Um modo de trabalhar com textos filosóficos

Quando estamos trabalhando em filosofia com determinado tema, como, por exemplo, liberdade, conhecimento, realidade ou verdade, e estamos avaliando os argumentos de diversos autores sobre este mesmo tema, parece que temos, de um ponto de vista metodológico (ou mesmo metafilosófico), basicamente, duas preocupações: [1] a de situar tais autores em um nível de leitura em comum, o que significaria, em certo sentido, em os colocar no nível filosófico tal como o entendemos; e [2] a de situar tais autores na mesma problemática, isto é, de explicar o texto trabalhado a partir do tema que temos em vista.

Tais preocupações, no entanto, quando nos situamos em uma “comunidade filosófica comum” (em um sentido bastante amplo), não são tão refletidas e parecem até mesmo muito óbvias, uma vez que a disparidade teórica se dá mais fortemente entre argumentos e conceitualizações. Veja-se, por exemplo, as discussões entre epistemólogos, filósofos da ciência, hermeneutas, etc. Talvez, até poderíamos dizer que utilizar determinado rótulo a um grupo de filósofos envolva as preocupações que citei anteriormente.

Bom, mas o que aconteceria se quiséssemos tratar sobre determinado tema a partir de um modo de filosofar específico, como a epistemologia, e, ao mesmo tempo, se quiséssemos avaliar os argumentos de um hermeneuta, por exemplo, ou de um filósofo kantiano? O que faríamos (ou deveríamos fazer) para resultar, do confronto de argumentos, um diálogo, e não apenas um rechaço e/ou críticas do modo de filosofar enquanto tal?

Um filósofo que tentou realizar isto que estou falando é, por exemplo, Karl-Otto Apel,  que faz uma avaliação entre as semelhanças e as diferenças dos modos de filosofar de Heidegger e Wittgenstein. A comparação entre as semelhanças de ambos, Apel irá denominar paralelização.

Em relação à primeira preocupação que coloquei, Apel situará tanto Heidegger quanto Wittgenstein como filósofos transcendentais: o primeiro procura, nos termos do autor, mostrar que, implicitamente, na compreensão de enunciados, há uma compreensão pré-ontológica do ser (como condição de possibilidade da primeira), ao passo que o segundo, no Tractatus, substitui o sujeito transcendental pela forma apriorística da linguagem (as condições de possibilidade dos objetos são as condições de possibilidade do discurso sobre objetos). Assim, Apel coloca Heidegger e Wittgenstein como vinculados à tradição transcendental, na qual a filosofia teria, como principal tarefa, uma questão epistêmica, isto é, de mostrar como se dá o conhecimento.

No que diz respeito à paralelização das temáticas (a segunda preocupação que mencionei acima), Apel descreve várias paralelizações entre Heidegger e Wittgenstein, como, por exemplo, [i] o questionamento em relação à tradição, que põe em cheque os filósofos anteriores como proponentes de uma “metafísica enquanto ciência teórica”, ou, ainda, [ii] a descrição de uma dimensão original do conhecimento, a partir da noção de um “compreender” mais original que a compreensão de enunciados lógicos ou científicos. Apel avalia, ainda, outras paralelizações, como a questão da intersubjetividade, de um novo tipo de pragmatismo nos filósofos em questão ou a exatidão da lógica.

O interessante nesse tipo de trabalho é que, se adotarmos certa metodologia de trabalho filosófico, com conceitos específicos para leitura ou redação de textos, temos a possibilidade de trabalharmos relativamente bem com os outros e com determinados filósofos da tradição, sem termos uma obsessão em saber exatamente tudo o que o autor falou. Quer dizer, nós limitamos nosso escopo teórico (o nosso tema), ao mesmo tempo em que mantemos certa tranquilidade ao perceber que este escopo está inserido dentro de um contexto maior – um determinado modo de filosofar específico -, que não precisa ser explicitado totalmente (ou que pode se desenrolar no próprio modo de escrever). Ao mesmo tempo, não absolutizamos determinado conceito, como o conceito fundamental para se filosofar. E, por fim, o que acredito ser o melhor, conseguimos manter certa distância crítica entre as propostas teóricas e realizarmos avaliações positivas e negativas, procurando uma tomada de posição singular.

2 comentários

  1. Belo post Marcos (we are getting clearer!).
    Acho quase inquestionável a tua afirmação de que ao adotarmos uma metodologia e um esquema conceitual conseguimos fazer um bom trabalho ao dialogar com outros filósofos. Inclusive acho que o reconhecimento de que as minhas assunções teóricas estão inseridas em um contexto sistemático maior (como a lógica proposicional, por exemplo), é uma arma forte contra a ‘absolutização’ de conceitos filosóficos. Não só no sentido em que esta absolutização é a concepção de que este conceito é o fundamental, mas além disso, de que ele é meu (só meu) – algo que, a meu ver, tira o sentido do próprio filosofar, uma vez que este se torne algo com conteúdo estritamente subjetivo.
    Precisamos nos lembrar de não confundir o nosso sistema de crenças com o sistema das proposições verdadeiras. A posição singular só faz sentido na medida em que fizermos tal diferenciação.

    abraço!

  2. marcosfanton · · Responder

    Sim, cara, tu falou exatamente o que eu tinha esquecido de falar! Eu acho que este contexto maior é o que nos dá essa possibilidade de diálogos com outros, isto é, de fazermos textos com a possibilidade de uma compreensão intersubjetiva. Eu acho que, além disso, poderíamos até considerar uma tese forte de que é só com esse contexto intersubjetivo que o texto possui significado. Bom, e isto é um tema que valeria a pena falar em outro post.

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