Definir ou Exemplificar?

A noção de “jogos de linguagem” pode indicar que definir é insuficiente para a compreensão de conceitos? É necessário olhar para a aplicação dos conceitos no uso que se faz deles? Para Wittgenstein, nas Investigações Filosóficas, só é possível tratar de conceitos considerando que eles possuem delimitações incertas e disformes. Os jogos de linguagem seriam um exemplo de flexibilidade que opera no uso real da linguagem que, como um recurso estratégico, vai de encontro às definições.

Neste contexto aceita-se que existem múltiplos jogos de linguagem. Aos modos de uso cotidiano da linguagem em geral, a linguagem chamada primitiva e, ao todo representado pelo entrelaçamento das atividades linguísticas chamam-se jogos de linguagem. Portanto, além de funcionar como exemplo de conceito sem fronteira nítida, o jogo de linguagem é usado como exemplo de atividade entrelaçada aos usos possíveis da linguagem. Este entrelaçamento é um desenho que une fatores, outrora categoricamente separados pela dualidade metafísica tradicional.

O jogo se constitui, entre outras possibilidades, de asserções, perguntas e ordens. Todavia, a flexibilidade inerente às regras do jogo atenta para o uso real do que se chama convencionadamente de asserções, perguntas e ordens. A linguagem é então compreendida como uma atividade que se modifica, que surge de outras maneiras ao longo do tempo em conexão com os fatores históricos e culturais.

Para obter definições é necessário captar a essência. Segundo esta concepção, não existe essência, então é impossível operar com definições. Porém, o que resta quando não é possível operar com definições? O uso de exemplos é uma alternativa possível para a compreensão de conceitos? “Considera, por exemplo, os processos aos quais chamamos «jogos». Quero com isto dizer os jogos de tabuleiro, os jogos de cartas, os jogos de bola, os jogos de combate, etc. O que é comum a todos eles?” (WITTGESNTEIN, 2002, p. 227). Sendo assim, por meio da visualização desses vários exemplos de jogos, podemos perceber os traços que se entrecruzam formando uma “corda” que contém todos os jogos. Portanto, o aspecto comum que autoriza a comunidade entre conceitos se dá pela aproximação de semelhanças.

É possível traçar uma visão geral acerca desta atividade, utilizando-se de exemplos e indicações de seu uso. Este é um dos modos de indicar como a compreensão se associa ao domínio de regras observadas em diversas situações em que a expressão é aplicada.

Mencionar exemplos, neste caso, é indicar como se usa a palavra em diversas ocasiões, o que varia de acordo com a necessidade que surge no jogo: “Compreender uma palavra é também uma capacidade, que se manifesta de três formas: no modo como usamos a palavra, no modo como reagimos quando outros a utilizam, e no modo como a explicamos quando somos solicitados a fazê-lo” (GLOCK, 1998, p.63).Neste caso, indicar o uso das palavras envolvidas fará sentido à medida em que já se tenha domínio das regras, ou seja, a explicação neste caso só demonstra o uso da peça quando o campo já está preparado.

Os jogos de linguagem são permeados por regras estabelecidas no decorrer do jogo e, nesse sentido, os significados são provisórios. As regras podem variar, a identificação de como ocorrem se dá basicamente por observação e reação, tentativa e erro. E isso ocorre igualmente na prática de atividades humanas.

Os jogos de linguagem possuem aspectos que envolvem práticas de ensino e aprendizagem, à medida que o significado é aprendido no uso que se faz da linguagem nos diferentes jogos. Enquanto exemplos, os jogos permitem a construção de ficções alusivas ao que é descrito. Como atividade humana, os jogos de linguagem abrangem os aspectos anteriores, visto que são possibilidades de uso prático e permeiam a heterogeneidade da linguagem. É nesse sentido que a analogia entre jogo e linguagem participa da complexidade das atividades linguísticas, sendo, por conseguinte, considerado parte das formas de vida, acompanhando inclusive o surgimento de novas figurações.

“Isto parece abolir a lógica, mas de facto não o faz. – Uma coisa é obter e comunicar resultados de medidas efetuadas. Mas aquilo a que chamo «medir» é também determinado por certa constância dos resultados obtidos” (WITTGENSTEIN, 2002b, p. 335). Medir, comunicar e observar a constância de resultados é mais um jogo de linguagem.

Pode-se considerar que a questão, definir ou exemplificar, ressalta a problemática em torno da afirmação encontrada na filosofia tradicionalmente, de que há, necessariamente, algo de idêntico entre a proposição e a realidade da qual ela é imagem. Uma vez que tal afirmação implica: a concordância com aspectos metafísicos básicos e prévios à existência da linguagem; a possibilidade de determinação lógica unívoca; na exclusão do contexto como elemento significativo; e a adoção de uma postura idealista. Tais implicações podem ser consideradas responsáveis por criar grande parte dos problemas filosóficos tradicionais?

Mediante a problemática apresentada, mostra-se relevante esclarecer a relação entre a má compreensão do uso da linguagem e os problemas da filosofia, o que equivale a considerar as consequências da adoção de ideais metafísicos que desconsideram a vivência, o contexto e os exemplos como significativos, para o que se entende por ―sentido da linguagem.

 

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