O que (não) podemos fazer com um texto filosófico? A filosofia francesa interpretada pelos intelectuais americanos

Sempre que lemos um texto filosófico estamos, de antemão, admitindo um tipo de debate estabelecido pelo contexto acadêmico no qual estamos inserido? Ou, dito de modo mais amplo, a interpretação de um texto filosófico é influenciada pelo contexto cultural no qual vivemos? Este é um problema que, normalmente, não nos preocupamos tanto em refletir na nossa atividade cotidiana.

Tais questões são analisadas de uma maneira brilhante por François Cusset, em sua obra Filosofia Francesa: a influência de Foucaul, Derrida, Deleuze & Cia. Porém, antes de mais nada, eu preciso avisar que a tradução do título do livro está completamente errada (e este ‘completamente’ não é retórico). Em primeiro lugar, ‘Filosofia francesa‘ é a tradução do termo ‘French Theory’, um termo fundamental para todo o livro, porque ele é, simplesmente, o seu tema.  Além disso, o que é mais estranho, no corpo do texto, não há, em nenhuma vez, a tradução de ‘french theory‘ por ‘filosofia francesa’, porque, como vou mostrar logo abaixo, possui uma diferença teórica importante apenas para se entender o livro.  Já o subtítulo só diz meia verdade; ele completo é: ‘Foucault, Derrida, Deleuze & Cie et les mutations de la vie intellectuelle aux États-Unis’ . Ou seja, falta apenas o pedaço que delimita a pesquisa e a intenção do livro. Eu faço o comentário desse jeito, não para avacalhar com a tradutora ou algo do tipo, já que não tenho condições nenhuma para isso, mas por raiva de algo que, muito provavelmente, foi feito para f*#@$% ou porque quis seguir a v*&#¨#.  Bom, voltando para o livro…

Toda a obra de Cusset é baseada em uma constatação que eu qualificaria de histórico-sociológica:

Assim, por trás do “caso” [Sokal M.F.], perfilam termos que só chegaram aos leitores franceses, quando muito, como ecos indiretos, ou superficiais, e disputas que eles não conseguiriam decifrar em toda a sua amplitude: Cultural Studies, construcionismo, pós-humanismo, multiculturalismo, querela do cânone, desconstrução, “politicamente correto”. Essas palavras, para além de suas ressonâncias falsamente familiares, estão fortemente associadas às profundas mudanças ocorridas há trinta anos não apenas no campo das humanidades, mas em toda a universidade americana. Recuando mais ainda, elas remetem à articulação problemática que se estabeleceu, pouco a pouco, após uma crise e muita polêmica entre o campo intelectual e a arena política, entre discurso e subversão, mas também entre nação e identidades.

Esta constatação provoca-nos, de imediato, dúvidas sobre o modo como tratamos a “filosofia pós-moderna francesa” – o que vale tanto para seus adeptos quanto para seus críticos. Afinal de contas, quando lemos Derrida, Foucault, Deleuze e Cia., estamos nos inserindo em que tipo de debate? De que maneira lemos seus textos e avaliamos os debates ocorrentes em nosso contexto acadêmico? O que pretendemos fazer com seus textos?

Na citação acima, Cusset tem em mente que a teoria francesa [French theory] pode ser considerada uma construção genuinamente americana (uma criação ex nihilo), realizada mediante um modo bastante particular de leitura dos autores franceses: descontextualizando-os, apropriando-se deles, fazendo-os desempenhar um papel crucial nos debates sociais e políticos de seu país (2008, p. 18). E isto à custa de uma forte politização dos discursos acadêmicos e da elaboração de uma polaridade ideológica, alheios ao contexto filosófico francês (2008, p. 18). Como diz Cusset, a respeito da apropriação do termo ‘desconstrução’, se na França preferiu-se realizar uma desconstrução da política, ao problematizar as polaridades normativas enquanto polaridades, os pensadores americanos preferiram politizar a desconstrução, distorcendo-a e fragmentando-a, a fim de a tornar mais útil, isto é, mais manejável e suscetível de múltiplas aplicações práticas (2008, p. 117 e 122). Portanto, Cusset alega uma diferença radical entre a filosofia francesa e a teoria francesa, que a tradução do livro, como já disse, avacalhou.

E este modo de leitura dos americanos não se deve à sua má-intenção, ao imperalismo malvado ou aos distúrbios cognitivos que este povo carrega em suas costas. Isso deve-se, segundo, o autor, à organização interna do campo intelectual no qual se situam os filósofos americanos. E este é o tema do livro: “explorar a genealogia, política e intelectual, e os efeitos, que chegaram até nós e permaneceram até hoje, de um mal-entendido criador entre textos franceses e leitores americanos, um mal-entendido propriamente estrutural – no sentido de que não remete a um erro de interpretação, mas às diferenças de organização interna entre os campos intelectuais francês e americano” (p. 16). Esta é, propriamente, a tese interdisciplinar de Cusset, que ele acaba generalizando ao final do livro: “Há tantas leituras e práticas de Foucault, Deleuze ou Derrida quantos são os campos de acolhimento de seus textos, os contextos políticos e as tradições culturais nas quais eles vêm se fundir, ou se dissolver” (2008, p. 257). Infelizmente, o autor não dá maiores explicações sobre sua tese ou mesmo explica qual o estatuto teórico que ela possui (se é filosófica, sociológica ou sei-lá-o-quê). Mas, eu diria, que esta obra trata de descrever a organização interna do campo intelectual americano, a utilização da filosofia francesa por este campo (a criação da teoria francesa) e, por fim, mostrar a influência desta leitura americana no resto do mundo.

Agora, eu gostaria de explicar o modo específico de leitura dos textos franceses pelos americanos. Para Cusset, o caráter inédito da teoria francesa pode ser entendido a partir do conceito de paradoxo pragmático ou dupla imposição [a teoria do double bind], que significa “a contradição entre dois aspectos de um enunciado, em geral entre seu registro e seu conteúdo de sentido (como na ordem: “seja espontâneo!”), a tal ponto que torna praticamente “insolúvel” e impede o receptor [de] sair do contexto fixado [pelo enunciado]” (p. 248). O imperativo “seja espontâneo!”, por exemplo, indica de forma bastante clara este paradoxo: se eu obedecer a ordem, eu não estarei sendo espontâneo e, desse modo, não obedecerei a ordem. Outro exemplo clássico deste paradoxo é o enunciado: “você deve fazer isto, mas apenas se tiver vontade para tanto”. Segundo Cusset, mesmo a solução deste paradoxo só pode ser pragmática: levando-se em conta apenas um dos aspectos em questão, invertendo-se os níveis de mensagem ou impondo-se o restabelecimento de uma metacomunicação.

E é, então, esta situação paradoxal que foi desencadeada pela teoria francesa, a partir do momento em que os americanos passaram a se utilizar dos textos teóricos franceses com a finalidade de pô-los em prática, sob a condição de contradizerem o próprio texto teórico. Vejamos isso mais detalhadamente com o caso de Derrida: o termo ‘desconstrução’ elaborado por este filósofo foi aplicado em praticamente todos os campos da cultura americana: das ciências em geral à culinária, da crítica cultural aos quadrinhos de super-heróis, do debate feminista à propaganda eleitoral. Esta dispersão do conceito teórico de desconstrução tinha a intenção de provocar um engajamento político, cuja finalidade era construir um tipo de discurso subversivo e de conflito, em que, supostamente, seu usuário poderia revelar as polaridades normativas existentes na sociedade americana, denunciando a superveniência de um pólo em relação a outro. Contudo, esta manobra realiza justamente aquilo que o texto de Derrida mostra como falso: a identificação de uma referência (empírica) às polaridades normativas. A tarefa da desconstrução, na verdade, é problematizar as polaridades normativas enquanto polaridades e refletir sobre tais oposições como irredutíveis aos referentes que ela fixa – ou seja, ela mostra como tais polaridades são uma mera construção retórica. É por isso que Cusset conclui, ironicamente, que “o autor menos diretamente político do corpus da teoria francesa (comparado a Deleuze, Lyotard e Foucault) foi o mais politizado nos Estados Unidos” (p. 122).

O mesmo ocorreu com Baudrillard, que entrou em conflito com seus adeptos americanos devido a este paradoxo pragmático. Se Baudrillard quer substitui o conceito clássico de representação pelo de simulação, pois não há mais arte, os americanos irão realizar uma representação da simulação, isto é, irão criar uma nova etapa da arte moderna, com o intuito de lhes permitir “imitar o mundo mercantil sem se submeterem a ele, de cultivar as mesmas ilusões sem sucumbir a elas, compromisso ético e político ao pensamento fundamentalmente apolítico de Baudrillard” (p. 217). Nesse sentido, o paradoxo é formulado do seguinte modo: se Baudrillard diz: “há simulação, porque não há mais arte”, os americanos irão reagir: “é preciso haver simulação para que ainda possa haver arte”.

No fundo, argumenta Cusset, este paradoxo é proveniente daquilo que ele denomina o “impossível teórico”, isto é, a existência de uma contradição entre a lógica do uso e a lógica de textos instáveis, inclassificáveis, refratários à sua utilização prescritiva. Este fenômeno aponta para uma tensão ligada à “impossibilidade própria ao texto teórico de opor à razão outra coisa que não a razão, de criticar a metafísica sem os recursos da metafísica, de desconstruir a continuidade histórica sem recompor sobre as ruínas outra forma de continuidade histórica” (p. 254).

Para concluir, diria que o texto de Cusset é extremamente válido, porque permite um descolamento dos textos teóricos da filosofia pós-moderna com um modo bastante específico de sua interpretação. Ora, se o paradoxo pragmático não surge diretamente dos textos dos teóricos franceses, mas através do modo de interpretação e utilização americana, então, a filosofia pós-moderna é distinta da teoria francesa. Enquanto a primeira tem a intenção teórica de repudiar certos cânones clássicos da tradição filosófica e pretende criar algo novo, a segunda procura uma aplicação prática dos textos filosóficos, de acordo com os contextos culturais que o intelectual se encontra. Isso não significa, porém, que possamos encontrar ambas as intenções em um único filósofo, mas que esta distinção conceitual é importante para realizarmos em nossas discussões com estes autores.

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