Sam Harris:: Free Will

Quem é leitor assíduo do nosso blog (oi?!) já deve ter ouvido falar do Sam Harris e da sua posição teórica como um realista moral na resenha do Fabrício sobre o livro Moral Landscape. Pois bem, aqui, eu gostaria de falar um pouco sobre o seu último livro, o Free Will. Este é um livrinho de menos de 90 páginas e, certamente, pode ser lido em uma sentada ou em uma viagem de Porto Alegre até Farroupilha, Caxias ou Bento.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que eu não consegui “situar” bem esse livro em um contexto teórico explícito, quero dizer, é um livro para pesquisadores de filosofia ou de neurociência? É para o público em geral ou quer construir argumentos novos e consistentes? Ao olhar a página do Harris, eu descobri que o livro é fruto de um debate que surgiu de seus livros posteriores, o The end of faith  e o The moral landscape. Assim, eu acho que o Free Will, pelo seu tamanho e modo de argumentação, deve ser compreendido como um capítulo extendido (ou até um apêndice) desses outros dois livros (principalmente, o segundo).

Bom, o argumento do Harris é direto e sem muitas escusas históricas ou filosóficas: vontade livre (free will) é uma ilusão e, além disso, não pode ser conceitualmente coerente. Nossos desejos, pensamentos ou nossas intenções não surgem de nossa escolha consciente, mas de um contexto causal muito mais complexo que não temos consciência e nos controla: o nosso contexto biológico (e isso inclui genes, atividade cerebral, entre outras coisas).

Ou seja, para Harris, só há duas alternativas, tendo em vista que pessoas que acreditam em vontade livre estão erradas por comprovações empíricas: ou nossos desejos são determinados por causas anteriores e não somos responsáveis por eles; ou eles são produtos do acaso e não somos responsáveis por eles. Harris é a favor da primeira opção. Por que ele resolvi fazer esse post? Por que o Harris escreveu esse livro? Não sabemos nada sobre isso através de introspecção ou reflexão de nossos atos. Precisaríamos de neurocientistas e biólogos para isso; eles certamente teriam uma resposta mais verdadeira sobre isso. Do mesmo modo que não controlamos os batimentos de nosso coração, não podemos controlar nossos pensamentos e atitudes – é tudo fruto de atividades cerebrais ou “genes bons” ou “genes maus”. Portanto, nossa capacidade de desejar é estritamente biológica.

Os exemplos do Harris são, inclusive, todos nesse sentido meio “impactante”: Se tornássemos espirrar ilegal, muitas pessoas quebrariam a lei não importa quão grave ela seria. Do mesmo modo, raptar, estuprar ou matar alguém é fruto de uma complexa combinação de “genes maus”, “pais maus”, “ambientes maus” e “ideias más” – e nenhum ser humano é responsável pela carga biológica que ele possui e pelo ambiente que vive desde que nasceu. Por que, Harris pergunta-se, quando um indivíduo estupra uma mulher e, posteriormente, sabemos que ele possuía um tumor do tamanho de uma bola de golfe em seu cérebro, o que lhe deu esse caráter agressivo, nós modificamos radicalmente nossas intuições morais? Como consequência, Harris diz que essa desordem neurológica é apenas um caso especial de eventos físicos que dão origens a nossos pensamentos e ações.

No fundo, a pergunta fundamental que o Harris levanta é a seguinte: “como nós podemos dar sentido a nossas vidas, e argumentar que as pessoas são responsáveis por suas escolhas, tendo em vista as origens inconscientes de nossas mentes conscientes?”

Em primeiro lugar, eu diria o seguinte – junto com Frege: não adianta nada nós questionarmos a vontade livre através de questões genéticas; essa base biológica que descobrimos hoje é importante, mas não resolve a questão conceitual sobre vontade livre e liberdade de um modo geral. Ou seja, não adianta ficarmos nos perguntando sobre onde está a vontade livre ou se ela existe. Nós precisamos saber em que ela consiste, como a descrevemos teoricamente.

Em segundo, o Harris parece lidar com uma “teoria-joão-bobo” da vontade livre; ele pega uma concepção geral ou popular de vontade livre (apenas como sentimento de liberdade ou auto-geração de desejos), mostra como ela é incoerente ou já foi desmantelada pelas ciências atuais e expõe sua opinião. Ponto. No fundo, parece-me que o Harris quer acabar com a noção de “eu”; o que há é uma descrição objetiva de fatos empíricos.

Em terceiro lugar, Harris argumenta que o nosso costume de dizer: “eu fiz tal e tal coisa”, “ele bateu naquele indivíduo”, “eu quero fazer um post”, etc. são todas frases pragmáticas e de facilidade de nos organizarmos, pois é muito complicado termos consciência de todo o complexo sistema biológico e ambiental que determina causalmente nossos desejos, ações, etc.

Em quarta lugar, que eu acho o ponto mais interessante de Harris, é a sua discussão sobre responsabilidade moral e legal. Se consideramos que espirrar e matar alguém surge de contextos biológicos complexos, por que, no segundo caso, devemos punir e encarcerar alguém? Ora, devemos fazer isso somente se isso for útil ou realmente ajudar esse indivíduo a se reabilitar ou prevenir outros indivíduos a fazer o mesmo. Mas, será que isso adianta? Não seria mais interessante sermos mais sensíveis a todo esse contexto biológico e percebermos que, em certo sentido, ser moralmente bom é uma questão de sorte? E Harris é otimista aqui: “Esta mudança na compreensão representa um progresso em direção a uma visão mais profunda, consistente e compassiva de nossa humanidade em comum”. E ataca a religião (como em seu livro anterior): “poucos conceitos ofereceram maior escopo para a crueldade humana do que a ideia de uma alma imortal que é independente de todas as influências materiais, de nossos genes a sistemas econômicos”.

Enfim, Free will do Harris é um livro relativamente curto e que expõe um argumento bastante simples e direto sobre o assunto – serve quase como um verbete de uma enciclopédia ou dicionário de filosofia. Contudo, acredito que para entender a dimensão teórica do Harris em maior profundidade, seria interessante complementar a leitura com seus outros livros. Ah, e está baratinho na versão Kindle: $4

7 comentários

  1. Nunca li nada do Harris, mas, pela tua descrição, me parece que ele nunca leu um certo rapaz… um certo Immanuel Kant, que “resolveu” a questão pelo menos desde 1785, com uma tal de Fundamentação da Metafísica dos Costumes.

    Aliás, qualquer teoria biológica determinista contemporânea é totalmente compatível com a teoria da liberdade kantiana. Posto em outros termos, a liberdade é exatamente a possibilidade de realizar ações que vão CONTRA os impulsos naturais. É justamente pra isso que se cria a ideia de “liberdade”, “autonomia” e “responsabilidade” e as implicações legais disso, caso contrário seria oká nos matarmos uns aos outros simplesmente porque estamos a fim.

    De resto, pensar em liberdade como um puro “vazio” de determinações é algo totalmente bizarro – como tu pareceu indicar ao dizer que ele fala em termos de “concepção geral ou popular de vontade livre”. Agiríamos com base em quê?

  2. “Aliás, qualquer teoria biológica determinista contemporânea é totalmente compatível com a teoria da liberdade kantiana. Posto em outros termos, a liberdade é exatamente a possibilidade de realizar ações que vão CONTRA os impulsos naturais. É justamente pra isso que se cria a ideia de “liberdade”, “autonomia” e “responsabilidade” e as implicações legais disso, caso contrário seria oká nos matarmos uns aos outros simplesmente porque estamos a fim.”

    Perfeito. Mas o Harris, ao menos no outro livro dele, demonstrou que nao entendeu PORRA NENHUMA de Kant ou de Filosofia Moderna. Talvez seja irrelevante para ele, tanto pior.

  3. É, de fato, acabei de reler o teu post que o Marcos linkou. E exatamente isto:

    “Argumentar que é algum tipo de novidade defender que a liberdade não tem estatuto ontológico (que a liberdade não é um fato, da mesma forma que, digamos, as nossas sinapses são um fato) é simplesmente ridículo. Não há nada de novo em dizer isso. Desde Kant, ninguém realmente defende o fato da liberdade. Existe uma razão para Kant dizer que a liberdade só pode ser pensada negativamente. E seria bom o Harris ler Kant antes de afirmar que o imperativo categórico é o resultado da razão pura.”

  4. marcosfanton · · Responder

    Sim, exatamente! E é curioso como esses caras fazem $uce$$o com argumentos bem simplistas e idiossincráticos.
    Fora que, em último caso, o Harris está disposto a colocar a questão de “sair se matando” como algo OK, pois ele só tem essa dimensão realista. “Ir contra impulsos naturais”, “deliberar”, “agir de tal e tal modo” são todos frutos da mesma corrente causal.

  5. filipecampello · · Responder

    Eu tenho problemas tanto com Harris qt com Kant (com uma pequena diferença que duvido muito que daqui a 20 anos algum leia o Harris). É exatamente por a free will ser uma espécie de ficcão que tanto a moral quanto a religião – assim como o é mais claramente no direito – cumprem, com seus diferentes teores coercitivos, um papel fundamental pras relações sociais, mas que, ao mesmo tempo, são sempre expressões heterônomas enquanto se definem a partir de uma relação de submissão a uma regra. Mas no caso de Kant acho que há uma relação furada entre moralidade e racionalidade, e não é à toa que toda toda uma tradição de fil. moral a partir de Kant se baseia numa fictícia ideia de vontade livre e autonomia – e grande parte dessa tradição acredita piamente nisso como um fato, e não como Kant pensou a ideia de liberdade, como Walter e Fabricio disseram e eu concordo. Mas eu tb acho que, mesmo que Kant, diferente do que se fez a partir dele, não tenha pensado a liberdade como um “fato”, ele desenvolve uma ideia de racionalidade e moral que, em ultima analise, tb se refere a uma concepção de autonomia que acho furada.

    Uma outra coisa: Isso não serve pra falaciosamente invalidar os argumentos de Harris, mas o site dele é um ótimo exemplo de como fazer da filosofia um negócio.

  6. Certamente vcs que comentaram aqui nunca assistiram o vídeo em que ele meio que explica este livro. Está no Youtube… procurem por “Sam Harris Liberdade de Escolha”. Está bem legendado e tal… talvez com uma explicação mais clara do próprio autor, vcs acabem entendendo que, na verdade, o que há, é uma ilusão da liberdade de escolha… espero ter ajudado!

    Abraços!

  7. Caro Gurag, não entendi qual o seu ponto – o que, precisamente, estaria errado? Em segundo lugar, vi o vídeo até os 3min. e as duas primeiras teses do Harris são: [1] a vontade livre é uma ilusão; e [2] ela é uma ideia incoerente. O que haveria de tão errado sobre o modo como comentamos ele?

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