Sam Harris: The Moral Landscape

Depois de diversas tentativas, finalmente consegui terminar a leitura do Moral Landscape, do Sam Harris. O livro tem todas as características de um trabalho que vai ser importante para o debate atual na chamada Epistemologia Moral  e para as discussões sobre liberdade, arbítrio e comportamento.

O Harris tenta dar as características do que ele chama de um “terreno” moral. Essa paisagem seria caracterizada por uma variação de relevos, essas variações corresponderiam a condutas morais mais ou menos “elevadas”, onde “picos” seriam as condutas “mais” defensáveis e as “depressões” as condutas “menos” defensáveis. Para Harris, a nossa análise de comportamento pode seguir a mesma lógica da análise de um terreno para a construção de uma casa. Não é que seja impossível construir uma casa em um terreno inadequado, mas a estrutura dessa casa vai ser, sem sombra de dúvida, pior que a estrutura de uma construída em um terreno adequado. Mas claro, existem diversos tipos de terreno e diversos tipos de casa e o Harris quer dar espaço para que várias casas “boas” possam ser construídas sem que todas essas casas tenham a mesma aparência.

No entanto, as características fundamentais dessas casas vão ser sempre as mesmas. Na medida em que existem critérios básicos de engenharia e arquitetura para uma boa casa, Harris vai defender que existem critérios básicos de comportamento moral que podem ser compreendidos da mesma forma que critérios para a construção de casas – ou, na mesma medida, critérios para compreensão da matemática.

Não existe nada de novo nessa pretensão do Harris. A tentativa de um método científico universal para a Moral é tão antiga quanto a discussão sobre a ciência, e existe uma certa igênuidade – ou delírio, ainda não me decidi – na tonalidade profética do livro. Harris não inventou a ideia de associar a facticidade da nossa condição fisiológica com uma necessidade de certos estados psicológicos como melhores do que outros, talvez ele tenha feito isso de forma mais elegante que outros e certamente o argumento do livro mantém a sedução característica do argumento realista para a moral.

Harris, por sinal, não tem medo de confessar que é um realista moral. A posição do Harris pode ser sintetizada da seguinte forma:

a) Existem fatos.

b) Existem fatos sobre as relações sinápticas, no nosso cérebro, que nos permitem associar determinados estados emocionais com determinados acontecimentos no cérebro.

c) Existem relações sinápticas que são melhores para o bem estar individual, e relações sinápticas que são melhores para o bem estar geral. Fisiologicamente, existem fatos sobre nossa condição que obrigam um certo comportamento moral.

d) Quando agimos de forma oposta ao que é melhor do ponto de vista fisiológico, não estamos diante de uma variação cultural, mas diante de uma variação comportamental que deve ser tratada ou como um caso de retardo moral (uma psicose, por exemplo), ou como um caso de má formação social (um indivíduo criado em um ambiente criacionista, para o Harris, seria um caso típico). Em ambos os casos, a crença de que “x é bom” quando “x é ruim”, é uma crença errada da mesma forma que crer que o Sol gira em torno da terra é uma crença errada.

e) Variações culturais-morais são permissíveis na medida em que elas são formas diferentes de compreender um determinado comportamento moral. Mas a variação tem que ainda estar dentro do “pico”, quer dizer, se a variação cultural te tira do “ótimo” moral, que é estabelecido  fisiologicamente, então ela é uma variação errada, uma espécie de demência moral coletiva.

Assim, a cultura não justifica nada em Harris. Pelo contrário, a cultura é uma espécie de decoração na casa construída no terreno moral. Se essa decoração modifica de forma decisiva a estrutura, prejudicando a forma como a nossa estrutura moral tem que ser, então a decoração é errada, e tem que ser denunciada como tal.

f) Existem genes para a moral. Temos que tratar de trabalhar esses  genes de forma adequada. Reforçar a melhor forma de fazer esses genes se sobreporem aos elementos da nossa fisiologia que “resistem” os genes morais – mais ou menos como lutamos contra anticorpos. Se a gente descobrir um remédio que torna as pessoas mais morais, temos que usar esse remédio como uma vacina. Se um dos contra-efeitos for acabar com a religião sectária, tanto melhor.

Pois bem, talvez o mais interessante da tese do Harris seja o elemento realista. Já coloquei ali em cima, e sigo afirmando, que é difícil negar a força do argumento realista. Quando vemos um bebê sendo jogado contra a parede e dizemos “matar bebês conscientes jogando eles contra a parede é errado” penso que tratamos essa afirmação como algo do tipo 2+2=4, e certamente deixaríamos de gostar ou de nos relacionar com alguém que falasse “na real, acho massa jogar bebês conscientes contra a parede até eles morrerem”. No entanto, existe um certo recuo quando a coisa é ampliada. Se uma conhecida sofre mutilação forçada, sentimos ódio e falamos que a pessoa que provocou a mutilação é terrível e merece ser punida (com boas razões para isso!), mas, quando a mutilação forçada é de milhares ou milhões de meninas menores de idade, existe um recuo: é algo cultural.

O argumento realista aqui entra com o pé na porta: não, não é cultural. É moralmente retardado e absurdo. E as razões para isso estão no nosso cérebro, na nossa fisiologia. Podemos concluir fatos sobre a moral a partir da nossa estrutura fisiológica, uma abordagem científica sobre nossa fisiologia nos dá argumentos morais.

Por outro lado, é claro que o Harris tem um entendimento simplista sobre a história da filosofia – especialmente sobre a história do conceito de liberdade na filosofia moderna. Argumentar que é algum tipo de novidade defender que a liberdade não tem estatuto ontológico (que a liberdade não é um fato, da mesma forma que, digamos, as nossas sinapses são um fato) é simplesmente ridículo. Não há nada de novo em dizer isso. Desde Kant, ninguém realmente defende o fato da liberdade. Existe uma razão para Kant dizer que a liberdade só pode ser pensada negativamente. E seria bom o Harris ler Kant antes de afirmar que o imperativo categórico é o resultado da razão pura.

Mas talvez os pontos da história da filosofia sejam irrelevantes para o Harris. E tudo bem, ninguém realmente se importa com os detalhes do que o Kant escreveu ou deixou de escrever. Que consequência, realmente, traz para o livro a pouca originalidade dos argumentos ou a interpretação meio cartunesca da filosofia moderna? Me parece que os argumentos do livro seguem igualmente interessantes, mas talvez Harris , se levasse a história da filosofia mais seriamente, não veria tanta necessidade em defender um realismo moral do tipo objetivista e determinista para defender que existem crenças morais que são melhores que outras.

No fim das contas, o livro do Harris acaba sendo um bom guia para as distinções realmente importantes entre os diferentes campos da filosofia moral.  E quero fechar a resenha com isso:

Quando falamos sobre o debate entre realismo, construtivismo, relativismo e ceticismo moral, estamos, no fim das contas, tratando com formas diferentes de abordar a forma como nos aproximamos de objetos no mundo. O cara que é cético ao ponto de defender que não existe nenhuma realidade “lá fora”, não tem qualquer motivação para dizer que um argumento moral é melhor que outro – até onde interessa para esse sujeito a realidade como um todo pode ser uma ilusão e a gente pode estar sonhando tudo isso aqui. E assim segue a discussão.

O argumento do Harris é importante por colocar todas as cartas na mesa. Me parece que para o realista moral que pretende ter um argumento sofisticado, a estratégia do Harris é a única defensável fora de um naturalismo tosco (do tipo religioso/dogmático). Mas o realismo moral não é a única forma de compreender como falamos sobre moral, e o problema da linguagem não  precisa ser reduzido ao que acontece no cérebro quando falamos (até porque falamos com o corpo todo – a conexão do cérebro com o corpo, por exemplo, é praticamente ignorada pelo Harris, que quando fala no assunto é apenas para nos lembrar que o cérebro domina as funções motoras; algo que, creio, muitos neurologistas teriam alguma cautela de desenhar em termos tão diretos).

O livro do Harris segue, apesar de tudo isso, a primeira leitura obrigatória desse ano de 2011 para qualquer um interessado em filosofia moral. O livro do Michael Smith, que segue uma linha parecida e chega numa conclusão praticamente oposta ao do Harris, me impressionou muito mais , mas junto com Morals by Agreement, do Gauthier, esse livro parece formar o núcleo do debate em filosofia moral no universo anglo-saxão, especialmente depois que Williams, Rawls e Hare deixaram a cena.

[Valeu, @walterva, pela revisão do meu Português macarrônico]

2 comentários

  1. […] Chega lá. Like this:LikeBe the first to like this post. from → coisas de bolsista, NERDices, punheta mental ← Andando de skate na ladeira escorregadia (parte 10491092) No comments yet […]

  2. […] Harris e da sua posição teórica como um realista moral na resenha do Fabrício sobre o livro Moral Landscape. Pois bem, aqui, eu gostaria de falar um pouco sobre o seu último livro, o Free Will. Este é um […]

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