Games, conhecimento e determinismo

Luis Rosa


È um fato intrigante que não parecemos ter condições de saber se as coisas que acontecem já estão pré-determinadas, ou se elas acontecem arbitrariamente – sem uma determinação. Mas o que é um acontecer pré-determinado? E um acontecer arbitrário?

Teoricamente, podemos falar em pré-determinação em pelo menos dois sentidos: i) aquele em que diz-se dos próprios fatos que eles já estão determinados, quer dizer, já estão ‘prontos’ e tão somente se atualizam, e ii) aquele em que diz-se dos fatos que eles são regidos por leis, mais precisamente, leis naturais. A segunda forma de determinismo é mais fraca, pois não acarreta que todos os fatos do mundo já estejam em si previamente estabelecidos, como a primeira. A segunda forma apenas defende que a forma dos acontecimentos não pode fugir às leis naturais – sejam quais forem tais acontecimentos.

Vemos como é fácil ir contra o determinismo do tipo i). Basta objetar com a hipótese bastante racional de que, apesar de haverem leis naturais, os fatos em si não estão prontos, e isso quer dizer: eles acontecem conforme estas leis, e não simplesmente se atualizam de acordo com o conteúdo de alguma mente cosmológica ou algo do gênero. Mais difícil é contrapor-se ao determinismo do segundo tipo.

Em primeiro lugar: de onde surge em nós a idéia que parece ser tão plausível de que existem leis governando fatos, de que existe uma uniformidade nos fenômenos? Nós podemos contemplar possibilidades que estão na nossa mente e que, se aplicadas àquilo a que chamamos de ‘realidade’, não poderiam acontecer: as leis impediriam isso. Além desta disparidade entre o imaginável e o factível, nós experienciamos fatos ocorrentes. Através de tais experiências (mas talvez não só através delas) passamos a ter crenças justificadas cujo conteúdo refere ao tempo futuro. “A garrafa vai cair”; “De tanto eu soprar, as cartas vão cair”; “Morrerei”: estas são algumas sentenças que servem de exemplo para indicar o tipo de coisas que podemos crer justificadamente em relação ao futuro. Estas crenças, porém admitem níveis de justificação. Neste ponto, gostaria de fazer alguma analogia com os vídeo-games.

Quando joga-se um jogo em um vídeo-game, este jogo já possui uma estrutura previamente estabelecida – operações programadas, distribuição de algoritmos -, de forma que o “futuro” do jogo está sob o jugo desta programação. Poderíamos dizer que há aqui um determinismo do tipo i)? Acho que não, pois em tais jogos podemos ainda apertar teclas de comando distintas em relação a outros jogadores, podemos nos demorar mais em um cenário, etc, etc. Não há, no jogo, um fecho espácio-temporal dentro do qual só é admitida uma forma de acontecimentos. Ainda assim, há um determinismo forte neste tipo de jogo. Que dizer sobre o jogador? Não é a sua forma de percepção e entendimento que está em jogo em qualquer questão que se coloque acerca de determinismo?

Há uma pretensão muito forte, assim parece, em supor que possamos saber se existe e de que tipo é, um determinismo na realidade. É claro que os games fazem parte da realidade, mas ele constitui um mecanismo de hardware e software que simula uma realidade. Ainda assim, da perspectiva cognitiva, o indivíduo que experiencia a realidade e o game é o mesmo. Este mesmo indivíduo tem crenças análogas em relação ao mundo real e ao mundo virtual – ainda que apresente atitudes proposicionais radicalmente distintas quanto à estrutura destes mundos. Quero explicar. As nossas crenças acerca do futuro se formam a partir de experiências que se repetem – a fonte justificatória da noção de uniformidade. Estas crenças têm um conteúdo simples, no sentido de que qualquer agente cognitivo, seja ele cientista, filósofo ou comum, têm. São daquele tipo: “Quando começar a chover, o chão vai molhar”. Crenças parecidas temos no mundo dos games: “Se eu pular em cima deste item, ganho pontos”; “Passando aquela porta, encontrarei o chefão”; etc. São crenças acerca do futuro, o futuro ‘dentro’ do jogo. Quando jogamos um game pela primeira vez, desconhecemos o virá a acontecer no jogo. Mas tão logo jogamos algumas vezes, ou muitas, e passamos a angariar uma vasta gama de crenças que se confirmam como verdadeiras.

Mas na realidade há esta diferença: não a desligamos e começamos de novo. É por isso que temos crenças distintas acerca da estrutura do pleno real e do plano virtual em questão. No caso do jogo, sabemos que ele é programado, sabemos que ele opera dentro de um limitado número de possibilidades, e que estas possibilidades são menores daquelas que dispomos na realidade. E o que sabemos quanto a isso no que diz respeito à realidade?

5 comentários

  1. Oi Luis! Tu quer dizer que eu só posso saber certamente o que vai acontecer se sei que o que estou contemplando é previamente programado? Se for assim, só posso ter conhecimento dos fatos futuros no mundo sabendo que eles estão previamente programados?

    beijos!

  2. Olá Susie, obrigado pelas perguntas: são muito boas!
    Daria para responder com um “sim” à sua primeira pergunta, se tu estivesse perguntando por um tipo de justificação que é suficiente para conhecimento, e que não é um tipo de justificação indutiva. Repare que no caso dos games, a minha justificação para crer que “Se eu pular em cima deste item ganharei pontos” não é somente indutiva como o é a minha crença de que “De tanto eu soprar, as cartas vão cair”. No caso da crença sobre o game, eu sei que ele está programado assim e assim, e por isso a minha justificação é mais forte. Nada disso diz, porém, que eu não posso saber algo acerca do futuro no plano real.
    No plano real, nossas crenças sobre fenômenos naturais no futuro são indutivas, e envolvem alguma noção de lei e ordem (para quem tem pouco conhecimento científico pode faltar alguma clareza e precisão formal neste sentido, o que não quer dizer que o indivíduo comum – sem conhecimento científico – não tenha como axioma em seu sistema de crenças que os fenômenos naturais seguem leis). No plano virtual, nossas crenças sobre os fenômenos são indutivas, envolvem noção de lei e ordem, e além disso uma noção de programação: pré-determinação forte. Isso porque o conceito de ‘game’ ou de ‘software+hardware com tais e tais características’ tem como condição necessária a programação, enquanto que em relação ao conceito de ‘realidade’ isso é duvidoso.
    Como quase sempre, fica alguma dúvida. Abraço! =]

  3. Olá Luis,

    Tenho acompanhado suas colocações e me parecem sempre pertinentes, mesmo que um tanto complexas. Mas um dúvida sempre me surge quando você posta algum texto. Certa vez você escreveu que “como pesquisador em filosofia se sentia inútil”, era isso ou alguma coisa próxima disso, e nos seus textos posteriores você nunca voltou a esse tema. Essa questão ainda, da utilidade ou não da filosofia, você já a respondeu?

    Abraço e continue escrevendo.

  4. Olá Cíntia. Bem, sobre a complexidade, estou tentando deixar os textos postados aqui mais claros e acessíveis. É difícil, porém, fazer filosofia sem algum tipo de complexidade, sob o risco de se dizer algo não significativo, ou ainda, algo significativo mas sem justificação…
    É verdade: eu havia dito algo deste tipo (está postado aqui no blog). Esta questão continua a circundar minha vida mental, e acredito que ela ‘incomode’ muitos outros estudiosos da área. A questão aqui está em saber se esta sensação subjetiva de inutilidade durante a práxis filosófica tem um fundamento, ou melhor ainda, um contra-argumento a este fundamento – caso em que nossa sensação de inutilidade tivesse bases falaciosas. Acho que é preciso ainda alguma experiência para poder percorrer toda esta questão. Mas é uma nota promissória para o futuro, porque não podemos parar agora.

    Abraço! =]

  5. obs: desculpe, mas errei a conjugação verbal no comentário acima. O correto é: “caso em que nossa sensação de inutilidade teria bases falaciosas”.

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