Miguel Nicolelis:: Muito além do nosso eu

O mais recente livro do neurocientista Miguel NicolelisMuito além do nosso eu (ou Beyond Boundaries), pode ser considerado uma das grandes obras que consegue articular pesquisas científicas de ponta e uma visão geral do mundo. Não sei direito ainda como descrevê-lo: é um livro de divulgação científica? um livro de história da ciência que mistura acontecimentos autobiográficos? tem uma proposta de teoria filosófica da autoconsciência e da realidade? Ou pode ser tudo isso e mais um pouco? Esta minha perplexidade demonstra como o livro do Nicolelis é tanto impactante quanto abrangente: ele não apenas divulga as maiores conquistas realizadas por ele e sua equipe no laboratório da Universidade de Duke como expõe suas principais hipóteses sobre o ser humano, a autoconsciência e o nosso futuro integrado às máquinas.

Acredito que as principais teses do livro estão expostas logo na introdução:

Neste livro, eu proponho que, assim como o universo que tanto nos fascina, o cérebro humano também é um escultor relativístico; um habilidoso artesão que delicadamente fundo espaço e tempo neuronais num continuum orgânico capaz de tudo que somos capazes de ver e sentir como realidade, incluindo nosso próprio senso de ser e existir. Nos capítulos que se seguem, eu defendo a tese de que, nas próximas décadas, ao combinar essa visão relativística do cérebro com nossa crescente capacidade tecnológica de ouvir e decodificar sinfonias neuronais cada vez mais complexas, a neurociência acabará expandindo a limites quase inimagináveis a capacidade humana, que passará a se expressar muito além das fronteiras e limitações impostas tanto por nosso frágil corpo de primatas como por nosso sendo de eu.( p. 22)

Nesta citação, temos, basicamente, 2 teses principais: [1] o cérebro humano é o responsável pela criação de tudo aquilo que chamamos de realidade (a partir de um modo relativista); e [2] se separarmos o cérebro do nosso (“frágil”) corpo e o aliarmos à máquinas tecnológicas complexas, seremos capazes de expandir (e muito) nossas capacidades (isto é, traduziremos nossos pensamentos em comandos digitais para controlar máquinas). Duvida? Um pequeno exemplo bastante simples, feito com uma bike e um aipódi aqui.

Para desenvolver essas duas teses, Nicolelis nos traz relatos autobiográficos, um pouco de história mundial (principalmente, envolvendo brasileiros e times de futebol), história da neurociência, experiências em seu laboratório e as suas principais conclusões alcançadas. Ao todo, serão expostos 10 princípios da neurociência, que culminarão na hipótese do cérebro relativista e do continuum espaçotemporal. Eu não vou resumir o livro nem esses 10 princípios; quero apenas mostrar um pouco das duas teses que eu mencionei a pouco.

O ponto de partida do autor é o seguinte:

Neste livro, proponho que a abordagem mais apropriada para compreender o pensar é a que investiga os princípios fisiológicos subjacentes às interações dinâmicas de grandes populações distribuídas de neurônios que definem um circuito neuronal (p. 37).

Este modo de investigar o cérebro é explicado a partir da demonstração de diversos experimentos complicados e interessantíssimos com ratos, macacos e microeletrodos. E ele irá culminar em um dos princípios da neurociência do Nicolelis, o princípio da insuficiência do neurônio isolado (p. 278): um neurônio isolado nunca é suficiente para realizar um comportamento ou uma função particular do ser vivo. Com isso, Nicolelis derruba a tese do reducionismo (cada neurônio possui uma função específica, como a memória de sua avó materna, o levantamento do dedão do pé, a capacidade de aprendizado da linguagem, etc.) e a tese dos localizacionistas (o cérebro está separado por diferentes regiões especializadas em determinadas funções ). Assim, temos que trabalhar, sempre, com uma rede neuronal – a verdadeira unidade funcional do sistema nervoso (p. 37-8). Fazendo isso, então, nós temos sempre um conjunto de neurônios sendo ativado para realizarmos as tarefas do nosso cotidiano – desde as mais simples, como mover a mão para pegar uma xícara de café até as mais complexas, como tentar virar God of War 3 no nível Chaos). Ademais, cada neurônio pode ser um “cosmopolita”, isto é, participar de diversas populações neuronais e, com isso, possui diversas funções (é o princípio de ação multitarefa neuronal).

Mas, Nicolelis não se contenta em apenas estudar a neurociência. Ele passa a adaptar alguns conceitos importantes da física para a sua área. Isso resulta, por exemplo, no princípio da incerteza neurofisiológica: “Não é possível definir a extensão espacial do campo receptivo de um neurônio sem especificar simultaneamente o momento no tempo pós-estímulo em que essa definição é feita. Em outras palavras, espaço e tempo no cérebro estão firmemente acoplados num continuum espaçotemporal” (p. 191). O que isso significa? De maneira bastante simplória, seria o seguinte: quando passamos a estudar redes neuronais e colocamos em um gráfico as respostas elétricas de cada neurônio registradas simultaneamente, a figura que encontramos é uma espécie de vale (ou, em movimento, uma onda). Portanto, toda vez que formos medir um único neurônio, perdemos de vista essa dimensão espaçotemporal em relação a ele mesmo e a seus vizinhos, pois os seus disparos elétricos irão se modificar no tempo e de acordo com a tarefa realizada. Isso mostra que estamos sempre trabalhando com neurônios (objetos) que possuem propriedades emergentes, isto é, propriedades que só se tornam previsíveis (cognoscíveis) quando não são consideradas isoladas, mas em rede (p. 50).

A incorporação dessa dimensão espaçotemporal permite ao autor formular a hipótese do continuum espaçotemporal neuronal, em que o córtex não é mais delimitado com bordas espaciais absolutas ou fixas entre as áreas corticais, que explicam o funcionamento do córtex como um todo, mas é um continuum espaçotemporal, que possui especificações e limitações segundo a biografia do indivíduo, a história evolutiva da espécie, o estado da periferia sensorial, o contexto da tarefa a ser realizada, a quantidade total de energia disponível para o cérebro, a velocidade máxima de disparo de um neurônio, etc. (p. 444-5). Ou seja, investigar uma rede neuronal está sempre sujeita às limitações de um sistema espaçotemporal de referência. Esta é a explicação  neurocientífica de um “ponto de vista do próprio cérebro”, formado “pela combinação da história evolutiva e individual da vida do cérebro, seu estado dinâmico global a cada momento no tempo e as representações internas que ele mantém do corpo e do mundo. Todos esses componentes, que em conjunto esculpem nossa mais íntima existência mental, amalgamam-se numa interpretação detalhada e preciosa da realidade que conhecemos como a história única de vida de cada um de nós” (p. 53).

Notem que o Nicolelis não usa “história evolutiva e individual da vida de um ser humano”, mas do cérebro. E esta é uma grande questão, porque ele coloca o cérebro como o grande escultor da realidade e da nossa subjetividade ; ele é ativo, sempre em fluxo e em processo (p. 209). Nicolelis dirá que o cérebro é plástico, isto é, está sempre incorporando a si mesmo novas experiências e aprendizados, novos modelos de eu, etc. Por isso, ele  não tem escrúpulos nenhum em dizer que nossa imagem corporal é apenas um subproduto dinâmico do nosso cérebro; este é frágil e pode ser dissociado da mente. Aliás, nós podemos, inclusive, incorporar ferramentas à nossa imagem corporal. Por exemplo, Pelé era um jogador de futebol tão bom, pois incorporou a bola à sua identidade, Ayrton Senna e Nelson Piquet, porque incorporaram o carro e a pista de corrida, Luis Rosa é um ótimo gamer, porque incorporou o joystick do PlayStation e do Wiiiiiiiii. Então, se isso é possível, o corpo, para Nicolelis, é apenas um receptáculo, algo que podemos descartar quando inventarmos algo melhor para depositar nosso refinado cérebro.

Ora, o nosso cérebro, ainda que possua uma capacidade extraordinária, opera dentro de certos limites, como, por exemplo, o limite do orçamento energético e os limites biológicos do nosso corpo (como os limites operacionais dos olhos, nariz, etc.). Por um lado, Nicolelis nega a possibilidade de encontrarmos um algoritmo  computacional clássico para o cérebro como um todo, tendo em vista a hipótese do cérebro relativista. Assim, não é possível termos um reducionismo físico extremo. Mas, por outro lado, ele não descarta a possibilidade de interagirmos com máquinas. Esta interação cérebro-máquina (ICM) e o seu possível futuro é descrito por Nicolelis no último capítulo, com a única intenção de especular sobre todas essas novidades que estão surgindo.

Aqui, Nicolelis mostra o desenvolvimento de novos projetos relacionados à ICM e a sua interdisciplinariedade entre biologia, filosofia, computação, neurociência, engenharia, robótica, matemática, entre outros. Teremos, no futuro, diversos meios para aquilo que Nicolelis acredita ser o prêmio mais cobiçado pelo cérebro relativista: “a possibilidade de direcionar o processo evolutivo de nossa espécie”. Ou seja, poderemos, um dia, liberarmos nosso cérebro do nosso corpo, extraindo, com isso, as diversas limitações que temos, em uma simbiose com máquinas e próteses altamente sofisticadas e capazes de nos dar novos modos de viver e perceber a realidade. Teremos, por exemplo, um exoesqueleto que envolveria o corpo de tetraplégicos e seria controlado pela atividade de populações de neurônios; será possível, também, termos um novo tipo de internet, a brainet, que nos possibilitará o compartilhamento direto de pensamentos, um  “verdadeiro coletivo pensante”.

Enfim, ainda que as propostas de Nicolelis sejam difíceis de deglutir à primeira vista, elas certamente levantam questões cada vez mais complexas e que precisam ser colocadas de uma maneira ou outra.

One comment

  1. […] vamos pegar o livro do Miguel Nicolelis, Muito além do nosso eu, que eu fiz uma resenha em outro post . No livro, Nicolelis faz diversas metáforas e analogias aparentemente inofensivas em relação […]

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