Puzzle da Vontade – querer e não querer a mesma coisa

Luis Rosa

É intuitiva a afirmação, presente mesmo no âmbito ordinário, de que algumas vezes queremos e não queremos uma mesma coisa. Em regiões teóricas, como na psicanálise, uma afirmação como esta não é destituída de sentido, com a ressalva de que, por exemplo, quer-se algo inconscientemente mas não conscientemente, ou vice-versa. Há aqui diversão somente para psicanalistas, psicólogos e intérpretes da linguagem ordinária, ou existe espaço filosófico para tratar desta aparente ambiguidade relativa à vontade? We can try…

Partindo de experiências subjetivas, notamos que muitas vezes experienciamos conflitos na nossa vontade. ‘Eu quero fazer tal coisa, mas quando chego lá pra fazer, não faço, como se eu não quizesse fazer”;  etc. Perguntemos isto: há tipos de vontade? Para tentar responder a pergunta, tomemos um caso paradigmático de um sujeito que tem uma vontade indissociável do que chamamos comumente de ‘bom senso’. Esta vontade contém a motivação de evitar, digamos, atos nocivos e prejudiciais, como o ato de fumar, a má alimentação, etc. Por outro lado, nosso sujeito tem uma vontade quase irresistível de fazer estas coisas nocivas e prejudiciais, e efetivamente as faz em alguns casos, a despeito de sua primeira motivação.

Muito bem: num caso como este há duas vontades com o mesmo conteúdo? Formalizando, onde ‘V’ está pelo predicado que expressa a vontade e ‘p’ o conteúdo desta vontade:

é o caso que V1p e V2p ocorrem em relação a um mesmo indivíduo?

Respondendo afirmativamente à pergunta pelos tipos de vontade, diríamos então que aquela disparidade de atos do sujeito paradigmático se dá pela alternância entre uma e outra vontade, ou seja, dois tipos de vontade ocorrem em tempos diferentes em relação ao mesmo conteúdo p (digamos que o ‘p’ nas duas ocorrências de vontade esteja pelo ato de fumar um cigarro, e que o V1 é pró-fumar cigarro enquanto V2 é contra fumar cigarro: mesmo conteúdo, vontades distintas). Assumindo isso, precisaríamos de uma explicação teorética em que se justifique a tese de que há vontades que operam em planos distintos.

Mas não seria mais plausível sustentar que ocorre o mesmo tipo de vontade com conteúdos distintos? Esta explicação economizaria nas suas assunções ontológicas: somente precisaria atribuir propriedades a um só tipo de vontade, e portanto, a uma só classe assim definida. Mas há um preço que esta estratégia teria de pagar. Uma vez que não há dois tipos distintos de vontade no nosso sujeito paradigmático, que aquelas intuições aparentemente com sentido de que falei no início são uma ilusão. Qual ilusão? Precisamente a de que o conteúdo é o mesmo em V1 e V2. Em uma das duas ocorrências do estado de vontade, V1 ou V2, embora aparentemente se queira a mesma coisa nos dois casos, quer-se algo distinto daquilo que se expressa literalmente.

Isso seria assim: a V2p não seria de fato vontade de que p, mas de que q. Sabemos quando isso ocorre? É como se enganássemos a nós mesmos – mas se nos enganamos de fato, não sabemos quando ocorre a vontade de um conteúdo distinto daquele que seria corretamente expresso pela sentença p. Mas, isso não torna a vontade de conteúdo trocado (‘escondido’) ela própria um tipo de vontade distinta daquela de conteúdo ‘certo’? Se sim, as duas opções que demos para explicar as escolhas conflitantes (ou aparentemente conflitantes) que ocorrem numa mesma mente, não seriam auto-excludentes, e sim compatíveis. Mas isso não quer dizer, ao menos não diretamente, que é o conteúdo do estado mental, neste caso a vontade, que determina o tipo de estado mental. Este é um problema consideravelmente mais amplo, e para tentar resolvê-lo, é necessário considerar ainda outros tipos de estado mentais, como a crença, por exemplo. (Mas este não é o propósito deste post).

Bem, respostas teóricas à questão colocada aqui poderiam ajudar na tentativa de entender muitas questões antropológicas e psicológicas, em um sentido geral. Uma delas se destaca a meus olhos: o fenômeno da auto-destruição. Este fenômeno parece envolver a questão das vontades conflitantes de maneira substancial.

6 comentários

  1. Olá Luis – bem interessante esta tua abordagem analítica do conflito entre vontades. Sabemos que na psicanálise isto dá muita ‘diversão’, para parafraseá-lo!
    Bem, eu não sei se entendi bem, mas tu deu duas alternativas: uma em que há duas vontades e mesmo conteúdo e uma em que há dois conteúdos e uma vontade. é isso?
    minha pergunta então é: não precisa ser considerado o fato de que as vontades conflitantes se dão em tempos diferentes? Não sei se vai ao teu ponto, mas é isso…

  2. marcosfanton · · Responder

    Cara, acabei de me lembrar agora e eu acho que esse teu tipo de abordagem já foi superada pelo Harry Frankfurt, pelo que sei da literatura, em vários artigos dele, mas, principalmente, o “Freedom of the will and the concept of person”, que vale a pena ler. Para ser bem simples e ir direto ao ponto, o argumento do Harry Frankfurt é o seguinte: podemos desejar ou escolher fazer algo (por exemplo, nadar). Porém, junto com este desejo, podemos ter outros, como andar de bicicleta, estudar, descansar, e, inclusive, não andar de bicicleta. Tais desejos são delimitados como desejos de primeira-ordem, por serem simples. Mas, ao refletirmos e avaliarmos quais destas atividades desejadas realmente queremos desejar, formamos desejos de segunda-ordem, que nos motivam ou nos movem a realizar o que queremos. Ou seja: “desejo desejar nadar”. E é somente quando tais desejos (de segunda-ordem) tornam-se efetivos, isto é, movem ou moverão uma pessoa à realiação da ação desejada, deparamo-nos com a vontade desta pessoa. Portanto, eu acho que, com isso, não precisaríamos fazer deste teu sujeito paradigmático um cara que deseja OU X OU não-X. Não. Ele deseja X e não-X. MAS, ele vai precisar refletir/deliberar sobre isso, para tomar uma decisão sobre o que fazer. Caso contrário (sem reflexão), não haverá liberdade, mas atos compulsivos.

  3. Resposta à Susie:
    Sim, são estas as duas opções que apareceram na análise – numa delas dois tipos de vontade com o mesmo conteúdo, e na outra dois conteúdos distintos com o mesmo tipo de vontade. Mas esta segunda opção é redutível à primeira, uma vez que aquela vontade que se apresenta em nossa consciência como vontade de p, mas é em verdade de q, pode ser considerada de um tipo distinto daquela vontade que se apresenta em nossa consciência como vontade de p, e é de fato vontade de p.
    A sua questão que diz respeito ao tempo de ocorrência do estado mental vai DIRETO ao ponto. Por quê? Por que o caso que estou tratando é justamente aquele em que há um conflito volitivo, o qual envolve vontades conflitantes (pelo menos aparentemente) ao mesmo tempo e no mesmo sujeito. Portanto, V1p e V2p estariam ambas sob escopo do operador temporal t.
    Agora, é claro que mudamos nossas vontades. Quando eu era criança eu queria ser um astronauta, mas hoje quero ser um lógico, para dar um exemplo. Este é um caso em que duas vontades de um mesmo tipo, mas de conteúdo distinto, ocorre em dois tempos distintos, t1 e t2. Contudo, não é este o caso aqui analisado.

    obrigado pelo comentário Susie. Propiciou o clareamento sobre esta questão do tempo.

  4. Resposta ao Marcos:
    Não estamos em desacordo, ao contrário, estamos em pleno acordo. Chamei o caso de conflitante quanto à volição justamente porque queremos p E não-p, e este é o caso efetivo do sujeito paradigmático. Ele quer por exemplo, fumar E não fumar.
    Não entendi, como esta teoria ‘supera o tipo de abordagem’… A mim parece, ao contrário, pelo que tu disseste do autor, que o que ele sustenta está de acordo com a segunda opção onde, mesmo que seja redutível à primeira, a vontade de que q é também a vontade de não-p – portanto contrária à primeira vontade p.
    A inserção de desejos de segunda ordem é claramente eficaz para teorias que se preocupam em descrever o que é preciso ser feito para tomar uma decisão, e eu não havia considerado esta possibilidade. Porque, até onde fui, procurei não ir além da análise daquele fenômeno de conflito entre vontades, sem procurar, portanto, alguma teoria teleológica ou deontológica da ação e da decisão. Mas certamente o uso do conceito de desejo de segunda ordem pode se tornar frutífero para tais teorias.

  5. Ok Luis, peguei o ponto. O interessante é que na hora do conflito o sujeito não sabe o que quer. Em psicanálise isso é tomado como um sintoma típico de neurose.
    O fato de o sujeito não saber que quer não-p, por exemplo, não quer dizer que o próprio conflito é inconsciente? Isso viria a mudar algo na tua análise?
    abraços

  6. Olá susie. Não, o fato de o sujeito estar inconsciente do conflito não muda algo na análise. porque perceba que o importante é o que está contido neste conflito, a saber, estados mentais de volição e conteúdos destes estados mentais. Sempre sinto, em situações como esta, que o termo ‘conteúdo’ é ambíguo, but this is another story…

    E sim, dizem que este conflito é típico de neuróticos, e também que a estrutura psicótica não permite este momento de indecisão. A psicanálise é muito bacana.

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