Evidência Científica e Desinformação em Saúde

Se vocês acham que pouca gente sabe para o que serve um filósofo, quase ninguém sabe o que um epidemiologista (ou epidemiólogo) faz. Tradicionalmente, e simplificando, o epidemiologista estuda os determinantes do processo saúde/doença em populações, tipo o cara do IBGE.  Mas eu iria mais longe nesse conceito, não tenho dúvidas de que o epidemiologista é, também, o “guardião da evidência científica”, ou seja, é o cientista, que dentro as ciências biomédicas, preocupa-se com a veracidade das relações causa-efeito. Para a determinação de uma relação causa-efeito nas ciências biomédicas é necessário o preenchimento de alguns pré-requisitos, que são baseados na qualidade metodológica do estudo e em critérios de causalidade.

Para falar sobre os critérios de causalidade, tomarei como exemplo o objeto que tenho estudado. A minha tese é sobre a influência do encurtamento do sono na obesidade. Assim, o que é necessário para que eu prove que existe uma relação causal entre dormir pouco e ganhar peso? São nove os critérios de causalidade na epidemiologia, mas os quatro mais importantes são: (1) Temporalidade: a exposição (dormir pouco) tem que ter acontecido antes do desfecho (obesidade); (2) Evidência Experimental: em ambiente controlado, mudanças na exposição implicam em mudanças no desfecho; (3) Plausibilidade Biológica: existe um mecanismo fisiológico plausível que explique a relação; (4) Consistência: a relação causal foi encontrada em diferentes estudos com diferentes populações.  Dessa forma, por mais lunática que eu seja, fica claro que não vou provar nada apenas com o meu estudo. Posso até ter os 3 primeiros critérios contemplados, mas não terei consistência.

Vejo a não aplicação do critério de consistência como o grande nó da desinformação em saúde, atualmente. Uma vez que ele vai dizer que um estudo isolado não prova nada, ou seja, é um grande erro ler um artigo e sair aplicando tal conhecimento clinicamente. Explica, também, as notícias dos tabloides, um dia ovo faz mal, no outro já bem, etc.

 O segundo ponto seria a qualidade da prova, ou seja, qual metodologia foi empregada no estudo. Existem metodologias melhores, que têm uma maior evidência. Dessa forma, o pior tipo de estudo é o experimental realizado com cobaias.  Pasmem, mas vale menos o teu estudo com ratinho do que opinião de um especialista – muitas vezes comprado pela indústria. Por outro lado, a melhor metodologia é a de estudos chamados de ensaios clínicos randomizados. No meu exemplo, se eu fosse realizar um ensaio clínico randomizado, eu pegaria um grupo de pessoas com peso normal e dividiria elas, aleatoriamente, em dois grupos: (1) grupo intervenção: em privação de sono e (2) grupo controle: dormindo normalmente. Após algum tempo, eu mediria a diferença do ganho de peso entre os grupos. Nesse caso, eu teria que me certificar de que tanto o grupo de intervenção quanto o de controle estão comendo e fazendo atividades físicas de forma similar. Essa seria a melhor metodologia de estudo possível (ou não possível) e eu ainda teria 3 critérios de causalidade contemplados (temporalidade, evidência experimental e plausibilidade biológica).

Mas com resolvemos o problema da consistência? Através dos estudos meta-analíticos. Trata-se de um tipo de estudo que une os todos os ensaios clínicos randomizados realizados no mundo sobre tal assunto e criar uma medida resumo, que prova ou não a causalidade. Então, a melhor prova científica na área biomédica são os estudos meta-analíticos de ensaios clínicos randomizados, seriam eles que guiariam as decisões em saúde – se o mundo fosse um lugar racional. Esse, também, é o modelo de pensamento de causalidade que destrói a medicina ortomolecular, a nutrição funcional e todas as suas vertentes. Mas isso é papo para outro post.

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2 comentários

  1. Lukas Darien · · Responder

    wow! esse texto deveria vir impresso em todas edições de todas as revistas de saúde pro povo parar de perturbar os profissionais de saúde com ‘há, é que eu vi na Veja que um cientista publicou na Nature que banho de mar melhora reumatismo’.

  2. é, Lucas, eu diria, ainda, que se os próprios cientistas tivesse responsabilidade nas suas inferência o mundo seria um lugar melhor pros profissionais da saúde.

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