Nostalgia, identidade e a busca pelo “real”

Eu nunca dei muita atenção pra questões de identidade antes de me mudar pro exterior. Quando eu saí de casa (Brasil) e vim pra outro lugar (EUA), eu automaticamente deixei de ser a Ana Paula, e me tornei “a brasileira”. Quando eu comecei a conviver com alunos internacionais, eu percebi que eles passavam pelas mesma coisas, você deixa de ser um indivíduo de 20 e pouco anos com milhares de coisas que te tornam único e insubstituível nessa bola de gude que a gente vive, e passa a ser todos os esteriótipos do seu país.

Minha própria identidade é divida em duas partes, a que teima em continuar sendo o que eu era antes de sair do Brasil e a estrangeira que eu me tornei. Pra poder conectar esses fragmentos de identidade, eu estabeleci uma relação com tecnologia que eu nunca tinha sentido necessidade anteriormente, e que eu só fui entender quando comecei a pensar em questões de construção de identidade digital que são diretamente ligadas com comportamentos nostálgicos e nosso entendimento de “real” numa vida que se passa na frente de telas e monitores.

Computadores + Internet mudaram de várias maneiras o jeito que a gente percebe construção de identidade. Como televisões ou rádios, um computador também é um objeto inanimado, mas diferente de televisões e rádios, a interatividade existente entre um usuário e sua máquina atualmente atinge o nível sci-fi de tão avançada que é. Com a Internet, a coisa funciona de modo semelhante em termos de interatividade mas possui elementos essenciais pra discussão de formação de uma identidade digital, que é a multiplicidade e a flexibilidade. Na Web (pelo menos no começo dela), você poderia ser anônimo, ser outra pessoa, ser uma pessoa a cada dia. Hoje em dia, com todas as questões de tracking rolando, é um pouco mais difícil se reinventar no mundo virtual, com o Google, o Facebook, o Twitter, LinkedIn e tantos outros te perguntando onde vocês está, o que você está fazendo, quem são seus amigos e do quê que você gosta, o usuário que se dobra às redes acaba perdendo espaço para reinvenção de si mesmo com o tempo. Em 10 anos os guris de universidade que hoje glorificam suas fotos de sexta-feira à noite, vão ser os mesmos que terão que (tentar) esconder isso pra arrumar um emprego. Em suma, depois das redes sociais o seu fim de semana passou por um processo de comodificação, assim como a sua identidade, e o jeito que essas redes continuam funcionando, continua contribuindo para essa comodificação da sua identidade digital.

O fato é que a existir numa rede que está mais interessada no valor do seu perfil do que na sua experiência traz consequências muito grandes pra maneira com a qual lidamos com nossa identidade digital. Se você utiliza um serviço completamente horizontal que te permite produzir, reproduzir e dividir informações independente da página que você esteja, isso muda a essência de todo o modelo de comunicação do mundo capitalista (de uma fonte única para milhares de pessoas, carinhosamente conhecido como “pipeline”), mas quando você inverte sua noção do que são produtos na era digital, o que acontece é que informação tem seu valor perto zero (já que qualquer pessoa no nível usuário consegue produzir e distribuir conteúdo), enquanto span de atenção e personalização de serviços se tornam objetos extremamente caros. Logo, é extremamente lucrativo para um plataforma digital se transformar em uma página em branco que incite seus usuários a preenchê-la. O usuário se satisfaz por ter um perfil que (teoricamente) é a sua cara, e a plataforma ganha mais um produto, mais uma página para vender espaço pra anunciantes e (teoricamente) todo mundo fica feliz.

Dessa fator, nascem duas vertentes pra serem exploradas, a primeira é como essa estrutura se torna uma experiência incompleta pro usuário, enquanto a segunda é como isso desperta um comportamento que o Frederic Jameson descreveu como “nostalgia pelo presente”. Quando Jameson falou sobre essa nostalgia pelo presente, ele se referiu à questão de como que o pensamento pós-moderno poderia escrever sua história e desenvolver suas teorias, se ele se baseia apenas na nostalgia que sente por tempos de outrora ao invés de se basear em fatos históricos e reais, o que acabava construindo uma visão muito idealizada da sociedade. Pra mim isso se aplica fácil, fácil às redes sociais quando se pensa que elas abrem uma janela pra um mundo onde nós e nossas coisas podem ser exatamente do jeito que nós queremos/publicamos ao invés de ser um espelho da realidade, uma perspectiva distorcida e fragmentada da nossa vida material que é reforçada pela estrutura de plataformas digitais. Isso não significa que nós criamos a idéia de que nossa vida é melhor online, ela só é diferente, e mais fácil de ser controlada. Logo, ao nos expressarmos num espaço digital, e criarmos um hábito de auto-documentação, todo o nosso presente se torna um possível passado, e ele poderá ser sempre acessado e revivido através de ferramentas virtuais que permitem a tradução entre o material, o analógico e o real para o virtual. Quando a realidade não é satisfatória, nós recorremos à sua versão digitalizada.

A experiência passada é um experiência autêntica, única e que merece ser vista de novo, revivida, e por isso tem que ser documentada. Fotografias possuem mais valor quando elas são amareladas, possuem defeitos e parecem velhas, por isso que existe o Instagram. Textos são mais significativos quando possuem uma moldura ao redor, uma fonte linda e formatos únicos, por isso que o WordPress dá certo. No Facebook, a sua vida vira uma linha do tempo, quanto mais cheia, mais acontecimentos, mais memórias, maior a atenção que você vai receber dos seus contatos.

Com isso se criam lacunas que tornam nossa experiência online muito mais irreal e distante da nossa realidade do que nós mesmos percebemos. Não importa o quão personalizada essa experiência seja, nós sempre teremos ruídos essenciais à ferramenta que está sendo usada que são inerentes ao modelo econômico que elas pertencem. E também vale pensar que se uma ferramenta possui apenas uma estrutura possível para todos os seus usuários, o quão personalizada ela realmente é? No fundo, no fundo, todos estamos presos dentro de pequenas caixas que a nós achamos que estão reproduzindo bem realisticamente o que somos, mas que na verdade é só uma forma na qual o bias da rede dita pra que lado vai o fluxo de conteúdo, e se o usuário não pode modificar ou reconfigurar essa mídia pra ela ou servir seus interesses próprios ou se transformar em algo além do veículo, todos os nossos comportamentos são bem parecidos um do outro. E a pergunta que fica é: nós somos realmente tão iguais a ponto de não precisarmos de plataformas adaptáveis ou nós estamos nos adaptando, nos fechando e criando novos hábitos para podermos caber dentro dessas plataformas? Se o McLuhan nos diz que o meio é a mensagem, de quem é essa mensagem, afinal?

 

5 comentários

  1. “nós somos realmente tão iguais a ponto de não precisarmos de plataformas adaptáveis”. a pergunta diz tudo, e responde a si mesma. a direção do processo é o exacerbamento total do que o McLuhan apontou como característica dos media: projeção da subjetividade e narcose, até chegar a um ponto em que só há “identidade” através dos media. a internet é só a última versão de um processo que vem desde 1920. plataformas, adaptáveis ou não, são o que determinam se somos algo – cada vez mais.

    1. A questão é exatamente essa, Marlon. E geralmente eu me pego pensando se esses meus questionamentos sequer tem lugar dentro de pesquisa sobre tecnologias da comunicação. Mas de novo, quando eu volto pra outras tecnologias, eu vejo que talvez sim, televisões se adaptaram aos consumidores, produção de consumo se adaptou, a experiência é completamente diferente do que era há dez anos atrás, streaming mudou totalmente nossa concepção do que é ver tv hoje em dia, exatamente pq você está sempre conectado.

      Mas eu acho que uma mídia nunca teve um impacto tão profundo quanto à Internet nesses termos de adaptação/personalização/individualização, pq é o meio que mais permite isso, mas que ao contrário do que é permitido, ela tá se fechando cada vez mais pra cumprir interesses econômicos (e não que eu tenha problema com isso, I’m all about interesses econômicos), mas isso tá trazendo milhões de outras consequências pra usabilidade do canal afetam diretamente o jeito que a gente pensa sobre estruturas sociais e até pessoais dentro de uma estrutura que é essencialmente pública e gratuita.

  2. Tatiana Vargas Maia · · Responder

    Teu post me lembrou desse quadrinho aqui, “Lying to your friends”: http://comicalconcept.com/illustrations/the-facebook-you

    Eu entendo (e concordo) com muitas das questões que vc avançou no teu post Paula, mas sempre fico curiosa a respeito da interação entre essas duas dimensões de identidade – a identidade “real” e a identidade digital. Fico curiosa para saber como as gerações que estão crescendo com redes sociais vão elaborar essa dinâmica.

    Ao mesmo tempo, me parece bastante interessante esse exercício e essa oportunidade de (re)construção da identidade pessoal. Para o bem ou para o mal, redes sociais são mais uma arena de expressão de identidade (por mais comercializada que esteja essa arena).

    1. Tatiana Vargas Maia · · Responder

      Eu gosto bastante desse artigo aqui: http://www.vanityfair.com/business/features/2011/04/4chan-201104, e o começo do teu post me lembra bastante o 4chan, talvez um dos últimos refúgios da anonimidade na Internet.

      Quanto será que perdemos (ou ganhamos) ao abandonar o modelo de anonimidade do começo da Internet?

    2. Tati, pra mim não existe mais espaço pra reconstrução de identidade digital, ou você é anônimo ou você é esse pedaço incompleto de si, Já respondendo ao seu segundo comentário, eu acho que a gente perde com o abandono desse modelo. É importante pensar que pra vários grupos e minorias, a Web foi a porta de entrada pra muitas coisas, entre elas descobertas sobre si mesmo e aceitação, quando vc perde o a possibilidade de ser anônimo dentro desse espaço, vc também tá perdendo a possibilidade de procurar por informações que muitas coisas podem ser game changing dependendo do contexto em que vc tá inserido.

      Também, eu penso cada vez mais sobre essa distinção entre real e virtual, e eu penso até que ponto isso sequer ainda existe, a gente é de uma geração transitória que ainda luta muito com esses conceitos, pra quem veio muito antes ou tá vindo agora, a coisa se dá de formas mais fáceis, ou vc não se insere, ou vc já nasce nesse contexto.

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