Cronobiologia: a influência dos ritmos circadianos na obesidade

Não é novidade para ninguém que um dos maiores problemas de saúde do mundo é a obesidade. Apesar disso, a ciência pouco tem evoluído na sua prevenção e tratamento.  Tradicionalmente, o ganho excessivo de peso foi atribuído às mudanças nos padrões de alimentação – a substituição de alimentos tradicionais pelos altamente processados –, ao sedentarismo – tanto a inatividade física de lazer, como ao chamado “sedentary lifestyle” – e, em menor grau, à predisposição genética. Essas mudanças na alimentação e atividade física são atribuídas, em grande parte, à industrialização e, assim, ao maior acesso aos alimentos e a tecnologia.

Entretanto, a vida moderna trouxe outras modificações aos nossos hábitos de vida. Hoje, graças à energia elétrica, a vida funciona durante as 24 horas do dia e, portanto, trabalhamos, estudamos, jogamos videogame em um período que sempre foi reservado ao sono. Além disso, estudos mostram que o ser humano dorme em média 2 horas menos do que há 20 anos – dormimos pouco e no horário errado. Mas o que isso teria a ver com a obesidade? A resposta passaria pelas descobertas da Cronobiologia.

A Cronobiologia estuda os fenômenos biológicos recorrentes que ocorrem com uma periodicidade determinada, esses fenômenos são chamados de ritmos biológicos. Os ritmos  que ocorrem com uma periodicidade próxima a 24 horas são chamados de ritmos circadianos. Nos seres humanos, os ritmos circadianos são caracterizados pela ocorrência de processos bioquímicos, fisiológicos e comportamentais em intervalos regulares. Tais ritmos imprimem variações previsíveis, geneticamente determinadas (ritmicidade), mas podendo ser modulados por estímulos ambientais, como claro/escuro, atividade/repouso, jejum/alimentação, estação do ano e outras condições ambientais.  Resumidamente, nossas funções fisiológicas (secreções hormonais, temperatura do corpo, síntese de colesterol, etc) são ritmicamente marcadas com os estímulos da natureza. Por exemplo, durante a madrugada a temperatura do nosso corpo diminui, mas nosso corpo só sabe que é “madrugada” pela informação do ciclo ambiental claro/escuro. Ou seja, é como se o sol fosse nosso grande relógio e existissem pequenos relógios nas nossas células e todos estivem sincronizados.

Dessa forma, existem horários fisiologicamente ideias para dormir, comer, realizar atividades físicas, estudar, etc. Por exemplo, os principais hormônios envolvidos no metabolismo dos alimentos têm seu pico de secreção entre 8 e 12 horas, por isso realizar grandes refeições fora desse horário trará prejuízos a saúde.  Outro exemplo é o hormônio melatonina responsável pelo adormecer, sua secreção começa às 21h, tornando este horário ideal para dormirmos; e explica porque o sono realizado durante o dia não é reparador.

A ligação entre os ritmos circadianos e a obesidade passaria pela disruptura destes. As mudanças nos horários e tempo de repouso e nos horários em que realizamos as refeições levam a desregulação hormonal, que por sua vez desregula os mecanismos de fome e saciedade, a temperatura corporal e o metabolismo dos alimentos, aumentando, assim, o risco para a obesidade, mesmo quando o total de calorias ingerido é adequado.  Além da obesidade, estudos observacionais e experimentais têm comprovado que essas disrupturas do ritmo circadiano aumentam o risco de infertilidade, câncer, hipertensão, depressão e outros distúrbios metabólicos.

Quando juntamos essas descobertas ao fato que em torno de 20% dos trabalhadores trabalham em regime noturno ou de plantões, entendemos por que, mesmo com mais de 20 anos de estudos e evidências suficientes que comprovam essas relações, pouco ou nada é divulgado é sobre o tema. No Brasil, existem poucos grupos de pesquisa em Cronobiologia, mas pra quem tiver interesse, um deles fica na UFRGS.

Por fim, segue uma figura que ilustra os ritmos circadianos nos seres humanos, que pode ajudar a melhor a sua performance.

 

6 comentários

  1. Tatiana Vargas Maia · · Responder

    Adorei o post Raquel, mas fiquei cheia de perguntas! :D

    Levando em consideração os pontos que você ressaltou no post, bem como os horários destacados na imagem, faz sentido pensar em uma “agenda ideal” de atividades diárias que coincidem com essas alterações biológicas?

    Estou aqui pensando se meu desempenho geral melhora se eu acordar ente 6:45 e 7:30; estudar entre as 10 e as 16 horas; reservar das 17 as 19 horas para me exercitar, e estar pronta para dormir lá pelas 21 horas. Faz sentido?

    Ainda, quando vc diz que “os principais hormônios envolvidos no metabolismo dos alimentos têm seu pico de secreção entre 8 e 12 horas”, então a recomendação de “Eat breakfast like a king, lunch like a prince, and dinner like a pauper” (coma um café da manhã como um rei, almoce como um príncipe e jante como um pobre) está certa de acordo com os nossos ritmos circadianos?

  2. Exatamente, esse ditado popular coincide com os ritmos circadianos. Eu sempre me perguntei por que mesmo em diferentes culturas as pessoas sempre fazem a maior refeição ao meio dia, talvez a resposta esteja aí.

    Sobre os teus horários, a aplicação não é tão direta. Existe uma variação intraindividual nos ritmos biológicos, além dos teus próprios hábitos serem marcadores desses ritmos. Por exemplo, existem pessoas que são vespertinas, isto é, tedem a ter um melhor rendimento à tarde/noite e a dormir e acordar mais tarde. Por outro lado, existem os matutinos, pessoas que rendem pela manhã, por isso dormem e acordam mais cedo. Assim, a avaliação deveria ter individual.

    Mas de uma forma geral esse teu esquema “obedece” as leis da cronobiologia :)

  3. Lukas Darien · · Responder

    Existem algumas pesquisas que mostram o impacto do ciclo circadiano na intervenção clinica. Tentar correlacionar as intervenções clinicas (no caso da fisioterapia, normalmente de longo prazo) com o ciclo biológico acaba otimizando o tratamento. Na UFRN também são realizadas algumas pesquisas bem interessantes sobre o tema.

  4. Eahm, e o mais legal desta história, é que pode-se correlacionar com outras áreas da saúde, como por exemplo, existe uma maior prevalência de AVC no horário da manhã, juntamente com o aumento de níveis pressóricos, o que faz muito sentido.
    Apesar de ser algo inerente ao ser humano, como tu apontou Raquel, existem as variações individuais de cada pessoa, o que torna a coisa mais complexa, mas também, mais rica.
    Raquelita, denovo fiquei com gosto de quero mais. É uma tática tua?? Rsrsrs. Funciona.

  5. Pois é, gente, a cronobiologia teria aplicação nas mais diversas áreas da saúde, se fosse estudada/ensinada/aplicada.
    Melina, o post é curto por que em breve inaugurarei o meu consultório de crononutrição – personalizada!! Mentira, posso te passar mais material.

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