Feyerabend e sua teoria da ciência (não vem com essa!)

Luis Rosa

Depois de alguma discussão com alguns colegas, decidi analisar aquilo que Feyerabend diz ser central na sua argumentação sobre a pesquisa científica e sobre o desenvolvimento da ciência, na sua obra Contra o Método (FEYERABEND, Paul. Contra o Método. São Paulo: Editora Unesp, 2003). Trata-se de uma análise não exaustiva de suas teses. Apenas aponto algumas dificuldades que se apresenta quando se as defende.

Paul Feyerabend assume uma posição que chama ‘anárquica’ na sua interpretação de como ocorre o desenvolvimento da ciência. Esta sua posição se tornaria manifesta em sua afirmação de que na prática científica “tudo vale” (p. 43), querendo com isso dizer que os cientistas não estão presos por padrões rígidos de pesquisa, e que muitas vezes podem se valer até mesmo de intuições variadas na elaboração de suas teorias. Porém, este filósofo procura enfatizar que o seu “tudo vale” não deve ser interpretado como um princípio para a pesquisa científica, mas como o resultado de um exame atencioso da história da ciência. O status daquela proposição seria então descritivo, e não normativo.

De fato, a obra em questão mantém algo como uma tendência a mostrar que há diferenças entre uma teoria normativa da ciência, distante da prática científica e, por assim, dizer, anti-intuitiva para o próprio cientista, e uma teoria descritiva da prática científica. Este último tipo de abordagem seria mais fiel ao acontecer da história da ciência. Uma descrição fiel da prática científica reconheceria que os cientistas não seguem padrões lógicos e epistemológicos fixos, que a ciência não tem princípios claramente definidos, e que ela admite uma certa dispersão de assuntos dentro de uma mesma área, assim como admite a existência de concepções contrárias dentro desta mesma área. Além disso, haveria uma vasta gama de contingências envolvidas no surgimento de “fatos científicos”, contingências econômicas, pessoais e instrumentais.

A tese principal, aquela que sustenta substancialmente o que Feyerabend afirma sobre a prática científica, é a seguinte: “Os eventos, os procedimentos e os resultados que constituem as ciências não têm uma estrutura comum. Não há elementos que ocorram em toda investigação científica e estejam ausentes em outros lugares” (FEYERABEND, 2003, p. 17).

Pode-se notar que na citação acima há duas afirmações distintas: i) a de que a ciência, em suas variadas formas, não tem uma estrutura comum, e ii) a de que a ciência, em suas variadas formas, não tem elementos em comum. A tese ii) é evidentemente mais abrangente do que a tese i). Comecemos com a primeira tese. Esta afirmação, de que a ciência em seus movimentos particulares não apresenta uma mesma estrutura, vem a contrariar algumas outras teorias da ciência, as quais afirmam haver padrões ou estruturas vigentes em qualquer pesquisa científica. Estes padrões e estruturas constituiriam uma racionalidade científica isomórifica. Feyerabend afirma que esta forma de fazer teoria da ciência apresenta-se como um instrumento “grosseiro” (p. 20) àqueles que praticam ciência, os cientistas. A segunda tese, como enfatizamos acima, difere desta primeira. Enquanto i) refere-se à não universalidade de estruturas de racionalidade na prática científica, a segunda refere-se à ausência de elementos comuns nas variadas investigações científicas.

Acredito que estas duas teses apresentam problemas. Em primeiro lugar, há um risco evidente nesta segunda afirmação. Para que se a sustente com suficiente justificação, deve-se passar por um processo de análise geral das pesquisas científicas. O problema que está aqui em jogo é justamente aquele da generalidade da indução. Naquela análise, o epistemólogo precisa contar com um raciocínio indutivo para defender a ausência de elementos comuns nas distintas pesquisas científicas, e além disso, precisa contar com o mesmo tipo de raciocínio relativamente aos “outros lugares” (vide citação anterior). Isto, a rigor, não é um problema somente da tese de Feyerabend. Sabemos que não é mais um problema aqui do que em outros lugares. Mas, irei argumentar, isto se torna mais problemático na medida em que percebemos que este autor concentra suas principais críticas ás teorias racionalistas da ciência, utilizando-se de argumentos “anti-generalidade”.

É muito duvidoso que não haja elementos comuns entre as variadas pesquisas científicas. O que permite o próprio Feyerabend chamá-las, todas elas conjuntamente, de pesquisas científicas? Ao menos existe isso em comum entre elas: um mesmo predicado é atribuído a elas. É claro que o significado deste predicado pode variar conforme variam as próprias concepções de ciência, mas nem sua imutabilidade estaria sendo exigida por aquele que defende haver algo de comum nas práticas científicas. Mas Feyerabend não está simplesmente negando que haja elementos comuns nas investigações científicas, mas sim negando que hajam elementos x tais que, sejam comuns ás ciências e não existam em não-ciências. Estas ‘não-ciências’ seriam os ‘outros lugares’ de que fala nosso teórico.

Como salientei, a tese i) é menos generalizadora que a tese ii). Enquanto a tese i) tem como escopo somente as ciências, a tese ii) tem como escopo as ciências. Encontro problemas no que Feyerabend infere de sua primeira tese.

Podemos observar que, pelo fato de as pesquisas científicas que obtiveram ‘sucesso’ tenham seguido uma estrutura comum (se este fosse o caso), isso não quer dizer, ao menos não necessariamente, que esta mesma estrutura dê resultados de sucesso no futuro. De forma análoga, se sou um epistemólogo e defendo uma tese descritiva daquela estrutura comum nas pesquisas científicas (investiguei aquelas pesquisas a dali ‘tirei uma estrutura’), não preciso me comprometer com afirmações prospectivas ou normativas sobre esta estrutura, aplicadas á pesquisas ulteriores.

Mas acontece de Feyerabend tirar uma curiosa conclusão daquela tese: “O êxito da ‘ciência’ não pode ser usado como argumento para tratar de maneira padronizada problemas ainda não resolvidos” (p. 20). Ora, a tese de que a estrutura do êxito científico estabelecida após a análise de teorias e pesquisas científicas é um padrão a ser usado nas próximas pesquisas, não decorre da tese de que há uma estrutura comum nas pesquisas científicas até então analisadas. Como saliento, ao menos não necessariamente. Em outras palavras, uma teoria descritiva sobre a estrutura das ‘descobertas’ científicas nem sempre, e nem necessariamente, impõe um padrão normativo de pesquisa.

Feyerabend afirma que “tudo o que podemos fazer é dar uma explicação histórica dos detalhes, incluindo circunstâncias sociais, acidentes e idiossincrasias pessoais” (p. 20). Se o teórico da ciência dogmático afirma a possibilidade, e talvez a fatualidade, de uma estrutura comum ás pesquisas científicas, Feyerabend afirma que há uma impossibilidade para tal. Qual seria o erro, se o houvesse, de ambos? Um supõe conhecer a possibilidade ou fatualidade de uma estrutura geral, o outro supõe conhecer a impossibilidade desta estrutura geral. Ambas são teses de totalidade, e se era justamente a pretensão de totalidade que Feyerabend se propunha a extirpar, ele é vítima da própria crítica. Além disso, se alguém defender o ponto de vista de que “a ciência é um empreendimento essencialmente anárquico”, isto não obrigatoriamente está em desacordo com a tese da estrutura comum nas variadas pesquisas científicas. Aliás, além da não-necessidade de desacordo entre as duas coisas, é curioso que Feyerabend afirme ser a ciência essencialmente alguma coisa. Uma característica essencial é uma característica comum entre as coisas que têm essencialmente esta característica. Logo, poderíamos perguntar a Feyerabend: “Será que você não defende uma estrutura anárquica da pesquisa científica?”. Se sim, nosso epistemólogo encontra-se em evidente contradição.

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5 comentários

  1. Não são todas as pesquisas científicas que utilizam de um mesmo método; mas só as que dão conta de convergir para algo, pelo menos minimamente, paradigmático. O resto são esforços distribuídos e desorganizados que não podem ser combinados pra construir algo em comum.

  2. Certo Carlos: certamente que nem todas as pesquisas científicas utilizam o mesmo método, e se sou um teórico da ciência que afirma haver uma estrutura comum nas revoluções científicas, não estou afirmando, ao menos não necessariamente, que todas as pesquisas têm o mesmo método. O que tu queres dizer com convergir para algo paradigmático? Pelo que eu entendi, tu defendes que este é o caso quando as pesquisas usam o mesmo método.
    O método de nosso amigo Feyerabend é a anarquia. Já parece ser alguma coisa não é! Mas não acho isso suficiente para falar no desenvolvimento da ciência e acho que você também discorda disso.

    =]

  3. Mas essa contradição de que você fala no fim do texto é proposital, uma característica do dadaísmo, dá uma olhada:
    “Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípios contra manifestos (…). Eu redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, numa única fresca respiração; sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem para nem contra e não explico por que odeio o bom-senso.” Tristan Tzara

  4. Marcelo Gurgel · · Responder

    O que vc falou é o mesmo problema do qual o Relativismo sofre, tudo que dizemos é totalitário, não existe relativo para o ser humano, pq nos baseamos em regras. Tudo ser relativo é uma regra absoluta.

  5. O pensamento central do autor, é que a ciência monopolizou pela exclusão da maior parte que compunha um determinado fenômeno por meio do método científico com isto fechou-se os olhos para a maior parte do que também é relevante. Esse método tornou-se como se uma religião. Em substitutiva aquela que o pensamento científico de deu por superar pelo pensamento científico. Que apenas é uma forma de pensar. Acho que esta crítica que fazes acima sobre Fayerabend é sem fundamento. Deixa transparecer seu grau de rigidez, (não estou falando de rigor, mas rigidez) e apoio a sua ideologia dogmática de defensor do método científico como verdade absoluta.

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