Levinas, ipseidade e o “dizer ético”

ou, uma nota sobre uma nota em Outramente

Ethical language, which phenomenology resorts to in order to mark its own interruption, does not come from an ethical intervention laid out over descriptions. It is the very meaning of approach, which contrasts with knowing. No language other than ethics could be equal to the paradox which phenomenological description enters when, starting with the disclosure, the appearing of a neighbor, it reads it in its trace, which orders the face according to a diachrony  which cannot be synchronized in representation. A description that at the beginning  knows only being and beyond being turns into ethical language. The enigma in which transcendence comes to flush has to be distinguished from arbitrariness and illusions. The exteriority of illeity, refractory to disclosure and manifestation, is a having-to-be in the face of another. In it there is announced not a Sollen, which is always asymptotic, but glory.

Nota 35 de Outramente.

Em primeiro lugar, eu preciso dizer que considero Levinas um autor sério. Por isso, não vou aderir a nenhum tipo de oba-oba epistemológico e reprodução de discurso. Um dos principais problemas de recepção de Levinas é que a complexidade do autor e algumas das peculiaridades na forma como ele escreve acaba sugerindo uma “literalização” ou uma leitura “romântica” do autor. Neste caso, o departamento de letras fica logo ali. Não falo só por mim quando digo que neste blog tu não vai encontrar frases bonitas e discurso edificante.

Pois bem, eu quero focar no que Levinas chama de “paradoxo” de uma certa descrição fenomenológica. Inicialmente, vou tentar dar um panorama geral do elemento epistemológico em Levinas:

Primeiro, qual é o problema do Levinas com a fenomenologia? O Levinas confronta a fenomenologia com ela mesma ao insistir que a redução Husserliana permanece no discurso do mesmo, permanece na reprodução de formas de adquirir controle e conhecimento de objetos no mundo “lá-fora”. Inicialmente, a objeção de Levinas não é tão dura: na redução Levinas apenas identifica um limite claro, a redução é uma “tecnologia do Eu”, ela sustenta a construção de uma identidade isolada na sua relação com objetos que estão em um mundo que é familiar. Tu externaliza um objeto “q” e integra este objeto através de uma consciencia intencional: então a maçã é o objeto externo “maçã” mas também é algo em relação com eu-mesmo enquanto eu desejo, consumo e integro a maçã ao meu Eu. Até aí, Levinas reproduz a intencionalidade genética de Husserl no período das Idees. Mas esta estratégia de subjectificação é insuficiente, em Levinas, para nos dar a base a partir da qual “as coisas mesmas” são acessíveis. O interessante é que a redução enquanto movimento epistemológico também não foi suficiente para Heidegger, que substitui o transcendentalismo egoico de Husserl por uma ontologia fundamental.

Mas se Levinas identifica em Husserl uma limitação epistemológica fraca, do tipo “Husserl não fez o suficiente, mas fez muito”, em Heidegger o problema é um pouco maior: para Levinas, Heidegger ao tentar dar conta de todo o fundamento do saber e das relações intersubjetivas (regionais) a partir de um ser-na-linguagem (Dasein) acaba transformando o discurso do mesmo e o domínio do mesmo em uma Totalização. Levinas não tem qualquer problema com a manutenção de estratégias de domínio sobre o mundo-familiar (o Heimwelt Husserliano), o problema vira a redução do mundo-estranhado ao mundo-familiar, ou seja; a redução do outro ao mesmo.

Levinas identifica no movimento “ontologizante” Heideggeriano uma totalização do Outro. Mas o que é totalização? Ela é qualquer forma de racionalização ? Qualquer forma de logocentrismo? Não, não é. A totalização é a tentativa de tomar a emergência do outro na forma de uma redução. Ou seja; integrar a percepção do Outro em uma constituição – tratar o Outro como um produto que sou capaz de reduzir e integrar ao meu Eu. Esta identificação do Eu com o Outro é o que Levinas caracteriza como “totalidade”.

Portanto, podemos já identificar duas formas de constituição do mesmo: o dizer o mesmo enquanto uma habilidade do Eu, um desenvolvimento da própria identidade e da própria familiaridade com objetos. E a constituição do mesmo obliterando o Outro, ou seja, deslocando o Outro da própria forma de aparência (que é uma revelação) e tomando este como algo que é dado na forma de um conhecimento.

Parece-me que Levinas quer focar na dinâmica de Afetação versus Ser-Afetado, deslocando o modo de dabilidade do Outro como revelatório de nós-mesmos enquanto “afetados”. A diferença, assim, situa uma forma peculiar de ser-no-mundo que não é mais marcada por um apelo epistemológico (ontologia fundamental), mas relacional (ética fundamental) . Nisto, a emergência do Outro tem como função causar um distúrbio no Heimwelt onde o si-mesmo agora se vê confrontado com algo que não é reduzível através de uma postura eidética – muito menos um apelo fundamental ao Ser. Ser-na-linguagem não consegue reproduzir predicados assertórios suficientes sobre este encontro ético.

A revelação do Outro, no que Levinas denomina um encontro,  desloca a identidade do plano da Subjetivização para o plano da De-Subjetivização. Mas o que isso significa? Isso significa que o sujeito é exposto como fraturado: a identidade nunca é suficiente, ela nunca integra tudo que pode ser integrado dentro dela. Heidegger já havia falado em algo parecido com isso no conceito de Finitude e sua relação com a Angustia Existencial, mas em Levinas isso não é derivado de uma limitação epistemológica, de uma agonia por não conseguir extinguir as possibilidades do mundo onde um Sein encontra seu Da – onde um Ser determinado encontra seu Mundo. Ao contrário disto, Levinas indica que a finitude não é em relação ao próprio Heimwelt, mas ao mundo do Outro. É a emergência do outro que expressa os limites de nossa constituição, e o dizer ético em Levinas seria fazer justiça a esta emergência.

Pois bem, existe um paradoxo para ser explicado nesta situação.

Pois o ser-na-linguagem é insuficiente para dizer o Ético, enquanto ao mesmo tempo continuamos falando e reproduzindo nossas experiências sobre o ético em termos de ipseidade: quero dizer, em termos peculiares à ontologia. Dizemos “isso é certo”, “isso é errado”. Levinas insiste que a linguagem ética não provém de “descrições”, mas então como podemos sequer falar sobre o Ético? Levinas está sugerindo uma postura do tipo Agostiniana, que vai transferir o Bem para uma esfera de não-dito absoluta? Levinas iguala o Ético ao Divino?

De certa forma, a resposta é positiva, mas apenas em uma concepção peculiar de Divino. Creio que a Justiça Divina ou o Bem com BÊ Maiúsculo de fato permanece em um âmbito estritamente teológico para Levinas, mas não vejo isso como o caso para a linguagem ética. A linguagem ética, como Steinbock parece sugerir, é a integração do mundo-do-alien no mundo-familiar, ou seja, é falar a partir do nosso ponto de vista com vistas ao mundo do Outro.

Mas permanece, no entanto, que estamos falando em termos que ainda são “essencialmente ontológicos”, seguimos expressando em termos linguísticos as nossas prioridades e sentidos sobre o Bem, sobre o certo, o errado , o justo, o injusto , o que é o caso e o que não é o caso. Se Levinas sugere as limitações do dizer enquanto forma de asserir sobre o bem, restaria saber então qual modalidade de dabilidade pode dar conta desta dinâmica, e qual modalidade linguística será usada para asserir isso.

A resposta aqui não pode ser NENHUMA. Exceto se queremos mover Levinas para o terreno da teoria literária. E eu acho ele maior que isso. É preciso resistir a tendência de ver Levinas como um autor que permite falar sobre o Ético. Na realidade, Levinas aponta para limitações claras em poder asserir predicados acerca do bem e do mal, acerca do que é ou nao é o caso quando falamos de nossas relações com outros. Se eu digo “creio ter sido legal com o Marcos ao emprestar minha bicicleta para ele”, Levinas parece se apressar em dizer “mas isto é ainda tu na linguagem do Mesmo, isso é uma forma de tu tentar reduzir tua relação com o outro a algo que informa a tua própria forma de ser no mundo.”

O problema é que a forma que Levinas reproduz o ideal de linguagem ética parece não corresponder a experiência que temos quando falamos que algo é Ético, e aqui a questão deixa de ser apenas o paradoxo de acusar uma linguagem de ser insuficiente usando aquela linguagem que se toma como insuficiente, mas o velho problema filosófico de criar uma Realidade com R maiúsculo que informa as realidades com r minúsculo. Eu entendo – e sou simpático – ao esforço de mover o entendimento epistemológico para fora das asserções igênuas que tomam o sinal de algo como a verdade de algo, mas para Levinas o furo é mais embaixo, ele trata de dizer que o dizer Ético não é um dizer mas uma forma de não-dito que se respira na revelação do Outro. Exceto se estamos falando de um Ético no sentido clássico de Ethos, de uma mundaneidade Heraclitiana que é fundacional a emergência do Eu, então Levinas segue nos termos de uma fenomenologia genética, ele ainda é um filósofo herdeiro de Husserl que toma as questões da Ética desde o ponto de vista do conceito de “mundo”. Do contrário, precisamos nos questionar se Levinas não pertence em uma discussão sobre misticismo, revelação e hexegese mais compatível com grupos de evangelização do que a filosofia contemporânea.

13 comentários

  1. marcosfanton · · Responder

    Cara,
    por um lado, tu não acha que, em vez de paradoxo, o Lévinas entra em auto-contradição (performativa)? (“o paradoxo de acusar uma linguagem de ser insuficiente usando aquela linguagem que se toma como insuficiente”).
    Por outro, no final tu apontas que a questão principal não é esse problema (da auto-contradição), mas da criação de uma Realidade ou, ainda, de uma fenomenologia às avessas, que parte do mundo?! Seria isso? Não compreendi bem.
    Outra questão que me importuna é que o próprio Tugendhat também parece apontar que sentenças práticas sempre requerem ALGO MAIS do que apenas uma enunciação delas, i.é, requer uma vontade ou um sentimento de situação do falante – só que ele não explicita isso. Tu não acharia que poderíamos ler Lévinas nessa direção? Claro, não precisaríamos dizer que ele está certo ou errado, mas que ele teria essa intenção também?

  2. Eu nao sei se a auto-contradição aplica aqui. Não tenho certeza que seria por aí.

    Meu ponto é que o Levinas me deixa na situação de compreender a idéia de uma “linguagem ética”, que seria marcada por esta “hospitabilidade” do outro. AO mesmo tempo, mesmo esta linguagem ética continua predicando em termos que são “ontológicos’. O ser continua ser-na-linguagem.

    Só que o Levinas desloca o problema do Real para fora da Ontologia e para dentro do Ético, este Ético que não é bem uma pronuncia (porque a pronuncia já é ontológica) de predicados. Daí ficamos numa situação estranha.

    Podemos continuar a ler Levinas fenomenologicamente, e dizer que esta “linguagem ética” é a situação do ser-na-linguagem em uma mundaniedade “ética”, ou seja, sempre já relacional e revelada na emergencia do Outro. Se é isso que está em jogo, tudo bem. Levinas é um fenomenólogo na tradição do Husserl tardio, e mesmo de Merleau-Ponty: o mundo é dividido em “familiar” e “alien”, mas a forma de asserção do ético não é ser-na-linguagem, mas ser-capturado. O Outro INTEGRA as possibilidades do Dizer-ético.

    Se é isso, beleza. Estamos dentro da fenomenologia. Mas tem que fazer uma descrição fenomenológica meio CONTRA a fenomenológia. Tudo beleza.

    Agora, se o dizer ético é um absoluto FORA, incompreensível e incomensurável, isso é teologia e tem que ser tratado como tal.

  3. marcosfanton · · Responder

    Ok.
    Sabe, isso coloca uma questão que eu sempre me faço: bom, mas, então, se em Lévinas o ético está numa dimensão FORA, como tu colocou, então, eu não tenho possibilidade de ERRAR de maneira ética. Isto é, ou eu estou “dentro” de um modo que seria “correto” de agir ou eu sou alguém que totaliza, isto é, teoriza sobre. Não sei se que coloquei a questão corretamente, mas eu não consigo compreender como uma teoria ética não põe a possibilidade de ERRO ou ENGANO para o agir humano.

    1. Eu te diria mais:
      em termos de epistemologia, o levinas permanece em um campo bastante Husserliano. Tu vê as descrições sobre a formação de conceitos e de verdade no nível do “mesmo”, é a descrição de uma fenomenologia associativa, do tipo das Idees I.

      Quando a gente DESLOCA para o nível fundacional a coisa fica mais interessante. Por que o ético é fundacional, mas ao mesmo tempo o “dizer ético” não pode ser um “dizer”. Me parece queo ético em Levinas é só um CAMPO DE EMERGÊNCIA onde a linguagem acontece. Ou seja, a linguagem não acontece em um campo onde o Sein encontra o seu Da. O “evento” da linguagem é um evento ético, ele acontece dentro de um campo de “ethos” que obriga a linguagem enquanto “resposta” àquilo que é EXTERNO a ti. Mas o externo não é o objeto, o objeto já participa da tua integralidade (nos termos de uma intuição categorial Husserliana). NO entanto, o Outro marca os limites da tua intuição e do teu dizer sobre “coisas”.

      Assim, tu não diz sobre a realidade do Outro nos termos que tu diz sobre a realidade de objetos que te cercam. Pelo contrário, o dizer ético não permite que tu diga que tu “foi ético”, porque tu não pode ser identico com este mundo ou restringir este mundo a uma dabilidade do tipo “eu consigo conhecer isto”. TU consegue, no entanto, responder à emergência do outro. Levinas vai dividir isso em uma resposta autêntica “ética”, e uma resposta inautentica “totalização”. A autêntica tu pode chamar de diálogo, a inautência tu pode chamar de “conhecimento”. Mas é uma grosseria dizer que a RAZÃO é um problema aqui: ela é um problema no nível que ela te sugere extinguir o outro através de uma redução do ético ao ontológico.

      Levinas, como tu pode ter percebido, se aproxima de uma ética fundacional mas não do tipo PRESCRIPTIVO. Qualquer um que te diga “eis como tu deve responder” tá falando merda. Levinas não te permite falar sobre o Ético, ele só te diz que tu sempre fala DESDE A PERSPECTIVA DO ÉTICO, e não desde a perspectiva do SER. Neste sentido a Ontologia nào é fundamental, mas já situada em um campo ético.

      Até aí, tudo bem. Só que continua sendo o caso que falamos sobre o ético usando a linguagem. E levinas vai te dizer “é, mas isso não é o Ético, porque o ético NÃO É.” Este paradoxo acaba sendo complicado, porque coloca o Levinasiano na posição desconfortável de ter que justificar a pretensão que ele tem de nos ensinar sobre Ética, quando Levinas parece ter indicado justamente a impossibilidade de ensinar sobre Ética.

  4. E esse liberalóide de quinta, ainda se acha sério..hehehe… Nada como se considerar um liberal e “lutar” pelas liberdade.. incluso de pensamiento… Nada como estudar numa universidade de quinta, mas que seja no Wnyted Statez ofi Améryca… hehehe. Nada como ver chigado e ficar abobado… Friedman estava por lá??? E Hayek não é melhor que Weber?? hehehe

    1. marcosfanton · · Responder

      Pô, Rui, tu deves saber que argumentos ad hominen são uma falácia de relevância e, sendo assim, são logicamente irrelevantes. Podem ser até psicologicamente relevantes, mas, bom, aí, ninguém vai te ouvir mesmo, porque ninguém está interessado no que tu pensa.

    2. Oi ” Rui” , tudo bem?
      Olha só, legal que tu me odeia, acho ótimo.

      mas assim, teu email rsalvador@gmail.com, não é mesmo teu , né? Mas algumas coisas eu já sei. Eu sei que tu é de Porto Alegre, eu sei que teu IP é 143.54.192.224, eu sei que tu clicou no link de um sáite para chegar aqui e eu sei que tu acredita que pode se esconder atras de gracinhas para tentar me fazer passar por palhaço.

      Olha só, na real, diz teu nome, onde tu estuda, sai da máscara. Tu já sabe onde eu estudo, o que eu faço, onde eu vou. minha vida tá aberta, minhas cartas na mesa. Deixa de ser covarde e coloca a cara para bater.

      Daí, talvez, eu me dê o trabalho de considerar o que tu diz.

      1. Acho que o “Rui” deve estar interessado em casar contigo Fabs – mas que modo de te cantar né!

      2. Ah, mas ele já deve saber que sou COMPROMETIDO, o menin@ tá obcecado, o pobre.

      3. E a multidao do centro academico gritava, em coro:

        “FABRICIO / TRAIRA / DA AMERICA LATINA”

      4. Pior que eu gosto para caramba deste post, que agora foi reduzido ao absurdo :P

  5. o que é ‘Eu’ e ‘Outro’ pra este cara? A que equivalem estes conceitos de Levinas na teoria de Husserl, e de Heidegger? Qual que é o ‘problema epistemológico’ destes autores?
    Desculpe tantas perguntas, podes responder mais sucintamente. é que toda esta conversa é bem exotérica pra mim.

  6. Cara, eu n sou o Rui, mas eu te amo! rsss
    Eu sou do ‘departamento de letras’ e estava procurando desesperadamente entender como é q essa questão do Outro se coloca em Lévinas. N sei se era pra ser, mas foi bem didático o texto: eu entendi!!!
    Obrigadaaaaaa

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