Reconhecimento e dádiva

Filipe Campello

Sábado foi realizado aqui em Frankfurt um seminário com Axel Honneth e Marcel Hénaff sobre o livro de Hénaff Le prix de la vérité – le don, l’argent, la philosophie (O preço da verdade. Dom, dinheiro e filosofia).  O debate deu prosseguimento ao tema de uma das disciplinas de Honneth, que discute o que no Brasil se traduz por teoria da dádiva.  Em torno de um diálogo mais amplo da teoria do reconhecimento, Honneth está trabalhando com autores como Marcel Mauss, Alain Caillé e Hénaff, muito discutidos no assim chamado M.A.U.S.S. (Mouvement anti-utilitariste dans les sciences sociales). A discussão baseia-se no famoso livro de Mauss Essai sur le don, traduzido no Brasil por “Ensaio sobre a dádiva”, no qual Mauss descreve as trocas como constituinte das sociedade arcaicas. Tratando-se de um escrito de antropologia, é levantada a dificuldade de esclarecer o que significa aqui gratuidade ou obrigação, ou seja, até que ponto a dádiva não está associada a práticas culturais correntes. O quadro que desse modo se apresenta é de elaboração de uma teoria normativa a partir dessas práticas.

No seminário foi discutido o resumo da proposta de Hénaff exposta no artigo intitulado “Antropologia da dádiva e reconhecimento”. A questão central é a tese de que uma demanda por reconhecimento é também, de algum modo, um sacrifício, ou seja, se procura entender o que é de fato aquilo que exigimos com o reconhecimento. Percebe-se que, no plano social, Honneth busca redimensionar a teoria do reconhecimento não só entre relações intersubjetivas, como inicialmente fora mais fortemente caracterizada, mas também como relação entre grupos, discutindo uma espécie de intencionalidade coletiva de grupos, e recolocar uma teoria social (e, com ela, o sentido de patologias ou do significado terapêutico da eticidade) não só no nível subjetivo, mas também coletivo (não é difícil de também aqui ver o pano de fundo hegeliano). A idéia é a de que uma teoria da dádiva deve pressupor o reconhecer e ser reconhecido como sendo uma “ordem simbólica da dádiva”. Segundo Honneth, a diferença de Hénaff é que o nível simbólico é entendido como sendo mais instável do que em Hegel.

De qualquer forma, permanece imprecisa a relação entre dádiva e felicidade. O ponto aqui, ao meu ver, pode ser o deslocamento da concepção de útil, enquanto continua havendo uma finalidade em torno da felicidade ou “auto-realização”, mas que, agora, pode também ser encontrada numa perspectiva altruísta. Ao meu ver, há aqui um paradoxo da gratuidade, pois o sentido de dádiva não deve ser pretensioso, esperando um retorno concreto, mas, de algum modo, há um retorno (felicidade) exatamente na gratuidade. Algo como: “se amarmos (ou, aqui, doarmos) gratuitamente, seremos felizes”. Mas não se mantém como finalidade a própria felicidade? A diferença é que ela é entendida não isoladamente, mas juntamente com a felicidade dos outros, com o fato de fazer os outros felizes, etc. Um utilitarista aqui não veria tanto problema. Bem, por enquanto, considero isso paradoxal, mas esse paradoxo pode se dissolver por algum motivo que não sei ainda.

2 comentários

  1. (segue comentário esquizofrênico)

    li o poste sobre Zizek e gostei muito do blogue, ótima abordagem. divulgarei.

  2. Luis Cardoso · · Responder

    Caro Felipe Campello,

    Sou Luis Cardoso, professor, estou organizando material para um curso que distina-se dicutir elementos que tratem sobre Honneth e Mauss, ou seja, o Dom e o reconhecimento. Então, gostaria de acessar o material em que falas sobre Hénaff, em especial o artigo intitulado “Antropologia da dádiva e reconhecimento”. Como tenho acesso a este material. Já vi que o livro posso comprar pela net.

    Um abraço e muito obrigado

    luis

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