Filosofia da Mente, morte e mistério!

Pensar sobre a morte é uma ótima maneira de se inserir nas questões que fazem parte da filosofia da mente! O que é perdido em um sujeito que morre? Aquilo que acreditamos ser a mente deixa de existir? Da vida para a morte há tão somente uma mudança na organização física do organismo, ou algo substancial realmente perde sua relação com o corpo?

É notável a nós que existe uma grande diferença entre um corpo humano vivo e um corpo humano morto, e tradicionalmente se considera que a diferença consiste no fato de que, no primeiro caso, a mente ou atividade mental ainda está, de alguma forma, conectada ao corpo, enquanto que no segundo caso esta mente ou atividade mental não está mais conectada àquele corpo. Porém, assim como pode parecer fácil utilizar o critério de presença da mente para distinguir os dois estados em questão, assim também é difícil explicar o que é esta mente ou atividade mental. Ainda, as dificuldades não se restringem a explicar a natureza desta substância ou estrutura, mas se ampliam na tentativa de explicar qual é exatamente a relação da mente com o corpo, e como esta relação ocorre. Se pensarmos no corpo morto, e então na mente “voltando” a este corpo, como que seria feita a interação entre uma coisa e outra?

(MISTÉRIO!)

Outra maneira de pensar tais questões é perguntar pela diferença entre objetos animados e inanimados por natureza. Objetos animados não somente parecem se mover com alguma autonomia, mas também parecem apresentar uma abertura para o mundo. Seres com atividade mental, grosso modo, seriam aqueles que conseguem sentir o mundo e a si mesmos, que são capazes de processar informações, imagens, sensações, etc. A minha mesa não me sente quando apóio os meus braços nela, ou ao menos assim creio com alguma razoabilidade. O mesmo não pode ser dito de mim: eu sinto quando toco na mesa. O que existe em mim que me permite sentir o mundo à minha volta? Qual é a propriedade ou conjunto de relações que me permite receber estas informações?

(MISTÉRIO!)

Tais mistérios, excitantes e desafiadores como são, recebem atenção de variadas formas em filosofia da mente. Dois problemas clássicos, que são tópicos centrais na filosofia da mente, podem ser trazidos à tona com aquelas perguntas: o problema do dualismo mente/corpo e o problema da causação entre mente e corpo. Em linhas gerais, o dualismo é a tese de que a mente tem uma uma natureza distinta do corpo, da natureza física. Uma versão mais fraca de dualismo dirá que, embora não haja duas substâncias – mental e física -, há propriedades cognitivas que são não físicas. Por exemplo: a propriedade de ter a sensação da cor vermelha, ou a propriedade de sentir frio, etc.

Outro tipo de teoria em filosofia da mente é o materialismo (ou fisicalismo). Os materialistas defendem que a mente é um fenômeno físico – mas altamente complexificado. Desse modo, não há duas naturezas distintas que obedecem a leis próprias e distintas, mas uma só natureza obedecendo ao mesmo conjunto de leis (que perfeitamente podem ser desconhecidas até então).

O problema do dualismo se encontra no exigência de boas razões para crer que a mente não é física – que justificação temos para crer que estados mentais não são fenômenos físicos? Será tão somente a crença de que temos um tipo de acesso diferente a propriedades mentais?

Reconhecidamente, o problema da causação é um grande problema para o dualismo – e o mesmo não pode ser dito para o materialismo. Por quê? Pois, assumindo que mente e matéria são duas naturezas distintas, não há bom argumento mostrando como eventos, estados e processos mentais interagem causalmente com eventos, estados e processos físicos – e nem há um bom argumento mostrando como ocorre interação causal no sentido contrário (do físico para o mental). Claro, há um vasto número de detalhes preenchendo teorias dualistas particulares e teorias materialistas particulares. Porém, esta é uma estrutura geral da problemática sobre a causação mental/físico.

Os problemas estão aí, e estes não são os únicos! What is in your mind?

 

 

9 comentários

  1. Raquel Canuto · · Responder

    Luis,

    Ótima questão. Acho que, de uma formal geral, nós, pesquisadores em saúde, somos materialistas. Mente e corpo são uma coisa só, mas a mente, chamada de cérebro muitas vezes, é um mistério!
    A grande questão que permeia todas as questões relacionadas ao comportamento em saúde é:
    Quem veio antes o ovo ou a galinha?
    Você come de mais porque está deprimido ou fica deprimido porque come de mais?
    Essas são questões que a ciência não consegue responder com os atuais métodos de pesquisa. Conseguimos, minimamente, constatar qual área do cérebro está “ativada” ou qual hormônio está circulando em maior quantidade, quando comemos muito.
    Mas, na minha opinião, não há evidência de que o processo “mental” foi desencadeado pelo “processo físico”, no caso, o ato de comer;
    Tu entendes a consequência prática desse dilema? Se eu entendo que a depressão causou o comer de mais, eu trato minha mente (psicologa), caso contrário eu procuro uma nutricionista e não resolvo o problema.

  2. Sim Rachel, apresentei este dilema pros meus alunos da seguinte forma: é a baixa produção do neurotransmissor serotonina que causa o estado depressivo, ou é o estado depressivo que causa a baixa produção da serotonina? as crenças dos neuroscientistas em geral se baseiam em (i) uma correlação contígua, em que um estado está correlacionado ao outro por meio de um padrão, (ii) previsibilidade, em que de uma determinada mudança neural segue-se uma mudança mental, cognitiva, e (iii) o argumento da ausência, baseado no fato de que, se uma parte do cérebro não está mais funcional e uma determinada função cognitiva foi perdida, então esta parte é responsável por esta função.
    Mesmo tendendo ao materialismo, creio que os filósofos da mente não podem subestimar os problemas epistemológicos envolvidos nestas premissas na neurociência, e aderir a um fisicalismo ingênuo. Mas legal saber que este dilema faz parte da vida de cientistas como tu, acho importante termos esta troca: filosofia com avaliação de raciocínios e esclarecimentos conceituais, ciência com apresentação de dados reais.
    =]

    1. Bah, Luis. Que post difícil (e digo isso como elogio).

      Tem um biólogo que escreve que do ponto de vista fisiológico falar de “vida” e “morte” indica um nível de debate muito baixo. Eu tendo a entender o que ele quer dizer.

      Numa certa medida, o organismo continua, não? Quero dizer, um cadáver tem coisas “vivas” acontecendo dentro dele. “Vida” e “morte” me parecem, sobretudo, uma discussão da antropologia e da teologia (e particularmente da antropologia da religião).

      Eu acho interessante essa aproximação da Filosofia da Mente com uma perspectiva de consciencia, em termos quase fenomenologicos… mas teria muito para dizer sobre isso. Vou pensar aqui e ver se consigo articular algo significativo.

      1. Luis Rosa · ·

        sim, o conceito de vida, sob a luz da biologia, é mais amplo do que o conceito de vida consciente, inteligente ou com atividade cognitiva complexa. a vida consciente é subconjunto dos organismos vivos. uma idéia q está sob revisão é a de que um organismo vivo é aquele que tem capacidade para se reproduzir. a vida em questão na discussão sobre filosofia da mente, é um tipo mais específico de vida: aquela que envolve atividade mental.
        na verdade o que importa mais no problema de responder qual é a natureza da mente é a gênese, ou emergência, da atividade mental (questão da qual o Dennet se ocupa).

  3. As questões que tu apresenta são familiares para mim, já refleti sobre isso, várias vezes. Creio ser relevante a complementariedade entre ciência e filosofia, principalmente no que se refere a relação mente/cerébro. Todavia o debate parece estar sustentado na velha relação entre ideal e concreto, o que nos leva a uma questão, talvez mais fundamental, o que é mais seguro como conhecimento, dualismo ou monismo?A partir desta dupla possibilidade parece que o impasse entre mental e físico está diretamente ligado à epistemologia, pois como é possível considerar a existência de uma “entidade mental”, ou algo do gênero, sem concordar com a existência de outras entidades puramente abstratas? Também nesse sentido, seria necessário analisar quais hipóteses sustentam a relevância de um outro modo.
    A tendência ao materialismo se segue da dificuldade em aceitar um conteúdo mental independente do sistema nervoso em si, porém as constatações científicas não possuem caráter de verdade absoluta. O que me leva a crer queteorias sobre fisicalismo e mentalismo apresentam lacunas relacionadas a verificabilidade de alguns elementos em discussão. O que nos leva a questionar os critérios utilizados? ou a questionar o que se quer realmente saber sobre o tema?
    Ao menos é o que me ocorre no momento…

    1. Laina, nao entendi a observação de que o debate parece estar sustentado na velha distinção ideal e concreto. como assim? tah falando de processos e propriedades type em oposição a processos e propriedades token?
      sobre a interessante pergunta epistemológica: nosso contato com entidades mentais se dá por meio da introspecção. esta fonte de crenças pode ser entendida por comparação à percepção: a percepção é o processo de estar tendo uma impressão sensorial, por exemplo, de um quadro verde; a introspecção é o processo de estar consciente de que estamos tendo aquela primeira impressão sensorial. trata-se de um processo cognitivo de segunda-ordem, e este é a principal fonte de justificação para crenças sobre entidades mentais (sensações, atitudes doxásticas, pensamentos, etc). outras maneiras por meio das quais temos crenças justificadas sobre estados mentais são o testemunho (alguém me diz o que está sentindo ou pensando) e o raciocínio indutivo (do comportamento alheio infiro, falivelmente, que há um determinado estado mental).
      o último problema importante que tu levanta, e que deixei de fora no post, é o problema metodológico sobre o conhecimento da mente. na verdade, este problema merece outro post!

      1. muito foda essa discussão, cara. :)

  4. Neste exato momento escrevo – ou tento – um artigo sobre as questões causalísticas em David Hume associadas à questão da ciência. Buenas, essa relação mente/corpo, assim como na causalidade de Hume, tem que necessariamente ter um elo de ligação, isto é, uma conexão necessária que faça a ponte dando bases coerentes e fortes para que um viva com o outro e esse outro viva ou não, com aquele (?)…Se ao viver, penso (pois assim o sei), se morrer, como será? Por que a mente não sobrevive sem o corpo (?), mas o corpo sobrevive sem a mente? Será que é poque são realmente duas coisas distintas? O que é a mente? Algo que pensa, que cria? Mas, então, o que é o pensar? Se pensar for estabelecer conexões entre as coisas, entre os acontecimentos, então posso dizer que o computador pensa? se sim, no caso de quebra de algum componente, eu posso ‘transferir’ sua memória, isto é, posso trocar o hardware? neste caso, o software sofre alteração? Não. Então, voltando a mente, não seria a mente um ‘animador’ transcendente’?

    1. Evelise, hoje se assume mais tranquilamente que a conexão causal entre dois eventos não precisa ser necessária. Os filósofos perceberam que relações lógicas não servem para explicar todo e qualquer tipo de ligação entre fatos. O standard aqui é mais leve: saber SE existe conexão de causalidade entre eventos mentais e eventos físicos, assumindo a proposta dualista de que se trata de duas naturezas distintas. a exigência não é a de provar QUE esta conexão seria necessária.
      a analogia que tu fazes com o computador é muito frutífera. porém, ela precisa ser feita com alguma cautela. o hardware é o equivalente do corpo, envolvendo o sistema nervoso central e o periférico. o software NÂO é o equivalente do estado mental, mas sim do tipo de algoritmo que transforma determinado tipo de input num estado mental.
      =]

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