Alvo noturno::Ricardo Piglia

Macguffin é um dos célebres conceitos lançados por Hitchcock para descrever um elemento fundamental de seus roteiros. A ideia é “simples” e parte da seguinte anedota, contada por ele mesmo em uma entrevista a Truffaut:

Então, a história do MacGuffin é a seguinte. Você sabe que Kipling costumava escrever sobre a Índia e os britânicos que lutavam contra os nativos na fronteira do Afeganistão. Todas as histórias de espionagem escritas nesse ambiente eram invariavelmente sobre o roubo dos planos da fortaleza. Isso era o MacGuffin. Portanto, MacGuffin é o nome que se dá a esse tipo de ação: roubar…os papéis; roubar… os documentos; roubar… um segredo. Na prática, isso não tem a menor importância, e os lógicos estão errados em procurar a verdade no MacGuffin. No meu trabalho, sempre pensei que os “papéis” ou os “documentos” ou os “segredos” de construção da fortaleza devem ser extremamente importantes para as personagens do filme, mas sem nenhuma importância para mim, o narrador.
Agora, de onde vem o termo MacGuffin? Ele evoca um nome escocês e pode-se imaginar uma conversa entre dois homens num trem. Um diz ao outro: “O que é esse embrulho que você colocou no bagageiro?”. O outro: “Ah, isso! É um MacGuffin”. Então, o primeiro: “O que é um MacGuffin?” O outro: “Pois bem! É um aparelho para pegar leões nas montanhas Adirondak”. O primeiro: “Mas não há leões nas Adirondak”. Então o outro conclui: “Nesse caso, não é um MacGuffin”. Essa anedota mostra o vazio do MacGuffin…. o nada do MacGuffin.

Esse conceito ganhou notoriedade entre os cineastas e foi usado por George Lucas (com o R2-D2 em Guerra nas Estrelas), por Orson Welles (com o significado de rosebund em Cidadão Kane), etc. Foi usado até por um filósofo (???), o Zizek, para explicar algumas coisas de pós-modernidade e psicanálise. Enfim, por que falamos de Macguffin em um post sobre um escritor argentino?

Digamos que esse conceito de Hitchcock traz uma ótima explicação sobre o que podemos esperar do novo romance do Ricardo Piglia, Blanco nocturno,  lançado ano passado na Argentina e com a tradução publicada esse mês pela Cia. das Letras, com o título Alvo noturno. Mas, ao mesmo tempo, o Macguffin não explica toda a história.

A trama da obra inicia com a chegada de Tony Durán, um porto-riquenho educado em Nova Jersey, a um pequeno povoado de Buenos Aires, devido ao caso tórrido que mantém com as gêmeas Sofia e Ada – netas do já falecido fundador do povoado. Porém, Tony é assassinado. Quem e por que teria assassinado um mulato aventureiro , que havia conquistado o carisma de alguns e a desconfiança de outros? Com quem ele havia se relacionado e qual seu verdadeiro objetivo naquela cidadezinha? Segundo o comissário Croce, uma das personagens que tentará elucidar o caso, tais perguntas – a respeito da vítima já falecida – constituem as questões fundamentais: “Este é o mistério dos crimes, a surpresa daquele que morre sem estar preparado. O que deixou sem fazer? A quem viu pela última vez? Sempre tinha que começar a investigação pela vítima, era a primeira pista,  a luz escura“. Este é o Macguffin de Piglia.

Nesta citação, temos a primeira  explicação do significado do título dado por Piglia: blanco nocturno é essa espécie de versão do crime que poderia elucidar (iluminar) o autor e as causas do assassinato e, assim, solucionar o caso de maneira simples. Contudo, essa versão não existe mais, já que a própria vítima está morta – e, se ela não estivesse, não haveria crime!

Com a falta de uma versão Verdadeira do caso – esse vazio provocado pela morte de Tony Durán –, a maior parte das personagens do livro convergem entre si, na tentativa de dar sentido, de interpretar esse fato. Aqui, então, temos outro significado de alvo: um ponto de convergência, um ponto de encontro.

Ilusão pato-coelho

Todo o discurso narrativo passa por essa espécie de ambiguidade que a impossibilidade de uma única versão dos fatos provoca. E isso é colocado de maneira bastante detalhada quando o comissário Croce explica o seu método a partir da famosa ilusão pato-coelho. Ora, o que temos aqui? Um pato? Um coelho? Ambos? Essa figura mostra, segundo Croce, que sempre antecipamos nossa compreensão e, com isso, projetamos nossos interesses e pré-compreensões sobre os fatos e objetos. Vemos um coelho quando, de alguma forma, queremos ver um coelho. Dentro da história, isso ocorre com a imprensa, o hipócrita Cueto e o juiz: todos eles aceitam uma única versão do assassinato: Yoshio, um japonês, teria relações amorosas com Tony e, em um acesso de ciúmes, o teria matado. Ao contrário, um investigador criminal não pode deixar-se levar pelas soluções do caso; nem sempre há um mordomo para culparmos. Por isso, temos que adotar um ponto de vista adequado para percebermos a realidade, fixarmo-nos e deixarmos que as evidências e o conjunto enorme de relações entre os indivíduos do povoado venham à tona. É como se Croce sempre esperasse uma intuição (inconsciente?) para lhe dar uma nova perspectiva sobre o fato (vejam-se as frases em itálico que interrompem a descrição dos pensamentos de Croce, levando-lhe para novos insights sobre o crime). Em uma entrevista, Piglia explica que este é o núcleo de sua obra: esse jogo de aparências entre as personagens, as possíveis versões sempre inacabadas sobre o assassinato, as mudanças de percepções, etc.

Esse jogo de aparências é encarnado também nas próprias personagens, que possuem, cada uma, um duplo que a complementa: as gêmeas Sofia e Ada, os gêmeos Luca e Lúcio, o comissário Croce e Emílio Renzi, o hipócrita Cueto e seu assistente Saldría, Yoshio, o japonês acusado do assassinato, e o jóquei Chino, o “verdadeiro” assassino, etc. Até mesmo no nome da família tradicional do povoado, Belladona, significa tanto uma atriz pornô famosa quanto o nome de uma planta com efeitos alucinógenos.

Contudo, apesar desse jogo de aparências, dessa ambiguidade que marca cada personagem e cada versão do assassinato, Piglia não defende um relativismo ou um ceticismo. É no elemento histórico que ele vai buscar um dos pontos de apoio para as nossas versões sobre os fatos serem mais ou menos fidedignas. Isto é, não podemos simplesmente confiar em nossas primeiras explicações sobre determinado crime, pois ele é somente a culminação de algo que é muito anterior. No caso do livro, o que o antecede é uma guerra familiar, é a história da família Belladona. Tentar reconstruir – ou ‘entender’ – o que tinha se sucedido significa, ao mesmo tempo, reconstruir a história da família e, como ela fundou o povoado, é reconstruir a história de um povoado (diz Sofia a Renzi). Assim, temos mais um significado para a expressão que dá título à obra: blanco nocturno é, também, a presença dos mortos, dos antepassados; é essa “luz débil” que continua iluminando, ainda que fugazmente, a compreensão dos indivíduos desse povoado. Por isso, toda compreensão de um fato – desse assassinato – é antecedida por uma série de relações anteriores (históricas)  que cabe às próprias personagens, que estão enredadas nessa trama, dar sentido a essas relações.

Por fim, eu não poderia deixar de mencionar a minha interpretação do protagonista da obra, Luca Belladona. Em entrevista, Piglia afirma que é esta personagem que deu ensejo à obra toda e, além disso, que ela realmente existiu: era seu primo. Luca é a encarnação do herói trágico na obra: ele nega a herança de sua família, refugia-se na fábrica que construíra com seu irmão (agora falida) e passa os dias, junto com apenas dois assistentes, construindo objetos tecnológicos estranhos e baseados na matéria dos seus próprios sonhos. Luca, diferentemente do comissário Croce, que procura solucionar o crime em uma investigação da história do povoado, quer compreender sua própria biografia e a relação com sua família, a fim de tentar desvendar seu futuro. Ou seja, ele tenta desvendar esse alvo noturno que é a sua vida. Porém, como todo herói trágico, a situação na qual ele terá de enfrentar só o leva ao fracasso; Luca decide-se não pela sua vida, mas pelo sentido de suas obras, pelos objetos que construía na fábrica a partir de seus sonhos. Mas, ao fazer isso, ele destrói seu caráter, sua integridade moral e seu senso de justiça, pois manda um inocente para a cadeia (Yoshio) para conseguir o dinheiro para salvar a fábrica da hipoteca. Ou seja, ao tentar singularizar-se, Luca torna-se, contudo, mais um cidadão desse pequeno povoado, pois aceita a versão do crime dada por Cueto. Assim, temos, na obra, mais uma personagem que, não pertencendo à história do povoado, é “destruída”: Tony Durán foi assassinado, Yoshio é culpado pelo crime e cumprirá prisão perpétua e Luca, como saída para a culpa de colocar um inocente na cadeia, suicida-se.

3 comentários

  1. Olá! Vi este post através do Walter Valdevino. O conceito hitchcockiano de um elemento-MacGuffin parece ótimo, também, para pensar certa fantasia romântica, a da expressão autêntica de si. Falência da verdade? Triunfo da retórica e da sofística? Não: realocação dos pontos de verdade, já não necessariamente num domínio referencial dos fatos ou estados de coisas (mesmo que internos; se alguém ouvisse os meus pensamentos não me conheceria melhor), mas também numa associação de práticas. Ela dá-se a ver não como pura ostensão mas lentamente, em aspectos. E dela não está ausente uma dimensão interpretativa, valorativa. Requer paciência – como os conceitos. Abraço!

  2. Olá! Vi este post através do Walter Valdevino. O conceito hitchcockiano de um elemento-MacGuffin parece ótimo, também, para pensar certa fantasia romântica, a da expressão autêntica de si. Falência da verdade? Triunfo da retórica e da sofística? Não: realocação dos pontos de verdade, já não necessariamente num domínio referencial dos fatos ou estados de coisas (mesmo que internos; se alguém ouvisse os meus pensamentos não me conheceria melhor), mas também numa associação de práticas. Ela dá-se a ver não como pura ostensão mas lentamente, em aspectos. E dela não está ausente uma dimensão interpretativa, valorativa. Requer paciência – como os conceitos. Abraço!

    1. marcosfanton · · Responder

      Olá! Sim, acho que é por aí! Algumas personagens que o Piglia expõe na obra tem um modo de se autocompreender que vai da consciência, digamos assim. Há sempre um discurso que interrompe o curso da narrativa e leva para outros lugares. Por exemplo, com o comissário Croce: frequentemente, há frases em itálico, indicando que ele teve um “insight” ou que uma pista sobre o crime emergiu de sua tentativa de compreender. Ou, no caso do Luca, há uma verdadeira obsessão em tentar se descobrir seja por meio da anotação sistemática de seus sonhos nas paredes da fábrica seja na construção de objetos tecnológicos que ele sonhou. Mas, ao mesmo tempo, a atitude diante das descobertas de autocompreensão e da compreensão dos fatos será diferente em ambas as personagens: enquanto Croce terá paciência e irá esperar que as evidências surjam e, com isso, os fatos aconteçam, Luca tenta modificar seu futuro, interpretar a situação que vive e para onde ela o levará.

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