Boghossian versus relativismo

Meses atrás, no blog The Stone do New York Times, houve uma discussão entre os filósofos Paul Boghossian e Stanley Fish sobre a plausibilidade do relativismo – tanto epistêmico quanto moral. A provocação veio de Boghossian e Fish fez uma réplica. Eu não vou me ater ao artigo deste último, pois achei sua resposta apenas um desvio da discussão e sem maiores desafios teóricos. Já a provocação de Boghossian vale muito a pena ser analisada, pois ela vem de estudos anteriores, como a sua tentativa de refutação do relativismo e do construtivismo no livro Fear of knowledge (Kindle Edition $16 – chinelági) e no artigo What is relativism? para o livro Truth and realism (irei considerar essa bibliografia também, mas não em toda sua extensão). Desde já, eu gostaria de adiantar para vocês que eu não concordo com os argumentos de Boghossian; acho que ele erra o alvo e exige do relativista algo que ele não exige para si mesmo – o esclarecimento do estatuto teórico de sua própria teoria. Bom, vou colocar meu ponto de vista e espero uma resposta de vocês – se acertei, errei ou se há outros argumentos melhores.

Uma das versões de relativismo que Boghossian formula – e que vai refutar – possui as seguintes teses:

A. Não há fatos absolutos sobre qual crença um item particular de informação justifica (Não-absolutismo epistêmico)

B. Se os julgamentos epistêmicos de uma pessoa, S, tem alguma expectativa de serem verdadeiros, nós não devemos construir seus enunciados da forma

“E justifica a crença B”

expressando a tese

E justifica a crença B

mas, expressando a seguinte tese

De acordo com o sistema epistêmico C, que eu, S, aceito, a informação E justifica a crença B (relacionismo epistêmico)

C. Há muitos sistemas epistêmicos fundamentalmente diferentes e genuinamente alternativos, mas não há fatos em virtude do qual um desses sistemas é mais correto que algum dos outros (pluralismo epistêmico).

Essa é a versão que o Boghossian acha mais “defensável”. Uma versão resumida disso tudo pode ser vista do seguinte modo (aplicado agora à moral):

O enunciado

“É errado que Luis roube o Playstation de Fabrício”

expressa

Em relação ao quadro/sistema moral M, é errado que Luis roube o Playstation de Fabrício.

A partir da formulação dessa versão do relativismo, Boghossian passa a criticá-la. Vou resumir algumas das suas críticas em itens:

[1] Refutação tradicional: essa todos nós conhecemos: como um teórico pode criar uma teoria relativista, se o princípio de que tudo é relativo (i.é, é de acordo com determinado quadro teórico/moral M) não é, ele mesmo, relativo? Assim, o relativista cai numa antinomia. Considerarei esse tipo de relativismo de relativismo radical.

[2] Julgamentos gerais e particulares: o teórico relativista não pode aceitar como verdadeiros os julgamentos particulares que justificam determinados fatos, pois estes só podem ser acompanhados do predicado ’em relação ao quadro/sistema M’. O exemplo que Boghossian dá diz respeito aos princípios epistêmicos das ciências, que são formados por enunciados normativos gerais, tais como: “(Observação) Para qualquer proposição observacional p, se ela parece visualmente a S que p e as condições circunstancias D são obtidas, então S está prima facie justificado em crer p”. Ora, tais princípios não possuem o predicado recém-mencionado e, por isso, deverá ser considerado falso. Logo, o relativismo é incoerente, pois ele precisa de tais princípios para formar sua própria teoria.

[3]  Proposições incompletas: Se todas as proposições do relativismo precisam desse predicado, logo todos os enunciados como “Luis roubou o Playstation de Fabrício” são incompletas, pois precisam sempre do predicado “em relação ao quadro/sistema M“. Assim, como podemos aceitar um sistema feito de enunciados incompletos e que, provavelmente, não poderiam constituir a concepção de qualquer coisa.

[4] Pluralismo epistêmico: cada proposta de teoria poderá ser contradita por outra teoria que advoga exatamente o contrário, tendo em vista que não podemos ter fatos absolutos para comparar os enunciados de cada uma.

[5] O relativismo é apenas uma teoria com considerações lógicas sobre os enunciados; ele deixa completamente em aberto se há fatos absolutos ou morais. Na versão aplicada à moral, por exemplo, o enunciado moral “É errado que Luis roube o Playstation do Fabrício” transforma-se em uma descrição ao ter adicionado o predicado  “em relação ao quadro/sistema moral M”. 

Bom, acho que podemos, em primeiro lugar, notar que o Boghossian possui uma versão bastante específica de relativismo – já que sua discussão tem como ponto de partida, em praticamente todos os papers e no livro, a obra de Gilbert Harman. Poderíamos nos perguntar até que ponto ele não generaliza essa sua crítica a todas as outras versões possíveis de relativismo.

Em segundo lugar, eu gostaria de apontar a falha que eu vejo no argumento de Boghossian, o que faz com que todas as críticas elaboradas contra o relativismo sejam também críticas a sua própria posição.

Nós não podemos deixar passar em branco que no seu livro, Fear of knowledge, Boghossian gasta um capítulo inteiro apenas para descrever aquilo que ele entende como a concepção clássica do conhecimento (claro, citando o problema de Gettier), concepção na qual ele endossa. Ali, ele descreve a teoria correspondentista da verdade ao dizer que o enunciado “Júpiter possui 63 satélites” é verdadeiro, porque há o fato de que Júpiter possui 63 satélites. E tal fato é universal, objetivo e independente da mente.

Ora, o que nós devemos nos perguntar agora é: Boghossian não está fazendo a mesma coisa que o relativista está fazendo, isto é, um metaenunciado, uma consideração lógica sobre os enunciados?  A única diferença é que ele está separando a sua teoria dos enunciados isolados e pressupondo a teoria. Ou seja, o enunciado

“E justifica a crença B”

pode ser a expressão de

E justifica a crença B é um fato universal, objetivo e independente da mente. 

Ou, ainda, no caso da moral, teríamos o seguinte:

“É errado que Luis roube o Playstation do Fabrício”

expressa

É errado que Luis roube o Playstation do Fabrício é um fato universal, objetivo e independente da mente.

Com isso, caso essa observação esteja correta, todas as críticas que Boghossian faz ao relativismo aplicam-se a sua própria concepção de conhecimento e de enunciados, pois ele pressupõe que enunciado per se seja determinado e expresse – teoricamente – fatos absolutos, universais e independente da mente. Porém, não é justamente isso que é exigido da filosofia: a determinação do estatuto teórico de nosso discurso, a delimitação de nosso tema/assunto, a explicação da dimensão linguística, a possibilidade do conhecimento, etc.? Ou seja, não podemos pressupor que enunciados  em esplendid isolation – ainda mais enunciados da linguagem natural – possuam determinação teórica. Eles simplesmente não tem!

Assim, tanto o relativismo quanto a definição clássica do conhecimento são teorias  que procuram explicar o nível teórico no qual estamos nos movendo. Nós poderíamos dizer, ainda, cfe. Puntel, que esse “predicado relacional” que o Boghossian utiliza não é, em verdade, um predicado, mas um operador teórico, isto é, ela explica o estatuto teórico dos nossos enunciados e, com isso, tira-os de uma indeterminação teórica. Por exemplo, se quiséssemos explicar tais enunciados a partir do paradigma crítico-transcendental de Kant, falaríamos: “Sob o ponto de vista do sujeito transcendental, E justifica a crença B”, etc. E isso se aplica às propostas anteriores.

8 comentários

  1. Leonardo Ruivoruivo · · Responder

    No capítulo 6 do Fear of Knowledge Boghossian apresenta o ‘quadro teórico’ do relativista. Esse quadro teórico, como você bem observou, é uma composição de três doutrinas que, conjuntas, compõe o relativismo epistêmico. O que Boghossian terá de fazer será mostrar que pelo menos uma das três é falsa. Nesse sentido, o problema da ‘refutação tradicional’ é que ela não dá conta desse quadro teórico.

    Pois bem, a partir daí Boghossian parece, até onde compreendo, criticar somente o Relacionismo e o Pluralismo. Assim, os pontos [2], [3] e [5] dizem respeito somente ao relacionismo, enquanto que o ponto [4] diz respeito ao pluralismo. Embora Boghossian utilize o relativismo moral, esse uso é para introduzir o quadro teórico do relativista sobre fatos (ou sobre a verdade) e do relativista sobre justificação (ou epistêmico, propriamente dito). Essa consideração é importante porque ela diz respeito ao escopo da crítica de Boghossian. Além disso, temos que avaliar se o relativismo, tal como ele o apresenta, está ou não de acordo com uma teoria relativista. Se está somente de acordo com Harman ou com Rorty (o espantalho do Fear of Knowledge), isso tem que ser mostrado (e seria uma crítica bastante relevante).

    Sobre sua crítica ao Boghossian, em primeiro lugar, se a concepção clássica do conhecimento é falha, temos que apontar onde encontra-se essa falha. E note bem, universalidade e objetividade são modos de avaliar nossas crenças. Se elas são universais é porque são objetivas e porque são independentes da mente. Essa caracterização contudo parece impedir descrições adequadas de nossa esfera de valores – fato que as ciências humanas necessitam debruçar-se. É por conta desse critério que entendo as confusões de Boghossian quanto a leitura dos enunciados de Latour e Foucault. Particularmente o modo como ele analisa o enunciado de Foucault é bastante esclarecedor nesse sentido.

    Quando Boghossian apresenta que, para Foucault há uma diferença na leitura do fato de dois homens se relacionando como: (i) dois homens se relacionando e (ii) haver uma relação homossexual. Boghossian diz não compreender a raiz essa diferença. Ora, a raiz dessa diferença é levar em conta os fatos tal como (de modo dependente da mente e particularmente ao contexto cultural) eles são interpretados. Essa me parece ser uma saída relevante que ainda está para ser explorada e que diz da natureza das ciências humanas e sua necessidade de fundamentação relativista (mais particularmente a antropologia cultural – os relativistas por excelência de nosso tempo). Mas, se a saída é essa, o relativista ainda teria que justificar como ele pretende atingir enunciados que não sejam descritivos de uma sociedade, mas normativos.

    Em geral a melhor defesa não-absolutista nesse sentido é de Rachels (Elementos de Filosofia Moral) em que ele aponta que há sim coisas universalmente aceitas por todas as culturas – nossa esfera de valores. Não vou entrar na argumentação dele aqui – até porque essa resposta está mais longa do que eu esperava – mas o fato é que, se a argumentação dele é boa (e me parece excelente), ela destoa com o modo como o relativismo antropológico gostaria – porque fixa, absolutamente, uma esfera de valores dentro de cada cultura. Então, ou a antropologia cultural, relativista, é relativista no sentido de Boghossian ou é em outro sentido e faz-se necessário esclarecer a ambiguidade do termo (tarefa que, até onde sei, ainda está por fazer).

    Uma outra saída que poderíamos ter é a de apelar para uma distinção ontológica entre o campo da ação e o campo da teoria (ou natureza e cultura, como os antropólogos gostam de dizer). Mas ainda assim teria-se a necessidade de explicar a plausibilidade dessa distinção (esse parece ser o foco da discussão de Max Weber entre Dilthey e de toda fundamentação das ciências humanas).

    Particularmente, até o momento, vejo a saída do relativista nesses termos que coloquei. Já sua saída de apelar para metaenunciados não me parece boa porque você parece aplicar o relacionismo epistêmico sobre Boghossian. Mas isso é tomar o relativismo epistêmico como boa teoria – coisa que ainda não se fez (e, particularmente, absolutistas como Boghossian criticarão a possibilidade de isso ser feito).

    Outro modo de compreender sua crítica seria a que você comprou a antinomia de Boghossian: ou o relativismo é incoerente, ou o absolutismo é circular. Embora Boghossian apele para a incoerência do relativismo e deixe a entender que se o absolutismo quer provar sua não circularidade, que o faça, mas ali não é o lugar para isso. Se você tenta fazer isso comprando o pluralismo epistêmico (dizendo que toda teoria é tão boa quanto qualquer outra), tem de levar em conta que isso ainda necessita ser provado (ou que a crítica de Boghossian é falha e que o Pluralismo é coerente). Mas isso não pode ser feito comprando o Pluralismo e aplicando-o sobre Boghossian – isso faz da argumentação circular.

    Por último, concordo com Kalderon em seu artigo Epistemic Relativism que aponta como problema fundamental para Boghossian a concepção de relacionismo epistêmico. O relacionismo epistêmico não necessita comprar a ideia de que suas instanciações particulares são falsas. A crítica dele me parece, até o momento, a mais relevante em termos de destruição do argumento de Boghossian – mas isso ainda não prova a coerência do relativista epistêmico.

  2. Leonardo, a minha crítica seria mais ou menos o seguinte: por que deveríamos achar que os argumentos de Boghossian são tão importantes assim? Ou: por que não devemos exigir do pensamento clássico uma justificativa teórica nova? No seu comentário, parece que o relativista teria um maior “débito” em justificativas do que o teórico clássico.
    Ora, a noção de ‘metaenunciados’ mostra, justamente, que é impossível fazermos filosofia sem explicarmos qual a dimensão teórica dos nossos enunciados. Eu não quis dizer que a visão clássica do conhecimento é falha, mas que ela é simplesmente PRESSUPOSTA pelo Boghossian, como se, ao falarmos, já estaria implicado que nossos enunciados correspondem a fatos absolutos, objetivos e independentes da mente. Ora, pensar sobre isso – isto é, sobre o estatuto teórico dos enunciados – já é sair de uma “atitude natural’/”cotidiana”, que deixa o estatuto teórico dos enunciados completamente indeterminado, e iniciar uma investigação filosófica. Você me replicou dizendo que eu estou pressupondo o relacionismo aqui. Bom, a minha pergunta seria, então:como você compreende os enunciados filosóficos? Como eles são explicados? E como você lidaria com as diferentes concepções de filosofia que nós temos atualmente? Só existe uma e as outras todas são “pseudofilosofias”? (Além disso, eu gostaria de deixar claro que eu acho que é possível admitirmo fatos absolutos, objetivos e independentes da mente, mas que seriam relativos a determinado quadro teórico. )
    Eu acho que existem bons relativistas (que não tomam o relativismo em sentido absoluto) ou mesmo autores que trabalham sem a existência de “fatos absolutos” e que lidam teoricamente muito bem com isso.
    Ou seja, para mim, a melhor saída para teóricos como Boghossian não é provar que as teses relativistas estão corretas (as teses formuladas por ele), mas mostrar que a sua própria exposição do problema é equívoca.
    Mas, talvez eu tenha apenas me repetido e você esteja se perguntando se eu não entendi o seu comentário. O que me parece difícil em sua resposta é esse “outro modo de compreender a minha crítica”. Digo: por que seria circular a minha argumentação? Eu não estou comprando o pluralismo e não acho que existam teorias filosóficas boas do mesmo modo. Acredito que existem critérios para avaliarmos como uma teoria é melhor que a outra (inteligibilidade, coerência, abrangência e diversos outros). Agora, como é possível advogarmos que há um e apenas um modo de se fazer filosofia e que tal teoria seria a verdadeira? Por que não é isso que ainda deve ser provado?

  3. Leonardo Ruivo · · Responder

    Marcos, eu não concordo com a crítica de Boghossian ao relativismo. Mas, ainda assim vejo o empreendimento como extremamente válido porque ele repõe, no cenário filosófico, a discussão sobre absolutistas e anti-relativistas de modo a exigir critérios mínimos do relativismo, critérios que qualquer filósofo reconhece como legítimo – você inclusive lista alguns (inteligibilidade, coerência, etc…). Agora, se a motivação de criar o espaço de diálogo é boa, talvez o modo como ele faça isso não seja bom, ou seja: eu e você estamos de acordo que “sua [de Boghossian] própria exposiçaõ do problema é equívoca”. Mas qual a raiz desse equívoco? Nesse sentido eu acho plenamente legítimo exigir de quem está incomodado (ou sendo criticado) o ônus da prova! Talvez o problema aqui seja exatamente esse: como, pensando aqueles critérios mínimos, é possível criticar uma filosofia absolutista?
    Não vejo como produtivo opor diretamente ao absolutismo o relativismo – você claramente defente o pluralismo, mas um pluralismo (por assim dizer) anti-absolutista porque interessando em manter critérios mínimos para avaliação e, ao mesmo tempo, critérios frouxos para aceitar quadros teóricos. Mas legitimamente Boghossian aponta um problema: supondo dois quadros teóricos como igualmente consistentes, o que fazer quando eles, frente a evidências idênticas, apresentam conclusões contraditórias? O relativismo dirá: cada um com seu quadro. O relativismo moderado, ou anti-absolutismo, está disposto a comprar essa ideia? Eu acho que não. Mas isso já demonstra uma importante distinção de gradação: nem todo anti-absolutista é relativista. Mas poderíamos dizer o mesmo para anti-relativistas e absolutistas?
    Só que entrar nessa discussão é entrar com o ônus de provar, pelo menos, como dois sistemas epistêmicos (ou quadros teóricos) conseguem apresentar conclusões contraditórias e, ainda assim, serem ambos consistentes! Pois bem, se o vocabulário incomoda, talvez pudéssemos modificá-lo mas, ainda assim, há importantes questões que necessitam ser respondidas. Onde estaria a insuficiência desse vocabulário? Foi nesse sentido que apontei alguns possíveis caminhos com suas dificuldades (a relação entre enunciados descritivos e normativos, o absolutismo moral moderado de Rachels e a distinção ontológica entre natureza e cultura).
    Enfim, se absolutistas e relativistas estão em um papo de surdo e mudo, onde reside a raiz dessa incomunicabilidade? E aqui a tarefa de tradução supõe menos a ideia de uma única filosofia que de uma filosofia comprometida com critérios mínimos que possibilitam o discurso argumentativo.

  4. hello guys!
    em primeiro lugar, gostaria de salientar que a concepção clássica de conhecimento é considerada falha pelo menos desde 1963 – ninguém mais endossa a concepção clássica, nem mesmo o Boghossian. o que o Boghossian faz é dizer que as condições de justificação, crença e verdade são condições necessárias para K – mas ele não defende que elas são conjuntamente suficientes para K (não tenho notícia de alguém que defenda isso nos dias de hoje, embora talvez fosse possível com uma nova interpretação da relação de justificação, conforme foi arriscado pelos famosos externalistas).
    Sobre a tua crítica, Fanton, concordo que é pertinente tentarmos avaliar sobre a importância que a obra do Boghossian tem para a teoria do conhecimento e a filosofia em geral. No entanto, obviamente este autor não está tendo os problemas que você levantou, embora isso não diga ainda que não há problemas em sua teoria. Explico: a crítica que Boghossian fez ao relativismo quanto à racionaldiade não se aplica a sua própria concepção de justificação. a crítica só faz sentido se o sistema epistêmico C construido pelo relativista implicar juízos particulares sobre justificação que são massivamente falsos. é menos importante o fato de que os princípios epistêmicos do relativista estejam incompletos e que expressem algo a mais do que é dito – o mais importante é que o que é realmente expresso torna falsos os juízos que são derivados do sistema C. isso não ocorre em relação ao objetivista – a única coisa que torna falsas as asserçoes do objetivista é a não correspondência com os fatos relevantes. o objetivista não tem o problema de o seu sistema implicar em um massivo erro nos juízos particulares sobre fatos epistêmicos, ao contrário: é supostamente assegurado por ele que fatos correspondem a este juízo.
    é óbvio que o objetivista tbm tem um sistema, e não vejo pq o objetivista teria de negar isso, ou negar q os seus juízos, assim como a maioria dos juízos que nós fazemos diariamente, implicam numa condição objetiva. eu acho q o tratamento do Boghossian tem os seus problemas, e que o debate ainda merece uma atenção detalhada.

  5. Leonardo Ruivo · · Responder

    Luis, tua observação é bastante importante e exige o seguinte esclarecimento: a concepção clássica do conhecimento, até onde compreendo, no contexto do livro, não se relaciona a definição tripartida mas a métodos para avaliação de crenças (universalidade, objetividade, independência mental, e por aí vai). Talvez o melhor fosse utilizar concepção tradicional do conhecimento,

  6. marcosfanton · · Responder

    Pessoal,
    em primeiro lugar, eu não quero tornar isso uma discussão sobre o conhecimento clássico. Eu não disse que o Boghossian defende ela; eu pus até o Gettier entre parênteses para tentar mostrar que o assunto ia mais além do que eu expressei.
    em segundo lugar, bom, eu não sei se vocês pegaram o meu ponto ou se eu me expressei corretamente. Por isso, vou tentar reformular o meu problema.
    Eu me sinto incomodado com a seguinte frase do Boghossian: “Well, ORDINARILY, we think that on a factual question like the one about American prehistory, there is a way things are that is independent of us and our beliefs about it – an objective fact of the matter, as we may put it, as to where the first Americans originated”. Ou seja, me parece que ele está transformando o modo como pensamos ordinariamente em um dos modos de teoria filosófica. Ora, mas isso já é sair de uma atitude natural e explicar os nossos enunciados cotidianos. Só assim sabemos que eles que eles correspondem a fatos objetivos, etc.
    Já quando ele fala do relativismo, ele ergue a seguinte questão: “How did so many contemporary scholars come to be convinced of a doctrine as radical and as counterintuitive as equal validity? It’s an interesting question whether the explanation for this development is primary INTELLECTUAL or IDEOLOGICAL in nature; there is undoubtedly an element of each”. (Isso tudo está ainda na introdução).
    Ou seja, o que eu me questiono é o seguinte: como, em filosofia, nós podemos dizer que uma teoria é ordinária ou intuitiva e outra contra-intuitiva e intelectual? Falar que enunciados correspondem a fatos objetivos, independentes, etc. não seria também algo intelectual, um modo de explicação filosófica dos enunciados, do mundo, etc.?
    Nesse sentido, para talvez nos entendermos melhor, eu gostaria de saber como vocês entendem a explicação sobre o estatuto teórico dos nossos enunciados filosóficos. Eles também são parte da nossa teoria? Ou seja, se um filósofo diz para vocês “P”. Vocês conseguem entender isso por si só? Ou, se ele disser: “P” e, logo depois, “P corresponde a um fato objetivo, universal e independente da mente”. Qual seria a diferença de dizer: “P” e, logo depois, “P corresponde a um fato socialmente construído de acordo com nossos interesses contingentes, blábláblá”. O que vocês entendem por esse segundo enunciado? Ele não seria a explicação de nossa teoria? (eu não quero dizer que isso seja uma forma de pluralismo, como o Leonardo falou, pois eu poderia dizer que esse modo de compreender os enunciados é o único possível).

  7. […] first of all let me say that Marcos had a good point when he brought up the discussion on Moral and Epistemic relativism. But I guess it is important to […]

  8. pode crer marcão, entendi o teu ponto. apenas não acho que ele tem algo a dizer sobre a eficácia do argumento do Boghossian contra o relativismo. Parece que a tua problematização, a qual aliás acho filosoficamente relevante, faz referência a um problema geral presente em uma vasta gama de teorias filosóficas. Acho q está correto dizer que sim, que defender a tese de que enunciados correspondem a fatos objetivos é algo intelectual, um modo de explicação filosófica destes enunciados. De modo geral, é isto que define se um filósofo é objetivista quanto ao assunto que está tratando. Se o que tu chama de explicação sobre o estatuto teórico dos nossos enunciados filosóficos é uma explicação do que estes enunciados significam, então eu diria que esta explicação faz parte da teoria filosófica, ou seja, responderia afirmativamente a tua pergunta. O que pode muitas vezes acontecer, é que o filósofo nem sempre faz este exercício de meta-observação teórica, e que nem em todos os seus textos ele explique se a natureza das coisas que são referidas pelas suas asserções é objetiva, universal, independente da mente, etc. Mas me parece razoável que @s filósof@s nem sempre façam isso, e simplesmente pressuponham estas teses meta-teóricas, talvez mais fundamentais (em nem toda questão filosófica temos condições de resolver tudo “desde o começo”). Porém, acho que no todo de uma obra filosófica, esta reflexão deve acontecer, e que @ filósof@ precisa ter uma resposta para as questões que tu colocaste. No meu caso, falta ainda esta resposta, e a questão ainda está sobre rígido escrutínio – não tenho uma resposta a tuas perguntas.

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