Entrevista com Alvin Plantinga

Nos dias 29 e 30 de agosto, aconteceu aqui em PoA o evento The Epistemology of Alvin Plantinga.  As palestras aconteceram aqui na PUCRS, e suscitaram uma série de questões altamente interessantes sobre análise do conhecimento, racionalidade epistêmica,  naturalismo e crenças teístas.  A discussão não ficou restrita ao âmbito da epistemologia, e muitos pessoas interessadas vieram contemplar a discussão.

Conversei com o professor Plantinga, e aproveitei a situação para lhe fazer várias perguntas. É uma pena que a maioria delas foram feitas oralmente e não pude registrar. Porém, em correspondência via email, o professor Plantinga aceitou responder a algumas das perguntas que bolei para uma entrevista a ser publicada no site FsOpHo. Então, em conversa com o Fabrício Pontin, decidimos que seria legal traduzir a entrevista e publicá-la aqui no Distropia. Assim, segue a entrevista:

Luis Rosa: Professor Plantinga, qual é o objetivo principal de Warrant and Proper Function?

Alvin Plantinga: O principal objetivo de WPF era o de oferecer uma análise correta do conhecimento. O elemento novo da análise é o uso da noção de função própria (proper function), que está ausente nas outras descrições do conhecimento. Estou feliz em notar que outros filósofos começaram a usar esta noção, ou alguma noção similar a esta.

Luis Rosa: Dado o debate atual, qual é o status atual da sua análise do conhecimento? Você acha que ela é bem sucedida?

Alvin Plantinga: Eu ainda estou entusiasmado com esta análise do conhecimento. Como a discussão subsequente tem mostrado, é difícil encontrar a análise correta; mas estou muito otimista sobre as melhorias desta análise, a serem encontradas em Warranted Christian Belief. 

Luis Rosa: Qual é a vantagem teórica da sua análise, se há esta vantagem, sobre as análises “non-defeater”? O conceito de aval (warrant), conforme definido no seu trabalho, é uma ferramenta conceitual superior para tratar de problemas epistêmicos?

Alvin Plantinga:  O problema das análises non-defeater é que a noção de defeater é ela mesma uma noção epistêmica que precisa ser analisada. Eu penso que esta noção é corretamente analisada em termos de função própria.

Luis Rosa:  Como você trata das considerações internalistas sobre racionalidade e suporte evidencial, usadas na formulação de contra-exemplos a sua análise externalista do conhecimento?

Alvin Plantinga: Eu não acho que há qualquer contra-exemplo bem sucedido à minha descrição do conhecimento.

Luis Rosa: Qual é exatamente o papel que você atribui à epistemologia no debate sobre religião?

Alvin Plantinga: Muito oponentes da crença religiosa, inclusive alguns dos novos ateístas, afirma que a crença religiosa é irracional. É importante mostrar que estas informações são incorretas e realmente sem fundamento.

Luis Rosa: Como exatamente você explica a afirmação de que a crença teísta é epistemicamente básica? Ela é básica no mesmo sentido em que crenças em verdades necessárias são básicas?

Alvin Plantinga: A crença teísta é básica no mesmo sentido, mas é apesar disso de um tipo completamente diferente; ela não é auto-evidente. Ela é básica da mesma maneira que crenças perceptuais ou mnemônicas o são, mas não é auto-evidente. Crenças auto-evidentes são só um dos tipos de crenças que são ou podem ser de fato básicas.

Luis Rosa: Você pode explicar como é o caso que o conhecimento depende da existência de um designer?

Alvin Plantinga: Aqui a idéia básica é a de que conhecimento envolve a noção de função própria (ver questão 1), e a noção de função própria não pode ser analisada em termos naturalistas, conforme argumento em Warrant and Proper Function. Se estas duas afirmações são verdadeiras, há conhecimento somente se o naturalismo é falso. Portanto, o conhecimento depende da falsidade do naturalismo. É um passo a mais dizer que o conhecimento depende de haver um designer. Muito obrigado!

E é assim que termina a entrevista. Creio que alguns pontos da entrevista são dignos de nota. Particularmente, achei intrigante a idéia de que a crença teísta seja básica, num sentido epistêmico. Parece que, a despeito do fato de algumas crenças que são consideradas básicas não serem auto-evidentes, ainda assim elas teriam uma característica cognitivamente notável: se o agente epistêmico reflete sobre o conteúdo destas crenças, ele automaticamente assere a verdade deste conteúdo – não tem dúvidas de que aquilo é verdade. Não me parece que a faculdade da instrospecção nos forneça este mesmo grau de certeza quando se trata de crenças sobre a existência de deus.

É plausível ainda sustentar que a crença teísta é racional – mas esta crença é baseada em razões, e não é básica no sentido epistêmico relevante. Se você for tentar verificar as suas razões para a crença teísta, se é que a tem, você poderá se encontrar dando razões para estas crenças – como muitas vezes vemos tanto pessoas normais como filósofos fazendo. Os teístas muitas vezes argumentam: “Não pode ser que exista este mundo belo e complexo sem que haja um criador que lhe dê sentido” , ou: “Todo este maquinário natural não pode ser fruto do acaso, alguém deve ter designado tudo isto”, etc. Contudo, o Dr. Plantinga crê que esta crença é básica – tese esta que não vejo razão alguma para aceitar. Mas note: não estou defendendo que a crença teísta é irracional. Eu sou um ateu que concede racionalidade à crença teísta. O que estou dizendo é que, se é o caso que a crença teísta é racional, então ela não é básica, e sim derivada.

Outro ponto crítico parece ser aquele mencionado na última pergunta. No dia da palestra do professor Plantinga, eu montei um raciocínio a fim de ver se ele concordava com os passos deste raciocínio. O raciocínio era assim:

(1) Só há conhecimento se há função própria

Neste caso, a função própria se define pelo fato de o sistema cognitivo estar funcionando corretamente, onde isto significa que as suas faculdades geradoras de crença são confiáveis para o ambiente que foram feitas – elas geram crenças verdadeiras e evitam falsidades.

(2) Só há função própria se há desígnio

Ora, algo não pode funcionar apropriadamente sem que haja um desígnio dizendo a qual fim este algo deve se dirigir, e como atingí-lo efetivamente.

Agora, suponhamos que não há desígnio – ou por que a evolução não ocorre, ou por que deus não existe:

(3) Não há desígnio

Se (3) é o caso, realiza-se modus tollens com (2) e chega-se a afirmação de que não há função própria, e daí passa-se a mais uma inferência deste mesmo tipo com (1): em não havendo função própria não há conhecimento. Conclusão final: se não há desígnio, não há conhecimento. Ao ouvir o raciocínio, o professor Plantinga disse que esta realmente era uma consequência lógica das suas teses. Eu não sei apontar o que exatamente há de errado nisso, mas minhas anteninhas dizem que há um grande problema aí – a ser trabalhado, talvez.

As palestras dos professores Cláudio Almeida, Roberto Pich e Rogel de Oliveira foram todas muito interessantes. A PUCRS está de parabéns por este evento, que proporciona diálogo frutífero entre nós e coloca-nos em contato com alguns dos mais influentes filósofos da época atual.

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