Sobre a possível situação paradoxal de um kantiano

Luis Rosa

O método de pensar a nossa relação com os objetos ‘externos’ proposto por Kant pode parecer bastante intuitivo. Mas: em geral, fazemos referência ao mundo externo como se fôssemos um cientista comum, que se refere a fatos absolutamente alheios, quanto a sua natureza, à nossa consciência. O próprio cientista, e mesmo um geômetra, não estaria crendo que, ao fazer a sua ciência, extrai do objeto o que ele mesmo nele colocou. A proposta de Kant é a de que podemos resolver os problemas da metafísica com a admissão de que os objetos “devem se regular pelo nosso conhecimento”. Somente assim podemos conhecer algo a priori relacionado aos objetos. Isso quer dizer: é somente assim que podemos fazer um juízo puro acerca dos objetos, antes de estes nos serem dados. Contudo, não fica claro, ao menos não imediatamente, como esta inversão de determinação entre sujeito e objeto pode resolver problemas da metafísica. Pareceria que tal modo de pensar a relação entre sujeito e objeto seria imediatamente pertinente antes à teoria do conhecimento. Pois a possibilidade de conhecermos algo a priori acerca dos objetos, é a possibilidade de conhecer algo do objeto que não difere em natureza em relação ao que conhecemos quanto à nossa própria constituição formal (estética ou conceitual). Assim, a cisão insondável entre mente e mundo é suavizada porque do mundo se conhece a priori o que a mente lhe impõe.

Agora, qual a pertinência deste movimento para a metafísica? Kant enfatiza esta pertinência na medida em que dispomos aqui de um método seguro, que colocaria a metafísica no caminho seguro da ciência. Mas para se poder contemplar este status atribuído ao método da crítica, é preciso que se explique suas bases. E aí mesmo faz-se metafísica: explica-se como o objeto dos sentidos guia-se pela intuição; como a experiência, por meio da qual nos são dados os objetos, regula-se por conceitos no entendimento; como se pressupõe uma regra do entendimento do sujeito; como há concordância entre conceito e objeto. Há algo de paradoxal na situação teórica da CRP?

Formalização das teses da CRP em linguagem analítica

(K1) A fonte do conhecimento metafísico é não empírica.

(K1’) Se há conhecimento metafísico, então ele é a priori.

[(K1) fala sobre a gênese do conhecimento (e portanto da crença, ou ‘juízo’) no sentido de que esta gênese, ou fonte, caracteriza o tipo justificação presente no conhecimento em questão].

(K2) Os princípios do conhecimento metafísico não são tirados da experiência.

(K2’) As crenças básicas, de conteúdo axiomático, do conhecimento metafísico, são a priori.

[(K2) fala sobre a base justificacional de todo conhecimento metafísico: esta base é constituída por crenças justificadas a priori que são conhecimento].

(J1) Juízos analíticos são explicativos: nada acrescentam ao conteúdo do conhecimento.

(J1’) Proposições analíticas são não-informativas.

[(J1) diz que proposições analíticas são aquelas em que o conceito analysans já esta ‘contido’ no conceito analysandum].

(J2) Juízos sintéticos são extensivos: aumentam o conhecimento dado.

(J2’) Proposições sintéticas são informativas.

[(J2) diz que proposições sintéticas são aquelas que relacionam conceitos sem relação lógica interna].

(J3) Juízos analíticos são aqueles que não podem ser negados sem contradição.

(J3’) Proposições analíticas são redutíveis a verdades lógicas.

[(J3) diz que a negação de uma proposição analítica acarreta a negação de outros axiomas antes assumidos como verdadeiros].

(J4) Juízos sintéticos exigem outro princípio que não o da não-contradição.

(J4’) Proposições sintéticas são não-axiomáticas.

[(J4) diz que a proposição sintética pode ser negada sem contradição].

(TKC)[1] Ao assumir-se todas as proposições acima (K1)-(J4), pode-se inferir que, todos os juízos analíticos são cognoscíveis a priori, mas não necessariamente todos os juízos a priori são analíticos. Logo, há juízos sintéticos a priori (!!!)

Isto posto, qual é o status epistêmico e semântico da própria CRP? Ela seria constituída por juízos sintéticos a priori como desejou seu arquiteto?

Kant, nos Prolegômenos, coloca o argumento de Hume nos seguintes termos: é verdade que posso relacionar um conceito a outro de modo a priori quando um conceito pertence necessariamente ao outro. Só há conhecimento a priori de verdades necessárias, que seriam sinônimo de proposições analíticas no contexto em questão. Isto está assim: há coextensibilidade total entre verdades necessárias, juízos a priori e proposições analíticas. Para Hume, o que é impossível é que haja conhecimento a priori de proposições que relacionem conceitos que não estão contidos uns nos outros (J4), relação esta que é feita somente por meio da experiência, pelo hábito de pensar que a conexão será sempre verdadeira. Em suma, Hume considera algo de fundamento puramente subjetivo a crença em proposições sintéticas, sem nenhum fundamento objetivo.

O método de Kant é analítico (Prolegômenos /47) – para mostrar que um determinado tipo de conhecimento é real, pela razão pura. A matemática pura e a física pura mostram a relação de verdade entre o conhecimento a priori e o seu objeto, a sua ‘própria realidade’ (p. 44). É a partir deste conhecimento que se remonta, dedutivamente, ao fundamento da sua possibilidade. Agora: é pacífico que no caso do conhecimento analítico a priori não se aplica a distinção fenômeno/númeno?

O que Kant enfatiza é que a metafísica precisa ser algo além deste conhecimento puro a priori real, fundado: ela precisa ser conhecimento possível. A matemática pura já é possível, absolutamente necessária e sintática (p. 47). Assim, há quatro questões que moldam o projeto da CRP:

i) Como é possível a matemática pura?

ii) Como é a ciência da natureza pura?

iii) Como é possível a metafísica em geral?

iv) Como é possível a metafísica enquanto ciência?

O conhecimento puro é aquele com absoluta necessidade (modalidade), de certeza apodítica, sem qualquer fundamento empírico, e portanto a priori, e sintético. Representa seu conceito na ‘intuição pura’, que é seu fundamento (/50). A intuição também alarga sinteticamente o conhecimento sobre conceitos, relacionando ‘novos predicados’ ao conceito do objeto da intuição – ou seja, as proposições que provêm da fonte de justificação a priori (K1), são informativas (J2). O juízo sintético a posteriori também alarga conceitos, mas conceitos do que se encontra na intuição empírica, que é contingente. No caso da ciência pura, porém, a intuição pura a priori está relacionada ao seu conceito ‘antes’ da experiência.

Kant pergunta: como é possível a intuição a priori? Ele coloca a tese de que a intuição exige a presença do objeto, ou atualmente presente, ou anteriormente presente. A intuição é uma representação, e ela não existe sem o seu objeto. Por outro lado, diz-se aqui que ela precede o objeto. É realmente ela que precede o objeto? Não há aqui um equívoco?

E aqui começa o problema que quero abordar mais frontalmente: a relação entre conhecimento a priori, com justificação a priori, e o axioma da distinção fenômeno/coisa-em-si. A pergunta é a de se, ao assumir que ciências puras se constituem de juízos sintéticos a priori, para os quais está patente a distinção fenômeno/coisa-em-si, e ao demonstrar os fundamentos destas ciências, eu caio em contradição por estar falando de um fenômeno, e não de uma coisa-em-si. Minha posição é a de que posso demonstrar a relação entre um conhecimento a priori e seus fundamentos de modo dedutivo, analítico, mas com uma importante observação: o que importa nesta relação e no tipo de sentença que eu produzo é seu tipo de justificação, que decorre do tipo de sentença que estou produzindo. Procurarei esclarecer.

Há uma afirmação central no projeto kantiano do conhecimento puro: “Se a nossa intuição fosse de natureza a representar coisas como elas são em si, não teria lugar nenhuma intuição a priori, mas seria sempre empírica. Pois, só posso saber o que está contido no objeto em si se ele me estiver presente e me for dado” (p. 49). Isso quer dizer: sem uma mediação estrutural, formal, entre o sujeito e o objeto para o qual o conceito está, este sujeito nada irá conhecer a priori no que diz respeito à intuição. A intuição pura, contém, portanto, a forma da sensibilidade ‘anterior’ ao objeto, o que constitui o material do conhecimento a priori. Assim, sem sair do sistema de Kant já podemos resolver um mal entendido, talvez originado meramente pelo uso confuso das expressões de CRP, aquele presente na pergunta de se é realmente a intuição pura que precede o objeto. Agora podemos tornar claro que o que ‘precede’ o objeto é a forma da sensibilidade, e não a intuição da forma da sensibilidade. Ora, se a ciência pura é justamente constituída por proposições que referem à intuição pura das formas, como poderia ela esta no sujeito antes de ele constituir conhecimento sobre sua própria estrutura. É a estrutura que precede e não o conhecimento da estrutura. A intuição pura é o que dá a matéria para juízos sintético a priori. Se os sentidos representassem os objetos em si mesmos, faltaria a matéria da intuição pura, ou seja, o que chama-se de ‘forma’.

Mas o problema maior é aquele relativo à afirmação de que, dos objetos conhecemos como eles podem aparecer à sensibilidade, e não como eles são. Bem, aqui está dito que isso vale para objetos da sensibilidade. Se tomo o conceito como objeto do meu juízo, isto continua valendo, mesmo que o conceito seja uma entidade cognitiva, e não sensível? Observe-se que: o dizer que todo objeto nas formas puras da sensibilidade, todo objeto no espaço e tempo, é simples fenômeno, não acarreta que o próprio espaço e tempo seja simples fenômeno. Estas formas da sensibilidade contêm a possibilidade dos fenômenos, mas não a si mesmas. Posto que estas formas são da estrutura do sujeito, não posso intuí-las com o faço com qualquer objeto externo, para o qual se aplica a distinção fenômeno/coisa-em-si.

O problema fenômeno/coisa-em-si surge do clássico problema acerca da realidade do mundo exterior e de seu possível conhecimento, a querela entre realismo e idealismo. No idealismo, só existem as coisas em geral na medida em que há consciência, e tudo é representação. Kant nega isso: “São-nos dadas /63 coisas como objetos dos nossos sentidos e a nós exteriores, mas nada sabemos do que elas possam ser em si mesmas” (p. 58). As propriedades que atribuímos aos objetos são propriedades dos fenômenos, ou seja, não é a existência das coisas em si mesmas que se nega, mas seu conhecimento. E a grande diferença está aqui: os fenômenos representam coisas externas, reais, que são do mundo exterior; as formas puras, porém, não são do mundo exterior, mas da estrutura do sujeito A propriedade de só poder ser conhecido como fenômeno vale, portanto, somente para o material da sensibilidade.

Estou sustentando, portanto, que posso ser kantiano sem ser paradoxal. Mas ‘ser kantiano’ aqui não implica comprar todo esquema conceitual da CRP, na forma como ele está posto, no que seria uma linguagem ainda formalmente não muito bem definida.

Eu havia dito que posso demonstrar a relação entre um conhecimento a priori e seus fundamentos de modo dedutivo e analítico, e que o que importa nesta relação e no tipo de sentença que eu produzo é seu tipo de justificação, que decorre do tipo de sentença que estou produzindo. O que é preciso aqui é uma redefinição do conceito de analiticidade. A questão é que Kant chama de sintética uma equivalência extensional entre duas ‘figuras’ (fórmulas) geométricas, porque chamá-la de analítica acarretaria que uma fórmula está contida na outra – pois para Kant, numa sentença analítica o conceito analysans está contido no conceito analysandum. Mas não há porque considerar uma tal equivalência extensional como sendo sintética se não conto com esta definição de analiticidade, mas uma alternativa.  Mas qual então? Acredito que tenhamos uma definição mais coerente de analiticidade no trabalho pós-critica quineana de Paul Boghossian. A noção clássica de analiticidade é está que está presente em Kant, de ‘verdade em virtude do significado’, a que Boghossian chama de definição metafísica de analiticidade. Em seu artigo “Analiticity Reconsidered”, demonstra a falha desta definição em uma série de argumentações, dando exemplos de sentenças analíticas que não são transformáveis em verdades lógicas pela substituição de expressões coextensivas. Boghossian defende então uma noção epistêmica de analiticidade: uma sentença é analítica se tão somente o entendimento do seu significado for suficiente para haver crença justificada em sua verdade. A definição metafísica gira em torno do que a torna verdadeira, a epistêmica, do que é suficiente para justificá-la. Assim, o mesmo caso das duas figuras geométricas coextensivas apresentado por Kant, seria considerado analítico, não porque uma figura ‘está contida’ na outra, mas porque a simples compreensão das figuras seria suficiente para justificar-nos a crer que a equivalência é verdadeira.

Não me importo aqui com o fato de que, se eu assumir esta noção de analiticidade, deixo de ser kantiano. O problema não é ser ou não ser kantiano, mas se, ao assumir o axioma kantiano da distinção fenômeno/coisa-em-si, entro em uma situação paradoxal para constituir um conhecimento metafísico.


[1] ‘Tese Kantiana Central’.

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