Pós-Graduação, ou “quando tu vai arrumar um trabalho, Fabrício?”

Abre cortina,

Fecha cortina.

A Tati me enviou esse vídeo e disse algo tipo “bom material pra post aí”. O vídeo do Prates repercutiu horrores lá no posgraduando.com, e motivou alguns comentários interessantes, um desabafo até bem articulado e um monte de ofensas ao Prates.

Eu sempre digo que se as pessoas soubessem como as entranhas de uma pós-graduação funciona, daí que a gente não recebia dinheiro algum mesmo. Eu conheço poucos ambientes tão tóxicos e mal-organizados quanto a Universidade. Se for para generalizar, temos dizer que somos tartarugas, temos problemas em aplicar o dinheiro que recebemos, temos o dedo fora do pulso das principais questões da sociedade, formamos pedagogos sem capacidade de educar, somos dinossauros no uso de tecnologia, temos um problema sério na manutenção da memória das nossas Universidades, somos o último recurso de idéias mofadas e sem utilidade, que encontram na Universidade um ambiente no qual ainda podem ser discutidas, damos suporte para uma horda de indivíduos com egos enormes, que transformam a arrogância no modo de operação padrão para quem quer ser “alguém” no meio e isto tudo sem falar na lama política-partidária que facilmente toma conta das disputas internas e externas.

Isso não é peculiar ao Brasil. As Universidades de grande porte nos Estados Unidos, assim como as Inglesas, são uma máquina de fazer (e de lavar) dinheiro. Mesmo nas pós-graduações das ilibadas grandes instituições de ensino encontramos filhos de príncipes comprando seus diplomas com dinheiro sujo e rindo, sem cerimônia, dos esforços de “inclusão cultural”. Harvard, abrindo franquias, como se fosse um Burger King, deveria nos dar todos os “indícios” dessa falência.

Pois bem, vomitei tudo de negativo que eu tinha para dizer. Agora, se vocês tem alguma paciência, por favor, sigam comigo.

Seguinte: o ambiente é toxico, a universidade precisa ser repensada. As paredes das universidades sabem isso. Quando o cara acha que tá aberto para discussão se ele pode ou não pode colocar adesivo político na mesa de uma universidade privada, é porque a coisa tá totalmente entoxicada. Mas isso significa que nosso sistema é uma fábrica serial de incompetentes? Principalmente os que se prestam a procurar uma pós-graduação?

É interessante esse argumento. Ele também é muito conveniente. Certamente a pós-graduação não é para todo mundo, e eu acho que nem a Universidade precisa ser. A questão, daí, é por que tanta gente acaba apelando para a pós-graduação após terminar o curso convencional. O Prates acertou, sem querer, num ponto importante aí, que é a pós ser uma possibilidade de emprego fácil para recém-formandos. Mas aí, eu acho que a culpa da baderna é mais dos departamentos do que dos alunos. Em uma pós-graduação a Universidade tem total controle sobre o ingresso de indivíduos, se não existem indivíduos remotamente competentes tentando a seleção então talvez fosse o caso de repensar a necessidade daquela extensão naquele local (e não selecionar incompetentes para “formar” o quadro discente). Mas, claro, isso implicaria na diminuição exponencial de departamentos – e vocês já devem estar imaginando a gritaria sobre o desmontamento da Universidade caso alguém tivesse o bom-senso de repensar a necessidade de certos departamentos.

A questão, aí, é institucional. E talvez ela seja toda uma questão de organização. Os alunos estudam pouco porque esperam que estudar pouco vai ser o suficiente. Isso vem desde o ensino fundamental, onde alunos ou são tratados como clientes que a escola não pode perder (no ensino privado), ou são expostos ao caos da rede pública (e daí, creio que é caso de canonização quando dá certo). Mas, de novo, dá para generalizar?

Não tem muito tempo, um artigo da Piauí me tirou do sério. Era um artigo de uma aluna norte-americana no Brasil, falando como a Universidade brasileira era mais difícil que nos Estados Unidos, porque os alunos no Brasil eram oh tão indisciplinados, oh tão perdidos e os professores oh tão condescendentes. Muito do que a aluna falou, do alto dos dois meses de Brasil dela, estava certo. Mas o que me tirou do sério foi a implicação que os Estados Unidos, de alguma forma, é melhor. Não é.

A diferença fundamental entre as universidades Brasileiras e as norte-americanas é dinheiro. As norte-americanas tem muito. Mas alguma coisa a gente tem que estar fazendo certo quando os alunos brasileiros que vão para o exterior se destacam. E a maior parte faz um excelente trabalho aqui fora. E aí? Não era horrível? E não me venham com o papo de “ah, mas esse é o top selecionado”. Balela. O nível das discussões que vi nos Estados Unidos é igual ou inferior ao nível que percebi no Brasil. E o nível médio de leitura do aluno de pós-graduação aqui é imensamente inferior ao nosso. Muda o acesso a recursos, e daí a coisa é realmente uma grande vantagem de estar aqui fora. Acesso a livros, material de pesquisa, laboratórios, centros de pesquisa, arquivos… tudo isso é incomparável. Em cinco dias eu consigo qualquer livro em qualquer lugar dos Estados Unidos. De graça. Só preciso fazer um requerimento na universidade. Tenho acesso a material de vídeo, gravação e apresentação. Só preciso fazer um requerimento de uma página, absurdamente simples. A Universidade fornece, de graça, serviços para divulgação de eventos online e offline.

A questão é, como eu venho dizendo, institucional. O ambiente universitário aqui me permite fazer as coisas com maior tranquilidade, em um certo sentido – embora eu considere meu departamento atual, tecnicamente, inferior ao departamento de filosofia da PUCRS (ao menos a geração de professores que eu peguei na PUCRS). Mas seria ridículo se um departamento (QUALQUER DEPARTAMENTO!) da quarta universidade Estadual de Illinois fosse superior, tecnicamente, ao da primeira (ou segunda, depende de quem tu pergunta), do Rio Grande do Sul e uma das maiores do Brasil e da América Latina. E, no entanto, do ponto de vista institucional quase todos departamentos aqui tem mais infra-estrutura para os alunos do que boa parte dos departamentos da PUCRS. A PUC é muito mais rica, muito mais desenvolvida, que a SIUC. Só o TECNOPUC deve ter um orçamento maior que o da SIUC inteira. No entanto, tentem arrumar uma câmera da Universidade para filmar um evento na PUC. Sério, tentem. Eu vou ficar aqui esperando enquanto isso.

Então, a pós-graduação é o refúgio dos incompetentes? É um deles. Tem muitos outros. O serviço público também tem a mesma tendência. Em ambos os casos, temos ambientes institucionalmente falidos onde os empregados, se já não estavam desmotivados, perdem toda a motivação depois de três meses de disputa com a máquina. Ainda assim, não consigo olhar para alguns dos meus colegas e identificar apenas incompetentes. Tem muita coisa boa para ser dita sobre a renovação em setores da academia brasileira, especialmente nas exatas e biológicas. Muita gente que se beneficiou dos programas da CAPES e do CNPq tem voltado com idéias interessantes e com projetos colaborativos que vão forçar a mão de algumas universidades brasileiras.

O que eu acho significativo do comentário do Prates não é o que ele disse, mas o que ele não disse e deixou sub-entendido. Que é essa idéia geral que o cara que tá na Universidade não está trabalhando. Especialmente na pós-Graduação. Those who cannot do, teach. Ou, aqueles que não sabem fazer, ensinam. Lamento, mas a incompetência é um traço de qualquer ambiente de trabalho e eu poderia encher um post de exemplos disso no Jornalismo (ou no Ministério Público). Já cansei de ser acusado de não ter um trabalho, ou de ter largado uma carreira brilhante no direito, para me dedicar ao Mestrado (e depois doutorado) em Filosofia. Provavelmente, eu estaria até hoje esperando a tal carreira brilhante tivesse eu optado por ficar no Direito – ainda mais considerando minha péssima formação na faculdade (que foi culpa minha, e não dos meus professores ou da minha universidade, bem entendido).

Uma das formas de mudar essa percepção geral, me parece, seria realmente colocar os nossos bolsistas para trabalhar. Os bolsistas são motivados, não estão tão expostos ao nhem-nhem-nhem acadêmico e ainda não tiveram tempo para aprender a odiar todos os seus respectivos colegas de departamento. Por que não colocar esses bolsistas a ensinar ou ajudar no planejamento de aulas? É uma forma de colocar sangue novo, treinar o pessoal e, de quebra, motivar os alunos. Também seria uma forma de redesenhar a forma como as pós-graduações são percebidas. Para quem está de fora, o pós-graduando está sentado fazendo nada (e, muitas vezes, está mesmo). Impor uma rotina específica de trabalho, para além do interesse de pesquisa do mestrando ou doutorando, iria fazer o pós-graduando mais vizível, e obrigar a formação de uma rotina disciplinada para a elaboração da tese.

Pois  bem, melhor parar por aqui. Mas para finalizar: o que o Prates falou sobre a universidade segue sendo a opinião de alguém de fora. Creio que ele falaria coisas muito piores se estivesse dentro. O principal, no entanto, é perceber que os problemas passam por um enquadramento institucional – e não da prática de pesquisa, em si. Como fazemos pesquisa, o ambiente no qual fazemos a pesquisa, está condicionando a recepção do que é percebido como a prática de pesquisa em geral. E daí, meu velho, a gente tem que assumir a responsabilidade por seguir escondidos, gritando que departamentos fecham por algum motivo exotérico. Os departamentos estão fechando e as universidades estão falindo por culpa, principalmente, da leniência de professores, pesquisadores e administradores, que seguem trabalhando em um modelo que eles sabem que está errado e preferem ficar em silêncio do que arriscar uma demissão.

15 comentários

  1. Queria muito ver esse artigo da Piaui, alguem tem o link??

  2. Tatiana Vargas Maia · · Responder

    No final das contas, apesar de perceber uma certa falência generalizada, uma das alternativas que você aponta no fim do seu texto é o modelo de GA (Graduate Assistantship) que prevalece no sistema norte-americano. Ainda que eu possa pensar em uma lista de problemas a respeito desse modelo, a minha experiência enquanto GA foi muito positiva: você de fato entra em contato com a profissão de maneira mais sistematizada e acompanhada, e acaba tendo uma formação profissional mais completa do que sendo apenas bolsista. Alunos são integrados diretamente nos departamentos, e evita a tendência geral de isolamento e procrstinação (o famoso exemplo dos artigos escritos uma semana antes do prazo, e dissertações um mês antes da defesa…)

    Além disso, me parece ter um aspecto interessante pro “consumo externo”: no modelo de GA, alunos de pós-graduação estão de fato trabalhando, o salário deles advém dessa atividade, e bolsas de pesquisa (as fellowships) não apenas são mais curtas, mas são distribuídas baseadas em méritos comprovados (e não apenas num ranking da seleção inicial que antecipa muito pouco do desempenho do aluno durante o programa).

    Mas sempre fico pensando quanto temo vai durar essa bonança das universidades nrte-americanas. Afinal, esse modelo com o qual nós nos acostumamos é, de fato, insustentável em termos econômicos. Quantos programas de mestrado e doutorado (que devem cada um formar em média 5 mestres e 3 doutores anualmente) em filosofia um estado de 12,869,257 habitantes precisa?

    Um último ponto (prometo!): em repensar modelos universitários, a gente devia também repensar currículos de pós-graduação de maneira séria. Quando nem metade dos doutores formados em Humanas trabalha nos campos para os quais se prepararam (ou seja, não lecionam e não pesquisam), talvez seja o momento de pensar curriculos que contemplem não apenas a formação de professores de terceiro grau e pesquisadores, mas também competências mais diversas e gerais (Ah, competências! essa palavra tão abominada!)

    Ok, chega. Estou otimista, viu? Deve ser efeito da medicação. :P

  3. Para todos os efeitos, eu acho que a Bonanza já acabou. É só ver a quantidade de alunos com posições fora do departamento, trabalhando em livraria, no wal-mart e etc. E daí entra a grande merda do sistema americano que é a questão do débito e dos custos associados com a pós (que tornam, francamente, fazer uma pós-graduação uma coisa irracional).

    Não sei se concordo sobre o currículo da pós. Acho que seria mais se perguntar pq estamos absorvendo mais do que o mercado tem necessidade de incorporar. Uma coisa são as extensões em pesquisa terem um perfil de mercado, ou mais voltado para o público em geral. No caso das pós-graduações em nível de mestrado e doutorado, acho problemático ir contra, digamos assim, a vocação de um curso para formar gente “pro mercado”. Não vejo problema algum em fazer isso na graduação, pelo contrário. Inclussive, se a graduação estivesse fazendo a função de formar profissionais melhores, talvez não tivesse tanta gente desesperada por uma bolsa em uma pós.

    E daí, entra de novo a questão do trabalho vinculado. Imagina essa horda de oportunistas tendo que preparar prova, fazer pesquisa documental ou dando aula? O pessoal sabendo disso certamente não iria querer fazer a pós. Seria uma forma de filtrar.

  4. Caríssimo. Tenho certeza de que as criticas e dúvidas ficaram lá longe, no passado.
    Todos hoje temos certeza de que tomaste o rumo certo: aquele que certamente te dará maiores recompensas, realizações e reconhecimentos.
    Esperamos ansiosos pelo breve retorno.
    Ah, parabéns!

  5. Liliane Braga · · Responder

    Correndo o risco de dar uma opinião limitada por tocar em um só aspecto da discussão, vou comentar alguma coisa. Bom, concordo com o Fabrício quando ele diz que, se soubessem o que rola por dentro das Pós, aí é que falariam mal mesmo. A manipulação de resultados, a completa falta de honestidade e de ética nas pesquisas (principalmente com seres humanos), a regra de que “posso justificar qualquer coisa que eu queira estudar porque sempre vou encontrar pelo menos 1 artigo que corrobore meu estudo”. Isso tudo é um nojo! E reconheço meu idealismo/romantismo quando eu penso que ficou para nós, alunos de pós, o compromisso de mudar isso aí.

    Mas eu fiquei pensando também sobre muito do foi falado aí no texto: de que “Quem não sabe fazer, ensina”, da desvalorização da pesquisa como uma atividade que deva ser feita por paixão e não por dinheiro (assim como a Psicologia, hahaha), e sobre a busca da pós-graduação pelo status que o título oferece ou que o cargo de professor oferece. E eu penso que isso vem de uma coisa muito simples que é: a gente não sabe estudar, assim como não sabemos aprender e não sabemos ensinar! Ninguém nunca viu um professor com um livro aberto estudando. O professor é a figura que sabe de tudo, que nunca é questionado e que tem a nobre função de repassar parte dos seus conhecimentos pros alunos. É claro que isso tudo se reflete na nossa postura como alunos de pós-graduação (que não sabe estudar, não se envolve em atividades docentes e nem reflete sobre a prática docente), na nossa relação com nossos professores (e acabamos concordando com a regra que está posta) e também na forma como somos vistos “por quem está de fora”. Pra nem dizer que o “de fora” nem deveria existir, afinal de contas, a pesquisa que é feita pra circular internamente e não chega pra sociedade, serve de que?

    Serve apenas para corroborar outros estudos também sem relevância social.

    O interessante dessa história é que a própria Capes, enquanto órgão avaliador dos Programas de Pós, valoriza e incentiva (fortemente) a publicação. São cinco os critérios de avaliação, e entre eles está contemplado o “impacto social das pesquisas desenvolvidas naquele Programa”. Mas qual o peso real que esse aspecto tem na avalição feita pela Capes na hora de atribuir uma nota 5 a um Programa? Sabemos que quase nenhum, no fim das contas, o que importa mesmo é publicar!

  6. Excelente, Liliane.

    Essa questão de Ética na Pesquisa, é interessante ver várias universidades tentando trabalhar com isso, com escritorios de etica em pesquisa (na PUCRS, tinha muita coisa voltada para pesquisa médica). E é interessante que isso é uma coisa que, se bem feita, tu consegue mobilizar o publico em geral para acompanhar.Tipo, os eventos da Bioética, da PUCRS, tavam sempre lotados de gente, pessoal querendo entender o que tava rolando. Por outro lado, é algo que as pessoas pensam ter relação com a própria vida (tipo, EVENTUALMENTE EU TAMBEM VOU PRECISAR DE UM HOSPITAL).

    Claro, mesmo isso acaba virando ferramenta política e de babaquices internas dentro de departamentos…

    bom, sobre a CAPES. meu problema nem é tanto com a CAPES, eu acho que no geral eles ao menos TENTAM fazer um bom trabalho. tem que ter algum critério para lidar com trocentos departamentos pelo país. mas que tinha que dar uma olhada nas INTERNAS da revista… tem muita coisa estranha, para dizer o minimo, que acontece diversas vezes. Ainda assim, acho mais fácil reformar isso do que avaliar o impacto social. Imagina a porta que abre aí para manipulação, e encheção de linguiça…

  7. Me identifiquei na parte que se refere ao serviço público. É bem isso msm…

  8. filipecampello · · Responder

    É por aí, Fabrício. De qq forma tb acho que, diferente de outros países, a universidade no Brasil virou quase que uma necessidade automática de continuação do ensino médio, e o mesmo ocorreu depois com a pós-graduação. Isso faz com que haja um nível baixíssimo de estudantes que estão ali não pq querem ou se sentem motivados, mas por necessidade. Acho que com a melhoria de oferta de emprego e ampliação e valorização p. ex. de escolas técnicas isso pode mudar. Por outro lado, acho que ainda há uma diferença significativa na qualificação do corpo docente – e aqui não estou falando de um dpto. de qualidade e estabilizado como o que passamos na pucrs, mas de forma mais geral. Agora, concordo contigo que o nível das discussões no Brasil não deixa a desejar comparado com outros países e que há um potencial enorme que frequentemente se mostra no destaque e nos ótimos trabalhos de brasileiros tb em universidades de excelência no exterior. Como vc de algum modo tb coloca, a questão é a de se desenvolver um aparato institucional que propicie o desenvolvimento adequado desse potencial uma boa faixa de alunos brasileiros tem.

  9. Raquel Canuto · · Responder

    Mamilos são polêmicos e sempre serão!
    Fabs, não que isso importe, mas eu acho que o Prates se referia às especializações, que viraram uma máquina de dinheiro no Brasil. E nisso eu concordo com ele, no Brasil, o sujeito sai da graduação com a completa certeza que não está pronto para o mercado de trabalho e, antes de acabar o própria graduação, já está matriculado em algum curso de especialização comercial. Esse sim é um mundo podre, mas isso vale um post.

    Sobre o modelo Graduate Assistantship, existe uma nova modalidade de bolsa Capes (Capes Reuni), onde os alunos necessariamente desenvolvem atividades na graduação, durante a duração da bolsa, como aulas, orientações, com o objetivo de promover a integração que a Tati descreveu.

    Sobre o que move os alunos de mestrado, eu penso que, na maioria das vezes, a expectativa é (1) a de inserção no mercado de trabalho, escuto frequentemente frases do tipo: “Vou fazer um mestradinho pra dar umas aulinhas”. Essa frase explica também a falta de qualidade dos docentes das instituições privadas. (2) O desemprego eminente após a formatura, na minha profissão (nutricionista) uma bolsa de mestrado é 300,00 Reais a menos do que o piso salarial da profissão!!!! Inclusive com o aumento no valor das bolsas isso será cada vez mais frequente. Fica difícil funcionar o troço.

    Por fim, já circulei por instituições e serviços públicos e privados, não sei qual é mais podre! No final, creio que no mundo acadêmico exista um resquício de meritocracia.

  10. Certo, eu concordo que estes cursos de extensão, de forma geral, são uma máquina de fazer dinheiro – especialmente MBA, e essas pós-graduações para temas “quentes” no mercado. Ainda mais no Direito, que algumas dessas extensões CONTAM PONTO PARA CONCURSO, e são requisitos extra-oficiais para passar na coisa (tipo as extensões da AJURIS).

    Mas tae um post perigoso de escrever sem sofrer PROCESSO. Interessante essa modalidade de bolsa da CAPES, acho que é esse o caminho.

    Já acreditei mais na meritocracia, Raquel. Acho que sim, existe ALGUM resquício de meritocracia no nosso meio. Mas me impressiona como é fácil fazer um trabalho horrendo e não dar nada. Por exemplo: experimenta não responder um email para o teu chefe numa empresa privada. Ou sair sem aviso por SEMANAS. Nem precisa voltar. Na academia, essas coisas são perdoadas em nome de um certo “I pretend I pay you, and you pretend you work”. Eu tenho cada história sobre isso, que é de arrepiar (e todas são direct experience).

    Já saí de bancas de mestrado onde o professor ORIENTADOR dizia “não tinha um parágrafo legível na tese desse aluno”. Passaram. Com nota máxima. O cara hoje tá em um doutorado, muito bem, obrigado. Saca? Então, para cada exemplo de meritocracia que eu consigo pensar, penso em outros dois onde a coisa é de uma patetice lamentável….

    Mas acho que é para onde tu escolhe olhar. Tem muito exemplo bom de administração de dissertação e de tese para ser copiado, e muitos exemplos ruins para servir de exemplo negativo. Dae é ter o bom senso de saber qual seguir :)

  11. Victor Marques · · Responder

    Começo dizendo que toda vida que vejo algo que o Luiz Prates falar me arrepio todo, não de orgulho, mas de vergonha alheia, esse cara fala muita besteira e com um ar de intelectualoide, já citado em outro comentário aqui.
    Apesar disso, achei o seu texto, Fabricio, um desabafo bem articulado. Para aqueles que estão em uma pós-graduação seus comentários são bastante conexos, sobretudo no tocante ao envolvimento com as questões que a sociedade coloca. Iniciarei por aqui.
    Anos atrás, quando do inicio de minha graduação – Engenharia de Produção – me foi dito que a profissão do engenheiro era propor soluções para sociedade. Por admirar tanto o professor que aquela epoca dizia isso, eu me apeguei a esse conceito e trago comigo até hoje. Mas se pararmos pra refletir um pouco, como propos Fabrício, esse deveria ser a principal diretriz de nossas universidades, pelo menos as públicas. A demanda deveria vir da sociedade, não da cabeça dos que acham que pensam.
    Não podemos negar a nossa crise da educação, ainda mais nos tempos de hoje, onde as preocupações passam a ser outras e não mais as básicas prioritárias (miséria, pobreza, moradia – apesar de achar que ainda são). O nosso modelo de ensino não permite um ambiente que promova o conhecimento, é daquele jeito mesmo, professor sabe tudo e cospe pro aluno engolir o que puder. E assim seguimos acreditando que alguém está realmente aprendendo algo.
    Não distante, isso acontece na pós-graduação, essa lógica descabida de que devemos nos aprimorar para termos melhores posições/trabalho/emprego/cargo/status é uma lógica que obedece ao mercado. E será assim sempre até nos darmos conta disso.
    Em todas as instancias a preocupação não é pela qualidade do trabalho, não é pelo desejo de responder a um anseio da sociedade, é para ter o título, é para aumentar a publicação, ajudar na pontuação do programa ou a sua mesmo. Eu cansei de ouvir isso!
    Raros são os trabalhos que estão realmente motivados para contribuir com a sociedade, que querem se dedicar para ajudar na busca por uma resposta que ainda não temos. Por isso o “encontro um artigo que me justifica” é tão usado.
    O crescimento acelerado dos investimentos no ensino superior promovido nos últimos anos pelo governo não conseguiu prever muitas coisas, mas a pior delas é essa desvalorização do sentido do estudo. O que acabou por criar esse novo ser, o recém formado sem emprego que busca a pós como uma alternativa para o limbo, um passa-chuva.
    Quando me perguntam se eu trabalho, eu respondo que sim! A sociedade me paga para desenvolver um estudo, que pelo menos para alguns, é importante. Meu empregador maior é a sociedade, através da CAPES. E acho, sinceramente, que todos deveríamos nos sentir assim, os bolsistas pelo menos, não encarar a pós como uma outra fonte de renda sem tanto compromisso.
    Outro ponto importante, que Lili já colocou, é a prática pedagógica ou andragócia que nenhum de nós, possíveis professores tem. Em defesa, digo que a UFRN iniciou 2 anos atrás um programa para ajudar na formação a docencia destes, o CID – Curso de Iniciação a Docência.
    Bom, já falei muito e ainda não disse metade do que queria, mas já tá de bom tamanho para iniciar.

  12. Valeu o comentário, Victor.

    Sobre o CID na UFRN, tu poderias dizer como foi tua experiéncia com a coisa? Fico interessado porque muitas vezes esses programas acabam sendo “para constar”. Por exemplo, quando eu fiz o meu mestrado, o meu curso tinha “experiencia docente” como partes dos critérios, mas eles alegavam que esse treinamento docente era feito nas “apresentações em aula” e portanto, não precisava de um acompanhamento mais, digamos assim, próximo

    Nesse caso, o curso coloca os alunos para trabalhar mesmo? Ou é “incorporado” na “grade didática” do departamento?

  13. Liliane Braga · · Responder

    Bom, vou me meter aqui na discussão e falar da minha experiência no CID, e depois Vitinho pode falar da dele.
    Fiz parte da primeira turma do CID, no primeiro semestre de 2010.
    É um curso organizado pela Pró-reitoria de graduação, e não pelos departamentos. Por isso, ele tem a característica de juntar os alunos de todos os programas de Pós da UFRN, o que é um aspecto positivo.
    O Curso funciona, em termos burocráticos (para cadastramento no Sigaa), como uma disciplina obrigatória que deve ser paga antes de dar a docência assistida.
    Assim, entende-se que o CID vai, de alguma forma, preparar (ou “instrumentalizar”, como era a expectativa dos meus colegas) o aluno para a prática docente.
    Bom, na minha turma, o que houve foi uma troca de experiências positivas e negativas que os alunos tiveram durante a gradução.
    E essa troca de experiências, por si só, foi riquíssima e muito proveitosa! Mas, fazendo uma avaliação geral daquilo que foi a versão-teste do CID, considero que o curso proporcionou aos alunos uma troca de experiências e uma reflexão sobre o processo de ensino-aprendizagem e sobre a possibilidade (real ou não) de avaliação/quantificação dessa aprendizagem.
    Mais uma vez: acho o curso extremamente válido por proporcionar essa reflexão sobre uma possível (e lenta) desestruturação do modelo tradicional de ensino-aprendizagem, em que o aluno é uma folha em branco que irá absorver todo o conhecimento transmitido pelo nobre professor.
    No entanto, acho que esse não deve ser o único propósito do CID. Dá pra ir além disso, e deve ir!
    Assumo que não faço idéia de qual formato o CID tem hoje, já na sua 5a versão.
    Mas na última vez que conversei com alunos que participaram do CID de 2011, a insatisfação era mesma…
    Tanto que o Depto de Educação já chamou pra si a responsabilidade por ministrar esse curso para os seus alunos de Pós.
    Não sei se isso já foi efetivado, mas acho ótimo que um Programa de Pós entenda que é sua responsabilidade formar seus próximos docentes.
    Quando levei essa proposta pros professores do meu Programa de Pós, durante uma reunião de Colegiados, a resposta foi: “É compreensível que o Depto de Educação ministre um curso de Iniciação a Docência, mas o que é que a Psicologia tem a ver com isso? Só nos traria mais trabalho” .

  14. Liliane Braga · · Responder

    Ah Fabrícío! Só pra complementar sua idéia, na resposta ao meu primeiro comentário. Você falou, e eu concordo, que é muito mais fácil pra Capes avaliar os Programas pelo critério da produção. Aí você diz que, se fosse pra avaliar pelo critério do impacto social, isso abriria portas para manipulação e para encheção de linguiçã. Não discordo de você, acho que isso aconteceria mesmo.
    Só acrescento que, utilizando o critério da produção científica, essa manipulação já acontece, ne?
    Temos aí o mercado negro das publicações, o “tu me cita que eu te cito”, e já vi até neguinho colocando o sobrenome do orientador nas palavras-chave do artigo. Antes que você pergunte: não, o orientador dele não era Paulo Freire, nem Foucalt, nem Freud.

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