Mangabeira Unger e a filosofia ressentida

O risível, assim como a ironia, depende do que num determinado contexto é considerado como sério ou “normal”. Um personagem quixotesco, que assume o caráter de ridículo, não o é isoladamente, mas depende sempre do contexto no qual está inserido.

O nome de Roberto Mangabeira Unger é facilmente associado a uma figura quase folclórica especialista em tudologia em tom profético e, para piorar, com forte sotaque norte-americano. Achei que a sua entrevista esta semana no Roda Viva poderia ser um bom mote pra escrever não só sobre ele, mas sobre a postura do intelectual no Brasil. É no mínimo curioso que o filósofo brasileiro mais citado no exterior, que aos 25 anos tornou-se um dos professores mais jovens de Harvard, cujo projeto é considerado por Geoffrey Hawthorn “what may be the most powerful social theory of the second half of the century”  (p.90) e que é levado a sério – ainda que com ressalvas – por Habermas ou Rorty, no Brasil não passe frequentemente de um intelectual excêntrico, quando não risível. Ainda que Rorty considere a teoria de Unger com um certo excesso romântico, defende que o seu projeto se sobressai diante da estagnação no debate norte-americano. Ele destaca a grande influência de Unger neste contexto, “changing the curricula of many of our law schools and the self-image of many of our lawyers” (p. 30) e o considera como uma exceção àquilo que  Harold Bloom chamou de “escola do ressentimento”, referindo-se ao pensamento social de inspiração foucaultiana, althusseriana ou heideggeriana: “Since these people”, escreve Rorty com sua usual ironia, “have also been disappointed, successively, in Russia, Cuba, and China, they now tend to wash their hands of all ‘structures and discourses of power’ (the Foulcauldian term for what we used to call ´institutions´)” (p. 32).

Acho sintomático que Unger seja muito lido em outros lugares, mas tenha pouca recepção no Brasil (pior ainda se for também devido a um certo ceticismo implícito pelo fato dele ser brasileiro). Nos Estados Unidos não há uma censura a projetos audaciosos, mas, pelo contrário, criatividade e uma atitude propositiva são incentivadas. Disso pode sair muita besteira, mas também coisa boa. No Brasil ainda não é exatamente assim.

O próprio Mangabeira, na entrevista no Roda Viva, distingue o que ele entende como uma alternância entre dois extremos preponderantes no ensino no Brasil. Se de um lado há a mera repetição, o decoreba, se propõe como alternativa o devaneio livre, um fantasiar (do qual ele próprio é muitas vezes tachado). Ele critica ainda o fato de termos adotado como nosso método de ensino (aqui já se referindo ao meio universitário) o de inspiração francesa, canônico e dogmático, que ele entende como “a negação de nossa natureza”. Unger defende, e acho que com razão, que o pensamento brasileiro se mostrou mais fértil quando se debruçou sobre o próprio Brasil, como no caso da sociologia ou da ciência política. No entanto, eu entendo que, em muitos casos, há uma curiosa tendência de tanto recorrer a linhas de pensamento estrangeiras quanto de limitar a sua aplicação ao próprio Brasil, o que se revela duplamente deficiente: nem se tenta propor novas categorias, nem se procura debruçar sobre contextos mais amplos, que não só restrito ao brasileiro.

Apesar de concordar que Mangabeira Unger tenda para uma visão excessivamente idealizada, a sua postura ao menos coloca em questão o outro extremo referido à filosofia como uma mera repetição do que vem de fora. Se, por um lado, essa característica deficiente, que podemos chamar de postura resignada, já é razoavelmente percebida entre nós (mesmo que ainda persista no contexto brasileiro e em vários outros países da América latina), por outro, quero aqui destacar um outro problema. Quando se pretende sair dessa postura resignada, a alternativa usualmente preferida é a de uma postura ressentida, aquela de criticar tudo e todos (conversando uma vez com Enrique Dussel vi um bom exemplo disso).

Refiro-me a uma questão de postura. Parece-me que a filosofia no Brasil, salvo algumas boas exceções, ou limita-se à repetição ou à critica generalizada. É o que eu entendo como um pêndulo entre a resignação e o ressentimento. Considero uma postura intermediária entre a crítica e um projeto propositivo a mais interessante, permitindo uma posição de diálogo de igual para igual com outras abordagens.

Para evitar mal-entendidos: não pretendo aqui defender Mangabeira Unger no que se refere às suas ideias e muito menos à sua vida política (sobre isso, Walter Valdevino reuniu  um bom leque de críticas aqui). Antes, tomo o que considero um potencial crítico, que pode sim conter excessos, mas que podem instigar a reflexão sobre a postura do intelectual no Brasil.  Por mais criticável que seja, Mangabeira tem um projeto de Brasil, e a sua crítica é exatamente a incapacidade do pensamento e da política brasileira em refletirem sobre um projeto próprio, que se adeque a suas características e que não queira negar estágios de um percurso peculiar na tentativa de transformar o país numa Suécia tropical. Ele também destaca o papel fundamental que as instituições democráticas cumprem em propiciar esse tipo de mudança. Ou ainda, se quisermos deixar tudo isso de lado, é preciso ao menos considerar uma ampla obra que inclui três volumes sobre política e um vasto leque de temas de teoria do direito a paixões e natureza humana, de economia à religião.

Ainda que Mangabeira em relação a suas ideias ou ao conteúdo de suas obras possa ser tachado de pretensamente visionário (ou mesmo arrogante), acho que há o que podemos considerar um potencial ex negativo. Mesmo que se considere sua visão excessivamente romântica, acho válida a sua postura de não se limitar a de críticas ressentidas e de ao menos provocar uma atitude propositiva em relação à filosofia, incitando à possibilidade de se opor a uma filosofia tanto resignada quanto ressentida.

No entanto, tentando desenvolver um pensar próprio e original Mangabeira Unger pode continuar sendo – dependendo do contexto – apenas uma figura risível.

5 comentários

  1. Bah, cara. Que texto bom.

    A questão, no entanto, me parece ser outra. Eu acho que quem, como eu, tem restrições sérias ao Mangabeira não tem estas restrições por esta ou aquela colocação teórica dele, mas pelo abismo entre teoria e prática.

    Com que autoridade o Mangabeira vem falar em mudar o Brasil quando ele age da forma que tem agido desde que se meteu com o Ciro Gomes? O homem, num momento, fala que Lula é o maior corrupto da história do Brasil, em outro momento aceita um cargo em um ministério no governo Lula, calado.

    O cara fala em mudar o Brasil, mas dá suporte decisivo para gente do calibre de um Daniel Dantas, que deve ser um dos maiores canalhas que o país já conheceu (e esta é uma lista complicada de ficar em primeiro lugar).

    A questão é este abismo entre uma teoria “brasileira” ou “brasilianista” (o que quer que seja isto) e a atitude do Mangabeira que em todos os momentos confirma e re-afirma o status-quo da nossa república de bananas.

    Eu tava na palestra dele na PUC, aquela que o Nita organizou faz um tempão. O Walter também tava lá e na época a gente tinha uma espécie de alergia mútua. Ele saiu puto da cara com o Mangaba, eu na real saí impressionado. Achei o poder retórico do cara, no alto dos meus vinte e poucos anos e primeiro semestre no mestrado de filosofia, fantástico. E até achei que ele podia ter um tal de projeto pro Brasil.

    Mas, agora conhecendo as atitudes do Mangaba, não consigo ver nada alem de uma grande cretinice. O cara falando sobre mudar sistema, criar esta ou aquela mudança estrutural, repensar isto ou aquilo, e trabalhando ativamente com as forças mais nefastas e reacionárias da política nacional?

    Não é questão de inveja do Mangabeira por ele dar aula em Harvard, ou por ele ter escrito este ou aquele grande trabalho. É questão dele ter se provado um completo cretino na prática política, e eu acho que isso deve nos obrigar, enquanto pessoas que se importam com fatos, a olhar a obra dele com outros olhos. Talvez seja o caso de ver as opções políticas dele como resultado direto das convicções teóricas que ele sustenta – e se este for o caso, talvez seja de bom tom descartar as convicções teóricas dele como mais do mesmo com uma roupa mais bonita e articulada. O nosso velho ziriguidum moral, mas para inglês ver.

    Em tempo: tu escreve bem prá caralho, Filipe. Barbaridade.

  2. Excelente post, Filipe! Eu acato as críticas do Fabrício e do Walter (que tenho acompanhado com com bastante atenção desde 2005), acho que tem mesmo tudo a ver com o velho problema de theoria e praxis, desde o fiasco platônico até as derrotas da dialética marxiana e programas marxistas de transformar e salvar o mundo. Aqui, talvez, eu esteja em desacordo com os colegas na medida em que vejo o cinismo do Mangabeira como inseparável de seu pragmatismo radical-democrático e de sua crítica ao fetichismo institucional e necessitarismos messiânicos (parece “cretinice” mas é filosofia política mesmo, extremamente original, ousada e talvez pretensiosa). Por isso acho que o R.M. Unger seja um grande pensador social, apesar de suas bizarrices e polêmicos posicionamentos políticos.

  3. Na realidade, eu queria muito que o Mangaba fosse polêmico. Mas é justamente o contrário. Ao se aliar com os setores que ele escolheu se aliar (e acho que podemos todos concordar que foi uma escolha consciente e calculada, afinal estamos tratando de um homem inteligente, bem informado e articulado), o Mangabeira não faz nada de polêmico. Ele continua no status-quo, na vanguarda, da política brasileira. Neste caso, acho que ficar falando de transformação da esfera pública, reforma institucional ou sistêmica, ou alguma outra platitude, não é, como o professor colocou, um cinismo ou uma forma de exercer realpolitik. Pelo contrário, acho elogio chamar de cínica esta postura. É uma postura cretina, na definição da palavra.

    E, de novo, acho que o Mangabeira, ao contrário de nós que somos peixe pequeno, teve a oportunidade de tomar opções diferentes. Ele poderia ter tentado outros caminhos para fazer diferença, institucionalmente ou, como ele mesmo escreve, através de vias alternativas. Com o que escreve, ele talvez estivesse obrigado a fazê-lo. Mas, escolheu tomar o caminho do consenso moral Brasileiro, que acha que tá tudo legal por um cargo dentro do governo – já que ninguém vai ler o jornal mesmo.

    Ao fazer isso, eu acho que ele diz mais sobre o próprio background político e “ideal” político do que qualquer trabalho – e nos obriga a reler o trabalho dele por este viés. Assim como eu acho que as opções políticas do Heidegger devem nos obrigar a ler Ser e Tempo de forma diferente, e não achar que aquele papo todo de territorialiedade era uma ilusão de óptica metafísica.

    Mas, creio que estou na periferia da filosofia nisto. Pode ser. Mas, francamente, acho que prefiro ficar por ali…

  4. Como diria Brizola… Na hora que chegar nos “PHDs”, ficam todos iguais.

  5. Ricardo Breckenfeld · · Responder

    Mangabeira se colocou dentro do fogo para aplicar e vivenciar o efeito de suas ideias. Parece que nos temos que estar contra ou a favor pra termos valor. Ele nao…pra mim a pratica leva a perfeicao. E muito facil teorizar opinioes se colocando contra ou a favor. Mangabeira coloca suas ideias junto ao poder. Aonde as decisoes sao tomadas em funcao de um contexto adiverso . Creio que e uma oportunudade de influenciar as liderancas a serem mais estadistas e menos politiqueiros..talvez mangabeira consiga influenciar um ou dois,,,ja estar de bom tamanho..porque nas ideias a progressao e geometrica e o salto de conciencia e quantico..obrigado

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