Jafar Panahi e as mulheres iranianas

É bastante comum ouvirmos e/ou pensarmos que o cinema iraniano é um bom indutor ao coma profundo – ainda mais quando estamos nos referindo, em particular, ao movimento denominado New Wave, que se aproxima do neorrealismo italiano. Com cenas prolongadas, quase sem trilhas sonoras, histórias cotidianas (beirando, muitas vezes, ao absurdo, no entanto) e com atores amadores, esses filmes ficam escondido  na ala cult (zzzz) da locadora. Bom, mas apesar disso, eu gostaria de realizar uma interpretação de um filme muito legal do Jafar Panahi, um dos grandes diretores do Irã, que se chama O círculo (2000). A questão que eu me coloco aqui é: o que significa, para Panahi, a metáfora do círculo?

Em um primeiro momento, nós podemos entender o círculo como o conjunto de restrições morais, legais e religiosas que cada indivíduo enfrenta. Com essa ideia, o filme mostra-se como a história de cinco mulheres diferentes que enfrentam um problema biográfico particular, ou seja, elas tentam transgredir esse círculo que restringe suas liberdades individuais – e pagam caro por isso. Temos, assim, cinco círculos:

[1] O círculo de Solmaz Gholami, uma mulher que acaba de ter uma filha, sendo que a família de seu marido esperava um filho;

[2] Os círculos de três fugitivas da prisão: Moedeh (que é presa logo no início), Arezou e Nargess;

[3] O círculo de uma ex-presidiária, Pari, que é expulsa de casa e, agora, decide abortar seu filho de 4 meses, pois seu marido está morto;

[4] O círculo de Nayereh, uma mulher que abandona sua filha na rua para alguém a adotar e acaba sendo presa em uma blitz policial quando tenta se prostituir (mas consegue escapar);

[5] O círculo de uma prostituta que é presa nessa mesma blitz.

Bom, além dessa primeira ideia de círculo, relacionada à biografia de cada mulher, nós poderíamos entender a metáfora principal de Panahi como a relação entre essas cinco histórias, o que significa dizer que há uma circularidade entre essas cinco mulheres, o que daria viés para um interpretação generalizadora da “mulher iraniana” (mas já seria colocar muita teoria, acredito). Para quem viu o filme, perceberá que a personagem Solmaz Gholami (que não aparece) é chamada tanto na primeira cena do filme quanto na última: daí a circularidade.

Nos três minutos iniciais do filme, o espectador é apresentado ao seguinte problema: Por que é tão ruim nascer mulher no Irã? Por que isso não é desejável? No restante do filme, Panahi tenta dar uma resposta a essa terrível situação. Como ela é feita?

Uma bela cena do filme, que mostra a ambiguidade do xador: censura ou proteção?!

Nós poderíamos pensar, assim, que há um continuum nas cinco histórias, que torna a situação da mulher, ou melhor, o círculo de restrições de sua liberdade, cada vez mais fechada e obscura. E é a partir disso que podemos compreender, também, a relação entre a forma e o conteúdo do filme. A história das três fugitivas é filmada através de uma câmera de mão em meio às ensolaradas ruas de Teerã. Já a partir da história de Pari, temos o primeiro close do filme, quando ela decide tomar um táxi até o hospital onde trabalha uma amiga. Ao sair dali e encontrar a “quarta” mulher ([4], situamo-nos em uma única rua, tomada pela noite. A mulher (e a câmera) esconde-se atrás dos carros para não ser vista. Por fim, a prostituta, resignada diante de sua prisão, é filmada dentro de um ônibus de prisioneiros com uma câmera estática. A cena final, igual à cena inicial, é um giro de 360 (um círculo!) na cela da prisão, que mostra o triste reencontro das mulheres do filme, que não conseguiram escapar. O filme fecha o círculo com um policial chamando por Solmaz Gholami, a mulher que dera à luz a uma menina ([1]).

——–

Em tempo, ainda que Panahi afirme em entrevistas que seu filme não é apenas sobre mulheres, aproveito para divulgar uma edição inteira da Foreign Policy – muito interessante – sobre as mulheres do Oriente Médio (indicação da Tati). Ali, vocês têm algumas respostas sobre essa pergunta que o diretor nos coloca.

Ah, além disso, se o filme e o tema interessarem, tem outro filme do Panahi, mais divertido e colorido, o Offside, que conta a história de mulheres que tentam assistir a um jogo de futebol no estádio (o que é proibido no Irã).

4 comentários

  1. Boa oportunidade para chutar cachorro morto (e não ter nenhum comentário. Zzz)… trechos imperdíveis do artigo clássico do Foucault no Nouvel Observateur de 1978, amando sem limites a desgraça que estava por vir com a Revolução Islâmica no Irã:

    “Mais on songe aussi à un autre mouvement, qui est comme l’inverse et la réciproque du premier. C’est celui qui permettrait d’introduire dans la vie politique une dimension spirituelle : faire que cette vie politique ne soit pas, comme toujours, l’obstacle de la spiritualité mais son réceptacle, son occasion, son ferment.”

    (…)

    Je me sens embarrassé pour parler du gouvernement islamique comme « idée » ou même comme « idéal ». Mais comme « volonté politique », il m’a impressionné. Il m’a impressionné dans son effort pour politiser, en réponse à des problèmes actuels, des structures indissociablement sociales et religieuses ; il m’a impressionné dans sa tentative aussi pour ouvrir dans la politique une dimension spirituelle.”

    Tradução tosca feita na hora:

    “Mas se pensa também em um outro movimento, que é como o inverso e o recíproco do primeiro. É aquele que permitiria introduzir na vida política uma dimensão espiritual: fazer com que essa vida política não seja, como sempre, o obstáculo à espiritualidade, mas o seu receptáculo, sua ocasião, seu fermento.”

    (…)

    Sinto-me constrangido em falar sobre o governo islâmico como “ideia” ou mesmo como “ideal. Mas como “vontade política”, ele me impressionou. Ele me impressionou em seu esforço para politizar, em resposta a problemas atuais, as estruturas indissociavelmente sociais e religiosas; ele me impressionou em sua tentativa de também abrir na política uma dimensão espiritual.”

    « A quoi rêvent les Iraniens ? », Le Nouvel Observateur, no 727, 16- 22 octobre 1978, pp. 48- 49.

    http://1libertaire.free.fr/MFoucault143.html

    Resumidamente, uma criancinha ingênua e deslumbrada com a revoluçãozinha só porque ela ia contra os valores do Ocidente Bobão.

    Deu no que deu…

  2. Di$cordo sem limites de Mon Chercheur. Teoria e vida (praxis) de Foucault (aka “teu pau de óculos”) = “poder” como dominação. dominação = Herrschaft (cf. Weber). totalitarismo = totaler Herrschaft (“domínio total”). Foucault ficou deslumbrado pelo domínio total (aiatolístico, i.e., realmente religioso), i.e., não foi por nenhuma ingenuidade mas pelo fundamento (perverso) de sua personalidade.

  3. hmn. ta valendo um post essa polemica com o Foucault.
    vou tentar algo no final de semana. :)

    Nao vi o filme, entao vou ficar frio sobre COMENTARIOS :)

  4. onde encontro o filme legendado em port?

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