Duas notas sobre a Universidade

Nota: Esse post foi inicialmente colocado no meu blog pessoal. Depois de conversar com o Marcos resolvi que era compatível com o Distropia e que valia a pena tentar iniciar uma discussão por aqui. Divirtam-se.

Duas crônicas hoje, uma com a qual concordei quase integralmente. A outra, meio estranha. Ambas sobre o “estado da arte” no meio acadêmico.

Primeiro, uma consideração geral: minha frustração com o estado de coisas acadêmico não é só minha. Quanto mais falo com pessoas que passaram ou passam por essa coisa que a gente convencionou chamar “carreira acadêmica”, mais me convenço que os motes normalmente vinculados com o assunto (tipo, “agregar conhecimento”, “formar pesquisadores”, “qualificar profissionais”) são, para o usar o termo bondoso, balela. Uma amostra simples dos adjetivos associados ao processo de obter um doutorado, em uma coleta entre colegas em qualquer mesa de bar, me dá resultados como “farsa”, “perda de tempo”, “estresse”, “pobreza”, e, eventualmente, “ao menos a gente é pago prá fazer isso”. O último resultado, especialmente, me parece ser dividido entre as pessoas mais… realistas. Ei, a gente reclama, mas é espantoso que nos paguem para discutir coisas como a ontologia da performance artística na ópera contemporânea (título não irônico de um projeto muito real).

Claro, exceto que ninguém é pago por um projeto. A grande ilusão da academia nos Estados Unidos é que você é pago pela tua pesquisa. Poucos alunos nos Estados Unidos tem bolsa para projeto. Na realidade, quase todos têm as chamadas assistentships, que são cargos de professor auxiliar ou de pesquisador auxiliar. O que isso significa? Isso significa que tu tem teu projeto. Qualquer que seja. Mas a tua função, a que te paga, é auxiliar um professor a terminar um determinado projeto de grande porte, ou a dar uma determinada aula. Na prática, tu é pago para fazer o trabalho chato: testes de laboratórios, entrevistas, organizar papelada, verificar estabilidade de elementos x-y-z, verificar chamada, aparecer para dar uma prova, dar algumas aulas, fazer reunião de orientação com aluno de graduação, e qualquer outra coisa que o professor titular da cadeira não tá lá com muita vontade de fazer. Tu é pago para trabalhar entre 20 e 40 horas por semana, mas quase todo mundo que conheço trabalha uma média de 50, independentemente do contrato – e ganha os mesmos 1.3 mil dolares (ou 900, no caso de vinte horitas). O aluno, nesse caso, também não tem que pagar as mensalidades do seu respectivo curso (mas segue pagando as taxas, que comem algo tipo 10% dos teus ganhos).

Nesse sentido, a academia norte-americana funciona parecida com um esquema de pirâmide. Indivíduos no topo ganham geometricamente mais que individuos no chão, e individuos no chão “pagam” valores que são transferidos para o topo, na esperança de algum dia “subirem” no esquema. Alternativamente, indivíduos no chão trabalham por amor a causa e completo abandono das necessidades materiais. Se você acredita na última opção, você é um idiota (ou herdeiro. Geralmente são sinônimos).

Esse artigo, na Economist, ilustra bem esta situação, com especial carinho destinado aos alunos internacionais. Me identifiquei tanto com o artigo que passei a tarde irritado pensando nele. O diagnóstico é simples: os que defendem os números atuais de alunos na universidade não estão falando em benefício dos alunos. Estão, isso sim, defendendo o interesse das universidades, que adquirem mão de obra barata e descartável, mão de obra que depois de quatro anos é inserida em um mercado que tem um excedente de indivíduos para aquela função, ou que simplesmente não sabe o que fazer com o sujeito formado em Artes Cênicas com ênfase na ontologia do corpo nu (de novo, não estou inventando).

O que me leva para o artigo escrito pelo prof. Schwitzgebel. O Mr. S. (vocês tão de sacanagem se acham que vou ficar reproduzindo esse nome o tempo todo) é professor na UC. Davis, e ele também deve achar que as pessoas são idiotas. O Mr. S. teria um bom ponto, se o ponto dele fosse verdadeiro. O S. quer nos convencer de algumas coisas que qualquer um que já tenha passado mais que dez minutos em um centro de pesquisa norte-americano vai achar hilário.

1) Os professores passam muito tempo aplicando para Bolsas de Pesquisa de institutos independentes.

Bollocks. Quem aplica para bolsa é um profissional contratado pela Universidade ou pelo Centro de Pesquisa com o qual o professor trabalha. Ou vocês acham que o Herr Professor do Instituto de Filosofia da Ciência na University of Pennsylvania passa mais que quinze minutos por mês pensando nas bolsas? Se tanto, ele vai para uma reunião semanal para falar com as pessoas encarregadas disso. As universidades norte-americanas, ao menos as de porte pequeno-médio em diante, todas, tem indivíduos especializados em auxiliar professores com bolsa. Mesmo professores que não trabalham com centros de pesquisa, ou com think tanks, podem falar com o pessoal que auxilia issoFazem dois anos que eu trabalho em um centro de pesquisa, e mesmo com o diretor tendo algum envolvimento na escolha de projetos e no que desenvolver, eu estaria mentindo se eu falasse que a elaboração de projetos e desenvolvimento depende dele. Não depende. Quem gasta tempo com isso são as mulas de carga (gente tipo eu).

2) Professores competentes deveriam conseguir dinheiro para projeto sem ter que aplicar para fundos – mas com base no nome e excelência prévia da pesquisa do indivíduo.

Leia isso em voz alta. Tente não rir.

3) Dar poder para grant-agencies (agencias de fomento de pesquisa) diminui a autonomia do pesquisador, que depende das vontades do mercado.

Esse tipo de coisa denota o completo autismo da comunidade acadêmica. “Me dá teu dinheiro aí, mas eu quero fazer o que eu bem entendo com ele, oka?”. Atitude típica de adolescente remelento que quer dinheiro da mãe mas não quer dizer para onde vai na NAITE. Quer autonomia? Acha uma forma de financiar tua própria pesquisa, ou justificar teu projeto. Ou, melhor ainda: talvez teu projeto não precise de fundos de uma agência de fomento. Talvez tu consiga fazer ele só com o material intelectual que tu já tem, e daí tu pode tentar achar uma editora para publicar os resultados. Não conseguiu? Existe essa coisa chamada INTERNET, onde tu pode abrir um SAITE e vender o PDF do teu LIVRO. Numa dessas alguém compra. Numa dessas alguém pirateia. Numa dessas uma editora vê que teu projeto é viável e te dá um abraço. Viu, tu foi autônomo e não precisou te prostituir pro sistema. Parabéns. Tu quer três milhões de Euros para um projeto sobre a questão da Vocação e da Experiência Religiosa? É de bom tom fazer um puta dum projeto, meu amigo. O projeto vencedor da Templeton Foundation ganhou um milhão e meio de libras para exatamente esse tema, a Templeton então foi criticada por financiar projetos na área de religião e de caráter sectário. Meu amigo, o dinheiro é da Templeton. Se eles querem dar grana para um projeto sobre simulacro e representação na performance teatral, eu tenho um email para passar para eles. Não gosta deles? Não pede dinheiro para eles e para de reclamar.

O Mr. S. até concorda com algum desses pontos, mas reclamar que as pessoas estão focando muito nas agências de fomento é perder a dimensão do tipo de pesquisa que está pedindo grana. Geralmente, agências de fomento de pesquisa são mobilizadas para projetos envolvendo mais de uma universidade, e mais de uma área de pesquisa. Envolver a filosofia nisso me parece interessante, até para a gente parar de ser a última salvaguarda de coisas que ninguém mais fala. A filosofia tem muito o que oferecer em termos de método e rigor, e tem vários projetos por aí que demonstram isso. O nosso colega de blog aqui no Distropia, o Luis Rosa, tem vários exemplos legais de iniciativas de trocas de idéias que funcionam. Esse tipo de coisa realmente é potencializada por esses projetos de fomento de pesquisa. E me parece melhor depender desse tipo de iniciativa do que depender de fomento de pesquisa por parte do governo (como é o nosso caso no Brasil). E isso não é uma crítica ao CNPq ou a CAPES, que são bons agregadores de fundos para pesquisa acadêmica, mas é problemático que apenas o governo brasileiro tome parte no financiamento de pesquisa acadêmica no Brasil (apenas agora estamos engatinhando em colaborações com a iniciativa privada).

Uma boa conclusão aqui, me parece, seria a seguinte: precisamos 1) informar os alunos melhor sobre o que eles devem esperar ao entrar na universidade para uma pós-graduação; 2) talvez focar em projetos de colaboração para execução de certos objetivos específicos seja melhor do que insistir no modelo da Tese com tê maiúsculo. Muitos departamentos nas exatas e nas biológicas já abandonaram a idéia da Tese em favor de pedir ao aluno três ou quatro artigos publicados em revistas de grande porte, e ninguém morreu; 3) É melhor declarar a vocação do teu departamento e das pesquisas no departamento, inserindo o aluno, diretamente, em pesquisas em andamento. Ao menos assim a coisa seria honesta.

One comment

  1. marcosfanton · · Responder

    Cara, eu acho que isso esbarra, também, no seguinte problema: como mensuramos ou avaliamos uma tese de doutorado? Ou: Tem sentido uma tese em estética com ênfase na ontologia do corpo nu? Esta é uma tese melhor do que uma sobre a explicação do conceito de natureza em Kant? Que professores estão julgando? De certo modo, isso dependeria muito do corpo docente da universidade e a sua disponibilidade para aceitar tais trabalhos e outros que estão fora do escopo de sua linha de pesquisa. Claro, isso ocorre em diversas áreas também, mas parece que nas humanas isso é um pouco mais agudo. Por causa disso, ainda, eu acho que a avaliação dos professores junto com os órgãos de fomento em relação aos alunos e a diversos projetos de pesquisa é um pouco esdrúxula: o cara está ganhando bolsa, ok, então faça com que ele consiga defender a tese para não perdermos posições no ranking. Como diz o Stein, com a ironia dele, não há um projeto sequer nas humanas que falhou e foi reportado no relatório do CNPQ. Por quê? Bom, porque também parece haver uma intolerância com falhas nos textos de filosofias – que sempre podem ser lidos sob outro “ponto de vista”. =P

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