“Mas tem que pagar?”

A ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos) abriu processo contra o sáite  Livrosdehumanas, que disponibiliza vários livros para download.

Não precisa ser gênio para perceber que a medida indica desespero. Afinal, basta falar a palavra “eu vou processar um blog” em voz alta para perceber o nível da demência. No entanto, mesmo discutindo o interesse estratégico (e até moral) em processar alguém por dividir livros, o que a ABDR está fazendo constitui algum tipo de violação de preceitos fundamentais?

Bom, para início de conversa, é evidente que qualquer editora tem a prerrogativa de proteger o próprio investimento. Editar e publicar livros custa dinheiro, via de regra envolvendo um certo nível de cuidado com a forma como a coisa é feita, cuidado esse que não é exatamente respeitado na hora que o cara chega e escaneia teu livro.

Existe, agora, um certo romantismo com a forma como a questão da “divisão” acontece online. Estão pintando o pessoal que divide esses materiais como heróis da resistência, vanguarda do pensamento anti-proprietário, profetas do conhecimento para todos. Lamento, mas não é por aí. Deixa eu dar um exemplo, aqui tá um printscreen de um sáite que divide filmes para consumo externo:

Muito bem, todas as setas que vocês tão vendo nesse exemplo, todas elas significam um click = um $. Então, o camarada que tá te disponibilizando esse arquivo, ele não tá fazendo nada de graça para ti. Não. Ele tá ganhando em cima dos teus clicks. E o quê, exatamente, ele produziu para ganhar essa grana? Ele teve o trabalho de digitalizar teu livro? Talvez. Muitas vezes, todo o trabalho que ele tem é achar o arquivo já digitalizado e coloca-lo em um desses websites que “dividem” material.Vale lembrar que todos esses websites, sem exceção, trabalham com esse modelo de adclick. Ou seja, eles colocam “links” na página que são iscas para ganhar dinheiro.

Então, não te engana: tu tá pagando pelo arquivo. Tu tá pagando como um consumidor potencial, ou expondo o teu computador aos mecanismos de invasão que são comuns nesses esquemas de divulgação. Ou seja: tu tá pagando com o teu computador e com os dados do teu computador. E a parte mais legal: tu provavelmente nem sabe disto.

Por quê isso importa? Isso importa porque recentemente ficou claro, no caso do Megaupload, que os camaradas que organizam esses saites são uns gangsters com pouca ou nenhuma preocupação pela “distribuição” ou “divulgação” do conhecimento ou de material. Talvez o sujeito que coloca o link para o sáite, ou que use o sáite para disponibilizar o material até tenha essa preocupação. Mas, de verdade, ao fazer isso ele está dando dinheiro para o dono do Megaupload comprar uma nova BMW. Enquanto isso, o cara que editou o livro, o outro cara que escreveu o livro e o camarada que desenhou a capa estão, todos, ganhando nada. E o sujeito que não teve nenhum envolvimento exceto o de pensar um servidor bem grande e bem aberto para disponibilizar arquivos, que é pago em um esquema de pirâmide de anúncios, esse sujeito ganha uma grana preta.

Mas, claro, estrategicamente processar esse pessoal é idiota. E eu tenho minhas dúvidas se a gente sequer poderia processar pessoas por dividir esses links. Por exemplo, o meu printscreen ali em cima deixa bem claro o link no qual tu pode encontrar o filme. De certa forma, eu acabei de dividir esse link. Eu posso ser processado por isso? Já existem casos nos quais o camarada foi processado apenas por isso: dividir links. Faz sentido este tipo de proceso?

Faz sentido na medida em que o pessoal que produz material autoral está desesperado. Processar indivíduos baixando material de graça na internet virou uma forma de conseguir renda. Produtoras de filme pornô, por exemplo, começaram a disponibilizar torrents com “iscas” para guardar todos os IPs baixando os filmes, depois contratando empresas para associar os IPs à pessoas físicas. Finalmente, as empresas mandavam cartas para os indivíduos, ameaçando um processo bem caro se o indivíduo não pagasse 3 mil dólares em um acordo extra-judicial. Uma matéria excepcional na Ars Technica conta os detalhes do caso mais famoso nesse estilo, envolvendo um filme com o título “Pesadelos Adolescentes (ANAL!) 2

Junto com toda essa  discussão vêm a pergunta: como a gente atribui valor para as coisas que encontramos na internet?

A maior parte das pessoas que baixa coisas na internet faz isso porque é fácil. É mais fácil que comprar. Mais prático. Não é nem questão de atribuir valor ao produto, é questão de atribuir valor ao próprio tempo. Eu não preciso ir até a Best Buy e pagar uma grana por quatro caixas mal feitas com todo o conteúdo do The Wire. Eu vou em um sáite de torrents, pego um arquivo com toda a série, e em cinco horas posso assistir à série inteira no meu playstation. Pouco me importa se quando eu faço isso eu ignoro o trabalho do cara que produziu The Wire em favor de algum panaca que está com uma isca para ganhar acesso a dados no meu computador, ou ganhando dinheiro porque eu cliquei em um link errado. Dane-se. É mais fácil que ir até a loja.

É provável que isso diga alguma coisa sobre meu caráter (ou falta de), mas vamos deixar a questão moral de lado, por um segundo – até para não entrar em um perfeccionismo inútil. A questão é: existem alternativas?

Sim, existem.

Nesse caso do livro de humanas, permitam que eu sugira algo bem singelo:

– Disponibilizem os livros em sáites fáceis de usar, com preview do material. Coloquem um preço baixo para a cópia digital do livro (Cinco reais, eu diria, é um bom preço).

– Coloquem edições especiais online.  Permitam ao usuário baixar o livro, por 5 reais, mas com a opção de comprar a edição física por 35 pila, junto com algum material especial (tipo, um editorial maior, um vídeo de uma entrevista com o autor, qualquer coisa que adicione mais valor).

– Façam edições de colecionador, por preços altos, para aficcionados. Façam um trabalho decente de edição, adicionem material multimídia para quem tem ipad ou coisa parecida. PENSEM.

– Autores: parem de reclamar das editoras. Não gostam delas? Publiquem o próprio livro na internet. Disponibilizem conteúdo. Peguem algum programador decente para fazer um bom sáite. Contratem um cara para fazer a edição do livro. Fim.

– A pirataria é uma realidade, ela vai acontecer EM QUALQUER CENÁRIO. Mas ao menos tu pode negociar a boa vontade do público com o teu material. Tem muito exemplo por aí de como esse tipo de iniciativa funcionou.

A questão aqui não é acabar com o regime de propriedade intelectual ou de direitos autorais, mas de se adaptar ao formato que o mercado tomou – e não ficar brigando contra esse formato com processos que vão criar ainda mais má vontade. A melhor forma de coibir a pirataria é fazer o cara ir para o teu sáite e não o sáite do pirata. Disponibiliza material no teu sáite, coloca uma versão menor do livro de graça, ou disponibiliza por tempo limitado. Usa o teu sáite para criar fluxo e capitaliza em cima de pessoas interessadas em divulgar material ali (já que teu sáite cria fluxo, agora vai ter gente querendo colocar propaganda nele). Evita má-vontade ao forçar o usuário a clicar em um milhão de coisas antes de chegar onde ele quer.

Não é complicado, basta deixar de ser burro.

Mas também não adianta colocar esse pessoal que disponibiliza material na posição de herói. Não são. Na maior parte das vezes, são pessoas que não produziram nada de valor ganhando uns pilas em cima do trabalho alheio, e valorizar isso para além da própria vontade de conseguir um livro de forma fácil e rápida (ou um filme de forma fácil e rápida) me parece auto-engano.

12 comentários

  1. marcosfanton · · Responder

    Cara, ótimo post!
    Quando tu falas que é mais fácil baixar um livro do ir comprar em livrarias, eu concordo plenamente. Mas, eu acho que baixar é ainda mais fácil do que comprar online! Por exemplo, eu comprei o livro do Sam Harris pela Kindle Store, porque não achei em nenhum lugar, é um livro novo e pensei: ok, vou ver no que dá. O problema é que se tu compras da Kindle, o livro fica armazenado no aplicativo da Kindle! No meu iPad, eu costumo usar outro aplicativo com uma variedade de recursos para leitura, destaque e anotações de texto muito melhor que o aplicativo da Amazon. E aí? É um saco. Fora que, por exemplo, tu quer comprar um eBook da Livraria Cultura ou do Grupo A? Bom, tu vai ter que baixar um aplicativo para cada livro de origem diferente! (além do preço ser exorbitante)
    Eu sei que isso faz parte do programa de tentar conter a pirataria, mas esses mesmos mecanismos não ajudam nem mesmo quem tem boa vontade! Esses aplicativos, na maioria das vezes, não passam de leitores de .pdf com 1 ou 2 recursos enquanto que um bom leitor de textos vai te dar diversos recursos e uma maneira de organizar tuas leituras muito melhor.

  2. Luis Rosa · · Responder

    fabrício, tu está prestando um verdadeiro serviço à comunidade com este post. aquelas pessoas que pensam que os caras do megaupload gastam seu tempo para administrar o site simplesmente pq querem que haja “informação livre” estão enganadas – visa-se grana, e grana suja usando o trabalho de terceiros (os quais obviamente não ganham coisa alguma por esta transação virtual). porém, quero fazer algumas observations. obviamente não existe algo de errado com sponsored links e ads. esta é uma nova maneira de sustentar profisionais da web E uma nova maneira de se relacionar com as empresas e com o consumidor. eu tenho um site, você tem uma empresa (digamos, uma escola de inglês) ou então um software/ produto a venda. para sustentar meu site, coloco um banner do seu negócio no meu site. quanto mais clicarem no SEU banner dentro do MEU site, mais chances eu tenho de sustentar o meu site e o meu trabalho em cima disso (dá um look: http://en.wikipedia.org/wiki/Cost_per_click). o problema está em que algums admins de site ganham com isso disponibilizando conteúdo pirata – em outros termos, estas pessoas ganham dinheiro com o trabalho dos outros (lembram o que é exploração, marxistas?) as pessoas parecem pensar que sites surgem ‘do nada’, e que a internet é assim mesmo – cheia de luzinhas e janelinhas. agora, o que alguns ‘revolucionários’ da informação livre fazem, em muitos casos, é demonstrar uma total ignorância de como funciona a web, de como que administradores de sites podem estar ganhando grana, etc. portanto, pirataria boa é para quem é roots, meu caro: pirataria que não dá margem para o lucro de pilantras, dos quais há muitos na internet. costumo citar como projeto exemplar, sem jogo sujo, o site do Gutemberg Project: http://www.gutenberg.org/ . Revolução é pensar o novo, é ser mais racional e inteligente do que aqueles que processam dentro de um modelo velho, falho, pobre e injusto.

    1. ” o problema está em que algums admins de site ganham com isso disponibilizando conteúdo pirata”. Luis, tem esse problema. Mas tem o outro, que é a questão das iscas para que o pessoal possa usar o computador alheio como “zumbi”. E não estou nem dizendo que os caras do livros de humanas estavam do lado errado nessa história ou qualquer bobagem dessas. Eu quero dizer, isso sim, que eles usavam o 4shared para dar acesso aos livros e agora disponibilizaram as fontes em torrent.

      Bom, tanto os saites de torrent quanto os da turma do 4shared têm estas iscas. São portas abertas para expor o teu computador para, digamos assim, individuos maliciosos que ganham grana vendendo informacoes sobre o teu trafego na internet que tu pensava que eram privadas.

      Ou seja, para esses caras o usuário é um baita dum otário achando que tá sendo ultra-esperto quando arruma um link pra baixar um arquivo de graça.

      1. Luis Rosa · ·

        então, tbm não tive oportunidade de conhecer esse site, portanto não sei se ele tinha ad-clicks. o uso de zumbis é um clássico da invasão ao pc alheio. o cliente torrent é uma baita porta aberta para o cara mudar o protocolo e acessar teus docs (é uma mão, mas trata-se simplesmente de mudar a porta de acesso, p. ex. mudar para a porta 80., etc). então, essa é outra coisa q as pessoas não estão conscientes quando defendem sites de disponibilização pirata. knowledge is power – lack of knowledge is lack of power

  3. Sim, é a mesma discussão com os DRM (http://en.wikipedia.org/wiki/Digital_Rights_Management). É tanto detalhe, tanto “direito de uso” e de “reprodução” e tanta restrição, que é humanamente impossível entender tudo. E aí, daqui a pouco do ponto de vista do titular dos direitos autorais, tu tá violando a propriedade dele.

    Tem casos nos quais a SONY processou pessoas por terem (PASMEM!) copiado o próprio CD para o computador, já que isso violava os termos do “contrato”.

    Como eu sempre digo, o negócio é simplificar. Quem entendeu isso, tá faturando como nunca com a internet. Mesmo a Apple, que não é santa (pelo contrário, poucas empresas usam TANTOS recursos escondidos para enganar o consumidor quanto a Apple), ententeu que o principal é oferecer a coisa de forma fácil e rápida. Se for fácil e rápido, o cara paga 99 centavos RINDO por um single de algum artista x, y, z.

    Outros bons exemplos: Trent Reznor, Louis CK, os caras do PHD Comics, o Randall, do XKCD, todo esse pessoal tem se beneficiado horrores da internet. E, vamo lá, tanto o PHD Comics quando o XKCD venderem material, quando tá tudo for free na internet, isso deve dizer alguma coisa.

  4. Fabs: garoto propaganda da Amazon e da Apple (iBooks). Hshs. Apoio demais.

    Mas é fato que esse modelo atual de mercado editorial é insano. O que pode ser bom (ou o fim de tudo) para essa aberração que é o mercado editorial do Braziu, onde só 50 pessoas sabem ler no país inteiro.

    Esses dias finalmente tomei coragem e comprei o original do Dictionnaire d’éthique et de philosophie morale, organizado pela Monique Canto-Sperber: R$ 180 (na Livraria Travessa do Rio), o que não está tão longe, convertendo, dos 49 euros que custa na França (com a ressalva de que conversão de moeda diz pouca coisa sobre algo ser caro ou barato, já que 49 dinheiros no Braziu e 49 dinheiros na França têm poder de compra muito diferente).

    O problema é que a tradução para o português, pela editora da Unisinos (edição esgotada, mas ainda dá para encontrar em alguns lugares) custa TREZENTOS E SESSENTA Rou$$eff$.

    E isso é assim para qualquer tradução de livro publicada no Braziu. Aí não dá.

    1. Luis Rosa · · Responder

      Enciclopédia de termos lógico-filosóficos: 124 pilas
      até parece que filósofo nada no dinheiro, hahaha. e cara, tem vários outros exemplos de livros de outras áreas com preços simplesmente exorbitantes.

  5. Uma coisa que me chama a atenção é que livros de filosofia, particularmente, tendem a ser CAROS em qualquer lugar. Eu comparo os meus livros com os da Tatiana, por exemplo, e eles são sempre uma pauleira na comparação.

    E é interessante as resistências. Meu chefe é editor chefe da Continental Philosophy Review e da Northwestern Series para a SPEP. E é um drama tentar convencer ele que tem que deixar as coisas online, em alguma medida. Tem todo um FETICHE com o LIVRO e todas essas bobagens…

    1. Tatiana Vargas Maia · · Responder

      Os livros de filosofia são mais caros do que os de ciência política, ao meu ver, porque eles circulam menos no mercado. É quase impossível encontrar livros usados de filosofia em bom estado, enquanto os de ciência política existem aos montes. Os livros novos de CP são, via de regra, tão caros quanto os de filosofia.

    2. Tatiana Vargas Maia · · Responder

      E essa questão do teu chefe, na minha opinião, é o exemplo claro de desconhecimento das dinâmicas e tecnologias que possibilitariam divulgação de conteúdos online.

      1. É total TOSQUICE do T-bone isso. Mas é muito comum. Tenta argumentar com o pessoal da filosofia sobre essas coisas. Tem umas resistências ridículas baseadas em noções completamente sem sentido sobre leitura, ou o que livros DEVEM SER.

        Mas daí, tambem, né….

  6. Ótimo texto bem explicado e mostra os dois lados da moeda, o primeiro mostrando a faceta verdadeira dos “heróis” da liberdade de expressão e a segunda face mostra um modelo de editoração antiquado e que dificulta o acesso ao conhecimento.
    Eu mesmo compraria mais livros se as editoras e livrarias abaixassem os preços para os produtos online,pois hoje na maioria das vezes eles são mais caros que os de papel !
    Espero que a Amazon entre no Brasil para abaixar os preços dos livros. Não só a Amazon mas também outras editoras. Eu realmente admiro quem disponibiliza conteúdos na internet para popularizar o conhecimento e tenho asco das editoras brasileiras, já faz um bom tempo que não compro livros no Brasil e espero continuar assim, meu bolso agradece.

    Enquanto não boicotarmos essas editoras exploradoras elas irão cobrar mais e mais caro pelos seus livros.

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