A linguagem evolui?

Muito boa essa matéria do Wall Street Journal sobre uma nova trend nas neurociências. O nome da hora é culturonomics, e é mais uma daquelas teses que adiciona elementos para quem segue a relação entre os processos de nomeação (labeling) e necessidade. Essa discussão me remete, em parte, a coisas que a gente já abordou aqui na resenha do How I killed Pluto – especialmente a questão de Ontologia de Conceitos.

Quer dizer: existem nomes melhores que outros? E a gente estabelece uma espécie de necessidade nesse processo de dar nome para coisas? Na medida que certas formas de chamar são históricamente substituídas por outras, essas formas não estão apenas reproduzindo uma dinâmica social de transformação de significados e linguagem, mas estabelecendo um processo necessário – evolutivo – da linguagem?  Para o pessoal da culturonomics a resposta é um sonoro sim. As dinâmicas de aquisição de linguagem e de escolha de nomes para objetos no mundo obedecem aos mesmos critérios evolutivos que todo o resto das nossas funções fisiológicas.

O ponto, parece, é que se a nossa fisiologia se adapta conforme necessidades evolutivas, daí segue que a linguagem (parte da nossa fisiologia) também evolui. Então os motes que a gente usa estão obedecendo aos mesmos processos evolutivos que todo o resto da nossa fisiologia. Palavras morrem, simplesmente porque não conseguem se adaptar. Observar a história dos idiomas modernos, nesse sentido, é ter um panorama dos termos mais ou menos capazes de se adaptar na história da linguagem. E também às dinâmicas locais que por sua vez também dão forma para as palavras usadas – e o sentido de certos termos.

Mas esse processo não indica uma incontrolabilidade do sentido. Parece indicar algo diferente: que o sentido obedece as mesmas estruturas gerais, mas de acordo com peculiaridades locais. A estrutura do como dar significado é a mesma, mas o sentido que termos adquirem é aberto.

O curioso é que isso – ao menos para mim – indica elementos bastante atuais da tese de Husserl sobre consciência e linguagem. Os processos de nomeação tem uma certa necessidade comum? Sim. Mas isso não implica em uma homogenia no entendimento de termos, ou no uso de termos. Apenas indica que existem certos processos de nomeação e significação que são mais “adaptáveis” e palavras com maior capacidade de serem significadas e re-significadas. Além disso, assim como a compreensão do processo evolutivo da nossa fisiologia é melhor na medida que ela compreende a história desse processo, nossa compreensão da linguagem é melhor na medida que ela incorpora a história dos termos que usamos e como eles são usados.

Na parte tardia da filosofia do Husserl isso é chamado de apropriação. Apropriação é a forma como a gente toma dados no mundo que não são, necessariamente, nossa escolha. Isso no Husserl inclui elementos inconscientes e processos cognitivos necessários para formação de identidade. A gente não escolhe onde nasce, que língua nossos pais falam, nem a forma como eles falam essa língua. Mas com tempo a gente vai apropriando esses elementos que foram determinados e transformando eles de acordo com aspectos peculiares da nossa própria experiência.

Isso também é verdade com o nosso corpo. Digamos, eu posso ter propensão genética a desenvolver câncer. Isso não é um elemento que eu escolho. Eu tenho. Fim. Agora, eu escolho como me alimentar e tomar as providências para evitar a doença ao máximo. A gente pode, em certa medida, manipular as nossas circunstâncias genéticas. O mesmo parece acontecer com a linguagem. E a forma como individuos escolhem formas de falar acaba sendo reproduzida, re-apropriada e transformada em outras gerações.

A linguagem, então, operaria nessa mesma relação entre necessidade e contingência. Os aspectos locais de qual lingua eu falo, originalmente, e quais palavras, dentro dessa lingua, eu tenho mais acesso, também. Mas a forma de apropriação segue uma estrutura de reprodução, transformação e adaptação comum onde certas formas semânticas são mais reproduzidas que outras – e daí a gente também deveria parar e pensar se não existem elementos que cumprem a função de virus na linguagem, quer dizer, que tornam a linguagem mais quebrada e que se tornam melhores em quebrar a linguagem com o tempo (daí a falta de correspondência entre linguagem e mundo decorre da necessidade do “vírus” na semântica, da mesma forma que organismos nocivos ao nosso bem estar enquanto indivíduos são parte integrante da nossa constituição fisiológica – e evoluem junto com a gente).

Não sei como os colegas que têm mais familiaridade com a literatura em filosofia da mente leriam essa tese da culturonomics, mas seria legal saber se isso está tão próximo da tese do Dennett quanto soa estar.

10 comentários

  1. Fabrício, mais uma vez, legal o post.
    A qual livro do Husserl te referes (li muito pouco de Husserl)? Isto é, onde posso encontrar o que citaste?
    Outra coisa. Até que ponto o que tu chamaste de necessidade da nomeacao pode nos levar a uma nova discussao sobre velhos temas psicológicos do idealismo filosófico, principalmente, de Kant? Isto é, sobre determinadas capacidade cognitivas responsáveis pelo conhecer e, até mesmo, as velhas categorias que determinam o conhecer. A neurociência está nos conduzindo para discussoes pré linguistic turn?

    1. A questão da apropriação está no Analysis on Passive and Active Synthesis e no Phantasy, image consciousness and memory.

      Tem algumas coisas nas palestras sobre a consciencia interna da temporalidade, que o Heidegger roubou. Mas eu acho que o estilo dele fica muito melhor depois, quer dizer, menos sistemático mas mais instigante.

      Cara, eu acho que o próprio linguistic turn nos fez voltar para algumas questões em Kant. Mas acho que o Professor Nythamar já ilustrou isso melhor que eu poderia :)

  2. muito interessante! tem vários sites que podem ajudar a entender as implicações desse tipo de pesquisa, por ex: http://www.sciencemag.org/content/early/2010/12/15/science.1199644
    eu acho que está em jogo, entre outras coisas, a nossa condição efêmera, circunstancial e contingente quando usamos palavras como designadores rígidos ou flácidos, assumindo algo como fixo e eterno quando na verdade seria vago e culturalmente condicionado…no caso das análises de mídia, isso fica bem claro por causa das variáveis geopolíticas, econômicas, ideológicas, culturais etc que condicionam o uso de palavras e termos num mundo globalizado e interligado por redes digitais. qto ao problema kantiano do a priori, eu tenderia a voltar a Hume e revisitar a contraposição entre “relations of ideas” e “matters of fact” justamente para entender melhor o desafio naturalista: ainda estamos habituados a modelos platônicos, dedutivos ou transcendentais sem levar em conta aspectos disruptivos como indução e probabilidade

    1. Bom, por isso que eu acho Husserl interessante, professor. O que Husserl permite é manter uma perspectiva transcendental sem sacrificar o aspecto empírico. Inclusive, eu acho que a tensão entre transcendental-formal em Husserl acaba ilustrando a limitação de trabalhar em termos de “interno”e “externo”.

      Creio que, já nas investigações, a crítica de Husserl ao Hume é bacana por isso. E me parece que nessas questões de linguagem e evolução fica mais claro ainda a atualidade de Husserl. Ah, liberdade não é uma matter of fact? Pode ser que não. Mas a realidade objetiva da realidade tem muito pouco sentido sem que a gente observe os processos de significação (no tempo) – por outro lado, os processos de significação vão virar uma baderna se não apontarmos o aspecto (transcendental) singular da estrutura que nos permite significar (daí a divisão da consciência no Husserl tardio).

      (também me parece muito mais interessante que aquele dogmatismo linguítico-territorial para o qual o Heidegger nos puxa)

  3. Acho esse assunto muito legal principalmente em se tratando da questão de poder e cultura. É interessante como identidades se constroem a partir da linguagem (uso, reapropriação ou rejeição). Lembrei em que alguns casos alguns grupos se recusam a “receber educação” como forma de recusa a algum outro grupo (principalmente aos grupos da elite).

    1. pois é. Mas o que eu acho interessante no lado dessa história da culturonomics (eita termo bem hipster) é que eles vão tentar argumentar que mesmo essa rejeição tem um caráter evolutivo: ao afetar a forma de falar, tu afeta a própria integralidade daquela pessoa.

      É interessante isso, pq me parece que aí que certos Foucaultianos vão explodir a questão do discurso como violência – tipo, super-imposição de formas de fala é, necessariamente, violencia contra outras formas de auto-compreensão.

      Pelo lado da culturonomics me parece que vai para outro lado: não tem como não ser violento porque linguagem é associada com a integralidade biológica, e ela quer sobreviver, quer continuar, se reproduzir.

      Daí aquele meu lance do virus, que eu ainda tô esperando o Marquito se manifestar. :)

  4. Excelente o artigo indicado pelo Richer Fernando. Eu conheci o Dan Everett em Illinois, quando ele começava a ficar famoso pelos resultados surpreendentes de suas pesquisas na Amazônia, colocarando em xeque a gramática generativa do Chomsky e a gramática universal, favorecendo releituras culturalistas da hipótese Sapir-Whorf e o naturalismo mitigado de filósofos da mente como Jesse Prinz (Furnishing the Mind, p. 52) Cf wiki sobre os Pirahã : http://en.wikipedia.org/wiki/Pirah%C3%A3_people

  5. marcosfanton · · Responder

    Cara, eu fico com um pé atrás sempre nessas “extensões” de teorias sobre determinados objetos para outros. Digo, a primeira coisa que eu me pergunto é o seguinte: o que esses caras fizeram? Segundo o post do WSJ, eles fizeram algo genial, que é identificar uma coleção massiva de palavras, termos e expressões da livraria do Google, correto? Assim, segundo o post, eles teriam nos dado “the best-yet estimate of the true number of words in English”. Agora, logo após isso,eles dizem que “identified universal laws governing the birth, life course and death of words.”. Bom, eu já fico com um pé atrás sobre isso. Porque, no fundo, eles estão aplicando uma teoria, que é do campo da biologia, para a linguística – simplificando tudo. A minha questão seria essa: como tu vê esse passo ou esse “salto mortale” teórico? E por que tu vais falar de Husserl depois? Tu não achas que Husserl já nos daria outro modo de ver esses dados? (é que no post, parece que há um continuum ou uma compatibilidade entre a teoria evolutiva e fenomenologia. Há?)

    1. Acho que eu divido essa tua preocupação, Marcos. Mas eu achei interessante poder comparar essa perspectiva evolutiva com uma perspectiva transcendental sobre o problema da linguagem.

      Por exemplo, a questão das leis que governam o nascimento, curso de vida e morte de palavras é uma lei sobre a forma que palavras são apropriadas e reproduzidas. Isso lembra, um pouco, a forma como Husserl introduz a questão da análise – não quero dizer no contexto das investigações lógicas, mas mais tarde, quando ele começa a abandonar o domínio da “consciência” e entrar numa investigação mais antropológica.

      Foi mais um insight do que uma afirmação pesada. Teria que ler muito mais sobre a pesquisa para saber se ela é realmente compativel com Husserl ou com qualquer outra coisa. Mas o que tá na matéria me lembrou bastante o Husserl tardio :)

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