A falácia mereológica da neurociência

Em um post anterior, eu fiz alguns comentários iniciais da obra Philosophical Foundations of Neuroscience, dos autores Bennett & Hacker, salientando o modo integrado de investigação entre filosofia e uma ciência em particular, a neurociência cognitiva. Trabalhar dessa maneira interdisciplinar, em certo sentido, é sempre um risco, pois já não estamos mais trabalhando com um método e uma dimensão teórica determinada (#comofaz??). Por isso, hoje eu gostaria de mostrar para vocês um dos resultados dessa obra, que está contido, digamos assim, no capítulo central do livro, intitulado “A falácia mereológica da neurociência”.

Bom, vamos pegar o livro do Miguel Nicolelis, Muito além do nosso eu, que eu fiz uma resenha em outro post . No livro, Nicolelis faz diversas metáforas e analogias aparentemente inofensivas em relação ao cérebro e suas capacidades, como estas: “A percepção é um processo ativo, que começa dentro da mente e não na periferia do corpo de carne e osso que constantemente entra em contato íntimo com o universo. Por meio de uma série de comportamentos exploratórios, o cérebro testa continuamente seu próprio ponto de vista diante do fluxo de novas informações que recebe”; “acredito que o cérebro pode ser definido como o mais fenomenal simulador produzido pela evolução do universo conhecido”, “o cérebro passa a ser considerado um ente ativo, sempre em fluxo, sempre em processo de adaptação e totalmente apto a expressar seu próprio ponto de vista e suas expectativas sobre o mundo exterior”. Enfim, temos exemplos aos milhares. É claro que vocês podem considerar tais citações discutíveis e nem um pouco inofensivas, mas poucos de vocês pensariam que elas não podem ser discutidas ou que  não são nem verdadeiras nem falsas, pois a elas falta sentido – isto é, são puro nonsense. É a partir daqui que  Bennett & Hacker começam a fazer uma série de observações muito interessantes.

Segundo os autores, quando um ser humano está percebendo, agindo, expressando-se ou mesmo simulando, nós podemos saber que ele está realizando tais e tais atividades, pois nós observamos seu comportamento ou fazemos perguntas a ele. Isso faz parte do nosso cotidiano e do uso comum de nossa linguagem. Agora, quando sabemos que o cérebro pensa, percebe, age, simula, etc.???? Os neurocientistas realizaram uma nova descoberta? Estão embrenhados em confusões conceituais? Ou são apenas metáforas inofensivas que fazem parte de qualquer teoria?

Para B&H, fazer estas questões não nos colocam na área científica, mas na área filosófica. Por isso, elas não nos exigem um conhecimento da neurociência ou uma investigação empírica e experimental, mas uma clarificação conceitual. No fundo, nós perguntamos se faz sentido falar, investigar ou questionar cientificamente o cérebro transferindo os nossos conceitos da linguagem natural e, com isso, realizar uma diversidade de inferências e teorias sobre o funcionamento do cérebro e do ser humano como um todo. Assim, fica a questão: se aplicamos os predicados falar, perceber, agir, pensar ao ser humano como um todo, faz sentido aplicá-los também a apenas uma parte dele – o cérebro?

De maneira curta e grossa, B&H afirmam que essa aplicação é sem sentido, pois sua formulação resulta em confusões e obscuridades conceituais. Daí, surge o propósito da expressão “falácia mereológica”: “predicados psicológicos que são aplicados ao ser humano (e outros animais) como um todo não podem ser aplicados inteligivelmente a suas partes, tais como o cérebro”. Eu acho que exemplos mais claros dessa falácia seriam dados com outras partes do corpo, que comprovam como é acurada essa objeção: nós não dizemos “meu nariz acabou de espirrar”, “como seus pés correm rápido!”, “meu pulmão está com dificuldades para respirar”, “minha boca sentiu o gosto amargo da lasanha de jiló”, etc. Nós também dizemos que um carro é rápido , mas não dizemos que seu motor é rápido, pois este tem outra propriedade, etc.

Para quem não sabe, a expressão “mereologia” significa o estudo das relações entre as partes e o todo. Nós utilizamos o conceito central da mereologia,  “x é parte de y”, em diversos contextos de nosso cotidiano. Por exemplo: o pulmão faz parte do corpo humano, a roda faz parte do carro, uma página faz parte do livro, etc. (aqui, estou me valendo do artigo, que vale a pena ler, do Guido Imaguire, Mereologia: o todo e as suas partes).

Bom, o que B&H discutem, então, é: o que significa dizer, substantivando o verbo, que “o pensar faz parte do cérebro”, “o perceber faz parte do cérebro”, etc.? E, como resposta, eles dizem: não quer dizer nada. Isso ocorre, pois quando neurocientistas e pessoas em geral realizam essa extensão analógica dos conceitos psicológicos, tais expressões começam a requisitar novas explicações sobre seu uso, pois as possibilidades de conexão e combinações entre os conceitos não é mais o mesmo.

Aqui, B&H começam a utilizar os famosos argumentos de Wittgenstein a respeito da introspecção, linguagem privada, comportamento sobre dor, etc. Assim, por exemplo, nós poderíamos perguntar: quando sabemos que alguém está com dor? Ora, quando este indivíduo exibe um comportamento de dor, que seria algo simples, como falar “Eu estou com dor no braço”. Este enunciado já é um critério não-indutivo ou uma boa evidência para sabermos que determinada pessoa está com dor. Já quando um neurocientista investiga o cérebro e analisa os disparos elétricos dos neurônios, tais disparos não são sinais que estão para algo, como a dor no meu braço. Tais disparos não são símbolos, não descrevem ou simbolizam nada. É o neurocientista que realiza uma inferência indutiva sobre tais disparos, ou seja, correlaciona a dor no braço com os disparos elétricos específicos. E este trabalho científico é uma descoberta empírica, mas que, ao mesmo tempo, pressupõe o conceito de dor e seus critérios de evidência não-indutiva. De maneira similar, quando vemos fumaça, nós temos uma sinal de fogo, isto é uma indicação indutiva, mas a fumaça não é um sinal para fogo, ou seja, a fumaça não é uma descrição simbólica de objetos ou eventos que ocorrem no campo visual, como o fogo.

Portanto, quando um neurocientista realiza uma ressonância magnética funcional (RMf) em determinado paciente, ele não está vendo o cérebro pensando, simulando, percebendo, mas apenas vê que tais-e-tais partes do cérebro estão ativas quando ela – a pessoa – está pensando, simulando, percebendo, etc. No cérebro, nós temos apenas processos neuronais, que precisam ocorrer para a pessoa, que tem um cérebro, pensar, agir, simular, perceber, etc.

Por isso, termos clareza dos conceitos que utilizamos serve para estabelecermos os limites daquilo que é logicamente possível e do que faz sentido ou não dizer e pensar. É claro que teríamos muito ainda a discutir e a posição de B&H não é isenta de controvérsias, mas acho que os argumentos acima são um bom começo para a discussão. ;)

9 comentários

  1. Bom texto, Marcos. Penso que essa questão que você resume aí pode se relacionar com uma distinção entre descrição e um certo sentido de normatividade na ciência: ao descrever certos processos, ou analisar que reações químicas ocorrem, quais as alterações dos neurônios, etc.. já pressupomos de algum modo, como vc diz, concepções como sentir dor, pensar, perceber,.. o que se aproxima, como diria Kant, da idéia de que encontramos o que colocamos. Acho que – e esse sempre foi um ponto que me intriga e que não me parece suficientemente discutido – essa normatividade se encontra não só nesse tipo vínculo, como também nas explicações sobre o que é causa de quê. Em outras palavras, até que ponto esse tipo de descrição não estaria dizendo não as causas, mas as consequências de p. ex. determinados processos psicológicos, experiências de vida, etc… Acho que há um tipo de normatividade que faz com que a descrição dependa daquilo que queremos colocar nela (algo tb próximo à idéia de experiência conceitual), onde o próprio método (bem como o objeto) de descrição da neurociência igualmente depende.

  2. marcosfanton · · Responder

    Felipe, eu nao entendi muito bem o que você quer dizer aí com normatividade. Você poderia me explicar melhor?

  3. marcosfanton · · Responder

    Em relação ao que é causa de – isso eu acho uma questão extremamente instigaste!! :) mas, acho que B&H nao dão uma base teórica para realizarmos uma investigação detalhada disso. O conceito de causa e causalidade certamente é um tema muito legal. Mesmo o Nicolelis faz um questionamento sobre isso ao abordar o cérebro sob um ponto de vista das propriedades emergentes.

  4. Então, a conexão que sugiro aí é com um “certo sentido de normatividade”, mt próximo ao de Brandom: um tipo de perspectiva em que, na própria descrição, já há implicitamente (daí a idéia de making it explicit) determinados pressupostos (como conceitos, objetos, ou msm regras), que constituem o horizonte da descrição. Isso pode ser entendido como uma certo uso de normatividade no sentido de uma perspectiva normativa que orienta descrições e métodos científicos (e aqui talvez uma possível interseccção entre Habermas e Heidegger). Nesse exemplo que vc discute da neurociência é já pressuposto um determinado conjunto semântico, ou se quisermos, um espaço conceitual, a partir do qual encontramos aquilo que previamente já precisamos, de algum modo, colocar. É normativo, portanto, por, num certo sentido, não podermos encontrar algo num sentido descritivo pretensamente neutro, mas já “visarmos” isso ou desdobrá-lo dentro de um quadro de regras implícitas, lançando mão de um horizonte conceitual específico a partir do qual se configura e se limita uma determinada descrição.

  5. massa marcos! é mto bom ter feedback sobre esta literatura completamente interessante.
    estou aqui com uma dúvida sobre um dos argumentos de B&H, que certamente é um bom começo para discussão sobre os fundamentos da neurociência. trata-se da afirmação de que o enunciado de alguém – “eu estou com dor” – é um critério não-indutivo para sabermos que alguém está com dor. Com toda a certeza, a inferência de:

    1. ele afirma estar com dor,

    para:

    2. ele está com dor

    é uma inferência indutiva (e portanto o critério em questão é indutivo). pq? pois a relação entre 1 e 2 não pode ser uma relação de implicação lógica: o argumento não é dedutivo. se ele não é dedutivo, então ele tem que ser indutivo, caso contrário nem se trata de um critério, razão ou evidência. eu só posso ter evidência indutiva para crer que o outro está com dor com base no seu enunciado.
    isso faz com que este raciocínio não seja diferente, no que diz respeito à sua forma, do raciocínio realizado pelo neurocientista que pode partir, por exemplo, de:

    3. fibras C estão sendo disparadas no cérebro dele,

    para:

    4. ele está com dor

    saca? a diferença é no conteúdo da premissa, mas a forma do raciocínio é a mesma: raciocínio indutivo. por isso, não entendi como que a inferência anterior pode ser realizada por meio de um critério não-indutivo, se é o caso q B&H realmente defendem isso. esta é minha dúvida sobre a tese dos caras – se tu tiver algum esclarecimento, let me know.

  6. marcosfanton · · Responder

    Luis,
    o que B&H afirmam é que o “caminho” de 3-4 já pressupõe 1-2. Quando alguém diz que está com dor, você pode concluir indutivamente que ele está com dor. Agora, imagine se você não tivesse os critérios da linguagem natural e APENAS observasse o cérebro e sua atividade: você não teria critério nenhum para dizer que tais e tais atividades estão para dor, felicidade, tristeza, etc. Esse é o ponto da falácia mereológica. O cérebro não exibe comportamentos assim como o ser humano o faz. Nós “comparamos” com o que já conhecemos.
    Um exemplo elucidativo é um trecho do filme Disque M para matar do Hitchcock, aquela em que ele filma um dedo discando o telefone, sabe? Bom, a princípio, é o dedo de um ser humano com o tamanho que nós pressupomos cotidianamente. Mas, na época, o Hitchcock não tinha recursos tecnológicos para fazer isso, então, ele construiu um dedo artificial gigante e um telefone igualmente gigante para conseguir filmar. Agora, apenas com o que está filmado, nós não temos parâmetros para saber o tamanho do dedo e do telefone; nós pressupomos isso.

  7. […] (um filósofo que eu já falei aqui) e Nachev (um neurocientista) acreditam que isso não é tão correto, isto é, que […]

  8. Olá, boa discussão, mas me parece que a falácia mereológica não é uma falácia, mas simplesmente um uso novo para termos antigos. Desenvolvemos nossos vocabulário psicológico antes da neurociência e agora precisamos ir fazendo ajustes. E dizer que o motor do carro é rápido ou que meu pulmão está com dificuldade de respirar são sim enunciados com sentido e informativos – a gente entende o que quer dizer e são mais corretos do que “o porta-luvas é rápido” e “meu estômago está com dificuldade de respirar”. Essa distinção entre parte e todo é irrelevante na análise dessas afirmações. Portanto, não me parece que haja problemas de sentido com as frases do Nicolelis, além do fato de que estamos descobrindo fatos novos sobre os processos psicológicos.
    Parabéns pelo blog!

  9. marcosfanton · · Responder

    Caro “ética prática”, obrigado pelos comentários.

    O que Hacker & Bennett apontam é justamente que esse “uso novo” não é justificado ou explicitado diretamente pelos cientistas. Eles aplicam os termos “pensar”, “raciocinar”, “lembrar”, diretamente ao cérebro, sem mostrar o que eles querem dizer com esses “novos” termos e, muitas vezes, justificando-se de modo esdrúxulo, através de uma suposta “licença poética” do cientista.
    Além disso, para os autores citados (H&B), todo esse vocabulário não é psicológico, no sentido da folk psychology; ele é um vocabulário da linguagem natural e possui critérios e padrões estabelecidos de maneira não-científica (e bem estabelecidos, diga-se de passagem). Por isso, ele não precisa ser “corrigido” muito menos “ajustado”. Cientistas pressupõem e, por isso, precisam dessa linguagem natural para realizar teses, experimentos, comparações, verificações de resultados, etc.
    Por fim, eu discordaria veementemente da tua afirmação de que “essa distinção entre parte e todo é irrelevante na análise dessas afirmações” e que os enunciados acima são informativos e com sentido. A mereologia é um estudo importante e está presente desde os gregos!
    Um motor nunca vai ser rápido e sempre dependerá de onde ele está situado; ele pode ser apenas mais ou menos potente (por isso sua medida não é a velocidade, mas cavalos). Coloque o motor de uma Ferrari em um carro com rodas quadradas ou em um caminhão com 2 toneladas de areia e ele deixará de ser “rápido”. O próprio conceito de respiração, citando outro exemplo, é inalar e exalar pela boca, cavidades nasais, etc. (como está colocado na Wikipédia). Até por isso que, quando fazemos traqueostomia, não dizemos simplesmente que o paciente está respirando, mas que está respirando por “ventilação mecânica”. Se arranjássemos um jeito de cortar todo esse processo de respiração, e ficássemos apenas com os pulmões, isso certamente teria outro nome (ou outro conceito).
    Da mesma forma, falar que o cérebro “pensa”, “raciocina”, “lembra” tem quebras drásticas dos critérios cotidianos que utilizamos e isso significa: utilizar outro significado para a mesma palavra. Daí a pergunta para os neurocientistas: e o que vocês querem dizer com isso? Quais os critérios para dizer que um cérebro “pensa”, “lembra”, etc.? Mesmo que sejam padrões de atividade neural, para estabelecermos essas medidas, exigimos, anteriormente (e essa é a ideia de H&B), a resposta de seres humanos “integrais”, que respondiam às perguntas dos testes científicos: “pense nisso”, “lembra daquilo”, etc.

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