Pesquisas com narrativas nas ciências sociais – parte 1

Neste semestre, eu me matriculei em uma disciplina das Ciências Sociais aqui do Pós da PUC, que trata de sociologia fenomenológica e da pesquisa sociológica baseada em narrativas biográficas. A primeira delas começou, principalmente, com o sociólogo alemão Alfred Schutz, já a segunda, também com um alemão, e de nome parecido, Fritz Schüzte (sem link na wiki). Em algumas semanas atrás, houve ainda um workshop no Instituto Goethe, desta mesma disciplina que estou cursando, dedicado exclusivamente ao ensino do método de entrevista com narrativas biográficas. O curso foi ministrado pela professora alemã Bettina Völter (favor, não confundir com esta gatinha perigosa de nome Bettina VölKer), herdeira do pensamento de Schütze e aluna da Gabriele Rosenthal e co-autora de livros com esta última.

Bom, eu estudei muito pouco ainda sobre isso e já coloquei muita informação. Nesse sentido, eu vou tentar explicar, de modo bastante devagar e em uma série de posts, alguns tópicos em sociologia que estarei estudando este semestre. Este primeiro post será sobre o método da pesquisa sociológica baseada em narrativas biográficas – e, por isso, é um tanto quanto prático. Em um segundo post, eu irei tratar dos pressupostos teóricos deste método.

Em um primeiro momento, no entanto, temos que entrar em um acordo sobre o que é narrativa e, mais especificamente, sobre o que é narrativa para as ciências sociais. Isto deve ser assim, porque encontramos narrativas também na literatura, na psicanálise, no cinema, na filosofia, etc. Por este momento, então, vou me servir do conceito elaborado por Hinchman e Hinchman, citado no livro de J. Elliott, Using narrative in social research:

Narrativas (histórias) nas ciências humanas poderiam ser definidas, provisoriamente, como discursos com uma ordem seqüencial clara, que conecta eventos de um modo significativo para uma audiência definida e, ainda, oferece insights sobre o mundo e/ou experiências das pessoas sobre ele (p.4)

Portanto, um discurso narrativo possui três características principais e inter-conexas; ele é [i] cronológico, no sentido de representar seqüências de eventos; [ii] significativo; [iii] inerentemente social, já que ele (o discurso) é produzido para uma audiência específica. Estas características e a própria definição de narrativa ainda estão conceitualizadas de modo bastante geral, i.é, não implicam ainda em uma teoria específica ou mesmo um tipo de pesquisa específico (já que a narrativa pode ser utilizada tanto para pesquisas qualitativas quanto para pesquisas quantitativas, o que eu vou querer explicar em um post posterior).

Agora, eu posso passar para a explicação do método das pesquisas narrativas biográficas, que é um tipo de pesquisa qualitativa  e que tem como data as histórias de vida contadas pelos entrevistados.  Existem várias correntes que elaboraram este tipo de pesquisa e, como mencionei acima, eu estou me baseando nos alemães, como Schütze e, mais atualmente, a escola da Gabrielle Rosenthal.

Então, eu, como sociológo, quero que a pessoa que irei entrevistar consiga me contar sobre sua vida, i.é, narrar suas experiências autobiográficas. Para isso, a entrevista deve favorecer este tipo de discurso e, por isso, ela é realizada a partir de um “convite à narração” realizado pelo entrevistador. Este convite utiliza-se de um vocabulário bastante cotidiano (o mais próximo do entrevistando) e sem quaisquer perguntas específicas em um primeiro momento. A pergunta inicial soa como: “você poderia me contar sobre sua vida?” Ou seja, esta pergunta não indica nem mesmo o início da narração do entrevistando: se vai ser a infância, uma grande tragédia, um momento de virada em sua biografia, etc. Ele é quem decide como, o que e quanto irá falar.

Após esta primeira fase, na qual o entrevistando acaba sua narração (o chamado “coda”) ou empaca em alguma situação traumática e não quer mais falar etc., o entrevistador começará a realizar perguntas. Porém, o tópicos das perguntas são determinados a partir da ordem estabelecida pelo próprio entrevistando e a partir do vocabulário específico dele. Pergunta-se, no mais das vezes, sobre as primeiras frases ou as primeiras situações abordadas pelo entrevistando e vai-se indo para as posteriores (portanto, a ordem temporal é também dada pelo entrevistando). O objetivo das perguntas é extrair do entrevistando narrativas sobre as fases da vida ou a transformação daquilo que, na primeira fase da entrevista, era argumentação, avaliação de vida, situações repetidas mas não explicitadas, situações envolvidas com “predicados de alto grau” (como de sentimentos, humor), etc.

Após esta fase, o pesquisador irá finalizar a entrevistar. Com isso, ele já tem o material necessário para realizar a transcrição da gravação da entrevista e, a partir daí, começar a realizar o trabalho teórico propriamente dito, com a separação das estruturas do texto (entrevista transcrita), com a elaboração de hipóteses da pesquisa para serem avaliadas futuramente em outras entrevistas e com a elaboração de hipóteses para realizar a generalização, necessária para uma teoria sociológica.

Bom, com isso, eu esbocei, sucintamente, o esqueleto prático de uma pesquisa qualitativa baseada em narrativas biográficas. Nos próximos posts, eu quero analisar por que, afinal, um sociológico quer tratar das narrativas e, especificamente deste tipo de narrativa. Que pressupostos teóricos estão em jogo? Que tipo de concepção de ‘experiência’, ‘significado’ e ‘linguagem’ se está trabalhando? Como podemos evitar que a sociologia se torne uma psicologia disfarçada? Como eu analiso os temas que eu mesmo, enquanto pesquisador, quero trabalhar em meio à biografia narrada?

Não percam, tudo isso, nos próóximos capííítulos.

2 comentários

  1. O essencial desse assunto esta em Miles & Huberman.

  2. Não sei se tu vai tratar disso na sequência Marcos, mas gostaria de saber qual o papel teórico da narrativa para a sociologia. Tipo, acho que o papel que uma narrativa tem de desempenhar deve exigir mais do que a narração do entrevistando, exigindo talvez relatos de outras pessoas sobre o que foi feito por este entrevistando, ou documentos e publicações, etc.

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