Zizek: entre a loucura e o brilhantismo

Filipe Campello

Alguns intelectuais podem passar por  loucos ou brilhantes, principalmente quando estão na moda. Um deles é Slavoj Žižek. Eu pensava isso até quinta, quando ele ofereceu um workshop sobre seu último livro, escrito a duas mãos com Markus Gabriel (Mythology, Madness and Laughter: Subjecticity in German Idealism). Por um lado, continuo achando-o louco, mas a diferença é que pude confirmar o que  pra mim até então hesitava em reconhecer:  o seu brilhantismo (talvez isso tenha sido possível pelo fato de ele quase não ter falado em política – e, quando falou, o brilhantismo diminuia).

Já na introdução do livro, os autores caracterizam como uma das mudanças centrais do idealismo crítico de Kant para o idealismo alemão pós-kantiano, principalmente em Hegel, a idéia de que o fenômeno (Erscheinung, que no inglês é traduzido por appearance) é constituinte da verdade, ou seja, que o aparecer é estruturalmente necessário para a noção de ser, rompendo com uma distinção entre noumeno e fenômeno e deslocando o aparecer do objeto do fenômeno para a coisa mesma, ou, de outro modo, “o próprio modo de aparência ocorre dentro do noumenal” (p. 3) . A essa aspecto, que eles denominam de “superação ontológica de dicotomias epistemológicas” (p. 3), acrescenta-se a idéia de uma aparência entendida também como ilusão, deslocando esta noção de um sentido de inverdade para o de apreensão epistemológica do objeto.  Até aí nada de muito novo.  O que se destaca no livro é  mostrar como essa mudança se articula com tematizações periféricas entre os comentários ao idealismo alemão, como aquelas em torno da loucura e do hábito, tema do capítulo discutido no workshop.  A idéia básica é a articulação entre segunda natureza e hábito, mostrando a sua relação com o significado de Erscheinung, em que, por exemplo, o próprio ver um objeto, como Hegel escreve numa passagem da enciclopédia, é permeado por mediações conceituais.

Um segundo aspecto refere-se ao tratamento da relação entre o sentido de hábito e o da relação entre liberdade e contingência, tema que dava título ao seminário. Hábito, por um lado, é entendido aqui como passagem da primeira à segunda natureza e, por outro, como passagem da contigência para a necessidade, ou, mais precisamente, a Aufhebung do acidente no essencial. A liberdade encontra lugar no contexto de determinações no qual é possível haver o seu outro. Somente num quadro onde há o usual, o hábito, pode haver  a liberdade. Desse modo, a idéia central de Hegel, escreve Zizek, é a de que “não há liberdade sem hábito” (p. 101).  A discussão dirigiu-se para as abordagens dos hegelianos de Pittsburgh, Brandom e McDowell, em torno do status da segunda natureza e das controversas interpretações em torno da relação hegeliana entre primeira e segunda natureza. Vale lembrar que essa questão é predominantemente encontrada no debate entre Robert Pippin e McDowell, tendo sido iniciada a partir da retomada do conceito de segunda natureza (discutido amplamente por Aristóteles, Herder, Hegel, Nietzsche) no Mente e Mundo de McDowell (provocação: segundo Markus Gabriel e também Zizek, Mente e Mundo tem muito de mente, mas nada de mundo).

Zizek deixara claro que seus dois heróis são Hegel e Lacan. Sempre com uma refinada dose de humor, ele conseguiu convencer um dos públicos provavelmente mais reticentes ao seu pensamento: o alemão. Tal suspeita e precaução tem o seu sentido, mas a aparente loucura mostrou que tem, sim, o seu brilhantismo.

5 comentários

  1. Ainda assim, me parece que tem muito a ser explicado pelo Zizek antes que a gente possa reconhecer nele algo mais que um prankster.

    Tudo bem, ele é brilhante. Mas tem algo ali além de um grande gozador? Me deixa um pouco atordoado a leitura substancializante que Zizek faz da política – isso sem contar na completa estupidez de defender um modelo socialista real à estas alturas do campeonato.

    Esta relação entre hábito e liberdade me pareceu bastante interessante. Eu fico curioso em como Zizek suportaria, no entanto, a dimensão teleológica da liberdade em Hegel. Se é que ele reconhece isso.

    1. filipecampello · · Responder

      Concordo contigo. Com efeito, tinha dito que minhas ressalvas se mantém exatamente em torno de sua posição em torno da política, que é de um anacronismo risível. Eu diria que o seu brilhantismo, portanto, pode ser encontrado em algum outro lugar, menos quando ele fala em política. No post obviamente só apresentei algumas linhas gerais do debate.

      Esse aspecto que colocas, por exemplo, sobre a dimensão teleológica da liberdade em Hegel não foi, de fato, discutido por ele, e teria que ver como ele o inseriria na questão do hábito. A ênfase foi dada ao espaço da contigência. De qualquer modo é um ponto importante e bastante controverso.

      Acho que o brilhantismo não pode tanto ser mostrado por um resumo de algumas de suas idéias, que nem daria para expor suficientente ali, mas acho que ele consiste, antes, no tipo de articulação do discurso e sua argumentação, a escolha das metáforas, o tipo de humor. É claro que pode ainda haver algo de oportunismo ou articulações inapropriadas, típicas de quando se quer abrir um saco pra colocar tudo dentro. Continuo com um pé atrás, mas digamos que agora com ouvidos mais atentos ao que ele tem a dizer.

  2. é de uma reacionanarismo infantil a colocação do senhos febraício. nada que um japones metido a cientista politico não explicaria.

    1. puxa, que argumento sofisticado e bem colocado!

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