Digno de Nota IV

A dificuldade de se estar offline hoje em dia é proporcional à facilidade que se tem de pular entre assuntos, vídeos, fotos, textos e áudios online. Nesse artigo, Paul Miller discute a necessidade de se estar online versus a utilidade de viver conectado, e enquanto se exila em um espaço sem wi-fi ou cabos de fibra ótica, ele assume: pode ser bem entediante.

In my internet days, I’d rarely be aware of boredom — I might chalk it up to my favorite websites being “boring,” or just satiate it with the endless spectacle of Tumblr or YouTube, and either way I’d keep clicking. But now I sit on my couch, and the boredom weighs heavy, and then I decide what to do. In the meatspace, my next activity doesn’t come to me in the form of a push notification. I have to reach for a book, or my bike, or a guitar.

Seguimos pensando sobre relações humanas dentro de espaços online, a Maria Bustillos pensa sobre vida, morte e uma pós-vida digital, onde boa parte das nossas interações se tornam automatizadas, bem como nossas identidades digitais, que se tornam peças inanimadas que jamais envelhecem, adquirem poeira ou se tornam, de certa forma, desatualizadas. É uma parte nossa que fica pendente no mundo digital, enquanto todo o resto vai embora.

When someone dies nowadays, we are liable to return to find that person’s digital self — his blog, say, or his Flickr, tumblr or Facebook‐entirely unchanged. An online persona will date, but agelessly, without wrinkling or acquiring dust, and unless someone removes each separate element there it will stay, to remind us of that person’s favorite song, of all his minutest concerns, exactly as if he’d typed them in yesterday. Facebook doesn’t fade. It just stays cyanotically fresh and crisp forever.

O bolo da cereja é o artigo (indicado pela Tatiana) que saiu do forno agorinha no The Daily Beast, sobre como a Internet pode estar nos levando à loucura.

Recently, scholars have begun to suggest that our digitized world may support even more extreme forms of mental illness. At Stanford, Dr. Aboujaoude is studying whether some digital selves should be counted as a legitimate, pathological “alter of sorts,” like the alter egos documented in cases of multiple personality disorder (…)

Quanto mais a Web evolui, mais nós nos vemos presos em questões fundamentais sobre formação de identidade, estruturação de nichos, grupos e sociedades, e relações interpessoais. E por mais clichê que seja isso, cada vez mais eu tenho voltado para McLuhan com o rabo entre as pernas, admitindo que sim, nós moldamos as ferramentas, mas também somos moldados por ela. Talvez por isso temos uma rede que flui de forma tão orgânica como a Internet,  e ao mesmo tempo nos percebemos tão digitais e automatizados a ponto de questionarmos as relações sociais e culturais que costumavam ser  vistas como coisas mais corriqueiras e descomplicadas antes da constante presença de tecnologias de comunicação ao nosso redor.

 

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3 comentários

  1. Muito bom texto (agora não poderei ler os articles, mas parecem bem interessantes). Mas: o McLuhan era muito otimista. Um pouquinho depois dele, o Baudrillard já dava a barbada, e olha que ele só tava falando da velha tv: o sujeito “becomes a pure screen, a pure absorption and re-absorption surface of the influent networks” (Baudrillard, 1988, p. 27). E o Marc Augé chama essa criatura pós-moderna, a mere volatile refraction of the digital imaginaries, de “fictional self”:
    The fictional self, the peak of a fascination which is begun in any relationship exclusive to the image, is a self without relationship and as a result without any basis for identity, liable to be absorbed by the world of images in which it believes it can rediscover and recognise itself. (Augé, 1999, pp. 116-7; e.a.)

    (essa duas citações fazem parte da minha tese, colo rapidinho aqui… outra hora volto com mais tempo pra conferir o papo. :)

    Baudrillard, J. (1988). The ecstasy of communication. Cambridge, MA: MIT Press.
    Augé, M. (1999). The war of dreams: exercises in ethno-fiction (L. Heron, Trans.). London: Pluto Press.

  2. Marlon, eu acho o McLuhan muito otimista também, e eu tenho várias ressalvas quanto ao Baudrillard, por isso digo que volto com o rabo entre as pernas, vez ou outro me pego pensado no que esses caras falaram muito antes de a gente sequer pensar no que a Internet poderia transformar o mundo e nós mesmos, e quanto eles pareciam over the top com coisas como tv e rádio, mas hoje fazem muito sentido para o que nós vemos na Web. É uma relação estranha a que eu tenho com esses autores, mas querendo ou não, eles são das poucas pessoas que ainda fazem muito sentido pra questões de estudo de indentidade e mídia.

    Eu não conheço suficiente do Marc Augé, mas do que sei, sempre penso nos estudos dele tentando relacioná-los à reinvenção de espaço público/privado após a inserção de tecnologias de comunicação no cotidiano, o que óbvio, também sempre me faz voltar pra Habermas. But you can call me on my bullshit, se eu estiver delirando muito. :P

  3. Bruno Coelho · · Responder

    Solução? Há quem pense agir de forma contrária, ou seja, convivendo mais com a natureza irá diminuir esta dependência das pessoas à Internet. Penso que não. Inicialmente porque uma série de atividades, como trabalho e estudo, estão migrando quase que totalmente para as nuvens.

    Estes efeitos cognitivos são resultados de nossa má adaptação aos superestímulos apresentados. Mas isto não é novo, desde que o sistema industrial começou a processar alimentos como açucar e arroz, nossa dieta tendeu a se tornar mais pobr. Contudo, com a chegada dos orgânicos e a paleo-diet uma reversão aconteceu. Acredito que o mesmo acontece com aparelhos eletrônicos que buscam interfaces amigáveis.

    Nota: O avanço tecnológico não irá diminuir, e sim tende a se tornar imperceptível, mesclando-se com objetos os quais ja convivemos hoje.

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