Cultura, poder e assédio sexual

Há pouco tempo, a França revogou o assédio sexual como crime. O que pode nos fazer pensar primeiramente: “Ah! O país da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, finalmente atingiu o segundo conceito de seu lema nos escritórios públicos e privados?” Ou então que as mulheres descobriram um meio (sem que sejam despedidas) de se defenderem de seus chefes e/ou colegas? Não! Balela.

O que acabo vendo aqui na verdade são duas questões: a primeira é: “você é mulher, o seu lugar é abaixo de mim (às vezes literalmente) e isso significa fazer o que EU quero. E essa primeira não acontece apenas com mulheres com menor escolaridade e em cargos inferiores. Quantas vezes mulheres com maior qualificação não ouvem de seus chefes/colegas (muitas vezes desqualificados – das duas formas da palavra) para buscar o cafezinho para a reunião de hoje? (sei que é outra forma de assédio, mas conta na ideia do que quero falar).

A outra questão diz respeito a uma assexualização das mulheres no local de trabalho. Será que teremos que transformá-las em “travestis”, masculinizando-as, para que possam “usufruir” de seus cargos? Pois, já que uma mulher com saia até os joelhos pode ser tentadora aos homens e sua “natureza predadora”. O que vemos aqui mais uma vez são questões que envolvem cultura e poder. Uma cultura que por muito tempo tem tentado tipificar homens como predadores e mulheres como presas. E, decididamente, não acho que só as mulheres sejam “vítimas” desse sistema. Os homens acabam tendo demonstrar seu poder, subjugando as colegas ou empregadas no trabalho para serem “respeitados” pelos seus pares.

Sem dúvida, o poder passa pela sexualidade, e fazer com que o assédio sexual deixe de ser crime só mostra que alguns governantes não têm ideia do mundo em que vivem, ou na verdade, só querem dar uma “beliscadinha ocasional” na bunda da sua secretária sem que sejam processados por isso.

One comment

  1. Tatiana Vargas Maia · · Responder

    Oi Carla!

    O que eu achei interessante (do pouco que li sobre o assunto) foi a justificativa dada para a revgação da lei – de que os termos da mesma eram muito vagos, e que a legislação deixava os termos da infração parcamente definidos. O problema todo, me parece, é revogar a lei com base nessa justificativa sem qualquer tentativa de reformulação subsequente (de novo, pelo pouco que eu li, ninguém espera uma nova legislação sobre a questão do assédio antes da eleição da Assembléia Nacional, em Junho).

    Outro ponto que eu achei interessante é que, juntamente com as críticas que vc elaborou no post – de que a revogação dessa legislação específica, no fim das contas, leva a uma suposição de impunidade -, li também algumas críticas um tanto curiosas, que de certa maneira reconhecem o problema de não haver legislação, mas simultaneamente sugerem que a legislação até então existente era bastante inútil. O que, por sua vez, me levou a considerar o título do teu post, e a questão da percepção cultural dessas dinâmicas de assédio.

    A impressão que eu sempre tive é que em países como a França, Brasil, Italia, Portugal e Espanha (e daí eu não sei se atribuo a culpa a herança católica ou à nossa “latinidade”, e ainda não me decidi se essas coisas não são, no fundo, o mesmo fenômeno) existe uma “tolerância” maior a todas essas coisas – quase uma suposição de que uma vez que adimitimos nossa sexualidade, é assim que as coisas são. O que é muito diferente do que percebo aqui nos EUA, onde questões de assédio (sexual, moral…) são assunto muito sério (todo início do ano letivo, por exemplo, temos que assistir um vídeo sobre o que consittui assédio no ambiente acadêmico e o que consituti comportamento aceitável). A verdade é que nenhum desses dois extremos me agrada muito, mas eu não sei se é possível um meio do caminho.

    (O Fabi tem um argumento paralelo sobre estádios esportivos que eu às vezes acho que apresenta um contraponto interessante: pra ele, ou você tem estádios bárbaros – como temos no Brasil, ou estádios completamente “higienizados”, onde vc pode levar a família toda pra assistir o jogo, mas vão te olhar muito feio se vc falar um palavrão num momento de desgosto – exemplo dos EUA).

    Enfim. O caso recente do Strauss-Kahn, e as diferentes reações que ele provocou nos EUA e na França me parece ser bem ilustrativo dessas diferenças, e talvez seja um exemplo interessante pra começar a pensar essas questões.

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