O que um filósofo faz em um laboratório?

Reza a lenda – e a maioria dos professores ensebados regozijam-se em a repetir – que Tales caiu em um poço ao olhar para o céu e suas estrelas. Disso, quase sempre se segue o contraste entre a zombaria de uma criada e o professor enchendo o peito para falar da “busca **obstinada** pela verdade duz filósôfu”. Diz outra versão menos popular, contudo,  que Tales não caiu no poço, mas realmente quis estar lá, pois acreditava-se, à época, que dentro de um poço fundo o bastante, seria possível enxergar melhor as estrelas (o que hoje é tido como incorreto). Dessa última versão não se retira o riso da criada – ele sempre pode vir de alguém e de algum lugar -, mas se diminui a quase incontestável e tradicional inaptidão que o filósofo tem pelo “empírico” (buuuu!).

Fazem cerca de 3 semanas que venho participando de um grupo de estudos e pesquisa no Instituto do Cérebro, na PUC, cujo caráter é eminentemente interdisciplinar. Em todas as reuniões, que não possuem pauta ou tema específico, sentamo-nos em uma mesa redonda composta por profissionais das mais diversas áreas: neurociência, farmácia, química, matemática, antropologia, computação, educação física e filosofia, que trazem à tona um entusiasmo por mesclar essas diferentes áreas do conhecimento, uma insatisfação pelos impedimentos burocráticos e uma ansiedade pelos riscos que esse tipo de pesquisa não tradicional oferece. O interessante disso é que, em cada reunião, eu percebo a montanha de trabalho que um filósofo poderia ter ao se integrar no departamento de outras áreas do conhecimento – e vice-versa. Mas, é claro, a pergunta que sempre surge é: o que, diabos, um filósofo faria em um laboratório com cientistas altamente sofisticados e competentes?

Esse “tijolo” aqui do lado (460p.) é uma das obras mais exaustivas que eu já peguei em mãos sobre a relação entre filosofia e neurociência cognitiva. Escrito por um filósofo e um neurocientista (Hacker & Bennett), ele traz com uma parte introdutória acompanhada de uma parte histórica da neurociência, um capítulo central (o terceiro, intitulado A falácia mereológica da neurociência) e, poderíamos dizer assim, a aplicação de uma metodologia filosófica (declaradamente, a do segundo Wittgenstein) a diversos temas trabalhados pela neurociência, como sensação, percepção, capacidades cognitivas e cogitativas, emoção, volição, consciência, auto-consciência e por aí vai.

Os autores tomam como um dos pilares de sua investigação a separação entre questões empíricas ou observacionais e questões conceituais. A neurociência deve dar conta de responder ao primeiro tipo de questão, pois ela tem como campo a explicação do nosso sistema nervoso e das condições neurais que tornam possível as funções que todo ser humano comum possui, como emoção, percepção cognição, etc. A filosofia, por outro lado, não deve dar pitaco sobre as pesquisas dos cientistas, mas sobre o modo como estes utilizam os conceitos de suas teorias e suas relações lógicas e sobre as relações estruturais entre os campos conceituais distintos (como neurofisiologia e psicologia). Somente desse modo, argumentam os autores, um filósofo pode ter lugar nas pesquisas sofisticadas dos neurocientistas e argumentar, sem receio de estar fazendo papel de bobo, que determinada teoria é sem sentido ou carece de esclarecimento conceitual. Os autores resumem isso em poucas frases: “o que verdade e falsidade é para a ciência, sentido e sem sentido é para a filosofia. Erro observacional e teórico resulta em falsidade; erro conceitual, em falta de sentido. Como alguém pode investigar os limites do sentido? Apenas examinando o uso das palavras”. A partir disso, o livro é uma enxurrada de correções, observações, críticas e esclarecimentos não tanto do procedimento metodológico dos neurocientistas e de seus conceitos mais técnicos ou mesmo de suas hipóteses empíricas, mas daqueles conceitos não-técnicos e mais cotidianos, que são utilizados sem uma reflexão conceitual precisa e com alta importância em seus resultados empíricos, como mente e corpo, movimento, pensamento e imaginação, sensação, percepção, conhecimento e memória, etc. Quando falamos desses conceitos na linguagem ordinária, parece não haver nada de errado; eles servem para os seus propósitos. Contudo, quando o alocamos em uma teoria sofisticada, procurando torná-los parte de uma rede conceitual sujeita à diversas inferências científicas, seu sentido muda completamente – por causa, também, do seu contexto de uso – e o enunciado torna-se vazio. Desse modo, a advertência que recebemos desse modo de pensar é que metáforas ou atribuições de predicados a partes do corpo, como o cérebro, quando são, normalmente, utilizados para o indivíduo como um todo, não são tão inocentes quanto parecem à primeira vista e podem levar à descrições de resultados científicos e, até mesmo, à formação de programas de pesquisa incoerentes.

Para Hacker & Bennett, portanto, entrar em um poço (ou em um laboratório) não significa termos mais conhecimento para empalharmos nossas teorias filosóficas nem considerarmos nossos devaneios teóricos como importantes hipóteses empíricas. O trabalho restringe-se à consciência de que o olhar dirigido às estrelas é sempre envolvido por uma rede conceitual que pode tornar as observações mais ou menos obscuras e suas consequências teóricas correspondentes coerentes ou não.

One comment

  1. […] um post anterior, eu fiz alguns comentários iniciais da obra Philosophical Foundations of Neuroscience, dos autores […]

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