é relativamente barata e rápida – ou seja, copiar a engenharia da arma é relativamente fácil e sem custos, ao contrário, por exemplo, de uma arma nuclear. Certamente, os Estados Unidos não precisam se preocupar com o México enviando drones para espionar o território norte-americano. Mas imaginem a Rússia povoando os céus europeus com este tipo de tecnologia – ou o Irã, fazendo a festa nos países vizinhos.

Além de tudo, existem evidências para questionar a eficácia dos drones em atingir o alvo desejado – e o nível de certeza que o alvo desejado, no caso, realmente é uma base para produção de armas, e não uma escola primária. A segunda hipótese, inclusive, nos remete para uma outra repercussão da tecnologia: escudos humanos.

Uma fábrica de armas (sala 201), uma escola primária (sala 304)

Vamos dizer que você, amigo leitor, está responsável por produzir munição para fuzil no interior da Líbia. Parabéns, você acabou de virar um alvo! Como resultado, o senhor vai ganhar a certeza de um belo míssel na cabeça nas próximas semanas!

Nesta situação, e diante dos risos do seu superior quando você sugeriu instalar uma bateria anti-aérea nas rendondezas da fábrica, o que você faz?

Bom, você tenta virar a situação para o seu lado. Como? Simples. Transforme a sua fábrica de armas em uma escola primária em poucos passos: primeiro, continue produzindo armas, talvez usando os alunos da rede primária. Depois, ofereça um plano de educação básica (Welfarismo já chegou no mundo todo) aos empregados. Parabéns, agora você também é um educador!

O que acontece, então? Ataca-se a suposta fábrica de armas. No dia seguinte, a imprensa noticia que um ataque via drone matou doze civis em uma escola na Líbia. Mas não era uma fábrica? Não na segunda-feira.

Um dos pontos dos defensores da tecnologia é que ela minimiza a perda de soldados e de civis em operação para “controle” (leia-se assassinato) de indivíduos hostis. Achei este site com um apanhado dos ataques de drones registrados e as mortes de civis no Paquistão. Lendo os resultados, realmente parece que não houve muitas causalidades civis (no que consegui ler, apenas seis ou sete mortes). No entanto, acho que podemos todos concordar que a definição de “militant” é um tanto delicada.

A morte no cálculo utilitário

Nesse sentido, existem razões utilitárias para o uso de drones? Do ponto de vista imediato, eu tenho poucas dúvidas em responder que “sim”. Por exemplo, o Obama tem excelentes resultados pragmáticos para oferecer desde a adoção dos drones: o desaparecimento de figuras de alto escalão nos grupos terroristas virou rotina. E mesmo a operação para a morte do Bin-Laden poderia ter sido feita com um drone (sugestão, inclusive, defendida pelo Biden), se o Obama não tivesse preferido a presença de soldados no caso (e eu espero que vocês entendam a obviedade publicitária desta opção).

Mas no longo prazo? Bom, no longo prazo é mais difícil saber. O Reino Unido, aliado dos Estados Unidos nas operações no Paquistão-Afeganistão-Iraque, já tem reclamado de forma incisiva sobre o uso da tecnologia, alegando que esse tipo de operação virou uma poderosa propaganda de recrutamento na região. Muita gente também tem demonstrado um certo desconforto com a banalidade da decisão nesse caso: aviões não tripulados, controlados remotamente, matando indivíduos que depois são denominados “militantes”.

Certamente, esse perigo existe em operações militares de qualquer natureza (assim como em operações policiais, diga-se de passagem). Mas o problema do drone é a completa falta de um contra-ponto doméstico. Em um grupo de 50 soldados envolvidos com uma operação de natureza questionável, sempre existe a possibilidade de cinco ou seis soldados se manifestarem contra a operação ou mesmo denunciar abusos. No caso de uma operação equivocada protagonizada por um veículo controlado remotamente, só existem as testemunhas no local atacado – testemunhas que importam entre pouco e nada para quem está atacando.

Minimização de risco, maximização de risco

Ainda assim, olhando o que temos agora, é difícil discordar que ataques com drones realmente minimizam o risco para a população civil local (embora eu ainda esteja extremamente cético do que diabos vai ser considerado população civil em um Estado em guerra), e é certamente indiscutível que eles apresentam vantagens econômicas e estratégicas dominantes do ponto de vista militar.

Mas cabe perguntar por quanto tempo. Qualquer sujeito que se vê ameaçado por drones tem uma estratégia simples na mão: sequestrar civis americanos e colocá-los em locais que são alvos potenciais. Certamente, o governo americano pode suportar o dano colateral uma ou duas vezes, mas na quinta vez a imprensa local vai começar a gritar. O outro problema é a cópia da tecnologia: drones não são armas nucleares. Eles não precisam de urânio, não exigem grandes esforços. O tamanho do avião é similar ao de um ultra-leve, e o funcionamento exige um domínio mínimo de engenharia aeronáutica. Esse é o tipo de tecnologia que é quase anulada no momento que o teu inimigo domina o uso. Certamente grupos “beligerantes”  não vão ter a infra-estrutura para dominar esse tipo de coisa, mas é uma questão de tempo até Estados desenvolverem a tecnologia.

Nesse sentido, o paradoxo aqui é claro: ao tentar minimizar o risco imediato de problemas morais (morte de civis, dano colateral) e estruturais (comprometimento de tropas, desgaste político), o uso de drones pode começar a causar uma rede causal que vai levar ao aumento de problemas morais (número de sequestros, uso de escudos humanos) e estruturais (corrida armamentista regional, reversão da opinião pública).

6 comentários

  1. Tatiana Vargas Maia · · Responder

    Fiquei aqui pensando com os meus botões… Em termos de cálculo estratégico (já que vc mesmo mencionou a questão da Escolha Racional), como podemos pensar a questão do precedente do uso internacional de drones? Me parece que se a tecnologia é tão acessível e fácil de ser replicada, talvez os Estados Undos tenham mexido num vespeiro maior do que eles inicialmente anteciparam…

    1. Eu acho que sim. Até porque este tipo de tecnologia não pode ser “desinventada”, não tem como desfazer o lance.

      E o outro problema é ser uma tecnologia pequena. Quero dizer, não é algo como uma usina nuclear, que tu consegue ver via satélite. Tu consegue construir drones em uma garagem, ou algo assim, e a parte de controle remoto pode ser feita de qualquer aeroporto ou base aeronáutica. É um baita tiro no pé.

      Ao mesmo tempo, é uma solução satisfatória para o problema imediato de falta de pessoal no exército americano, e também possibilita acesso a alvos “remotos” que precisariam uma baita mobilização militar para serem alcançados. Daí, tu tem estes líderes de “resistência” caindo feito moscas com ataques deste tipo – é um baita trunfo político.

      1. Tatiana Vargas Maia · ·

        É um trunfo político dificil de ser ignorado, sem dúvida. Mas o cálculo complica quando se começa a pensar em no médio e longo prazo, e a contrastar ganhos imediatos e (possíveis) perdas futuras.

      2. É. Mas é ano de eleição.E isto acaba dando o tom de todo o cálculo.

  2. marcosfanton · · Responder

    Cara, eu sei que teu enfoque foi sobre o uso militar desse tipo de tecnologia e quais suas vantagens, desvantagens e consequências éticas e políticas. Mas, o que tu acha do uso feito por civis desse tipo de tecnologia (claro, em protótipos mais simplificados e diferentes). Eu falo isso, porque eu me impressiono com a possibilidade de uso (regular, ao que parece) de material bélico. Esse cara aqui, que eu vou postar dois vídeos logo abaixo, usa um protótipo de “quadrotor” (sei lá como traduzir) com uma metralhadora. Ora, o que me impede, também, de usar essa tecnologia para implantar bombas e fazer atentados a alvos políticos importantes? Ou mesmo utilizar para ENTREGAR PIZZA direto na janela do indivíduo?? Talvez eu esteja viajando demázz, mas eu fiquei imaginando o uso difundido desse tipo de tecnologia (sem metralhadoras, claro!). :P
    http://www.youtube.com/watch?v=SNPJMk2fgJU (prototype quadrotor w/ machine gun)
    http://www.youtube.com/watch?v=vvkLaa9bogU (Indo no Mac em um tanque)

    1. cara, esta é uma boa idéia para um outro post sobre o tema.
      :)
      vou tentar explorar para semana que vem.

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