Conto Filosófico: Qual é a Natureza do Gavagai?

O dia estava quente e o coelho Gavagai decidiu ir até o rio para se refrescar. “Preciso me molhar nesta tarde quente”, disse o Gavagai em alto e bom tom para a coruja, que o observava de cima da árvore. A coruja perguntou a si mesma se coelhos eram do tipo de animal que se banha em rios. Ela identificava coelhos, mas não sabia direito como definir um. Na sua visão, achou melhor suspender o juízo sobre se o Gavagai iria se banhar ou não (você sabe como são as corujas!). No entanto, ela teve uma bela surpresa ao notar que precisava urgentemente saber o que era um coelho!

Decidida a investigar sobre o assunto a coruja perguntou ao gato, o qual estava ronronando sob a sombra da árvore: “Você sabe o que é um coelho?”. O gato a olhou com languidez, miou, e disse que os coelhos eram famosos por serem rápidos – embora isso fosse um tanto injusto, uma vez que os gatos são bem mais velozes. “Mas o que faz um coelho ser um coelho?”, perguntou a coruja insatisfeita. “Por que você não faz esta pergunta ao próprio coelho?”, disse o gato, claramente querendo voltar a ronronar até o fim do dia. A idéia do gato era fantástica! Que tipo de animal seria o mais apropriado para responder a sua pergunta senão o próprio coelho? Ela iria falar com o Gavagai. De modo estranho, muito tempo havia então se passado, e quando a coruja chegou na beira do rio o Gavagai estava desfrutando de uma bela cenoura e olhando para o céu, aparentemente muito satisfeito com o que estava acontecendo.

O coelho Gavagai a avistou, e logo quis saber o que a trazia à beira do rio. “Vim até aqui por que estou curiosa”, explicou-lhe. “Bem…”, disse o Gavagai, “… agora estou curioso para saber por que você está curiosa”. Sem saber como começar, com milhares de pensamentos a lhe ocorrer, a coruja respondeu: “Na verdade, uma das coisas sobre as quais estou curiosa é sobre se você pode ficar curioso pra saber que estou curiosa…”. Confuso, o coelho correu até a margem do rio e tomou um pouco de água. “Não estou certo de que a entendi, coruja”. A coruja sabia que a sua dúvida poderia ser expressa de forma simples – ela já o fizera. No seu pensamento, ela tinha a imagem do coelho, e a dúvida consistia em perguntar o que era aquilo que sua imagem representava, o que era preciso um animal ter para ser um coelho, e o que ele tinha que o diferenciava dos outros animais. Ela desejou que o gato estivesse junto dela neste momento – ele parecia tornar as coisas mais simples. “Está bem”, retomou a coruja, “Você é um coelho, certo Sr. Gavagai?”. O coelho fez o sinal de positivo e concordou mexendo a cabeça num movimento vertical. “Quero saber por que você é um coelho, e também o que você precisa ter para ser um coelho, e também o que você precisa não ter para ser um coelho”, disse ela num único fôlego.

“Ora…”, disse o coelho, “… eu sou um coelho por que eu como cenoura, por que tenho muitos filhotes, orelhas grandes, estas coisas”. Ao ouvir a resposta do coelho, a coruja perguntou: “Você é um coelho por que come cenoura, tem muitos filhotes e orelhas grandes, ou você come cenouras, tem muitos filhotes e orelhas grandes por que é um coelho?”. Neste momento, o coelho não sabia dizer se ele era um tolo por não ter uma resposta, ou se a coruja tinha feito uma pergunta tola. Sem ter o que responder, o coelho ficou um longo momento em silêncio, enquanto a coruja o observava com curiosidade. Súbito, a coruja se deu conta de que havia muitas coisas em comum entre ela e o coelho. Ela observou, por exemplo, que tanto ela como o Gavagai podiam se movimentar, cada um a seu jeito – o que os diferenciava das árvores, por exemplo. Depois de encontrar muitas coisas em comum entre ela, o coelho e o gato, a coruja ouviu o Gavagai dizer: “Bem, eu tenho que voltar para minha toca… Espero ter ajudado de alguma forma!”. E, num piscar de olhos, o coelho sumiu de sua vista saltitando entre os arbustos.

Ao voltar para a sua árvore, a coruja encontrou o gato novamente. Ele espriguiçava-se exatamente no mesmo local onde estava antes. A coruja lhe disse que havia falado com o coelho, e que ela já tinha algumas respostas para a sua pergunta. Acabou por elogiar veementemente a sugestão que o gato lhe dera de procurar um coelho para falar sobre aquilo. Neste momento, o gato retorquiu: “Na verdade, a minha idéia não foi tão boa: tente perguntar a uma pedra o que é ser uma pedra”. A coruja ficou impressionada com a sagacidade intelectual do gato, e ansiosamente começou a lhe contar sobre as suas reflexões: ela, o Gavagai e o gato eram seres animados, coisa que as plantas não eram e, portanto, ser um coelho, ser um gato e ser uma coruja são variações de alguma coisa em comum. “Estou impressionado…”, disse o gato, levantando e colocando suas patinhas no tronco da árvore para se espreguiçar um pouco mais. A coruja sentiu-se agradavelmente lisonjeada com a observação do gato. Sua alegria, porém, durou somente até o momento em que o gato continuou: “Estou impressionado com o seu descuido – como pode crer que o gato, a coruja e o coelho são animados sem saber o que isto significa?”. O pássaro ficou desconcertado, e até mesmo se cansou. “Se você quer saber o que é um coelho”, continuou o gato, “você tem que saber o que é aquilo que é um coelho”.

Ao ouvir a afirmação do gatuno, a coruja pensou: “Se eu quero saber o que é um coelho, e um coelho é animado, eu não posso saber que o coelho é animado a menos que saiba o que é ser animado. De outro modo, o meu conhecimento sobre o que é um coelho seria perdido”. Ela começou a achar que aquela trama era muito estimulante, mas ao mesmo tempo pensou que dificilmente poderia continuar sem a ajuda do gato. “Quero lhe pedir um favor, Sr. Gato”, disse ela. “Se incomodaria em ir junto comigo falar com o coelho?”. O gato lambeu suas patinhas enquanto olhava a coruja com uma certa indiferença. Ficou em silêncio por um bom tempo, enquanto a coruja aguardava por uma resposta sua. Finalmente, o gato resolveu falar: “Você não precisa falar com o coelho para tentar descobrir o que ele é”. A coruja não conseguiu ver qualquer coisa útil nesta observação do felino, e até mesmo ficou um pouco irritada. Como poderia alguém saber o que é um coelho sem manter contato com um coelho, ou mesmo um grupo de coelhos? A sugestão era absurda. O gato continuou: “Afinal, o que mais irá lhe dizer o coelho sobre ele mesmo, além das coisas que todos falam sobre os coelhos? Eu duvido que o Gavagai saiba o que é um coelho ele mesmo, e duvido que ele esteja interessado o suficiente nesta questão para lhe ajudar”. Isso deixou a coruja muito desanimada, e ela resolveu lhe dar as razões que tinha para pensar que lhe seria muito útil conversar novamente com o coelho. “O Gavagai pode me dizer, Sr. Gato, como os coelhos vêem o mundo, por exemplo”. O gato começou uma gostosa risada enquanto rolava ao chão. “Posso saber do que está rindo?”, inquiriu a coruja. “A sua idéia é tola…”, começou a responder o gato, “… por que, se você não sabe o que é um coelho, então você não sabe, por exemplo, se os coelhos mentem. E, dado que você não sabe isso, como poderia confiar seu conhecimento sobre coelhos no testemunho de um coelho, se de acordo com as suas pobres evidências o coelho pode perfeitamente estar mentindo sobre si mesmo?”.

A esperteza do gato a impressionava cada vez mais. Ele parecia ter razão: se por tudo o que ela sabe os coelhos podem ser mentirosos, então ela não poderia confiar no testemunho de um coelho para tentar descobrir o que é um coelho (ao pensar assim a pobre coruja não se deu conta de que o gato também poderia estar mentindo!). Instigada pela novo raciocínio, a coruja inquiriu: “Então, Sr. Gato, dadas estas sábias considerações, o que você sugere que devo fazer para descobrir o que é um coelho? Como devo proceder para não incorrer nestes e noutros erros?”. O gato ficou um tanto irrequieto, demonstrando sentir-se intimidado. Andou sorrateiramente até outra árvore, e com um ar soturno colocou-se atrás dela, de modo que a coruja não mais podia vê-lo. Ainda assim, ele respondeu: “Antes que eu lhe diga qualquer coisa, Dona Coruja, pense se você tem alguma razão para crer que o que eu lhe disse será verdadeiro, ou terá algum valor para a sua investigação”. A coruja começou então a refletir profundamente, e acabou por encontrar uma resposta positiva: o que o gato lhe havia dito antes tinha sido de grande serventia. Afinal, suas críticas mostraram falhas no seu modo de perseguir a questão, e também toda a sua abrangência. Ao expressar ao gato a sua reflexão, a coruja mostrou que as perguntas feitas por ele sempre revelavam algo que estava sendo negligenciado por ela num momento anterior. O gato não pareceu ter objeções, e então a coruja começou a pensar que talvez o gato tivesse feito este questionamento somente para ganhar algum tempo para pensar na questão que ela lhe havia colocado: ele não tinha o que dizer sobre como ela devia proceder na sua investigação. “E então”, continuou a coruja, “Tens alguma sugestão sobre como devo proceder, Sr. Gato?”. Um silêncio completo reinou por um bom tempo. Desconfiada, a coruja se dirigiu até a outra árvore, para então se certificar que o gato havia sumido. “E agora?”, perguntou a coruja para si mesma, “Quem irá me mostrar as considerações mais essenciais sobre a minha questão? Antes eu não tinha alguém me mostrando como eu devo tentar buscar as respostas, mas tinha alguém me mostrando como eu não devo buscar as respostas. Agora não tenho uma coisa nem outra…”. Como deveria proceder a coruja?

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