Behaviorismo filosófico: FAIL!

Muitos de nós já ouviram falar de alguma forma de behaviorismo. O termo é comum na psicologia, na filosofia, na antropologia, etc. Nos contextos científicos, geralmente se fala do behaviorismo metodológico – aquele em que os métodos de investigação psicológica são construídos com base em análise, condicionamento e descrição do comportamento animal. Não é sobre este tipo de behaviorismo que quero falar, mas sobre o behaviorismo filosófico.

O behaviorismo filosófico tem a seguinte tese semântica: proposições que falam de eventos e processos mentais são completamente redutíveis a proposições que falam sobre o comportamento. Assim, as condições de verdade para uma proposição como:

Amanda está com calor

estariam não em um estado que ocorre ‘dentro’ da mente de Amanda, algo que só pode ser verificado pela introspecção da própria Amanda. Ao contrário, as condições de verdade para aquela proposição estão numa série de comportamentos a serem assumidos pela própria Amanda, os quais são de um determinado tipo-padrão. O que torna verdade a proposição de que Amanda está com calor? Uma série de contra-factuais da forma:

Amanda iria se refrescar com um banho frio se tivesse um chuveiro agora;

Se Amanda estivesse em casa, ela tiraria a blusa;

Se oferecessem um copo d’água para Amanda, ela aceitaria;

etc.

Para um behaviorista deste tipo, falar sobre emoções, experiências e quaisquer outros ‘estados mentais’ é falar, de uma maneira ordinária, sobre padrões de comportamento atuais ou contra-factuais.

Este tipo de teoria teve uma série de motivações: fundamentar uma psicologia experimental objetiva; superar o dualismo tradicional sobre a mente; dissolver problemas filosóficos por meio da acusação de pseudo-problemas; etc. Porém, o sucesso da posição não foi duradouro, e quero rapidamente explicar por que.

O problema é exatamente este: o analysans da proposição sobre o estado mental pode ser infinito e não determinado e, além disso, suas condições podem facilmente não ser cumpridas. Quantos fatos contra-factuais é preciso expressar para conseguir analisar o estado de calor de Amanda? Não há aqui disposição para milhares de variações de respostas a este estímulo? Qual o limite definido para que estas condições contra-factuais sejam necessárias e suficientes para a verdade da proposição analisada? Não há este limite – isto não é um analysans conceitual.

Além disso, vamos supor que um dos contra-factuais analisando a proposição de que Amanda está com calor seja a afirmação de que, se perguntassem para ela se ela está confortável, ela diria que está sentido calor. Ora, Amanda pode perfeitamente não se comportar desta forma, preferindo não falar que está com calor, ou por que acha desnecessário falar isso, ou por que ela está pensando em outra coisa e não responde a pergunta, etc.

Enfim, esta você já sabe que é uma teoria falsa, dead-end, FAIL.

p.s.: nada na argumentação acima, presente de variadas formas na literatura contemporânea, oferece qualquer razão para criticar o fabuloso trabalho do doutor B. F. Skinner.

One comment

  1. Achei massa seu texto, tem uns pontos que eu pensei em comentar
    Existe o behaviorismo metodológico, que é chamada de 1a geração e cujo o paradigma que explica o comportamento é a diáde S-R (estímulos eliciam comportamento), posteriormente temos o behaviorismo radical, a parte mais recente, proposta por Skinner que adicionou uma consequência (S’) às respostas S-R-S’, onde os estímulos modificam a probabilidade de certas respostas ocorrerem e estas terão sua probabilidade de ocorrência modificada pela consequência. Sobre behaviorismo filosófico eu tenho que assumir minha completa ignorância sobre tal tema.
    Em relação ao exemplo da calorosa Amanda, o que o behaviorismo analisaria seria o motivo e o contexto de Amanda emitir tal comportamento verbal. As variáveis são infinitas, mas existem variáveis que alteram mais as probabilidades dela emitir tal comportamento, sendo assim, a partir de uma análise se isolariam certas variáveis e se tentaria modificá-las para ver se a ocorrência do comportamento iria mudar. Sim, tirando os aspectos genéticos de Amanda, o resto do comportamento dela poderia ser analisado a partir de fatores externos como a quanto tempo ela não bebe água, quem está com ela, se ela aprendeu a ter uma boa expressão da propriocepção, se ela tem habilidade assertivas, enfim, como vc mesmo disse, uma infinidade de variáveis, mas nenhuma delas de cunho mentalista.
    Tem até um artigo interessante de Rodrigo Guimarães no Scielo: pepsic.bvsalud.org/pdf
    saudações!/pcp/v23n3/v23n3a09.pdf

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