I feel free – do you feel free?

Por volta dos anos 70, Benjamin Libet realizou uma série de experimentos para mostrar como nosso cérebro ativa-se milissegundos antes de realizarmos ações voluntárias.  Ou seja, cerca de 550 milissegundos antes de eu pressionar as teclas do meu teclado para escrever este post, é realizada uma modificação elétrica específica no meu cérebro (chamada de potencial de ação ou readiness potential ou, em sua origem, Bereitschaftpotential). Depois dessa descarga elétrica, isto é, 350-400ms depois disso, eu me torno consciente dessa intenção de ação (o que significa, também, cerca de 200ms antes de eu tocar no teclado). A pergunta que Libet se coloca nesse estudo, então, é a seguinte: dadas essas descobertas, o ser humano é livre o não? Suas ações são governadas por leis determinadas (as da física, que descrevem as atividades cerebrais) ou ele pode modificá-las (as ações) conscientemente (e, com isso, não há determinismo)?

O experimento do Libet está bem formulado neste vídeo aqui:

A primeira questão que me chamou a atenção  em um dos mais famosos artigos do Libet (Do we have free will?) é que, ao contrário de autores como Sam Harris e afins, que utilizam essa informação para mostrar que não somos livres e que não existe vontade livre, o próprio Libet é contrário a essa posição. Segundo ele,  a nossa consciência não emerge de um processo “inconsciente” (leia-se físico), mas é uma espécie de processo de segunda-ordem, que tem uma função controladora dos nossos atos e, nesse sentido, tem um papel importante na escolha de nossas ações.

Ok, mas o que eu gostaria de discutir aqui é uma questão metodológica e conceitual, que é o modo como Libet conceitua a noção de ‘liberdade’. Normalmente, seus experimentos são feitos com a seguinte questão (para determinar quando temos consciência dos nossos atos): diga-nos (ou indique no marcador) o momento inicial em que você sentiu , quis ou desejou  agir. Assim, toda a questão da liberdade fica fundamentada em um sentimento de agir de tal e tal modo. E é essa premissa que o Harris vai utilizar para mostrar como não somos livres, isto é, que a liberdade não passa de um sentimento.

Segundo o Hacker, esse experimento é baseado numa falsa pressuposição: não é nem necessário nem suficiente que, para um ato ser voluntário, ele seja precedido por um sentimento de desejo ou intenção. Por exemplo, só porque  sentimos que vamos espirrar, isto não torna o espirro um ato voluntário. Claro, ainda que possamos inibi-lo voluntariamente, nós não podemos espirrar a qualquer hora. Para Hacker, então, a teoria de Libet tornaria nossos atos como espirros: nós escolhemos, voluntariamente, se vamos ou não os realizar.

O interessante é, para Hacker, o fato de os entrevistados caírem ou não criticarem o modo como o experimento é realizado pelos pesquisadores:

“De fato, um dos resultados mais interessantes (e negligenciados) desses experimentos é que as pessoas, quando questionadas para relatar coisas bizarras como “um sentimento de intenção para mover sua própria mão”, irão achar tal sentimento para relatar, ainda quando isto é nada mais do que uma pequena dúvida sobre se há algo como “um sentimento de intenção”. Da mesma forma, quando questionadas para notar quando elas sentem uma vontade para mover, elas virão com tal sentimento, ainda que mover a própria mão voluntariamente não requer e não envolve, normalmente, qualquer sentimento”.

E você, concorda com quem? Ou sente que concorda com quem??

9 comentários

  1. “E você, concorda com quem? Ou sente que concorda com quem??”

    Não sei, mas sinto que aquela touquinha ridícula ali do vídeo deforma os resultados de qualquer experimento. hsdkjhfs.

    Agora sério: bom ponto esse levantado. A ideia do Libet de consciência como uma “espécie de processo de segunda-ordem, que tem uma função controladora dos nossos atos e, nesse sentido, tem um papel importante na escolha de nossas ações”, me pareceu semelhante à ideia do Harry Frankfurt (http://en.wikipedia.org/wiki/Harry_Frankfurt) de “higher-order volitions”.

    [Mas só citei o Frankfurt, na verdade, porque é dele o genial Sobre Falar Merda, Ed. Intrínseca: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u53727.shtml.%5D

    Mas, de qualquer forma, me parece que, nos dois casos, tanto no Libet quanto no Frankfurt, o “problema” só é deslocado, ou seja, joga-se a “liberdade” ou a “racionalidade” para uma ordem posterior ou de controle, mas ainda fica faltando dizer se existe ou não algo anterior à ação. Mas isso se a coisa toda for vista como essa busca – que me parece não fazer muito sentido – por uma “liberdade totalmente livre”. Eu sou mais simpático à ideia de dar grande peso às determinações e ver a “liberdade” simplesmente como uma forma de “resistência” (para soar bem COMUNA), como uma capacidade de se contrapor a essas determinações.

    Como sempre, vejo milhares de problemas em “carregar” demais o conceito de liberdade, seja politicamente, seja em termos de teoria do conhecimento.

  2. marcosfanton · · Responder

    Sim, eu também pensei no Frankfurt, mas também no Tugendhat. :)
    O Tugendhat tem um artigo sobre o Libet e a questão específica da “vontade livre” ou livre arbítrio.
    Eu acho que ele tem três pontos interessantes:
    [1] Quando o Libet e a gente, normalmente, fala de free will, nós estamos falando, na verdade, de liberdade de AÇÃO, isto é, que eu posso fazer o que eu quero (resumidamente). Ex.: Posso – se quero – levantar meu braço. Portanto, isto significa liberdade de ação, e não liberdade de vontade.
    [2] a descoberta do Libet somente diz sobre as condições físicas, o que não há nada de mais, pois, se não fosse assim, então teríamos a suposição de condições psicológicas, etc. Afinal, a “produção” de vontade ou desejo de realizar algo nada mais é do que um salto mortal antropológico.
    [3] O problema da liberdade de ação (do free will) é o problema da responsabilidade: Como é possível conceber (teoricamente) a possibilidade de responsabilizar nossos atos e reprovarmo-nos reciprocamente? Ou seja, reprovar alguém só tem sentido se podemos pressupor que determinado indivíduo tem a capacidade de auto-controle e reflexão.
    Em termos da discussão contemporânea organizada por times e torcidas, o Tugendhat é um “compatibilista”, isto é, ele acredita que temos desejos, intenções, etc. determinados causalmente, mas podemos interromper essa corrente através da reflexão e de questionamentos. Para ele, a liberdade é praticamente uma questão gradativa: muitas vezes, a reflexão não dá conta de nossas atitudes e, assim, realizamos atos impulsivos e irracionais (irracionais no sentido de: sem argumentos, sem razões, sem justificativas).
    Agora, eu concordo contigo a respeito dessa “capacidade”, mas eu acho que não seria apenas “resistência”, pois não seria possível modificarmos nossos desejos ou (des)aprovações (leia-se “determinações) com base em argumentos, questionamentos, etc.?

  3. “Agora, eu concordo contigo a respeito dessa “capacidade”, mas eu acho que não seria apenas “resistência”, pois não seria possível modificarmos nossos desejos ou (des)aprovações (leia-se “determinações) com base em argumentos, questionamentos, etc.?”

    É, sim. Digo “resistência” no sentido mais amplo, não só de se opor com outros desejos mas também com a possibilidade dessa oposição se dar racionalmente. Acho que, pelo menos do ponto de vista estritamente político, é fundamental “desinflacionar” esse conceito de liberdade.

  4. Fabrício botou uma imagem ilustrativa para este post na capa do blog: https://distropia.wordpress.com/

    É a evolução da atividade cerebral durante a realização de um doutorado.

    1. Tatiana Vargas Maia · · Responder

      Nada com o post, mas não queria perder a oportunidade. Após o sucesso da tese publicada, o Walter tem dois livros no prelo:

      “Como fazer amigos e ofender pessoas”, e na sequência “Amando e ofendendo”. :P

      (se esse comentário do Walter estivesse em rede social tinha levado “like” ou sido favoritado!)

  5. Luis Rosa · · Responder

    hahahah, curti a ilustrativa pergunta: “E você, concorda com quem? Ou sente que concorda com quem??”.
    Tenho várias perguntas sobre a discussão destes caras (não conheço esta literatura). No entanto, tem uma delas que me parece central. Parece óbvio que temos processos de segunda-ordem, p.ex., quando eu estou consciente (when i’m aware) de que percebo tal e tal; quando, por introspecção, sei que estou agitado; quando noto que estou raciocinando; etc. processo cognitivos de segunda-ordem geram atitudes doxásticas sobre estados cognitivos de primeira ordem (o estado de primeira-ordem é conteúdo do estado de segunda-ordem).
    Agora, no caso de processos de decisão, qual é exatamente o argumento mostrando que processos de segunda-ordem sustentam a conclusão de que escolhemos livremente? (note que dizer que o processo de segunda-ordem seria ‘controlador’ é incorrer em petição de princípio, pois o processo de segunda-ordem também poderia ser determinado previamente). q te parece?

  6. marcosfanton · · Responder

    Cara, boa pergunta! E eu esqueci de mencionar no post: o Libet acaba falando sobre o “explanatory gap” entre fenômenos físicos e mentais e diz que esclarecer se somos determinados por leis físicas ou não não é uma proposição científica provada, mas uma crença especulativa. Para ele, a questão é bem pragmática: é interessante (é uma “opção científica boa”) admitirmos que temos liberdade e/ou processos de segunda-ordem.

  7. De todo o debate levantado pelas pesquisas de Libet, o que sempre julguei mais curioso é que o ser humano aceita quase que sem restrições o componente determinista que explica – ou busca explicar – a mecânica do universo, ou seja, as leis naturais, que se aplicam inclusive a tudo que existe em nosso planeta, mas sinta um incômodo visível quando se aplica esse componente visando explicar nossas ações e/ou sensações, sejam conscientes ou não. Mesmo que a mente não tenha uma existência “física”, mesmo que ela seja apenas um atributo do cérebro, ela é originária da mesma fonte de onde surgiram as pedras, o gás, os ossos e a carne humana, ou seja, do mundo natural, e pelo menos até um certo ponto, deve estar sujeita às leis desse mundo. O ser humano parece ter uma certa repulsa ao sentimento de ter sua existência reduzida a um fenômeno natural, mecânico, do qual a vida mental parece ter se separado, em algum momento, e adquirido importância própria e independência em relação ao seu veículo – o cérebro.

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