Sobre o papel do filósofo no Brasil

Parece-me haver uma grande confusão na carta de repúdio da ANPOF ao projeto de lei que regulariza a profissão de “filósofo” no Brasil (ver aqui) . A parte claramente equivocada deste projeto de lei é a que se refere à completamente inexpressiva Academia Brasileira de Filosofia, resquício de um (quase) superado intelectualismo tradicionalista e sectário no Brasil (não é preciso dizer mais nada quando se lembra que são doutores honoris causa por essa pífia instituição os ilustres filósofos João Havelange, Carlos A. Torres e Michel Temer). No entanto, os argumentos contra o projeto como um todo não convencem: reduzir a formação acadêmica em filosofia à de professor de filosofia (“Cursos de filosofia formam professores de filosofia, que podem ou não ser filósofos”) parece-me uma sutil conseqüência de uma outra redução ainda típica (mas que está melhorando) no Brasil: aquela de filosofia à história da filosofia.

Em vários outros países, como é o caso dos EUA ou da Alemanha, onde faço doutorado, a formação acadêmica em filosofia não está vinculada somente ao ofício de professor, mas, pelo contrário, ensinar filosofia é consequência de um primordial exercício de “fazer filosofia”, de uma produção própria, de pesquisas, etc. Não há problema algum em alguém ser chamado de “filósofo”. Isso possibilita ainda a participação do filósofo em diversas áreas, inclusive em projetos de impacto político, comitês de ética e em meios de grande visibilidade na esfera pública, algo ainda estranho para um país como o nosso, onde ser intelectual ou formador de opinião durante muito tempo restringiu-se a jornalistas e juristas – e que, em grande parte, persiste até hoje.

Já o peso e a importância dados a uma determinada obra filosófica cabem à sua recepção, à sua capacidade de resistir ao tempo. Não cabem ao seu autor, mas a quem o lê. E é claro que isso não que dizer que intelectuais de outras áreas não possam expressar uma reflexão de caráter filosófico, como não é raro na literatura, na sociologia ou na neurociência. Exemplos disso hoje (mas que sempre houve na história da filosofia) são o Hegel-Preis concedido a Michael Tomasello ou todo o debate de que hoje quem faz metafísica são as ciências particulares. Tanto outras áreas podem estar imbuídas de conteúdo filosófico quanto é tarefa da filosofia pôr-se em diálogo com elas.

Querer dizer que, se é o caso do filósofo ter formação acadêmica, Heráclito ou Platão não seriam filósofos, é capcioso e não contribui em nada para essa discussão. Mas, por sinal, desde a academia de Platão (e aqui já a própria idéia de formação “acadêmica” em filosofia), e principalmente a partir de Kant – quando surge mais propriamente a idéia da profissão do filósofo também como professor universitário como conhecemos hoje – a quase totalidade dos filósofos foram formados em filosofia, como Hegel, Marx, Heidegger e Wittgenstein.

Não quero dizer, com isso, que seja necessário um projeto de profissionalização do filósofo (e acho que esse projeto tem sim vários problemas e que pode sim ser pernicioso, sendo, portanto, importante que a ANPOF se manifeste contra ele), mas que os argumentos oferecidos podem sugerir uma importante reflexão sobre o papel da filosofia no Brasil, e que podem revelar um certo conformismo não só com o papel do filósofo reduzido ao de professor, mas principalmente de que o papel da filosofia nas universidade é a de formar professores, e não filósofos. Isso não é o papel da formação acadêmica em filosofia em outros países, onde é favorecido e instigado um pensar próprio e não só uma reprodução, e que, ao mesmo tempo, não quer dizer que haja uma negligência ou inadequada apropriação da história da filosofia, mas, antes, que a ela não se restringe. Isso sem falar nos inúmeros casos em que se estuda filosofia simplesmente para ter uma formação filosófica (como vários colegas meus da época da graduação), e não para ser professores de filosofia (e, se assim fosse, não seria mais necessário o título de bacharel em filosofia, ou mesmo a distinção entre bacharelado e licenciatura).

Repudiar o projeto com esses argumentos de distinção entre filósofo e professor de filosofia é dar um tiro no pé, podendo levar exatamente ao que a crítica à ABF quer evitar: a idéia de que qualquer um pode se autodenominar filósofo.

A universidade continua sendo um lugar privilegiado de formação não só de professores de filosofia, mas de filósofos, e é justamente a partir dessa concepção que pode ser melhor vislumbrado o aperfeiçoamento do papel da filosofia no Brasil.

9 comentários

  1. Arthur Grupillo · · Responder

    Filipe, seu texto é muito claro, conciso e vai direto ao ponto. O fato é que, diante da inocuidade política do projeto e da ABF, o repúdio ao projeto tomou caráter de “faça-me o favor”, porque não interessa a ninguém discurtir com uma instituição, como você mesmo diz, “pífia”. De modo que o repúdio tem mais o caráter de demarcação de território. Mas o que você diz é correto, e eu iria mais além. Alguns dizem que os filósofos podem ser profissionalizados porque não são santos nem líderes religiosos. Ora, como se as instituições religiosas também não precisassem de alguma regulamentação, por exemplo, faço uma comparação entre a nossa realidade e a alemã, que você sugeriu. O ensino teológico no Brasil, sobretudo protestante, não tem aval universitário, então cria-se um abismo entre o ensino religioso, o científico e as necessidades da sociedade e/ou comunidade. (Há uma excelente obra de Troeltsch sobre isso: “Die Trennung von Staat

  2. Arthur Grupillo · · Responder

    apertei o bom errado, continuando: “Die Trennung von Staat und Kirche, der staatliche Religionsunterricht und die theologische Fakultaten”. É só para dar um exemplo de que o problema pode ser ainda mais profundo, e merece sim uma discussão ampla. De que não cola esse papo de que toda regulamentação é controle social, etc. Bom, para não fugir do assunto, diria que a comunidade filosófica está, em virtude desse projeto inócuo, tomando consciência dessa necessidade. A ocasião despertou as mentes para isso, apenas a nota de repúdio, politicamente necessária, não foi totalmente feliz em seus argumentos, ou talvez não tenha encontrado neste projeto um bom “começo” nem um bom “parceiro” para o começo de um diálogo na direção de um projeto interessante, preferindo começar a discussão do zero. Mas você tem toda razão.

  3. O projeto nada tem de inócuo. Ele prevê que a ABF, uma sociedade privada e totalmente desconhecida de quem faz filosofia (até então) será, não uma, mas A representante nacional do assunto e que se criarão cargos de filósofo obrigatoriamente em todas as repartições públicas que ela achar conveniente. Por favor, leia o projeto com atenção. Na escala dos problemas essa discussão que vc coloca é secundária: claro que ela tem que ocorrer, mas o problema é que o que está em curso só poderia ter qualquer cabimento muito depois que o assunto fosse discutido e, mais do que isso, que o trabalho de Filosofia no Brasil fosse outro. A nota da Anpof foi um esforço de se mobilizar do modo como é possível e com a preça que se faz necessária.

  4. Pressa, não preça… desculpe a pressa.

  5. Luiz, eu também acho que o projeto não é inócuo, e que, como escrevi, sou contra ele, bem como acho importante sim o repúdio proposto pela anpof. O objetivo do texto é, antes, sugerir, a partir dos argumentos postos pela carta da anpof, uma reflexão sobre o papel da filosofia no Brasil. Espero que essa questão do projeto seja resolvida e que seja um ensejo para esse tipo de discussão que não acho menos importante.

  6. Arthur Grupillo · · Responder

    caro Luiz, claro, eu compreendo seu ponto, se entendemos “inócuo” como uma coisa inofensiva, de fato não é o caso do projeto, que na verdade é até bastante ambicioso, principalmente pelos poderes que confere à ABF (até então desconhecida). pode haver palavra melhor, mas acho que há uma desproporção entre a pretensão e a capacidade de efeito e a legitimidade da instituição, e isso também é inocuidade.

  7. […] a discussão. Assim, sua ideia não deve simplesmente ser descartada sem maiores debates, pois como já disse Filipe Campello: “Repudiar o projeto com esses argumentos de distinção entre filósofo e professor de filosofia […]

  8. Doug de Paula · · Responder

    É necessário que a própria ABF exponha suas entranhas e revele seu regulamento interno, seus colegiados, seus membros associados, critérios de associabilidade, o modo como se configura, se há processo eletivo, etc. Nada sabemos da ABF e caso as suspeitas de oportunismo se configure, seria prudente solicitar intervenção judicial e adequar a tal Acadêmia as necessidades que forem apresentadas para a composição de uma legítima Acadêmia. É uma possibilidade diante de outras. Estou acompanhando os desdobramentos da tal Lei e o que ainda não vi foi o pronunciamento da ABF.

  9. Este equívoco muito comum de confundir o filósofo com alguém que faz história da filosofia já obteve seu espaço, é hora de desaparecer. Vejo alguns pós-graduandos adotando as formas de avançar os debates semelhante as encontradas em blog e jornais internacionais. Isto é bom, mas requer um pouco mais de tempo a ponto de obter massa crítica para o desenvolvimento de algo original, ou ao menos visível a comunidade filosófica.

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